RSS

– Leitura de Memorial XXI – XXV

Capítulo XXI

S. Pedro de Roma não tem saído muito das arcas nestes últimos anos. É que, ao contrário do que geralmente acredita o vulgo ignaro, os reis são tal e qual os homens comuns, crescem, amadurecem, variam-se-lhes os gostos com a idade, quando por comprazimento público se não ocultam de propósito, outros por necessidade política se vão às vezes fingindo. Além disso, é da sabedoria das nações e da experiência dos particulares que a repetição traz a saciedade. A basílica de S. Pedro já não tem segredos para D. João V. Poderia armá-la e desarmá-la de olhos fechados, sozinho ou com ajuda, começando pelo norte ou pelo sul, pela colunata ou pela abside, peça por peça ou em partes conjuntas, mas o resultado final é sempre o mesmo, uma construção de madeira, um legos, um meccano, um lugar de fingimento onde nunca serão rezadas missas verdadeiras, embora Deus esteja em todo o lado.

O que vale, ainda assim, é prolongar-se o homem nos filhos que tem, e se é certo que, por despeito de velho ou vizinhança desse estado, nem sempre estima ver continuados actos seus que tenham sido pedra de escândalo ou argueiro por de mais visível, igualmente sucede deleitar-se o homem quando persuade os filhos a repetirem alguns gestos seus, alguns passos de vida, palavras até, assim em aparência recuperando novo fundamento o que ele próprio foi e fez. Os filhos, claro está, fingem. Por outros dizeres, oxalá mais claros, não sentindo D. João V já gosto que valha o trabalho de armar a basílica de S. Pedro, ainda encontrou modo indirecto de o reaver, no mesmo movimento provando o seu amor paternal e real, ao chamar a virem auxiliá-lo seus filhos D. José e D. Maria Bárbara. De ambos se falou já, de ambos se tornará a falar, agora dela ficando apenas dito que, coitada, a desfiguraram muito as bexigas, mas têm as princesas tanta sorte que não perdem casamento por serem bexigosas e feias, assim convenha à coroa do senhor seu pai. Claro que nisto de armar S. Pedro de Roma não fazem os infantes muita força. Se D. João V tinha camaristas que o ajudavam a levantar e assentar a cúpula de Miguel Ângelo, a propósito se recordando como profeticamente ressoou a grande arquitectura na noite em que o rei foi ao quarto da rainha, maior ajuda necessitam as fracas crianças, ela de dezassete anos, ele de catorze. Porém, aqui, o que conta é o espectáculo, está meia corte reunida para assistir ao brinquedo dos infantes, suas majestades sentadas debaixo do dossel, os frades segredando satisfações conventuais, os fidalgos compondo a expressão para que ela exprima, ao mesmo tempo, o respeito devido a príncipes, o enternecimento pela pouca idade que é a sua, a devoção pelo santo lugar que em cópia ali se mostra, tudo isto numa cara só, e tudo isto concordando, não é para admirar que pareçam estar sofrendo duma dor oculta e talvez imprópria. Quando D. Maria Bárbara leva por suas próprias mãos uma das estatuazinhas que ornamentam a cimalha, a corte aplaude. Quando por suas mãos próprias colocar D. José a cruz cimeira do zimbório, pouco falta para que se ajoelhem todos quantos estão, que este infante é que é o herdeiro. Suas majestades sorriem, depois D. João V chama os filhos, louva-os pela habilidade e deita-lhes a bênção, que eles recebem de joelhos. O mundo está de uma tal harmonia, que parece, ao menos nesta sala, reflexo desse espelho de perfeição que é o céu. Cada gesto aqui feito é nobre, porventura divino na sua gravidade e pausa, e as palavras dizem-se como partes duma frase que não tem pressa de acabar nem motivo para acabar-se. Assim falam e procedem os moradores das habitações celestes quando saem às diamantinas ruas, quando os recebe em audiência o pai dos universos no seu palácio dourado, quando em corte reunidos assistem ao brinquedo do filho, que faz, desfaz e torna a fazer uma cruz de pau.

Deu D. João V ordem para que não fosse desarmada a basílica, e assim inteira a deixaram ficar. A corte saiu, retirou-se a rainha, foram-se os infantes, os frades atrás ladainhando, agora está el-rei medindo gravemente com o olhar a construção, enquanto os fidalgos de semana fazem por imitar-lhe a gravidade, é sempre o mais seguro. Não menos que meia hora permaneceram rei e acompanhantes nesta contemplação. Dos pensamentos dos camaristas não cuidemos averiguar, sabe-se lá o que estará passando por aquelas cabeças, a impressão de cãibra numa perna, a lembrança da cadela preferida que deve parir amanhã, a abertura na alfândega dos fardos vindos de Goa, o súbito apetite de caramelos, a mãozinha macia da freira à grade do convento, a comichão por baixo da cabeleira, tudo quando se quiser, excepto a sublimidade do pensamento real, que era este, Quero ter uma basílica igual na minha corte, por esta não esperávamos nós.

No dia seguinte, D. João V mandou chamar o arquitecto de Mafra, um tal João Frederico Ludovice, que é alemão escrito à portuguesa, e disse-lhe sem outros rodeios, É minha vontade que seja construída na corte uma igreja como a de S. Pedro de Roma, e, tendo assim dito olhou severamente o artista. Ora, a um rei nunca se diz não, e este Ludovice, que enquanto viveu em Itália se chamou Ludovisi, assim já por duas vezes abandonando o nome familiar de Ludwig, sabe que uma vida, para ser bem-sucedida, haverá de ser conciliadora, sobretudo por quem a viva entre os degraus do altar e os degraus do trono. Porém, há limites, este rei não sabe o que pede, é tolo, é néscio, se julga que a simples vontade, mesmo real, faz nascer um Bramante, um Rafael, um Sangallo, um Peruzzi, um Buonarroti, um Fontana, um Della Porta, um Maderno, se julga que basta vir dizer-me, a mim, Ludwig, ou Ludovisi, ou Ludovice, se é para orelhas portuguesas, Quero S. Pedro, e S. Pedro aparece feito, quando eu o que sei fazer é só Mafras, artista sou, é verdade, e muito vaidoso, como todos, mas conheço a medida do meu pé, e também o jeito desta terra, onde há vinte e oito anos vivo, muita rompança, pouca perseverança, o que é preciso é dar-lhe a boa resposta, aquele não que mais lisonjeia do que o sim lisonjearia, ainda por cima trabalhoso, que Deus me livre dessa, A vontade de vossa majestade é digna do grande rei que mandou edificar Mafra, porém, as vidas são breves, majestade, e S. Pedro, entre a bênção da primeira pedra e a consagração, consumiu cento e vinte anos de trabalhos e riquezas, vossa majestade, que eu saiba, nunca lá esteve, julga pelo modelo de armar que aí tem, talvez nem daqui a duzentos e quarenta anos o conseguíssemos, estaria vossa majestade morta, mortos estariam vossos filho, neto, bisneto, trineto e tetraneto, o que eu pergunto, com todo o respeito, é se vale a pena estar a construir uma basílica que só ficará terminada no ano dois mil, supondo que nessa altura ainda há mundo, no entanto vossa majestade decidirá, De haver ainda mundo, Não, majestade, de outra vez se fazer S. Pedro em Lisboa, embora a mim me pareça ser mais fácil chegar o mundo ao seu fim que repetir-se a basílica de Roma, Hei-de então não satisfazer esta minha vontade, Vossa majestade viverá eternamente na lembrança dos vossos súbditos, eternamente viverá na glória dos céus, mas a memória não é bom terreno para nela se abrirem alicerces, antes vão caindo aos poucos as paredes, e os céus são uma só igreja onde S. Pedro de Roma não faria mais vulto que um grão de areia, Se assim é, por que construímos nós igrejas e conventos na terra, Porque não compreendemos que a terra já era uma igreja e um convento, lugar de fé e de responsabilidade, lugar de clausura e de liberdade, Entendo mal o que estou a ouvir, E eu não entendo bem o que estou a dizer, mas, para voltar ao caso, se vossa majestade quer chegar ao fim da vida vendo ao menos levantado um palmo de parede, tem de dar já as necessárias ordens, senão nunca passará dos caboucos, Tão pouco assim viverei, A obra é longa, a vida é curta.

Podiam ficar a falar o resto do dia, mas D. João V, que em geral não admite resistências ao seu arbítrio, caiu em melancolia ao ver, na imaginação, o mortuário cortejo dos seus descendentes, filho, neto, bisneto, trineto, tetraneto, morrendo cada um deles sem ver a obra acabada, para isto nem vale a pena começar. João Frederico Ludovice disfarça o contentamento, já percebeu que não haverá S. Pedro de Lisboa, para trabalho bastam-lhe a capela-mor da Sé de Évora e as obras de S. Vicente de Fora, que são coisas à escala portuguesa, tudo se quer na sua conta. Estão numa pausa, o rei não fala, o arquitecto não diz, desta maneira se desvanecem no ar os grandes sonhos, e nunca viríamos a saber que D. João V quis um dia construir S. Pedro de Roma no Parque Eduardo VII, se não fosse a inconfidência de Ludovice, que disse ao filho, e este em segredo o transmitiu a uma sua amiga freira de quem era visita, que disse ao confessor, que disse ao geral da ordem, que disse ao patriarca, que o foi perguntar ao rei, que respondeu que se alguém voltasse a falar no assunto incorreria na sua cólera, e assim aconteceu todos se calaram, e se hoje vem o projecto a lume foi porque a verdade caminha sempre por seu próprio pé na história, é só dar-lhe tempo, e um dia aparece e declara, Aqui estou, não temos outro remédio senão acreditar nela, vem nua e sai do poço como a música de Domenico Scarlatti, que ainda vive em Lisboa.

Enfim o rei bate na testa, resplandece-lhe a fronte, rodeia-a o nimbo da inspiração, E se aumentássemos para duzentos frades o convento de Mafra, quem diz duzentos, diz quinhentos, diz mil, estou que seria uma acção de não menor grandeza que a basílica que não pode haver. O arquitecto ponderou, Mil frades, quinhentos frades, é muito frade, majestade, acabávamos por ter de fazer uma igreja tão grande como a de Roma, para lá poderem caber todos, Então, quantos, Digamos trezentos, e mesmo assim já vai ser pequena para eles a basílica que desenhei e está a ser construída, com muitos vagares, se me é permitido o reparo, Sejam trezentos, não se discute mais, é esta a minha vontade, Assim se fará, dando vossa majestade as necessárias ordens.

Foram dadas. Mas primeiro se juntaram, em outro dia, o rei com o provincial dos franciscanos da Arrábida, o almoxarife, e novamente o arquitecto. Ludovice levou os seus desenhos, estendeu-os sobre a mesa, explicou a planta, Aqui é a igreja, para norte e sul estas galerias e estes torreões são o palácio real, da parte de trás ficam as dependências do convento, ora, para satisfazer as ordens de sua majestade teremos de construir, ainda mais atrás, outros corpos, há aqui um monte de pedra rija que vai ser o cabo dos trabalhos minar e rebentar, tanto nos custou já morder a falda dele para endireitar o chão. Ao ouvir que queria el-rei ampliar o convento para tão grande número de frades, de oitenta para trezentos, imagine-se, o provincial, que fora ali sem ainda saber da novidade, derrubou-se no chão dramaticamente, beijou com abundância as mãos da majestade, e enfim declarou, com a voz estrangulada, Senhor, ficai seguro de que neste mesmo momento está Deus mandando preparar novos e mais sumptuosos aposentos no seu paraíso para premiar quem na terra o engrandece e louva em pedras vivas, ficai seguro de que por cada novo tijolo que for colocado no convento de Mafra, uma oração será dita em vossa intenção, não pela salvação da alma, que vos está garantidíssima pelas obras, mas sim como flores da coroa com que haveis de apresentar-vos perante o supremo juiz, queira Deus que só daqui por muitos anos, para que não esmoreça a felicidade dos vossos súbditos e perdure a gratidão da igreja e ordem que sirvo e represento. D. João V levantou-se da sua cadeira, beijou a mão do provincial, humildando o poder da terra ao poder do céu, e quando se tornou a sentar repetiu-se-lhe o halo em redor da cabeça, se este rei não se acautela acaba santo. O almoxarife enxuga os olhos húmidos de boa lágrima, Ludovice conserva a ponta do dedo indicador da mão direita sobre o lugar da planta que figura o tal monte que tanto vai custar a arrasar, o provincial levanta os olhos ao tecto, suposto representar aqui o empíreo, e a todos os três o rei olha sucessivamente, grande, pio, fidelíssimo que há-de ser, isto é o que se lê no rosto magnânimo, não é todos os dias que se ordena a ampliação de um convento de oitenta frades para trezentos, o mal e o bem à face vem, diz o povo, neste caso de hoje veio o melhor.

Retirou-se rasando vénias João Frederico Ludovice para ir reformar os desenhos, recolheu-se o provincial à província para ordenar os actos congratulatórios adequados e dar a boa nova, ficou o rei, que está em sua casa, agora esperando que regresse o almoxarife que foi pelos livros da escrituração, e quando ele volta pergunta-lhe, depois de colocados sobre a mesa os enormes in-Fólios, Então diz-me lá como estamos de deve e haver. O guarda-livros leva a mão ao queixo parecendo que vai entrar em meditação profunda, abre um dos livros como para citar uma decisiva verba, mas emenda ambos os movimentos e contenta-se com dizer, Saiba vossa majestade que, haver, havemos cada vez menos, e dever, devemos cada vez mais, Já o mês passado me disseste o mesmo, E também o outro mês, e o ano que lá vai, por este andar ainda acabamos por ver o fundo ao saco, majestade, Está longe daqui o fundo dos nossos sacos, um no Brasil, outro na Índia, quando se esgotarem vamos sabê-lo com tão grande atraso que poderemos então dizer, afinal estávamos pobres e não sabíamos, Se vossa majestade me perdoa o atrevimento, eu ousaria dizer que estamos pobres e sabemos, Mas graças sejam dadas a Deus, o dinheiro não tem faltado, Pois não, e a minha experiência contabilística lembra-me todos os dias que o pior pobre é aquele a quem o dinheiro não falta, isso se passa em Portugal, que é um saco sem fundo, entra-lhe o dinheiro pela boca e sai-lhe pelo cu, com perdão de vossa majestade, Ah, ah, ah, riu o rei, essa tem muita graça, sim senhor, queres tu dizer na tua que a merda é dinheiro, Não, majestade, é o dinheiro que é merda, e eu estou em muito boa posição para o saber, de cócoras que é como sempre deve estar quem faz as contas do dinheiro dos outros. Este diálogo é falso, apócrifo, calunioso, e também profundamente imoral, não respeita o trono nem o altar, põe um rei e um tesoureiro a falar como arrieiros em taberna, só faltava que os rodeassem inflamâncias de maritornes, seria um desbocamento completo, porém, isto que se leu é somente a tradução moderna do português de sempre, posto o que disse o rei, A partir de hoje, passas a receber vencimento dobrado para que te não custe tanto fazer força, Beijo as mãos de vossa majestade, respondeu o guarda-livros.

Mesmo ainda antes de terminar João Frederico Ludovice os desenhos do convento acrescentado, galopou um correio real para Mafra com ordens imperiosas de que imediatamente se começasse a arrasar o monte, assim se ganhando algum tempo. Apeou-se o correio à porta da vedoria-geral, mais a escolta, sacudiu-se da poeira, subiu a escada, entrou pelo salão, O doutor Leandro de Melo, era este o nome do vedor, Eu sou, lhe diz o tal senhor, Trago cartas de sua majestade em grande velocidade, aqui estão, e passe-me vossa mercê recibo e quitação, que à corte volto logo, não me tarde. Assim se fez, foram-se o correio e a escolta, agora a passo, e o vedor abriu as suas ordens, depois de reverentemente ter beijado o selo, mas quando acabou de as ler empalideceu, tanto que o subvedor julgou que vinha ali destituição de cargo, com o que talvez pudesse aproveitar a sua própria carreira, mas logo se desenganou, já o doutor Leandro de Melo se levantava, já dizia, Vamos à obra, vamos à obra, e em poucos minutos se reuniram o tesoureiro, o mestre dos carpinteiros, o mestre dos alvenéus, o mestre dos canteiros, o abegão-mor, o engenheiro das minas, o capitão da tropa, todos quantos em Mafra tinham vara de mando, e estando reunidos falou-lhes o vedor-geral, Senhores, sua majestade determinou, em sua piedade e alargada sabedoria, que seja aumentada a lotação do convento para trezentos frades e que desde logo se comecem as obras de arrasamento do monte que está a nascente, por ser aí que se levantará o novo corpo de construção, consoante medidas aproximadas que vêm nestas cartas, e como as ordens de sua majestade são para se cumprir, vamos todos à obra ver como se há-de pôr mão na empresa. Disse o tesoureiro que para pagar as despesas subsequentes não precisava avaliar o monte, disse o mestre dos carpinteiros que o seu ofício era madeira, apara e serradura, disse o mestre dos alvenéus que para levantar paredes e assentar pavimentos o chamassem, disse o mestre dos canteiros que só lidava com pedra arrancada, não por arrancar, disse o abegão-mor que os bois e as bestas lá iriam em sendo precisos, e estas respostas, que parecem de gente indisciplinada, são só de gente sensata, de que serviria ir todo este pessoal olhar um monte, quando bem sabiam qual, e quanto ia custar a arrancar de lá. Tomou o vedor por muito boas as explicações, e enfim saiu levando consigo o engenheiro das minas, que era o da responsabilidade, e o capitão da tropa, por ser o desmonte, principalmente, tarefa dos soldados.

Numa parte do terreno por trás das paredes levantadas do lado nascente, já o frade hortelão do hospício plantara árvores de fruto, e havia canteiros vários, uns legumes, umas bordaduras de flores, por enquanto apenas promessa de pomar e horta, suspiro de jardim. Tudo isto iria ser arrancado. Os trabalhadores viram passar o vedor-geral e o espanhol das minas, depois olharam a avantesma do monte, pois lago havia corrido a notícia de que o convento ia ser aumentado para aquela banda, parece impossível a rapidez com que se divulgam ordens que deviam ser de alguma confidência, pelo menos enquanto o destinatário delas as não publicasse. Quase se acredita que, antes de escrever ao doutor Leandro de Melo, mandou D. João V aviso a Sete-Sóis, ou ao José Pequeno, dizendo, Tenham lá paciência, veio-me esta ideia de pôr aí trezentos frades em vez dos oitenta combinados, por outra parte é bom para todos quantos trabalham na obra, ficam com o emprego garantido por mais tempo, que o dinheiro, ainda há dias mo disse o meu almoxarife, que é de confiança, esse não falta, fiquem sabendo que somos a nação mais rica da Europa, não devemos nada a ninguém e pagamos a todos, e com isto não enfado mais, dá lembranças aos meus queridos trinta mil portugueses que aí andam a fazer pela vida, tanto se esforçando por dar ao seu rei o supremo gosto de ver alçado aos ares e tempos o maior e mais formoso monumento sacro da história, que até me disseram já que comparado com isso S. Pedro de Roma é uma capela, adeus, até qualquer dia, saudades à Blimunda, da máquina voadora do padre Bartolomeu Lourenço é que nunca mais soube nada, tanta protecção lhe dei, tanto dinheiro gasto, o mundo anda cheio de gente ingrata, agora é que é certo, adeus.

O doutor Leandro de Melo está sucumbido ao pé do monte, desmarcado acidente que se empina mais alto que as paredes que ainda hão-de ser, e sendo de seu ofício apenas corregedor de Torres Vedras, acolhe-se ao amparo do engenheiro das minas, que, por ser andaluz e hiperbólico, fala claro, Aún que fuera la Sierra Morena, yo la arrancaria com mis brazos y la precipitaria en la mar, traduzindo, Deixem o caso comigo, que em pouco tempo se abrirá neste lugar um rossio que fará inveja ao de Lisboa. Durante todos estes anos, onze já vão vencidos, se têm sobressaltado os ecos das quebradas de Mafra com os continuados tiros de pólvora, espaçadamente nos últimos tempos, só quando renitente esporão de pedra se interpõe no solo já rendido. Um homem nunca sabe quando a guerra acaba. Diz, Olha, acabou, e de repente não se acabou, recomeça, e vem diferente, a puta,

  • ainda ontem eram floreios de espada e hoje são arrombações de pelouro,
  • ainda ontem se derrubavam muralhas e hoje se desmoronam cidades,
  • ainda ontem se exterminavam países e hoje se rebentam mundos,
  • ainda ontem morrer um era uma tragédia e hoje é banalidade evaporar-se um milhão,

não será bem o caso de Mafra, onde nunca veremos reunida tanta gente,apesar de muita, mas, para quem se habituara a ouvir uns cinquenta, cem estoiros por dia, parecia agora o fim do mundo a atroação tremebunda dos mil tiros que se davam entre o nascer do sol e a noitinha, em rosários de vinte, com tal violência atirando terras e pedras ao ar que tinham os trabalhadores da obra que abrigar-se na revessa das paredes ou acolher-se à protecção dos andaimes, e mesmo assim alguns ficaram feridos, para não falar daquelas cinco minas que rebentaram inesperadamente e fizeram em pedaços três homens inteiros.

Sete-Sóis ainda não respondeu ao rei, vai adiando sempre, acanha-se de pedir a alguém que lhe escreva a missiva, mas, se um dia vence a vergonha, assim é que notará, Meu querido rei, cá recebi a sua carta e nela vi tudo quanto tinha para me dizer, o trabalho aqui não tem faltado, só paramos quando chove tanto que até os patos diriam basta, ou quando se atrasou a pedra no caminho, ou quando os tijolos saíram de má qualidade e ficamos à espera que venham outros, agora anda tudo aqui em grande confusão com a tal ideia de alargar o convento, é que o meu querido rei nem imagina o tamanho daquele monte e a soma de homens que requer, tiveram de largar a obra da igreja e do palácio, vai ser um atraso, até canteiros e carpinteiros andam a acarretar pedra, eu umas vezes com os bois, outras vezes com o carro de mão, tive foi pena dos limoeiros e dos pessegueiros que foram arrancados, os amores-perfeitos foi um ar que lhes deu, não valia a pena ter semeado flores para depois as tratar com tanta crueldade, mas enfim, como o meu querido rei diz que não devemos nada a ninguém, sempre é uma satisfação, é como a minha mãe que dizia, paga a dívida bem, não olhes a quem, coitada, já morreu, e não verá o maior e mais formoso monumento sacro da história, como me disse na sua carta, ainda que, para ser-lhe franco, nas histórias que conheço nunca se fala de monumentos sacros, só de mouras encantadas e tesouros escondidos e por falar em tesouros e mouras, a Blimunda está bem, muito obrigado, já não é tão bonita como foi, mas quem dera a muitas novas estarem como ela, o José Pequeno manda perguntar quando é o casamento do infante D. José, que lhe quer mandar um presente, se calhar é por terem ambos o mesmo nome, e os trinta mil portugueses recomendam-se muito e agradecem, a saúde deles vai assim assim, no outro dia houve aí uma caganeira tão geral que Mafra fedia três léguas em redor, alguma coisa que comemos e nos assentou mal, eram os gorgulhos mais que a farinha, ou as varejeiras mais que a carne, mas teve graça, ver um ror de gente de rabo à vela, com a frescura que vinha do mar, muito aliviadora, e quando uns acabavam havia logo outros tantos, às vezes era tal a urgência que onde estavam ali davam de corpo, ah, é verdade, ia-me esquecendo, também nunca mais ouvi falar da máquina voadora, talvez a tenha levado o padre Bartolomeu Lourenço para Espanha, quem sabe se a tem agora o rei de lá, que, segundo ouço dizer, vai ser seu compadre, acautele-se, com isto não enfado mais, lembranças à rainha, adeus, meu querido rei, adeus.

Esta carta nunca foi escrita, mas os caminhos da comunicação das almas são muitos, quantos ainda misteriosos, e de tantas palavras que Sete-Sóis não chegou a ditar, algumas foram ferir o coração do rei, tal como aquela fatal sentença que, para aviso de Baltasar, apareceu gravada a lume numa parede, pesado, contado, dividido, esse Baltasar não é o Mateus que conhecemos, mas sim aquele outro que foi rei de Babilónia, e que, tendo profanado, num festim, os vasos sagrados do templo de Jerusalém, por isso veio a ser punido, morto às mãos de Ciro, que para a execução dessa divina sentença tinha nascido. As culpas de D. João V são outras, se a alguns vasos profana são os das esposas do Senhor, mas elas gostam e Deus não se importa, adiante. Aos ouvidos de D. João V, o que soou como um dobre foi aquela passagem, quando Baltasar, falando da mãe, muito a lastima por já não poder ver o maior e mais formoso dos monumentos sacros, Mafra.

Subitamente, el-rei compreende que a sua vida será curta, que curtas são todas as vidas, que muita gente morreu e morrerá antes que se acabe de construir Mafra, que ele próprio poderá amanhã fechar os olhos para todo o sempre. Recorda-se de que desistiu de edificar S. Pedro de Roma justamente por tê-lo convencido Ludovice dessa mesma curteza das vidas, e que o mesmo S. Pedro, palavras ditas, entre a bênção da primeira pedra e a consagração consumiu nada menos que cento e vinte anos de trabalhos e riquezas. Ora, Mafra já engoliu  onze anos de trabalho, das riquezas nem se deve falar, Quem me garante que estarei vivo quando se fizer a sagração, se ainda aqui há uns poucos anos ninguém dava nada por mim, com aquela melancolia que me ia levando antes de tempo, o caso é que a mãe do Sete-Sóis, coitada, viu o princípio, mas não verá o fim, um rei não se livra de lhe suceder o mesmo. D. João V está numa sala do torreão, virada ao rio. Mandou sair os camaristas, os secretários, os frades, uma cantarina da comédia, não quer ver ninguém. Tem desenhado na cara o medo de morrer, vergonha suprema em monarca tão poderoso. Mas esse medo de morrer não é o de se lhe abater de vez o corpo e ir-se embora a alma, é sim o de que não estejam abertos e luzentes os seus próprios olhos quando, sagradas, se alçarem as torres e a cúpula de Mafra, é o de que não sejam já sensíveis e sonoros os seus próprios ouvidos quando soarem gloriosamente os carrilhões e as solfas, é o de não palpar com as suas mãos os paramentos ricos e os panos da festa, é o de não cheirar o seu nariz o incenso dos turíbulos de prata, é o de ser apenas o rei que mandou fazer e não o que vê feito. Vai além um barco, quem sabe se chegará a porto, Passa uma nuvem no céu, porventura não a veremos em chuva derramada, Sob aquelas águas, o cardume nada ao encontro da rede. Vaidade das vaidades, disse Salomão, e D. João V repete, Tudo é vaidade, vaidade é desejar, ter é vaidade. Mas o vencimento da vaidade não é a modéstia, menos ainda a humildade, é antes o seu excesso. Desta meditação e agonia não saiu el-rei para vestir o burel da penitência e da renúncia, mas para fazer voltar os camaristas, os secretários e os frades, a cantarina viria mais tarde, a estes perguntando se era realmente verdade, consoante julgava saber, que a sagração das basílicas se deve fazer aos domingos, e eles responderam que sim, segundo o Ritual, e então el-rei mandou apurar quando cairia o dia do seu aniversário, vinte e dois de Outubro, a um domingo, tendo os secretários respondido, após cuidadosa verificação do calendário, que tal coincidência se daria daí a dois anos, em mil setecentos e trinta, Então é nesse dia que se fará a sagração da basílica de Mafra, assim o quero, ordeno e determino, e quando isto ouviram foram os camaristas beijar a mão do seu senhor, vós me direis qual é mais excelente, se ser do mundo rei, se desta gente.

Deitaram reverentemente alguma água na fervura João Frederico Ludovice e o doutor Leandro de Melo, chamados à pressa de Mafra, aonde o primeiro tinha ido e onde o segundo assistia, os quais, com a memória fresca do que lá viam, disseram que o estado da obra não consentia tão feliz previsão, tanto no que tocava ao convento, cujo segundo corpo se ia levantando lentamente de paredes, como à igreja, por sua natureza de delicada construção, um assembramento de pedras que não poderia ser feito à ligeira, vossa majestade o sabe melhor que ninguém, se tão harmoniosamente concilia e equilibra as partes de que se forma a nação. Carregou-se o sobrecenho de D. João V, porque a cansada lisonja em nada o aliviara, e indo abrir a boca para responder com secura, preferiu chamar outra vez os secretários e perguntar-lhes em que data voltaria a cair a um domingo o seu aniversário, passada esta de mil setecentos e trinta, pelos vistos não bastante prazo. Trabalharam eles afanosamente as suas aritméticas e com alguma dúvida responderam que o acontecimento tornaria a dar-se dez anos depois, em mil setecentos e quarenta.

Estavam ali oito ou dez pessoas, entre rei, Ludovice, Leandro, secretários e fidalgos de semana, e todos acenaram gravemente a cabeça, como se o próprio Hallev tivesse acabado de explicar a periodicidade dos cometas, as coisas que os homens são capazes de descobrir. Porém, D. João V teve um pensamento negro, viu-se-lhe na cara, e faz rápidas contas, mentais, com ajuda dos dedos, Em mil setecentos e quarenta terei cinquenta e um anos, e acrescentou lugubremente, Se ainda for vivo. E por alguns terríveis minutos tornou a subir este rei ao Monte das Oliveiras, ali se agoniou com o medo da morte e o pavor do roubo que lhe seria feito, agora acrescentando um sentimento de inveja, imaginar seu filho já rei, com a rainha nova que está para vir de Espanha, gozando ambos as delícias de inaugurar e ver sagrar Mafra, enquanto ele estaria apodrecendo em S. Vicente de Fora, perto do infantezinho D. Pedro, morto tão pequenino da brutalidade do desmame.

Estavam os circunstantes olhando o rei, Ludovice com alguma curiosidade científica, Leandro de Melo indignado contra a severidade da lei do tempo que nem as majestades respeita, os secretários duvidando de terem acertado nos bissextos, os camaristas avaliando as suas próprias probabilidades de sobrevivência. Todos esperavam. E então D. João V disse, A sagração da basílica de Mafra será feita no dia vinte e dois de Outubro de mil setecentos e trinta, tanto faz que o tempo sobre como falte, venha sol ou venha chuva, caia a neve ou sopre o vento, nem que se alague o mundo ou lhe dê o tranglomango.

Tirando as expressões enfáticas, esta mesma ordem já fora dada antes, parece não ser mais que uma declaração solene para a história, como aquela, tão conhecida, Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito, ora toma, afinal Deus não é maneta, não senhor, andou aí o padre Bartolomeu Lourenço em domésticos sacrilégios afastando Baltasar Sete-Sóis do recto caminho, quando bastaria ter ido perguntar ao Filho, que tem obrigação de saber quantas mãos o Pai tem, mas, ao que D. João V já disse, se deverá acrescentar agora o que vem de sabermos nós quantas mãos os filhos sujeitos têm e para que servem eles e elas, Ordeno que a todos os corregedores do reino se mande que reunam e enviem para Mafra quantos operários se encontrarem nas suas jurisdições, sejam eles carpinteiros, pedreiros ou braçais, retirando-os, ainda que por violência, dos seus mesteres, e que sob nenhum pretexto os deixem ficar, não lhes valendo considerações de família, dependência ou anterior obrigação, porque nada está acima da vontade real, salvo a vontade divina, e a esta ninguém poderá invocar, que o fará em vão, porque precisamente para serviço dela se ordena esta providência, tenho dito. Ludovice acenou a cabeça gravemente, como quem acabasse de verificar a regularidade duma reacção química, os secretários escrituraram velocíssimas notas, os camaristas entreolharam-se e sorriram, isto é que é um rei, o doutor Leandro de Melo estava a salvo desta nova obrigação porque na sua comarca já não havia quem trabalhasse em ofícios que não servissem o convento, por via directa ou indirecta.

Foram as ordens, vieram os homens. De sua própria vontade alguns, aliciados pela promessa de bom salário, por gosto de aventura outros, por desprendimento de afectos também, à força quase todos. Deitava-se o pregão nas praças, e, sendo escasso o número de voluntários, ia o corregedor pelas ruas, acompanhado dos quadrilheiros, entrava nas casas, empurrava os cancelos dos quintais, saía ao campo a ver onde se escondiam os relapsos, ao fim do dia juntava dez, vinte, trinta homens, e quando eram mais que os carcereiros atavam-nos com cordas, variando o modo, ora presos pela cintura uns aos outros, ora com improvisada pescoceira, ora ligados pelos tornozelos, como galés ou escravos. Em todos os lugares se repetia a cena, Por ordem de sua majestade, vais trabalhar na obra do convento de Mafra, e se o corregedor era zeloso, tanto fazia que estivesse o requisitado na força da vida como já lhe escorregasse o rabo da tripeça, ou pouco mais fosse que menino. Recusava-se u homem primeiro, fazia menção de escapar, apresentava pretextos, a mulher no fim do tempo, a mãe velha, um rancho de filhos, a parede em meio, a arca por confortar, o alqueive necessário, e se começava a dizer as suas razões não as acabava, deitavam-lhe a mão os quadrilheiros, batiam-lhe se resistia, muitos eram metidos ao caminho a sangrar.

Corriam as mulheres, choravam, e as crianças acresciam o alarido, era como se andassem os corregedores a prender para a tropa ou para a Índia. Reunidos na praça de Celorico da Beira, ou de Tomar, ou em Leiria, em Vila Pouca ou Vila Muita na aldeia sem mais nome que saberem-no os moradores de lá, nas terras da raia ou da borda do mar, ao redor dos pelourinhos, no adro das igrejas, em Santarém e Beja, em Faro e Portimão, em Portalegre e Setúbal, em Évora e Montemor, nas montanhas e na planície, e em Viseu e Guarda, em Bragança e Vila Real, em Miranda, Chaves e Amarante, em Vianas e Póvoas, em todos os lugares aonde pôde chegar a justiça de sua majestade, os homens, atados como reses, folgados apenas quanto bastasse para não se atropelarem, viam as mulheres e os filhos implorando o corregedor, procurando subornar os quadrilheiros com alguns ovos, uma galinha, míseros expedientes que de nada serviam, pois a moeda com que el-rei de Portugal cobra os seus tributos é o ouro, é a esmeralda, é o diamante, é a pimenta e a canela, é o marfim e o tabaco, é o açúcar e a sucupira, lágrimas não correm na alfândega. E se para isso tiveram tempo, quadrilheiros houve que se gozaram das mulheres dos presos, que a tanto se sujeitaram as pobres para não perder os seus maridos, porém desesperadas os viam depois partir, enquanto os aproveitadores se riam delas Maldito sejas até à quinta geração, de lepra se te cubra o corpo todo, puta vejas a tua mãe, puta a tua mulher, puta a tua filha, empalado sejas do cu até à boca, maldito, maldito, maldito. Já vai andando a récua dos homens de Arganil, acompanham-nos até fora da vila as infelizes, que vão clamando, qual em cabelo, ó doce e amado esposo, e outra protestando, ó filho, a quem eu tinha só para refrigério e doce amparo desta cansada já velhice minha, não se acabavam as lamentações, tanto que os montes de mais perto respondiam, quase movidos de alta piedade, enfim já os levados se afastam, vão sumir-se na volta do caminho, rasos de lágrimas os olhos, em bagadas caindo aos mais sensíveis e então uma grande voz se levanta, é um labrego de tanta idade já que o não quiseram, e grita subido a um valado que é púlpito de rústicos, Ó glória de mandar, ó vã cobiça, ó rei infame, ó pátria sem justiça, e tendo assim clamado, veio dar-lhe o quadrilheiro uma cacetada na cabeça, que ali mesmo o deixou por morto.

(«Qual vai dizendo: – «Ó filho, a quem eu tinha
Só pera refrigério e doce emparo
Desta cansada já velhice minha,
Que em choro acabará, penoso e amaro,
Porque me deixas, mísera e mesquinha?
Porque de mi te vás, o filho caro,
A fazer o funéreo encerramento
Onde sejas de pexes mantimento?»

 «Qual em cabelo: – «Ó doce e amado esposo,
Sem quem não quis Amor que viver possa,
Porque is aventurar ao mar iroso
Essa vida que é minha e não é vossa?
Como, por um caminho duvidoso,
Vos esquece a afeição tão doce nossa?
Nosso amor, nosso vão contentamento,
Quereis que com as velas leve o vento? »

(…)

«Ó glória de mandar, ó vã cobiça
Desta vaidade a quem chamamos Fama!
Ó fraudulento gosto, que se atiça
Cũa aura popular, que honra se chama!
Que castigo tamanho e que justiça
Fazes no peito vão que muito te ama!
Que mortes, que perigos, que tormentas,
Que crueldades neles experimentas!»

(Cf. excertos d’Os Lusíadas)

Quanto pode um rei. Está sentado em seu trono, alivia-se consoante a necessidade, na peniqueira ou no ventre das madres, e daí daqui ou dacolá, se o requerem os interesses do Estado, cujo ele é, despacha ordens para que de Penamacor venham os homens válidos, ou nem tanto, a trabalhar neste meu convento de Mafra, levantado porque o reclamavam os franciscanos desde mil seiscentos e vinte e quatro, e por enfim ter ocupado a rainha duma filha, que nem rainha de Portugal vai ser, mas de Espanha, por interesses dinásticos e particulares. E os homens, que nunca viram o rei, os homens que o rei nunca viu, os homens, mesmo não o querendo vêm, entre soldados e quadrilheiros, soltos se são de ânimo pacífico ou já se resignaram, atados como foi explicado, se rebeldes atados sempre se por malícia viloa mostraram ir de vontade e depois tentaram fugir, pior ainda se algum conseguiu escapar-se. Atravessam os campos, de terra em terra, pelas poucas estradas reais, às vezes por aquelas que os romanos fizeram construir, quase sempre por carreiros de pé posto, e o tempo é o variável, sol de estarrecer, chuva de alagar, frio que gela, em Lisboa sua majestade espera que cada um cumpra o seu dever.

Às vezes, há encontros. Vinham uns mais do Norte, outros mais do Nascente, aqueles de Penela, esses de Proença-a-Nova, juntaram-se em Porto de Mós, nenhum deles sabe que lugares são estes no mapa, nem que forma tem Portugal, se é quadrado, ou redondo, ou aos bicos, se é ponte de passar ou corda de enforcar, se grita quando lhe batem ou se se esconde pelos cantos. Das duas levas se faz uma, e tendo já seus requintes a arte carcereira, emparelharam-se os homens de modo místico, um de Proença, outro de Penela, assim se dificultando as subversões, com o evidente benefício de dar Portugal a conhecer aos portugueses, Então como é a tua terra, e enquanto falam disto não pensam noutra coisa. A não ser que morra algum pelo caminho. Pode cair fulminado por um ataque, espumando pela boca, ou nem isso, apenas derrubando-se e arrastando na queda o companheiro da frente e o companheiro de trás, subitamente e em pânico atados a um morto, pode adoecer no descampado e vai de charola, trangalhando pernas e braços, até morrer adiante e ser enterrado à beira do caminho, com uma cruz de pau espetada do lado da cabeça, ou afortunadamente recebe em povoado os últimos sacramentos, enquanto os degredados esperam sentados no chão que o caso se deslinde, Hoc est enim corpus meum, este corpo cansado de tantas léguas andadas, este corpo esfolado dos atritos da corda, este corpo gastado da comida ainda menos que a pouca costumada. As noites são dormidas em palheiros, em portarias de conventos, em tercenas despejadas, e, querendo Deus e o bom tempo, ao ar livre, assim se juntando a liberdade do ar e a prisão dos homens, extensas filosofias aqui se debateriam se tivéssemos tempo para isso. De madrugada, muito antes de nascer o sol, e ainda bem, porque estas horas são sempre as mais frias, levantam-se os trabalhadores de sua majestade, enregelados e famintos, felizmente os libertaram das cordas os quadrilheiros, porque hoje entraremos em Mafra e causaria péssimo efeito o cortejo de maltrapilhos, atados como escravos do Brasil ou récua de cavalgaduras. Quando de longe avistam os muros brancos da basílica, não gritam, Jerusalém, Jerusalém, por isso é mentira o que disse aquele frade que pregou quando foi levada de Pêro Pinheiro a pedra a Mafra, que todos estes homens são cruzados duma nova cruzada, que cruzados são estes que tão pouco sabem da sua cruzadia. Fazem alto os quadrilheiros, para que desta eminência possam os trazidos apreciar o amplo panorama no meio do qual vão viver, à direita o mar onde navegam as nossas naus, senhoras do líquido elemento, em frente, para o Sul, está a famosíssima serra de Sintra, orgulho de nacionais, inveja de estrangeiros, que daria um bom paraíso no caso de Deus fazer outra tentativa, e a vila, lá em baixo na cova, é Mafra, que dizemos eruditos ser isso mesmo o que quer dizer, mas um dia se hão-de rectificar os sentidos e naquele nome será lido, letra por letra, mortos, assados, fundidos, roubados, arrastados, e não sou eu, simples quadrilheiro às ordens, quem a tal leitura se vai atrever, mas sim um abade beneditino a seu tempo, e essa será a razão que tem para não vir assistir à sagração da bisarma, porém, não antecipemos, ainda há muito trabalho para acabar, por causa dele é que vocês vieram das longes terras onde vivíeis, não façam caso da falta de concordância, que a nós ninguém nos ensinou a falar, aprendemos com os erros dos nossos pais, e, além disso, estamos em ,tempo de transição, e agora que já viram o que vos espera, sigam lá para adiante, que nós, ficando vocês entregues, vamos buscar mais. Para chegarem à obra, vindos donde vêm, têm de atravessar a vila, passam à sombra do palácio do visconde, rasam a soleira dos Sete-Sóis, e tanto sabem de uns como sabem dos outros, apesar de genealogias e memoriais, Tomás da Silva Teles, bisconde de Vila Nova da Cerveira, Baltasar Mateus, fabricante de aviões, com o rodar dos tempos veremos quem vai ganhar esta guerra. As janelas do palácio não se abrem para ver passar o cortejo dos miseráveis, só o cheiro que deitam, senhora biscondessa. Abriu-se, sim, o postigo da
casa dos Sete-Sóis e veio Blimunda olhar, não é nenhuma novidade, quantas levas já por aqui passaram, mas, estando em casa, sempre vem ver, é uma maneira de receber quem chegou, e quando à noite Baltasar regressa, ela diz, Por aqui passaram hoje mais de cem, perdoe-se a imprecisão de quem não aprendeu a contar rigoroso foram muitos, foram poucos, é como quando se fala de anos, já passei dos trinta, e Baltasar diz, Ao todo ouvi dizer que chegaram quinhentos, Tantos, espanta-se Blimunda, e nem um nem outro sabem exactamente quantos são quinhentos, sem falar que o número é de todas as coisas que há no mundo a menos exacta, diz-se quinhentos tijolos, diz-se quinhentos homens, e a diferença que há entre tijolo e homem é a diferença que se julga não haver entre quinhentos e quinhentos, quem isto não entender à primeira vez não merece que lho expliquem segunda.

Juntam-se os homens que entraram hoje, dormem onde calhar, amanhã serão escolhidos. Como os tijolos. Os que não prestarem, se foi de tijolos a carga, ficam por aí, acabarão por servir a obras de menos calado, não faltará quem os aproveite, mas, se foram homens, mandam-nos embora, em hora boa ou hora má, Não serves, volta para a tua terra, e eles vão, por caminhos que não conhecem, perdem-se, fazem-se vadios, morrem na estrada, às vezes roubam, às vezes matam, às vezes chegam.

Capítulo XXII

Porém, ainda se encontram famílias felizes. A real de Espanha é uma. A de Portugal é outra. Casam-se filhos daquela com filhos desta, da banda deles vem Mariana Vitória, da banda nossa vai Maria Bárbara, os noivos são o José de cá e o Fernando de lá, respectivamente, como se costuma dizer. Não são combinações do pé para a mão, os casamentos estão feitos desde mil setecentos e vinte e cinco. Muita conversa para a conversa, muito embaixador, muito regateio, muitas idas e vindas de plenipotenciários, discussões sobre as cláusulas dos contratos de matrimónio, as prerrogativas, os dotes das meninas, e não podendo estas uniões ser feitas à ligeira, nem à porta do talho, onde grosseiramente se diz que são combinados os amiganços, só agora, quase um lustro passado, se fará a troca das princesas, uma a ti, outra a mim. Maria Bárbara tem dezassete anos feitos, cara de lua cheia, bexigosa como foi dito, mas é uma boa rapariga, musical a quanto pode chegar uma princesa, pelo menos não caíram em cesto roto as lições do seu mestre Domenico Scarlatti, que com ela seguirá para Madrid, donde não volta. Espera-a um noivo que é mais novo dois anos, o tal Fernando, que será o sexto da tabela espanhola e de rei pouco mais terá que o nome, informação que apenas de passagem fica, para que não se insinue que estamos interferindo nas questões internas do país vizinho. Do qual, assim ficando excelentemente feita a ligação à história deste nosso, do qual, repetimos, virá Mariana Vitória, uma garotinha de onze anos, que, apesar da pouca idade, já tem uma dolorosa experiência de vida, basta dizer que esteve para casar-se com Luís XV de França e foi por ele repudiada, palavra que parece excessiva e nada diplomática, mas que outra se há-de usar se, uma criança, na tenra idade de quatro anos, vai viver para a corte francesa a fim de se educar para o dito casamento, e dois anos depois é mandada para casa porque de repente deu a febre ao prometido, ou aos interesses de quem o orientava, de ter rapidamente herdeiros a coroa, necessidade que a pobrezinha, por inabilitação fisiológica, não poderia satisfazer antes de decorridos uns oito anos. Veio devolvida a coitada, magrinha e delicada, um pisco a comer, com v mal inventado pretexto de visitar os pais, rei Filipe, rainha Isabel, e pronto, ficou em Madrid, à espera de que lhe arranjassem noivo menos apressado, calhou ser o nosso José, agora com quinze anos, a fazer. Dos prazeres de Mariana Vitória não há muito que dizer, gosta de bonecas, adora confeitos, nem admira, está na idade, mas já é habilíssima caçadora, e, crescendo, estimará a música e a leitura. Há quem governe mais sabendo menos.

A história dos casamentos está cheia de gente que ficou do lado de fora da porta, por isso, para evitar vexames, se avisa que a boda, e também a baptizado, não vás sem ser convidado. Convidado não foi, decerto, aquele João Elvas amigo de Sete-Sóis pelo tempo que este viveu em Lisboa antes de conhecer Blimunda e a ela se juntar, chegou a dar-lhe abrigo na barraca onde dormia, com outros meio vadios, ali ao convento da Esperança, como todos estamos lembrados. Já então não era novo, hoje está um velho, sessenta anos subitamente mordidos pela saudade de voltar à terra onde nasceu e de que havia tomado o nome, são desejos que justamente dão aos velhos quando já não vão podendo ter outros. De meter pernas ao caminho é que duvidava, não por se temer da fraqueza delas, ainda rijíssimas para a idade, mas por causa daqueles grandes descampados de Alentejo, ninguém está livre de maus encontros, haja vista o que aconteceu a Baltasar Sete-Sóis nos pinheirais de Pegões, embora neste caso se deva dizer que mau encontro foi o do salteador que lá ficou, exposto aos corvos e aos cães, se depois o não foi enterrar o camarada. Mas, em verdade, um homem nunca sabe para o que está guardado, que parte de bem e mal o espera. Quem diria a João Elvas, nos seus antigos tempos de soldadia, e nestes agora de vadiagem, ainda que pacífica, que havia de chegar-lhe a hora de acompanhar o rei de Portugal na sua ida ao rio Caia para levar uma princesa e trazer outra, sim, quem diria. Ninguém lho disse, ninguém previu, só o sabia o acaso que de longe vinha escolhendo e atando os fios do destino, diplomáticos e dinásticos os das duas cortes, de saudades da terra e desamparo os do soldado velho. Se um dia chegarmos a decifrar estas malhas cruzadas, endireitaremos o fio da vida e atingiremos a sabedoria suprema, se na existência de tal coisa insistimos em acreditar.

Claro está que João Elvas não vai de coche nem a cavalo. Já ficou dito que tem boas pernas para andar, sirva-se então delas. Mas, ou mais à frente, ou mais atrás, sempre D. João V lhe fará companhia, como igualmente lha farão a rainha e os infantes, o príncipe e a princesa, e todo o poder do mundo que na viagem vai. Nunca a suma grandeza destes senhores suspeitará que vai escoltando um vagabundo, segurando-lhe a vida e os bens tão perto de se acabarem. Mas, para que não se acabem cedo de mais, sobretudo a vida, bem precioso, não convém muito a João Elvas que se intrometa no cortejo, sabido como é terem a mão leve os soldados, e pesada, benza-os Deus, se lhes passa pela cabeça que corre perigo a também preciosa segurança de sua majestade.

Assim acautelado, largou João Elvas de Lisboa e passou a Aldegalega nos primeiros dias deste mês de Janeiro de mil setecentos e vinte e nove, e ali se demorou assistindo ao desembarque das carruagens e cavalgaduras que vão servir no caminho. Para sua ilustração ia fazendo perguntas, que é isto, donde veio, quem fez, quem vai usar, parecem despropositadas indiscrições, mas a este velho de aspecto venerando, ainda que sujo, qualquer criado de cavalariça entende dever resposta, e, crescendo a confiança, até do abegão se colhem informações, basta mostrar-se piedoso João Elvas, que, se de rezas sabe pouco, conhece de fingimento quanto sobra. E se, em vez de resposta plausível, veio empurrão, mau modo e soco vesgo, por aí mesmo se adivinhará o que não foi dito, no fim se acertarão as contas dos erros com que se faz a história. Assim, quando D. João V atravessou o rio, no dia oito de Janeiro, para principiar a sua grande viagem, havia em Aldegalega, à sua espera, para cima de duzentas viaturas, entre estufas, caleças, seges de campo, galeras, carromatos, andas, uns que tinham vindo de Paris, outros feitos de propósito em Lisboa para a ocasião, sem falar nos coches reais, com as douraduras frescas, os veludos renovados, as borlas e sanefas penteadas. Da real cavalariça, só em bestas, eram quase duas mil, não se incluindo nelas os cavalos da guarda do corpo e os dos regimentos de tropa que acompanham o cortejo. Aldegalega, que, por ser ponto obrigatório de passagem para o Alentejo, tem visto muito, nunca viu tanto, basta este pequeno rol de servidores, cozinheiros são duzentos e vinte e dois, archeiros duzentos, reposteiros setenta, moços da prata cento e três, criados das cavalariças mais de mil, e um ror incontável de outros criados e escravos de diversos tons de preto. Aldegalega é um mar de gente, e muito maior seria se aqui estivessem os fidalgos e outros senhores que já lá vão adiante, a caminho de Elvas e do Caia, nem tinham outro remédio, se todos partissem ao mesmo tempo casavam-se os príncipes e ainda o último convidado estaria a entrar em Vendas Novas.

Passou el-rei no seu bergantim, primeiro tinha ido visitar a imagem da Senhora da Madre de Deus, e com ele desembarcaram o príncipe D. José, o infante D. António, mais os criados que os serviam, que eram o senhor duque de Cadaval, o senhor marquês de Marialva, o senhor marquês de Alegrete, um gentil-homem do senhor infante, e outros senhores, não há que estranhar chamarem-lhes criados, que sê-lo da família real é honra. João Elvas estava no meio do povo que abria alas e aclamava, real, real, por D. João V, rei de Portugal, se não era assim que diziam, então seria aquele vozear que só pelo tom permite distinguir entre o aplauso e o apupo, livrasse-se alguém de lançar um doesto, nem aliás se imagina que venha a ser possível faltar ao respeito que se deve a um rei, mormente sendo português. D. João V foi aposentar-se nas casas do escrivão da câmara, João Elvas já sofrera o seu primeiro desengano quando veio a descobrir que não faltavam pedintes e outros vadiantes para acompanhar o cortejo, na mira de sobejos e de esmolas. Paciência. Donde estes comessem, também ele comeria, mas, de todas, era a razão da sua viagem a mais merecedora.

Madrugada, escuro ainda, eram umas cinco e meia, saiu el-rei para Vendas Novas, mas primeiro que ele saiu João Elvas, porque queria, com os seus olhos, ver passar a comitiva em aparato completo, não o confuso arraial da partida, com as viaturas a tomar os seus lugares, às ordens do mestre-de-cerimónias, entre berros de sotas e cocheiros, gente pouco travada de língua, como geralmente é conhecido. Não sabia João Elvas que el-rei ainda ia ouvir missa à Senhora da Atalaia, por isso, tardando-lhe o cortejo, já manhã clara, abrandou o passo, e enfim parou, onde raio se teriam metido eles, sentou-se num valado, abrigado da brisa matinal por um renque de piteiras. O céu estava encoberto, com nuvens baixas, a prometer chuva, o frio cortava. João Elvas enrolou-se melhor no capote, derrubou as abas do chapéu para as orelhas, e pôs-se à espera. Passou assim uma hora, talvez mais, na estrada raros passavam, nem parece isto dia de festa.

Mas a festa vem aí. Já se ouvem ao longe toques de trombetas e bumbos de atabales, acelera-se o velho sangue militar de João Elvas, são emoções esquecidas que de repente voltam, é como ver passar uma mulher quando delas não há mais que lembranças, e, ou por um riso, ou por um bandear de saia, ou por um jeito dos cabelos, sente um homem derreterem-se-lhe os ossos, leva-me, faz de mim o que quiseres, tal qual como se nos chamasse a guerra. E eis que passa o triunfal cortejo. João Elvas só vê cavalos, gente e viaturas, não sabe quem está dentro nem quem vai fora, mas a nós não nos custa nada imaginar que ao lado dele se foi sentar um fidalgo caridoso e amigo de bem-fazer, que os há, e como esse fidalgo é daqueles que tudo sabem de corte e cargos, ouçamo-lo com atenção, Olha, João Elvas, depois do tenente e dos trombetas e atabaleiros que já passaram, mas esses conhecias tu, que foste da arte, vem agora o aposentador da corte com os seus subalternos, é ele quem tem a responsabilidade dos cómodos, aqueles seis a cavalo são correios de gabinete, levam e trazem as informações e as ordens, agora passa a berlinda com os confessores do rei, do príncipe e do infante, não imaginas a carga de pecados que ali vai, pesam muito menos as penitências, depois aparece a berlinda com os moços do guarda-roupa, para que é esse espanto, sua majestade não é pobretão como tu, que só tens o que trazes em cima do corpo, coisa estranha, ter só o que se traz em cima do corpo, e outra vez não te espantes com essas duas berlindas cheias de clérigos e padres da Companhia de Jesus, nem sempre galinha, nem sempre sardinha, umas vezes companhia de Jesus, outras vezes companhia de João, ambos reis, mas estas acolitâncias não são de sabor menor, e por falar disto, aí tens

  • a berlinda do estribeiro-menor,
  • as três que vêm atrás são do corregedor da corte e dos fidalgos da casa de el-rei,
  • segue-se a estufa do estribeiro-mor,
  • depois os coches dos camaristas dos infantes, e agora atenção, agora é que começa a valer a pena, estes coches e estufas vazios que passam são os coches e estufas de respeito das reais pessoas,
  • a seguir, a cavalo, aparece o estribeiro-menor, enfim, chegou o momento, põe o joelho em terra, João Elvas, que estão passando el-rei e o príncipe D. José, e o infante D. António, é o teu rei quem passa, papagaio real que vai à caça, vê que majestade, que presença incomparável, que gracioso e severo semblante, assim Deus estará no céu, não duvides, ai João Elvas, João Elvas, por muitos anos que ainda tenhas para viver nunca hás-de esquecer este momento de felicidade perfeita, quando viste D. João V passando no seu coche, estando tu de joelhos ao pé destas piteiras, guarda bem na memória estas imagens, ó privilegiado, e agora podes-te levantar, já passaram, já lá vão,
  •  iam também seis moços de estribeira, a cavalo, estas quatro estufas, aqui, levam a câmara de sua majestade,
  • depois vem a sege do cirurgião, se vão tantos dos que tratam das almas, alguém havia de vir para cuidar do corpo, daí para trás é que já não há muito que ver,
  • seis seges de reserva,
  • sete cavalos de mão,
  • a guarda de cavalaria com o seu capitão,
  • e mais vinte e cinco seges que são do barbeiro de el-rei, dos copeiros, dos moços de câmara, dos arquitectos, dos capelães, dos médicos, dos boticários, dos oficiais de secretaria, dos reposteiros, dos alfaiates, das lavadeiras, do cozinheiro-mor, e do menor, e mais e mais,
  • duas galeras que levam o guarda-roupa de el-rei e do príncipe, e, a fechar,
  • vinte e seis cavalos de mão,

alguma vez viste um cortejo como este, João Elvas, agora junta-te a esse rebanho de pedintes, que lá é o teu lugar, e não me agradeças a caridade de te ter explicado tudo, todos somos filhos do mesmo Deus.

Juntou-se João Elvas à tropa dos vagabundos, mais sabedor de cortes que todos eles, e não foi muito bem recebido, esmola dividida por cem não é igual a esmola que cento e um dividam, mas o grosso cajado que leva ao ombro como uma lança, e certa marcialidade de passo e gesto, acabaram por intimidar a quadrilha. Meia légua andada, todos eram irmãos. Quando chegaram aos Pegões, já el-rei estava jantando, uma refeição leve, de pé, umas adéns estufadas com marmelos, uns pastelinhos de tutano, uma olha moura, quanto bastava para aconchegar a cova dum dente. Entretanto, mudavam-se os cavalos. A falperra de pedintes ajuntou-se à porta das cozinhas, armou v seu coro de padre-nossos e salverainhas, e enfim manjou do caldeirão. Alguns, só porque comeram hoje, deixaram-se ficar por ali, a esmoer, imprevidentes. Outros, ainda que fartos, sabendo que o pão de agora não mata a fome de ontem, muito menos a de amanhã, seguiram a pitança que já lá ia no caminho. João Elvas, por suas próprias razões, puras e impuras, foi com eles.

Pelas quatro horas da tarde, chegou el-rei a Vendas Novas, pelas cinco João Elvas. Daí a pouco fez-se noite, o céu carregou-se, parecia que levantando o braço se chegava às nuvens, acho que já uma vez dissemos isto, e quando, à hora da ceia, distribuíram comida, preferiu o antigo soldado fornecer-se de alimentos sólidos para ir comer em paz e sozinho debaixo de um telheiro qualquer, de um carro de lavoura, se possível longe da conversa dos lazarentos, que o enfadava. Parece não ter que ver o ameaço da chuva com o desejo de isolamento de João Elvas, é não pensar em quanto de estranho há em certos homens, sozinhos toda a vida e que amam a solidão, muito mais se está chovendo e é dura a côdea.

Às tantas, não sabia João Elvas se estava acordado ou adormecera, sentiu um restolhar na palha, alguém se aproximava trazendo na mão um candil. Pela cor e qualidade da meia e do calção, pelo estofo da capa, pela laçaria dos sapatos, percebeu João Elvas que o visitante era fidalgo, e logo o reconheceu como aquele que tão seguras informações lhe dera em cima do valado. Esbaforida e queixosa, sentou-se a nobre pessoa, Estou cansado de andar à tua procura, corri as Vendas Novas todas, onde está o João Elvas, onde está o João Elvas, ninguém me sabia dar resposta, porque será que os pobres não dizem uns aos outros quem são, enfim, já te encontrei, vinha contar-te como é o palácio que el-rei mandou fazer para esta passagem, olha que se trabalhou nele durante dez meses, de noite e de dia, só para o trabalho nocturno se gastaram mais de dez mil archotes, e aqui andaram para cima de dois mil homens, entre pintores, ferreiros, entalhadores, ensambladores, serventes, soldados de infantaria e cavalaria, e sabes tu que a pedra de alvenaria vinha de três léguas de distância, carretas de transporte passaram de quinhentas, e outras de menor porte, foi assim que veio todo o necessário, a cal, as vigas, os tabuados, as cantarias, os tijolos, as telhas, as cavilhas, as ferragens, e as cavalgaduras de tiro foram mais de duzentas, de maior vulto que isto só o convento de Mafra, não sei se conheces, mas valeu a pena e o trabalho, e também o dinheiro, digo-te em confidência, mas disto não farás uso, que neste palácio e na casa que viste em Pegões se gastou um milhão de cruzados, sim, um milhão claro que não imaginas o que é um milhão de cruzados, João Elvas, porém, não sejas mesquinho, nem sequer saberias o que havias de fazer a tanto dinheiro, ao passo que el-rei sabe-o muito bem, aprendeu desde pequenino, os pobres não sabem gastar, os poderosos sim, o que lá vai de pinturas e de armações sumptuosas, com acomodações para o cardeal e para o patriarca, e tem casa de dossel, gabinete e câmara para o senhor D. José, e aposentos iguais para a infanta D. Maria Bárbara quando cá passar, e as duas alas, uma é para a rainha, outra para o rei, assim ficam à vontade, escusam de dormir apertados, em todo caso largueza de cama como a tua é que não se vê muitas vezes, parece que tens a terra inteira para teu uso, aí ressonando como um porco, salvo seja, de braços e pernas abertos em cima da palha, capote a cobrir, e não cheiras nada bem, João Elvas, deixa lá que se nos tornarmos a encontrar, trago-te um frasquinho de água-da-hungria, e estas são as novas que tinha para te dar, não te esqueças de que el-rei sai para Montemor às três da madrugada, se quiseres ir com ele, não te deixes dormir.

Deixou-se dormir João Elvas, quando acordou passava das cinco e chovia se Deus a dava. Pelo clarear da manhã percebeu que el-rei, se pontualmente saíra, já iria longe. Enrolou-se no capote, encolheu as pernas como se ainda estivesse dentro da barriga da mãe, e dormitou ao calor da palha, no bom cheiro dela quando a aquece um corpo humano. Há gente fidalga, ou nem tanto, que não suporta cheiros assim, disfarçam se podem os seus próprios cheiros naturais, e ainda falta vir o tempo de com falso perfume de rosa se ungirem rosas falsas, e dizerem esses, Que bem que cheiram. Qual fosse o motivo por que lhe estavam vindo à ideia estes pensamentos, não o sabia João Elvas, duvidoso de estar sonhando ou em devaneio acordado. Enfim abriu os olhos, saiu do sono. A chuva caía com força, vertical e sonora, coitadas de suas majestades, sujeitas a terem de viajar com um tempo destes, os filhos nunca poderão agradecer os sacrifícios que os pais fazem por eles. A caminho de Montemor ia D. João V, sabe Deus com que coragem lutando contra as dificuldades, os enxurros, os lamaçais, as ribeiras de engrossadas águas, aperta-se o coração só de imaginar o susto daqueles senhores, os camaristas e confessores, os clérigos e fidalgos, aposto que meteram os trombeteiros as trombetas no saco para não se engasgarem e que os atabales não precisam das macetas para se lhes ouvir o rufo, tão forte cai a chuva. E a rainha, que terá acontecido à rainha, a estas horas já saiu de Aldegalega, vem com a infanta D. Maria Bárbara, mais o infante D. Pedro, este é outro, com o mesmo nome do primeiro, frágeis mulheres, criança frágil, expostas aos agravos do mau tempo, ainda dizem que o céu está com os poderosos, vede, vede como é para todos a chuva quando cai.

João Elvas passou todo este dia no quente das tabernas, adubando com a malga do vinho as viandas do alforge, prodigamente abastecido pela ucharia de sua majestade. No geral, os pedintes do coice tinham-se deixado ficar pela vila, esperando que estiasse para irem no encalce do cortejo. Mas a chuva não parou. Caía a noite quando as primeiras viaturas da comitiva de D. Maria Ana começaram a entrar em Vendas Novas, mais parecendo um exército em debandada que cortejo real. As cavalgaduras, derreadas, mal podiam arrastar as berlindas e os coches, algumas iam-se abaixo das mãos e morriam ali mesmo, presas aos arreios. Os criados e os moços de cavalaria agitavam archotes, a vozearia atroava, e foi a confusão tamanha que se achou ser impossível encaminhar aos seus respectivos aposentos todos os acompanhantes da rainha, de modo que muitos deles tiveram de voltar para Pegões, onde finalmente se instalaram, sabe Deus em que deplorável estado. Foi uma noite de grande desastre. No dia seguinte, deitaram-se contas e viu-se que tinham morrido dezenas de bestas, não contando as que ficaram pelo caminho, com os peitos rebentados ou os membros partidos. As damas davam-lhes esvaimentos de cabeça e delíquios, os senhores disfarçavam a estafa rodando a capa pelos salões, e a chuva continuava a inundar tudo, como se Deus, por alguma zanga particular não comunicada à humanidade, tivesse, à falsa fé, decidido repetir o dilúvio universal, agora definitivo.

Quisera a rainha seguir para Évora nessa mesma madrugada, mas foi-lhe representado o perigo da empresa, além de virem atrasadas muitas carruagens, o que resultaria em prejuízo da dignidade do cortejo, E os caminhos, saiba vossa majestade, estão que não se pode, quando el-rei por eles passou, foi uma calamidade, que fará agora, com a interminável chuva que caiu, dia e noite, noite e dia, mas já está despachada ordem ao juiz-de-fora de Montemor para que mande juntar homens que vão reparar os caminhos, cegar os atoleiros e aplainar as quebradas, vossa majestade descansa este dia onze em Vendas Novas, no majestoso palácio que el-rei mandou construir, tem aqui todas as comodidades, distrai-se com a princesa e aproveita para lhe dar os últimos conselhos de mãe, Olha, minha filha, os homens são sempre uns brutos na primeira noite, nas outras também, mas esta é pior, eles bem nos dizem que vão ter muito cuidado, que não vai doer nada, mas depois, credo em cruz, não sei o que lhes passa pela cabeça, põem-se a rosnar, a rosnar, como uns dogues, salvo seja, e as pobrezinhas de nós não temos mais remédio que sofrer-lhes os assaltos até conseguirem os seus fins, ou então ficam em pouco, às vezes sucede, e nesse caso não devemos rir-nos deles, não há nada que mais os ofenda, o melhor é fingir que não demos por nada, porque se não for na primeira noite, é na segunda, ou na terceira, do sofrimento ninguém nos livra, e agora vou mandar chamar o senhor Scarlatti para nos distrair dos horrores desta vida, a música é uma grande consolação, minha filha, a oração também, acho que tudo é música, se não é oração tudo.

Enquanto foram dados os conselhos e se dedilhou o cravo, aconteceu ser João Elvas engajado para o conserto dos caminhos, são azares a que nem sempre se pode escapar, vai um homem a correr de um beiral para outro, a fugir à chuva, e ouve uma voz, Alto, é um quadrilheiro, conhece-se logo pelo tom, e tão supitânea foi a interpelação que nem deu tempo a João Elvas de fingir-se velho caduco, a autoridade ainda hesitou ao dar com mais cabelos brancos do que esperava, mas finalmente prevaleceu a agilidade da corrida, quem assim é capaz de se mexer, pode bem com pá e enxada. Quando João Elvas, com outros apanhados, chegou ao descampado onde o caminho desaparecia entre charcos e lodaçais, já lá andavam muitos homens carreando terra e pedras dos cômoros mais enxutos, era um trabalho de tirar dali e lançar aqui, outras vezes abriam-se canais para escoamento das águas, cada homem era um fantasma de barro, um fantoche, um espantalho, em pouco tempo ficou João Elvas como os outros, melhor teria feito se se tivesse deixado ficar em Lisboa, por mais que uma pessoa se esforce, não pode voltar à infância. Todo o dia andaram na dura faina, a chuva abrandou, e essa foi a melhor ajuda, pois assim ganharam os aterros alguma consistência, se não vier de noite outro temporal desfazer tudo. D. Maria Ana dormiu bem, debaixo do seu alto cobertor de penas, que para todo o lado leva, embalada no suave sono pela chuva que caía, mas, como as mesmas causas não produzem sempre os mesmos efeitos, depende das pessoas, das ocasiões, dos cuidados que se levam para a cama, aconteceu à princesa D. Maria Bárbara prolongarem-se-lhe pela noite dentro os ecos das bátegas que tombavam do céu, ou seriam as palavras inquietantes que ouvira da mãe. Dos que tinham andado na estrada, uns dormiram bem, outros mal, dependia do cansaço, que quanto a agasalho e alimento não se podiam queixar, sua majestade não regateou cómodos e comida quente, à estimação do mérito dos trabalhadores. Manhã cedo, enfim, saiu de Vendas Novas a comitiva da rainha, já com as carruagens que tinham ficado para trás, nem todas, perdidas essas para sempre ou de mais demorado conserto, mas vai tudo com um ar pingão, empapados os panos, desluzidos os ouros e as cores, se não vier um arzinho de sol, será o casamento mais triste que alguma vez se viu. Agora não está a chover, mas o frio aperta e queima as carnes, não faltam frieiras por essas mãos, apesar dos regalos e das mantas, falamos das damas, claro está, tão entanguidas e constipadas que fazem dó. A frente do cortejo vai a pandilha cantoneira, em carros de bois, e, havendo atoleiro, ribeira transbordada ou aluimento, saltam abaixo e vão remediar, entretanto fica parado o comboio, esperando no meio da grande desolação da natureza. De Vendas Novas e outros lugares ao redor tinham vindo juntas de bois, não uma nem duas, dezenas para tirarem dos lamaçais as seges, as berlindas, as galeras, os coches que neles constantemente se atolavam, passava-se o tempo nisto, desatrelar as mulas e os cavalos, atrelar os bois, puxar, desatrelar os bois, atrelar os cavalos e as mulas, no meio de muita gritaria e chicotada, e quando o coche da rainha se atascou até aos cubos das rodas e foi preciso tirá-lo do atoleiro com seis juntas de bois, um homem que ali estava e viera da sua terra por mandado do juiz de fora, disse, como se consigo próprio falasse, más estava João Elvas perto e ouviu, Até parece que estamos aqui a puxar a pedra de Mafra. Sendo altura de se esforçarem os bois, folgavam um pouco os homens, por isso João Elvas perguntou, Que pedra era essa, homem, e o outro respondeu, Era uma pedra do tamanho duma casa, que foi levada de Pêro Pinheiro para a obra do convento de Mafra, só a vi quando chegou, mas ainda dei uma ajuda, foi no tempo em que eu lá andava, E era grande, Era a mãe da pedra, isto dizia um amigo que a trouxe da pedreira e que depois foi para a terra dele, eu vim logo a seguir, não quis mais. Os bois, atascados até à barriga, puxavam sem esforço aparente, como se quisessem, às boas, convencer a lama a deixar de fazer presa. Enfim, as rodas do coche assentaram em firme e a grande maquineta foi arrancada do atoleiro, entre aplausos, enquanto a rainha sorria a princesa acenava e o infante D. Pedro, garoto, disfarçava o seu grande desgosto de não poder patinhar na lama.

Foi assim todo o caminho até Montemor, menos de cinco léguas que levaram quase oito horas de contínuo trabalho, de extenuamento de homens e bestas, cada qual segundo a sua especialidade. Bem desejava a princesa D. Maria Bárbara dormitar, repousar daquela aflita insónia, mas os solavancos do coche, a gritaria dos atletas da força, o tropear dos cavalos que iam e vinham com ordens, atordoavam-lhe a pobre cabecinha, punham-na em grande angústia, que trabalhos, meu Deus, tanta confusão para casar uma mulher, é certo que princesa. A rainha vai murmurando orações, menos para esconjurar os limitados perigos do que para passar o tempo, e como já anda cá neste mundo há não poucos anos, habituou-se, uma vez por outra desliza para o sono, donde logo regressa, e torna às orações desde o princípio, como se nada fosse. Do infante D. Pedro, por enquanto, não há mais que dizer.

Mas a conversa entre João Elvas e o homem que falara da pedra continuou mais adiante, disse o velho, De Mafra era um amigo meu de há muitos anos, nunca mais tive notícias dele, vivia em Lisboa, um dia desapareceu-me da vista, coisas que acontecem, quem sabe se teria voltado para a terra, Se voltou para lá, talvez eu o tivesse encontrado, que nome era o dele, Chamava-se Baltasar Sete-Sóis e era maneta da mão esquerda, ficou-lhe na guerra, Sete-Sóis, Baltasar Sete-Sóis, não conheci eu outra pessoa, fomos camaradas no trabalho, Fico muito contente, afinal o mundo é bem pequeno, viemos dar os dois a esta estrada, e temos o mesmo amigo, Sete-Sóis era um bom homem, Terá morrido, Não sei, acho que não, com uma mulher como a dele, uma tal Blimunda, que tinha uns olhos de que nunca se sabia bem a cor, com uma mulher daquelas, um homem agarra-se à vida, não a larga nem que tenha só a mão direita, À mulher não a conheci, Sete-Sóis vinha às vezes com umas ideias esquisitas, um dia até disse que já tinha estado perto do sol, Seria efeito de vinho, Estávamos todos a beber quando ele o disse, mas nenhum de nós estava bêbedo, ou estaríamos e já me esqueci, o que ele queria dizer na sua, é que tinha voado, Voado, Sete- Sóis, essa nunca tal ouvi.

Veio a ribeira de Canha atravessar-se na conversa, caudalosa, espumejante, do outro lado juntara-se o povo de Montemor que viera esperar a rainha fora de portas, e, com o trabalho de todos, mais a ajuda de uns barris que ajudaram à flutuação das carruagens, daí a uma hora estavam a jantar na vila, os senhores nos lugares próprios da sua distinção, os ajudas ao acaso, uns comendo calados, outros conversando, como João Elvas que dizia no tom de quem continua duas conversas, uma com o interlocutor, outra consigo próprio, Estou-me a lembrar de que o Sete-Sóis, quando viveu em Lisboa, se dava muito com o Voador, que até fui eu que lho apontei, um dia que estávamos no Terreiro do Paço, lembro-me como se fosse ontem, Quem era o tal Voador, O Voador era um padre, o padre Bartolomeu Lourenço, que depois veio a morrer em Espanha, fez agora quatro anos, foi um caso de que se falou muito, o Santo Ofício meteu o nariz, quem sabe se estaria Sete-Sóis nesse negócio, Mas o Voador chegou a voar, Houve quem dissesse que sim, houve quem dissesse que não, vá lá agora saber-se, Certo certo é ter o Sete-Sóis declarado que esteve perto do sol, isso ouvi eu, Deve haver um segredo, Haverá, e com esta resposta que perguntava calou-se o homem da pedra, e ambos acabaram de comer.

As nuvens tinham-se levantado, pairavam alto, a chuva já não ameaçava tanto. Os homens que vieram de lugares entre Vendas Novas e Montemor não continuam. Foram pagos pelo trabalho, jornal a dobrar por bondade interventora da rainha, tem sempre sua compensação levar às costas os poderosos. João Elvas seguia viagem, agora talvez com mais comodidade, porquanto se fizera conhecido de sotas e cocheiros, acaso o deixariam ir sentado numa galera, com as pernas penduradas, a dar a dar, acima da lama e da bosta. O homem que falara da pedra estava na berma da estrada, olhava com os seus olhos azuis o velho que se acomodava entre dois arcazes. Não tornarão a ver-se mais, é o que se supõe, que o futuro nem Deus o sabe, e quando a galera começou a andar, disse João Elvas, Se um dia encontrares o Sete-Sóis, diz-lhe que falaste com o João Elvas, ele deve lembrar-se de mim, e que lhe mando um abraço, Lá direi, lá darei, mas se calhar não o torno a ver, E tu, como é que te chamas, O meu nome é Julião Mau-Tempo, Então adeus, Julião Mau-Tempo, Adeus, João Elvas.

De Montemor a Évora não vão faltar trabalhos. Voltou a chover, tornaram os atoleiros, partiram-se eixos, rachavam-se como gravetos os raios das rodas. A tarde caía rapidamente, o ar arrefecia, e a princesa D. Maria Bárbara, que enfim adormecera, auxiliada pelo torpor emoliente dos caramelos com que aconchegara o estômago e por quinhentos passos de estrada sem buracos, acordou com um grande arrepio, como se um dedo gelado lhe tivesse tocado na testa, e, virando os olhos ensonados para os campos crepusculares, viu parado um pardo ajuntamento de homens, alinhados na beira do caminho e atados uns aos outros por cordas, seriam talvez uns quinze.

Afirmou-se melhor a princesa, não era sonho nem delírio, e turbou-se de tão lastimoso espectáculo de grilhetas, em véspera das suas bodas, quando tudo devia ser ledice e regozijo, já não chegava o péssimo tempo que faz, esta chuva, este frio, teriam feito bem melhor se me casassem na Primavera. Cavalgava à estribeira um oficial, a quem D. Maria Bárbara ordenou que mandasse saber que homens eram aqueles e o que tinham feito, que crimes, e se iam para o Limoeiro ou para a África. Foi o oficial em pessoa, talvez por muito amar esta infanta, já sabemos que feia, já sabemos que bexigosa, e daí, e vai levada para Espanha, para longe do seu puro e desesperado amor, querer um plebeu a uma princesa, que loucura, foi e voltou, não a loucura, ele, e disse, Saiba vossa alteza que aqueles homens vão trabalhar para Mafra, nas obras do convento real, são do termo de Évora, gente de ofício, E vão atados porquê, Porque não vão de vontade, se os soltam fogem, Ah. Recostou-se a princesa nas almofadas, pensativa, enquanto o oficial repetia e gravava em seu coração as doces palavras trocadas, há-de ser velho, caduco e reformado, e ainda se recordará do mavioso diálogo, como estará ela agora, passados todos estes anos. A princesa já não pensa nos homens que viu na estrada. Agora mesmo se lembrou de que, afinal, nunca foi a Mafra, que estranha coisa, constrói-se um convento porque nasceu Maria Bárbara, cumpre-se o voto porque Maria Bárbara nasceu, e Maria Bárbara

  • não viu,
  • não sabe,
  • não tocou com o dedinho rechonchudo a primeira pedra, nem a segunda,
  • não serviu com as suas mãos o caldo dos pedreiros,
  • não aliviou com bálsamo as dores que Sete-Sóis sente no coto do braço quando retira o gancho,
  • não enxugou as lágrimas da mulher que teve o seu homem esmagado,

e agora vai Maria Bárbara para Espanha, o convento é para si como um sonho sonhado, uma névoa impalpável, não pode sequer representá-lo na imaginação, se a outra lembrança não serviria a memória. Ai as culpas de Maria Bárbara, o mal que já fez, só porque nasceu, nem é preciso ir muito longe, bastam aqueles quinze homens que além vão, enquanto passam

  • as seges com os frades,
  • as berlindas com os fidalgos,
  • as galeras com os guarda-roupas,
  • as estufas com as damas,

e destas as arcas com

  • as jóias, e todo o mais recheio,
  • os sapatinhos bordados,
  • as frasqueiras de água-de-flor,
  • as contas de ouro,
  • as charpas bordadas de ouro e prata,
  • as roupinhas,
  • as pulseiras,
  •  os opulentos manguitos,
  • as borlas de polvilhas,
  • as pelatinas de arminho,

oh quão deliciosamente pecadoras são as mulheres, e belas, ou mesmo quando bexigosas e feias
como esta infanta que vamos acompanhando, bastaria a sedutora melancolia, o cismático semblante, nem lhe faz falta o pecado, Senhora mãe e rainha minha, aqui estou eu indo para Espanha, donde não voltarei, e em Mafra sei que se constrói um convento por causa de voto em que fui parte, e nunca ninguém de cá me levou a vê-lo, há nisto muita coisa que não sei entender, Minha filha e futura rainha, não retires ao tempo que deve ser de oração o tempo de vãos pensamentos, tais são esses, a real vontade de teu pai e, senhor nosso quis que se levantasse o convento, a mesma real vontade quer que vás para Espanha e o convento não vejas, só a vontade de el-rei prevalece, o resto é nada, Então é nada esta infanta que eu sou, nada os homens que vão além, nada este coche que nos leva, nada aquele oficial que ali vai à chuva e olha para mim, nada, Assim é, minha filha, e quanto mais se for prolongando a tua vida, melhor verás que o mundo é como uma grande sombra que vai passando para dentro do nosso coração, por isso o mundo se torna vazio e o coração não resiste, Oh, minha mãe, que é nascer, Nascer é morrer, Maria Bárbara.

O melhor das viagens longas são estes filosóficos debates. O infante D. Pedro, cansado, dorme com a cabeça apoiada no ombro da mãe, é um bonito quadro familiar, e veja-se como esta criança é finalmente igual a todas as outras, dormindo deixa pender o queixo, em confiante abandono, e um fio de saliva corre-lhe para os folhos do cabeção bordado. A princesa enxuga uma lágrima. Ao longo do cortejo começam a acender-se os archotes, são como um rosário de estrelas caído das mãos da Virgem e que, por acaso, se não especial preferência, veio pousar em terra portuguesa. Entraremos em Évora já noite fechada. Está el-rei à espera, com os infantes D. Francisco e D. António, está o povo de Évora dando vivas, a luz dos archotes tornou-se esplendoroso sol, os soldados disparam as salvas do estilo, e quando a rainha e a princesa passam para o coche de seu marido e pai, o entusiasmo atinge o delírio, nunca se viu tanta gente feliz. João Elvas já saltou da galera em que veio, doem-lhe as pernas, a si próprio promete que futuramente lhes dará o uso para que foram feitas, em vez de se deixar ir no embalo do carroção, não há nada melhor que andar um homem por seu pé. Durante a noite não lhe apareceu o fidalgo, e se aparecesse que diria, notícias de banquetes e dosséis, de visitas a conventos e distribuição de títulos, de esmolas e beija-mãos. De tudo, só a esmolinha lhe faria arranjo, mas não hão-de faltar oportunidades. Hesitou João Elvas, no dia seguinte, se acompanharia o rei ou a rainha, mas acabou por escolher D. João V, e bem fez, porque a pobre D. Maria Ana, saindo um dia depois, veio a apanhar uma chuva de neve que parecia estar nas suas terras de Áustria, quando não fazia mais que dirigir-se a Vila Viçosa, lugar de assinalados calores em outra estação, como todos estes espaços que vimos atravessando. Enfim, pela manhãzinha do dia dezasseis, oito dias depois de ter partido el-rei de Lisboa, saiu completo o cortejo para Elvas, rei, capitão, soldado, ladrão, são irreverências de garotos que nunca viram tanta magnificência junta, imagine-se, só as carruagens da casa real são cento e setenta, agora ponham-me as dos muitos nobres que também vão, e as das comunidades de Évora, e as de particulares que não querem perder a ocasião de ilustrar a história da família, teu trisavô acompanhou a família real a Elvas quando foi da troca das princesas, nunca te esqueças, ouviste.

À estrada saía o povo miúdo daquelas terras e de joelhos implorava a piedade real, parece que adivinhavam os míseros, porque a seus pés levava D. João V um baú de moedas de cobre, que ia lançando, às mãos cheias, a um lado e a outro, em gestos largos de semeador, o que causava grande alvoroço e gratidão, violentamente se desfaziam as fileiras e se disputavam os dinheiros arremessados, e então era ver como velhos e novos remexiam na lama onde se enterrara um real, como tacteavam cegos o fundo das águas lodosas onde um real se afundara, enquanto as reais pessoas iam passando, passando, graves, severas, majestosas, sem abrirem um sorriso, porque também Deus não sorri, ele lá saberá porquê, talvez tenha acabado por se envergonhar do mundo que criou. João Elvas está por aí, quando estendeu o chapéu a el-rei, questão de o saudar como era sua obrigação de súbdito, caíram-lhe dentro umas poucas moedas, é um homem de sorte este velho, nem precisa baixar-se, vão-lhe bater as felicidades à porta e as moedas à mão.

Passava das cinco da tarde quando o cortejo chegou à cidade. Salvou a artilharia, e tão combinadas estas coisas pareciam, que do outro lado da fronteira retumbaram igualmente uns tiros, era a entrada dos reis de Espanha em Badajoz, quem aqui tivesse vindo desprevenido julgaria que estaria para travar-se uma grande batalha, contra o costume indo ao combate o rei e o ladrão, além do soldado e capitão que sempre vão. Porém, são tiros de paz, fogos de outro artifício, como à noite as luminárias e as artes pirotécnicas, agora desceram o rei e a rainha do coche, o rei quer ir a pé, da porta da cidade até à catedral, mas o frio é tanto, rapa nas mãos que as engadanha, rapa na cara que a arrepanha, a pontos tais que D. João V se resigna a perder esta primeira escaramuça, volta a subir para o coche, logo à noite talvez diga duas palavras secas à rainha, pois ela foi quem se negou, queixosa do gelado ar, quando a el-rei daria gosto e satisfação percorrer por seu pé as ruas de Elvas, atrás do cabido que o esperava de cruz alçada e Santo Lenho, beijado sim, mas não acompanhado, esta via crucis não a palmilhou D. João V.

Provado está que Deus ama muito as suas criaturas. Depois de, por espaço de tantos quilómetros e tempo de tantos dias, as ter experimentado em paciência e constância, mandando-lhes insuportáveis frios e chuvas diluviais, consoante foi miudamente explicado, quis premiar a resignação e a fé. E como a Deus nada é impossível, bastou-lhe fazer subir a pressão atmosférica, pouco a pouco se levantaram as nuvens, apareceu o sol, e tudo isto se deu enquanto os embaixadores combinavam a forma em que os reis se haviam de tratar, espinhosa negociação, foram precisos três dias para se rematar o acordo, combinados finalmente todos os passos, gestos e dizeres, minuto por minuto, para que se não desdourasse nenhuma das coroas em atitude ou palavra de menor preço por comparação com a vizinha. Quando, no dia dezanove, saiu el-rei de Elvas a caminho do Caia, que é logo ali adiante, levando a rainha e os príncipes, com os infantes todos, estava o mais formoso tempo que se podia desejar, cheio de sereno e agradável sol. Imagine, pois, quem lá não esteve,

  • as galas do extensíssimo cortejo,
  •  os frisões de crinas entrançadas puxando os coches,
  • as cintilações do ouro e da prata,
  • as trombetas e os atabales à compita,
  •  os veludos
  • os archeiros,
  • os esquadrões da guarda,
  • as insígnias da religião,
  • as faiscantes pedrarias,

já tínhamos visto tudo isto debaixo de chuva, agora juraremos que não há nada como o sol para alegrar a vida dos homens e honrar as cerimónias.

O povo de Elvas e de muitas léguas em redor assiste na estrada, depois larga a correr através dos campos para se colocar, espectador, ao longo do rio, é um mar de gente de um e outro lado, portugueses de cá, espanhóis de lá, dão vivas e parabéns, ninguém diria que há tantos séculos andamos a matar-nos uns aos outros, posto o que estaria talvez o remédio em casar os de além com os de aquém, guerras, se as houver, serão só as domésticas, que essas não se podem evitar. João Elvas está aqui há três dias, arranjou um bom lugar, que seria de palanque, se os houvesse. Por singular capricho não quis entrar na cidade onde nasceu, deram as saudades nesta abstenção. Há-de lá ir quando todos partirem, quando puder andar, sozinho, pelas ruas silenciosas, sem mais jubilamento que o seu próprio, se ainda o sentir, se não for antes dolorosa amargura repetir em velho os passos dados quando novo. Foi graças a esta decisão que pôde, para dar ajuda à transportação de materiais, entrar na casa onde se encontrarão os reis e os príncipes, a qual foi construída sobre a ponte de pedra que atravessa o rio. Tem essa casa três salas, uma de cada lado para os soberanos de cada país, outra central para as entregas, toma lá Bárbara, dá cá Mariana. Dos apuros finais é que nada sabe, a ele competiu-lhe carregar a obra grossa, mas mesmo agora se afastou daqui aquele caridoso fidalgo, providência de João Elvas nesta viagem, Se visses como aquilo ficou, nem reconhecias,

  • do nosso lado são tudo tapeçarias e cortinados de damasco carmesim com sanefas de brocado de ouro, e igualmente a metade da sala do meio que nos pertence, e
  • no tocante a Castela os adornos são tiras de brocado branco e verde, tendo ao meio um grosso ramo de ouro donde aquelas saem, e ao centro da sala de encontro há uma grande mesa com sete cadeiras do lado de Portugal e seis do lado de Espanha, todas forradas de tissu de ouro as nossas, e de prata as deles,

isto é só o que te posso dizer, porque mais não vi, e agora vou-me, mas não tenhas inveja de mim, porque lá nem eu posso entrar, quanto mais tu, imagina se fores capaz, se um dia nos tornarmos a encontrar, eu te contarei como foi, se a mim mo contarem antes, para sabermos as coisas é assim que terá de ser, vamo-las dizendo uns aos outros. Foi muito comovente, choraram as mães e as filhas, os pais carregaram o cenho para disfarçar o sentimento, os nubentes olhavam-se de soslaio, gostando-se ou não, eles o sabem, eles o calarão. Aglomerado nas margens do rio, o povo não via nada, mas servia-se das suas próprias experiências e recordações de boda, e assim imaginava os abraços dos compadres, as efusões das comadres, as malícias sonsas dos noivos, os rubores calculados das noivas, ora, ora, tanto faz rei como carvoeiro, não há melhor que o parrameiro, isto, a bem dizer, é um povo de grosseirões. Levou seu tempo a cerimónia. Às tantas calou-se por milagre a multidão, mal se moviam as auriflamas e os estandartes nos mastros, os soldados olharam todos na direcção da ponte e da casa. Começara a ouvir-se uma música delgadinha, suavíssima, um tilintar de sininhos de vidro e prata, um harpejo às vezes rouco, como se a comoção apertasse a garganta da harmonia, Que é isto, perguntou uma mulher ao lado de João Elvas, e o velho respondeu, Não sei, alguém que está a tocar para divertimento das majestades e altezas, se estivesse aqui o meu fidalgo perguntava-lhe, ele sabe tudo, é lá deles. Acabará a música, todos irão aonde têm de ir, corre sossegadamente o rio Caia, de bandeiras não resta um fio, de tambores um rufo, e João Elvas nunca chegará a saber que ouviu Domenico Scarlatti tocando no seu cravo.

Capítulo XXIII

À frente, por serem de maior grandeza corporal e portanto lhes caber justa capitania, vão

  • S. Vicente e S. Sebastião, ambos mártires, embora do martírio daquele não se veja outro sinal que a simbólica palma, o resto são atavios de diácono e emblemático corvo, ao passo que o outro santo se apresenta na conhecida nudez, atado à árvore, com aqueles mesmos buracos de horríveis feridas, donde por prudência se desencaixaram os dardos, não fossem partir-se durante a viagem. Logo a seguir vêm as damas, três graças preciosas, a mais bela de todas
  • Santa Isabel Rainha da Hungria, que morreu na idade de vinte e quatro anos apenas, e depois
  • Santa Clara e Santa Teresa, mulheres muito apaixonadas, que em fogo interior arderam, é o que se presume das suas acções e palavras, quanto mais presumiríamos se soubéssemos de que é feita a alma das santas. Quem bem chegado vem a Santa Clara é
  •  S. Francisco, não admira a preferência, conhecem-se desde Assis, encontraram-se agora neste caminho de Pintéus, de pouco valeria a amizade, ou lá o que foi que os uniu, se não continuassem a conversa na palavra que ficou em meio, como íamos dizendo. Se este é o lugar que realmente melhor conviria a S. Francisco, por ser, de todos os santos que vão nesta leva, o de mais feminis virtudes, de coração manso e alegre vontade, também em lugar certo vêm
  • S. Domingos e Santo Inácio, ambos ibéricos e sombrios, logo demoníacos, se não é isto ofender o demónio, se não seria justo, afinal, dizer que só um santo seria capaz de inventar a inquisição e outro santo a modelação das almas. É evidente, para quem conheça estas polícias, que S. Francisco vai sob suspeita. Mas, nisto de santidades, há-as para todos os gostos. Quer-se um santo dedicado ao trabalho da horta e ao cultivo da letra, temos
  •  S. Bento. Quer-se outro de vida austera, sábia e mortificada, avance
  • S. Bruno. Quer-se ainda outro para pregar cruzadas velhas e reunir cruzados novos, não há melhor que
  •  S. Bernardo. Vêm os três juntos, talvez por parecenças de rosto, talvez porque as virtudes de todos, somadas, fariam um homem honesto, talvez por terem nos nomes a mesma primeira letra, não é raro juntarem-se as pessoas por acasos desses, quem sabe se não foi por esta precisa razão que se uniram algumas que conhecemos, como Blimunda e Baltasar, que, diga-se a propósito, falamos de Baltasar, é boieiro de uma das juntas que vão puxando
  • S. João de Deus, único santo português da confraria desembarcada da Itália em Santo António do Tojal e que vai, como quase tudo de que se fala nesta história, a caminho de Mafra.

Atrás de S. João de Deus, cuja casa em Montemor foi visitada, há mais de ano e meio, por D. João V, quando levou a princesa à fronteira, e dessa visita não se falou na ocasião própria, o que demonstra a pouca importância que damos às glórias nacionais, oxalá o santo nos perdoe a ofensa da omissão, atrás de S. João de Deus, íamos dizendo, segue uma meia dúzia doutros bem-aventurados de menos resplandecência, sem menosprezo dos muitos atributos e virtudes que os exornam, mas todos os dias a experiência nos ensina que, não ajudando a fama no mundo, não se alcança a celebridade no céu, desigualdade flagrante de que são vítimas todos estes santos, por sua menor significância reduzidos aos nomes, João da Mata, Francisco de Paula, Caetano, Félix de Valois, Pedro Nolasco, Filipe Neri, enunciados assim parecem homens comuns, e vá lá que não se podem queixar, vai cada qual no seu carro, e não a esmo, deitadinhos como os outros de cinco estrelas em macio leito de estopa, lã e sacos de folhelho, desta maneira não se amarrota a prega nem se torce a orelha, são estas as fragilidades do mármore, tão rijo parece, e com duas pancadas perde Vénus os braços. E nós vamos perdendo a memória, ainda agora juntámos Bruno, Bento e Bernardo a Baltasar e Blimunda, e esquecemos Bartolomeu, de Gusmão ou Lourenço, como queiram, mas desprezado é que não. Bem certo é o que se diz, ai de quem morre, duas vezes aí se não havia santidade verdadeira ou fingida que o salvasse.

Já passámos Pintéus, vamos no caminho de Fanhões, dezoito estátuas em dezoito carros, juntas de bois à proporção, homens às cordas na conta do já sabido, porém não é isto aventura que se compare com a pedra de Benedictione, são coisas que só podem acontecer uma vez na vida, se o engenho não engenhasse maneiras de tornar fácil o difícil, mais valia ter deixado o mundo na sua primeira brutidão. As populações vêm ao caminho festejar a passagem, só estranham de ver os santos deitados, e nisso têm razão, que mais formoso e edificante espectáculo não dariam as sacras figuras se viajassem de pé sobre os carros, como se fossem de andor, até os mais baixitos, que não chegam a três metros, medida nossa, seriam avistados de longe, que fariam os dois da frente,

  • S. Vicente e S. Sebastião, quase cinco metros de altura, gigantões atléticos, hércules cristãos, campeões da fé, olhando lá do alto, por cima dos valados e das copas das oliveiras, o vasto mundo, então sim, seria isto religião que nada ficaria a dever à grega e à romana.

Em Fanhões parou o cortejo porque os moradores quiseram saber, nome por nome, quem eram os santos que ali iam pois não é todos os dias que se recebem, ainda que de passagem, visitantes de tal grandeza corporal e espiritual, uma coisa é o quotidiano trânsito dos materiais de construção, outra, poucas semanas há, o intérmino cortejo dos sinos, mais de cem, que hão-de rebimbar nas torres de Mafra a imperecível memória destes acontecimentos, outra ainda este panteão sagrado. Foi o pároco da terra chamado à ciceronia, mas não soube dar boa conta do recado, porque nem todas as estátuas tinham visível o nome do pedestal, e em muitos casos por aí se ficaria a ciência identificadora do padre, uma coisa é ver logo que este é S. Sebastião, outra seria dizer, de cor e salteado, Amados filhos, o santo que aqui estão vendo é S. Félix de Valois, que foi educado por S. Bernardo, que vai lá à frente, e fundou com S. João da Mata, que aí vem atrás, a ordem dos trinitários, a qual foi instituída para resgatar os escravos das mãos dos infiéis, vede que admiráveis histórias se contam na nossa santa religião, Ah, ah, ah, ri o povo de Fanhões, e quando é que vem a ordem para resgatar os escravos das mãos dos fiéis, ó senhor prior.

Vistas as dificuldades, foi o padre ao governador deste transporte e pediu consulta dos papéis de exportação que tinham vindo de Itália, subtileza que lhe valeu recuperar a abalada credibilidade, e então puderam ver os moradores de Fanhões o seu ignorante pastor, alçado sobre o muro do adro, pregoando os benditos nomes pela ordem que iam passando os carros, até ao último, por acaso era S. Caetano, levado pelo José Pequeno, que tanto sorria aos aplausos como ria de quem os dava. Mas este José Pequeno é maligna criatura, por isso o puniu Deus, ou o Diabo o puniu, com a corcova que traz às costas, há-de ter sido Deus o do castigo, porque não consta que tenha o Diabo esses poderes em vida do corpo. Acabou o desfile, segue a santaria para Cabeço de Monte Achique, boa viagem.

Menos boa a têm os noviços do convento de S. José de Ribamar, ali para os lados de Algés e Carnaxide, a estas horas palmilhando o caminho para Mafra, por orgulho ou transposta mortificação do seu provincial. Foi o caso que, aproximando-se a data da sagração do convento, começou-se a acomodar e a pôr em boa arrecadação os caixões que de Lisboa se iam enviando com os paramentos para o culto divino e as coisas necessárias para o serviço da comunidade que o dito convento ia habitar. Foram estas ordens dadas pelo provincial, que, chegando a altura conveniente, deu outras, convém a saber, seguissem os noviços para a nova casa, o que, subindo ao conhecimento de el-rei, moveu o coração deste piedoso senhor, que quis fossem os noviços nas suas faluas até ao porto de Santo António do Tojal, assim lhes reduzindo o trabalho e a canseira do caminho. Porém, estavam os mares tão alterosos, tão agitados da fúria dos ventos, que seria loucura suicida ousar tal navegação, posto o que el-rei propôs que viajassem os noviços nos seus coches, ao que o provincial respondeu, agora sim, ardendo em santo escrúpulo, Que é isto, senhor, apurar confortos a quem se deve aos cilícios, descuidar lazeres a quem há-de ser sentinela, amaciar estofos a quem se prepara para sentar-se em espinhos, nunca eu tal veja, senhor, ou deixo de ser provincial, vão a pé, para exemplo e edificação dos povos, não são mais que Nosso Senhor, que só uma vez é que andou de burro.

Com argumentos de tal substância, retirou D. João V a oferta dos coches, como já retirara a das faluas, e os noviços, levando consigo apenas os breviários, partiram do convento de S. José de Ribamar pela manhã, trinta esparvados e bisonhos adolescentes, com seu mestre frei Manuel da Cruz, e outro frade de guarda, frei José de Santa Teresa. Pobres moços, pobres passarinhos implumes, já não chegava serem os mestres de noviços, por infalível regra, os mais temíveis tiranos, com aquela cisma das disciplinas diárias, seis, sete, oito, até ficarem os pobres com as costas em carne viva, já isto e ainda pior não bastava, como ter de transportar nos lombos, chagados e feridos, todos os pesos, para que não chegassem a sarar, e tinham agora de caminhar descalços seis léguas, por montes e vales, sobre pedras e lama, caminhos tão ruins que, comparado com eles, foi suave prado o chão pisado pelo burro que transportou a Virgem na fuga para o Egipto, de S. José não se falando por ser modelo de paciência.

Meia légua andada, por obra de topada, daquelas que abrem boca na cabeça do dedo grande, ou aresta assassina, ou contínua rapação das plantas na aspereza do solo, já os pés dos mais delicados sangravam, rasto de pias e vermelhas flores, seria um lindo quadro católico se não fosse o frio tanto, se não mostrassem os noviços os focinhos encieirados, os olhos lacrimejantes, muito custa a ganhar o céu. Iam rezando nos breviários, anestésico prescrito para todas as dores da alma, porém, estas são do corpo, um par de sandálias substituiria com proveito a mais eficaz das orações, meu Deus, se fazes muita questão nisso arreda as tentações de mim, mas primeiramente tira essa pedra do meu caminho, já que és o pai das pedras e dos frades, e não pai delas e padrasto meu. Não há vida pior que a do noviço, a não ser, talvez daqui por muitos anos, a do marçano, estamos até em dizer que o noviço é o marçano de Deus, que o diga um frei João de Nossa Senhora, noviço que foi desta mesma ordem franciscana e que há-de ir agora como pregador a Mafra no terceiro dia da sagração, mas não chegará a falar por ser só substituto, que o diga este frei João Redondo, assim chamado por causa da muita gordura que sendo frade ganhou, que em tempos de seu noviciado e magreza andou pelo Algarve a fazer um peditório de borregos para o convento, três meses levou nisto, roto, descalço, mal comido, imagine-se o tormento, juntar os animais, ir de terra em terra com o rebanho, pedir pelo amor de Deus mais um borreguinho, levá-los todos ao pasto, e, enquanto praticava tantos religiosos actos, sentindo o estômago às guinadas, da muita fominha, só pão e água, e com a tentação de um ensopado diante dos olhos. Vida mortificada é toda uma, noviço, marçano e recruta.

Os caminhos são muitos, mas às vezes repetem-se. Partindo de S. José de Ribamar, os noviços seguiram na direcção de Queluz, depois Belas e Sabugo, pararam algum tempo a descansar em Morelena, restauraram como puderam os atormentados pés na enfermaria, e depois, ao princípio sofrendo dores dobradas, enquanto ao novo sofrimento se não habituaram, continuaram caminho para Pêro Pinheiro, passagem pior que todas por estar o chão da estrada coberto de estilhas de mármore. Lá adiante, na descida para Cheleiros, viram uma cruz de pau à beira do caminho, sinal de ali ter morrido gente, em geral são assassinados, seria este o caso, não seria, sempre um padre-nosso se dirá por esta alma, ajoelharam-se os frades e os noviços, em coro disseram a oração, coitados, esta sim, é caridade suprema, rezar por quem não se conhece, assim de joelhos vêem-se-lhes as solas dos pés, tão castigadas, tão sangrentas, tão doloridas e sujas, são a parte mais comovente do corpo humano, se está de joelhos, viradas para o céu por onde nunca caminharão. Terminado o padre-nosso, desceram ao vale, atravessaram a ponte, outra vez entregues à leitura do breviário, e não viram uma mulher que assomava ao postigo da sua casa, e não ouviram o que ela disse, Malditos sejam os frades.

Quis o acaso, agenciador de bons e maus sucessos, que se encontrassem as estátuas com os noviços no ligar da estrada que vem de Cheleiros com a que vem de Alcainça Pequena, e isso foi ocasião de grandes demonstrações de regozijo por parte da congregação, pelo afortunado augúrio. Passaram os frades para a frente do comboio de carros, como batedores e espanta-diabos, entoando sonoras jaculatórias, só não alçando cruz porque a não levavam, se o consentiria o ritual. Entraram assim em Mafra, recebidos triunfalmente, tão magoadinhos dos pés, tão transportados de fé no desvairo dos olhares, ou será fome, que desde S. José de Ribamar que vêm caminhando, só roeram pão duro, molhado em água da fonte, mas agora decerto os tratarão melhor no hospício, onde por hoje se acomodam, mal podem andar, é como os fogueirames, passa a grande labareda, ficam as cinzas, acaba-se a exaltação, fica a melancolia. Nem ao descarregar das estátuas assistiram. Vieram os engenheiros e os homens da força, trouxeram

  • os cabrestantes,
  • as roldanas,
  • as cabrilhas,
  • os calabres e as almofadas,
  • as cunhas,
  • os calços,

negregados instrumentos que de repente se escapam, por isso a mulher de Cheleiros disse, Malditos sejam os frades, e com muito suor e ranger de dentes foram as figuras descidas, porém, agora alçadas em toda a sua altura, postas em círculo, voltadas para dentro como se estivessem reunindo assembleia ou partida, entre S. Vicente e S. Sebastião estão as três santas, Isabel, Clara, Teresa, parecem minorcas ao pé deles, mas as mulheres não se medem aos palmos, mesmo quando santas não são.

Desce Baltasar ao vale, vai para casa, é certo que o trabalho ainda não despegou na obra, mas, vindo ele tão esforçadamente de longe, desde Santo António do Tojal em um só dia não esqueçamos tem direito a recolher mais cedo, depois de descangados e pensados os bois. O tempo, às vezes, parece não passar, é como uma andorinha que faz o ninho no beiral, sai e entra, vai e vem, mas sempre à nossa vista, julgaríamos, nós e ela, que iríamos ficar assim a eternidade, ou metade dela, o que já não seria mau. Mas, de repente, estava e já não está, mesmo agora a vi, onde é que se meteu, e se temos à mão um espelho, Jesus, como o tempo passou, como eu me tornei velho, ainda ontem era a flor do bairro, e hoje nem bairro nem flor. Baltasar não tem espelhos, a não ser estes nossos olhos que o estão vendo a descer o caminho lamacento para a vila, e eles são que lhe dizem,

  • Tens a barba cheia de brancas, Baltasar,
  • tens a testa carregada de rugas, Baltasar,
  • tens encorreado o pescoço, Baltasar,
  • já te descaem os ombros, Baltasar,
  • nem pareces o mesmo homem, Baltasar,

mas isto é certamente defeito dos olhos que usamos, porque aí vem justamente uma mulher, e onde nós víamos um homem velho,


vê ela um homem novo, o soldado a quem perguntou um dia, Que nome é o seu, ou nem sequer a esse vê, apenas a este homem que desce, sujo, canoso e maneta, Sete-Sóis de alcunha, se a merece tanta canseira, mas é um constante sol para esta mulher, não por sempre brilhar, mas por existir tanto, escondido de nuvens, tapado de
eclipses, mas vivo, Santo Deus, e abre-lhe os braços, quem, abre-os ele a ela, abre-os ela a ele, ambos, são o escândalo da vila de Mafra, agarrarem-se assim um ao outro na praça pública, e com idade de sobra, talvez seja porque nunca tiveram filhos, talvez porque se vejam mais novos do que são, pobres cegos, ou porventura serão estes os únicos seres humanos que como são se vêem, é esse o modo mais difícil de ver, agora que eles estão juntos até os nossos olhos foram capazes de perceber que se tornaram belos.

À ceia, Álvaro Diogo disse que as estátuas ficarão onde foram descarregadas, não há tempo para as colocar nos nichos respectivos, a sagração é já no domingo e todos os cuidados e trabalhos serão poucos para dar à basílica um ar composto de obra acabada, está concluída a casa da sacristia, mas sem reboco nas abóbadas, e, como ainda conservam o simples, se mandarão cobrir com pano de brim engessado, a fingir de guarnição de cal, para aparecer com mais asseio, e à igreja, como falta o zimbório, do mesmo modo se disfarçará a ausência. Álvaro Diogo sabe muito destas miudezas, de comum pedreiro passou a canteiro, de canteiro a lavrante, e bem visto pelos oficiais e mestres-de-obra,

  • sempre pontual,
  • sempre diligente,
  • sempre cumpridor,

tão habilidoso de mãos como dócil de palavras, nada parecido com essa malta dos boieiros, arruaceira quando calha, cheirando a esterco e suja dele, em vez desta brancura do pó do mármore que cobre os pêlos das mãos e das barbas, e se agarra à roupa para toda a vida. Assim será com Álvaro Diogo, precisamente para toda a vida, porém curta, que em breve tempo cairá duma parede aonde não tinha que subir, não lho exigia já o ofício, foi lá para ajeitar uma pedra que das suas mãos saíra e só por isso não podia estar mal talhada. Quase trinta metros de altura será a queda, e dela morrerá, e esta Inês Antónia, por ora tão orgulhosa do favor de que goza o seu homem, tornar-se-á numa viúva triste, ansiosa se lhe cairá agora o filho, não se acabam as ralações do pobre. Diz mais Álvaro Diogo que antes da sagração se mudarão os noviços para duas casas já construídas por cima da cozinha, e, a propósito desta informação, lembrou Baltasar que, estando os rebocos ainda tão húmidos e correndo tão fria a estação, não iriam faltar doenças aos frades, e Álvaro Diogo respondeu que já havia braseiros ardendo noite e dia dentro das celas acabadas, mas que, mesmo assim, a humidade escorria pelas paredes, E as estátuas dos santos, Baltasar, deram muito trabalho a trazer, Nem por isso, o pior foi carregar, depois, com jeito e força, mais a paciência dos bois, viemos andando. A conversa esmorecia, esmorecia o lume na lareira, Álvaro Diogo e Inês Antónia foram-se deitar, de Gabriel não falemos, que já estava a dormir quando mastigava o último bocado da ceia, então Baltasar perguntou,Queres ir ver as estátuas, Blimunda, o céu deve estar limpo e a lua não tarda aí, Vamos, respondeu ela.

A noite estava clara e fria. Enquanto subiam a ladeira para o alto da Vela, a lua nasceu, enorme, vermelha, recortando primeiro as torres sineiras, os alçados irregulares das paredes mais altas, e, lá para trás, o testo do monte que tantos trabalhos trouxera e tanta pólvora consumira. E Baltasar disse, Amanhã vou ao Monte Junto ver como está a máquina, passaram seis meses desde a última vez, como estará aquilo, Vou contigo, Não vale a pena, saio cedo, se não tiver muito que remendar estarei cá antes da noite, melhor é ir agora, depois são as festas da sagração, se adrega de chover ficam os caminhos piores, Tem cuidado, Descansa, a mim não me assaltam ladrões nem mordem lobos, Não é de lobos ou ladrões que falo, Então, Falo da máquina, Dizes-me sempre que me acautele, eu vou e venho, mais cuidados não posso ter, Tem-nos todos, não te esqueças, Sossega, mulher, que o meu dia ainda não chegou, Não sossego, homem, os dias chegam sempre.

Tinham subido ao grande terreiro diante da igreja, cujo corpo rompia do chão, céu acima, isolado da restante obra. O que havia de ser palácio era ainda, e apenas, o piso térreo, para um lado e para o outro, sobre ele se vendo umas construções de madeira para servirem às cerimónias que ali se iam dar. Parecia impossível que tantos anos de trabalho, treze, fizessem tão pouco vulto, uma igreja inacabada, um convento que, em duas alas, está levantado até ao segundo andar, o resto pouco mais que a altura dos portais do primeiro, ao todo quarenta celas acabadas, em vez das trezentas que vão ser precisas. Parece pouco e é muito, se não demasiado. Uma formiga vai à eira e agarra numa pargana. Dali ao formigueiro são dez metros, menos que vinte passos de homem. Mas quem vai levar essa pargana e andar esse caminho, é a formiga, não é o homem. Ora, o mal desta obra de Mafra é terem posto homens a trabalhar nela em vez de gigantes, e, se com estas e outras obras passadas e futuras se quer provar que também o homem é capaz de fazer o trabalho que gigantes fariam, então aceite-se que leve o tempo que levam as formigas, todas as coisas têm de ser entendidas na sua justa proporção, os formigueiros e os conventos, a laje e a pargana.

Blimunda e Baltasar entram no círculo das estátuas. O luar ilumina de frente as duas grandes figuras de S. Sebastião e S. Vicente, as três santas no meio deles, depois para os lados começam os corpos e os rostos a encher-se de sombras, até ao completo negrume em que se escondem S. Domingos e Santo Inácio, e, injustiça grave, se já o condenaram, S. Francisco de Assis, que merecia estar em luz plena, ao pé da sua Santa Clara, prouvera não se veja nesta insistência nenhuma insinuação de comércio carnal, e depois, se o tivesse havido, que é que tinha, não é por isso que as pessoas deixam de ser santas, e com isso é que os santos ficam pessoas. Blimunda vai olhando, tenta adivinhar as representações, umas sabe-as só de olhar uma vez, outras acerta após muito teimar, outras não chega a ter a certeza, outras são como arcas fechadas. Compreende que aquelas letras, aqueles sinais, na base em que assenta S. Vicente, estão explicando, claramente para quem souber ler, que nome ele tem. Com o dedo acompanha as curvas e as rectas, é como um cego que ainda não aprendeu a decifrar o seu alfabeto relevado, Blimunda não pode perguntar à estátua, Quem és, o cego não pode perguntar ao papel, Que dizes, só Baltasar, em seu tempo, pôde responder, Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, quando Blimunda quis saber, Que nome é o seu. Tudo no mundo está dando respostas, o que demora é o tempo das perguntas. Uma nuvem solitária veio do mar, sozinha em todo o claro céu, e por um longo minuto cobriu a lua. As estátuas tornaram-se vultos brancos, informes, perderam o contorno e as feições, estão como blocos de mármore antes de as ir procurar e achar o cinzel do escultor. Deixaram de ser santo e santa, são apenas primitivas presenças, sem voz, nem sequer aquela que o desenho dá, tão primitivas, tão difusas na sua massa, como parecem as do homem e da mulher que, no meio delas, se diluíram na escuridão, pois estes não são de mármore, simples matéria viva, e, como sabemos, nada se confunde mais com a sombra do chão do que a carne dos homens. Sob a grande nuvem que, devagar, ia passando, distinguia-se melhor o brilho das fogueiras que acompanhavam a vigília dos soldados. A distância, a Ilha da Madeira era uma massa confusa, um gigantesco dragão deitado, respirando por quarenta mil foles, tantos os homens que ali dormem, mais os míseros das enfermarias onde não há um catre vago, salvo se estão os enfermeiros retirando alguns cadáveres este que rebentou por dentro, este que tinha uma nascida, este que deitava sangue pela boca, este que um estupor paralisou e, segundando, matou. A nuvem afastou-se para dentro da terra, maneira de dizer, pela terra dentro, para o interior dos campos, embora nunca se possa saber que faz uma nuvem quando deixamos de olhar para ela, ou quando se esconde por trás daquele monte, pode muito bem ter-se metido para dentro da terra ou sobre ela descido para fecundar quem adivinhará que estranhas vidas, que raros poderes, Vamos para casa, Blimunda, disse Baltasar.

Saíram do círculo das estátuas, outra vez iluminadas, e, quando iam começar a descer para o vale, Blimunda olhou para trás. Fosforesciam como sal. Apurando o ouvido, percebia-se daquele lado um rumor de conversação, seria um concílio, um debate, um juízo, talvez o primeiro desde que partiram de Itália, metidos em porões, entre ratos e humidades, atados violentamente nos conveses, porventura a última fala geral que poderiam ter, assim à luz da lua, porque não tarda que sejam metidos em seus nichos, alguns nunca mais tornarão a olhar-se de olhos nos olhos, outros só de revés, e outros vão continuar a olhar o céu, parece castigo. Disse Blimunda, Devem ser infelizes os santos, assim como os fizeram, assim ficam, se isto é a santidade, que será a condenação, São apenas estátuas, Do que eu gostava era vê-las descer daquelas pedras e ser gente como nós, não se pode falar com estátuas, Sabemos nós lá se não falarão quando estão sozinhos, Isso não sabemos, mas, se só uns com os outros falam e sem testemunhas, para que precisamos deles, pergunto eu, Sempre ouvi dizer que os santos são necessários à nossa salvação, Eles não se salvaram, Quem te disse tal, É o que eu sinto dentro de mim, Que sentes tu dentro de ti, Que ninguém se salva, que ninguém se perde, É pecado pensar assim, O pecado não existe, só há morte e vida, A vida está antes da morte, Enganas-te, Baltasar, a morte vem antes da vida, morreu quem fomos, nasce quem somos, por isso é que não morremos de vez, E quando vamos para debaixo da terra, e quando Francisco Marques fica esmagado sob o carro da pedra, não será isso morte sem recurso, Se estamos falando dele, nasce Francisco Marques, Mas ele não o sabe, Tal como nós não sabemos bastante quem somos, e, apesar disso, estamos vivos, Blimunda, onde foi que aprendeste essas coisas, Estive de olhos abertos na barriga da minha mãe, de lá via tudo.

Entraram no quintal. O luar já era cor de leite. Mais nítidas ainda do que se as marcasse o sol, as sombras eram negras e profundas. Havia ali uma velha barraca coberta de bunho apodrecido, onde, em tempos de maior abono, uma burra descansava dos seus trabalhos de levar e trazer. Na fala familiar era a barraca da burra, apesar de a proprietária ter morrido há muitos e muitos anos, tantos que nem Baltasar conservava lembrança, andei montado nela, não andei, e, assim duvidando, ou dizendo Vou guardar o ancinho na barraca da burra, estava dando razão a Blimunda, era como ver aparecer o animal com os seus ceirões ou com o rijo albardão, e a mãe dizendo lá de dentro da cozinha, Vai ajudar o teu pai a descarregar a burra, ainda não era ajuda que valesse a pena, tão pequenino, mas ia-se habituando aos trabalhos pesados, e, como todo o esforço deve ter seu prémio, escarranchava-o depois o pai no lombo húmido do animal e passeava-o pelo quintal, afinal sempre fui cavaleiro daquele cavalo. Para dentro da barraca o levou Blimunda, não era a primeira vez que ali entravam a horas nocturnas, ora por vontade de um, ora por vontade do outro, faziam-no quando a necessidade da carne se anunciava mais expansiva, quando adivinhavam que não poderiam sufocar o gemido, o estertor, talvez o grito, com escândalo dos discretos amplexos de Álvaro Diogo e Inês Antónia, e alvoroço insuportável do sobrinho Gabriel, forçado pela urgência a conciliar-se pecadoramente. A antiga e larga manjedoura, que nos tempos da sua utilidade estivera fixada aos prumos da barraca, a altura conveniente, estava agora no chão, meio desconjuntada, mas confortável como um leito real, afofada de palha, com duas mantas velhas. Álvaro Diogo e Inês Antónia sabiam que serventia tinham estas coisas, mas fingiam ignorá-lo. Nunca lhes deu o capricho de experimentar a novidade, são espíritos quietos e carnes desambiciosas, só Gabriel aqui virá ter encontros depois de mudadas estas vidas, tão perto isso já vem e ninguém o adivinha. Talvez alguém, talvez Blimunda, não por ter puxado Baltasar para a barraca, sempre foi mulher para dar o primeiro passo, para dizer a primeira palavra, para fazer o primeiro gesto, mas por uma ânsia que lhe aperta a garganta, pela violência com que abraça Baltasar, pela sofreguidão do beijo, pobres bocas, perdida está a frescura, perdidos alguns dentes, partidos outros, afinal o amor existe sobre todas as coisas.

Contra o costume, dormiram ali. Quando amanheceu, Baltasar disse, Vou ao Monte Junto, e ela levantou-se, entrou em casa, na meia escuridão da cozinha procurou e encontrou algum alimento, ainda dormiam lá para dentro os cunhados e o sobrinho, depois saiu, cerrando a porta, trazia também o alforge de Baltasar, dentro dele meteu a comida e as ferramentas, sem esquecer o espigão de ferro, de maus encontros ninguém está livre. Saíram ambos, Blimunda acompanhou Baltasar até fora da vila, viam-se ao longe as torres da igreja, brancas sobre o céu encoberto, ninguém o esperaria, depois da clara noite que foi. Abraçaram-se os dois no recato duma árvore de ramos baixos, entre as folhas douradas do Outono, pisando outras que já se confundiam com a terra, alimentando-a, para reverdeceram de novo. Não é Oriana em seu traje de corte que se está despedindo de Amadis, nem Romeu que, descendo, colhe o debruçado beijo de Julieta, é somente Baltasar que vai ao Monte Junto remediar os estragos do tempo, não é mais que Blimunda impossivelmente tentando que o tempo pare.

Com as suas vestes escuras, são duas sombras inquietas, mal se separam, logo se aproximam, não sei que adivinham estes, que outros casos se preparam, porventura tudo será obra da imaginação, fruto da hora e do lugar, de sabermos que o bem não dura muito, não demos por ele quando veio, não o vimos quando esteve, damos-lhe pela falta quando partiu, Não tardes por lá, Baltasar, Dorme tu na barraca, posso chegar já de noite, mas, se houver muito que consertar, só venho amanhã, Bem sei, Adeus Blimunda, Adeus Baltasar. Não vale a pena narrar segundas viagens, se foram explicadas as primeiras. De quanto variou quem as faz, já se disse o bastante, de como mudam os lugares e as paisagens basta saber que por lá passam os homens e as estações, de cada vez um poucochinho eles, casa, telheiro, courela, muro, palácio, ponte, convento, sebe, calçada, moinho, de vez, radicalmente, elas, como se fosse para sempre, Primavera, Verão, Outono que é agora, Inverno que não tarda. Baltasar conhece estes caminhos como a palma da sua mão direita.

Descansou na margem da ribeira de Pedrulhos, onde um dia folgou com Blimunda, em tempo de flores, de malmequeres nos incultos, de papoulas nas searas, de surdas cores nos matos. Pelos caminhos vai encontrando gente que desce para Mafra, magotes de homens e mulheres que rufam tambores e bombos, que sopram gaitas, às vezes levando à frente um padre ou um frade, não raro um entrevado em andas, porventura será o dia da sagração assinalado por um ou mais milagres, nunca se sabe quando quer Deus exercer as suas medicinas, por isso devem os cegos, os coxos, os paralíticos andar em permanente romaria, Virá hoje Nosso Senhor, quem sabe se me enganei na esperança, se calhar vou eu a Mafra e é dia de ele descansar, ou mandou a mãe à Senhora do Cabo, como é que uma pessoa se há-de entender nesta distribuição de poderes, porém, a fé nos há-de salvar, Salvar de quê, perguntaria Blimunda. Ao princípio da tarde, chegou Baltasar às primeiras elevações da serra do Barregudo. Ao fundo erguia-se o Monte Junto, todo iluminado pelo sol que acabara de romper as nuvens. Sobre a serra vogavam sombras, eram como grandes animais escuros que percorriam as colinas, arrepiando-as ao passar, depois a luz aquecia as árvores, fazia brilhar os charcos. E o vento soprava contra os braços parados dos moinhos, assobiava nas cantarinhas, são coisas em que só repara quem vai de caminho sem pensar noutras ponderações da vida, apenas este passar e estar passando, a nuvem no céu, o sol que vai começar a descer, o vento que nasce aqui e além morre, a folha sacudida ou que esmorecendo cai, se para tais contemplações tem olhos um antigo e cruel soldado com morte de homem às costas, crime porventura resgatado por outros acidentes da sua vida, ter sido crucificado com sangue sobre o coração, ter visto como a terra é grande e tudo nela tão pequeno, ter falado aos seus bois com voz branda e descansada, parece pouco, alguém saberá se é suficiente.

Meteu-se já Baltasar pelos contrafortes do Monte Junto, procura o quase invisível caminho que por entre mato o levará à máquina de voar, é sempre com o coração apertado que se aproxima, por temor de que a tenham descoberto, talvez destruído, talvez roubado, e de cada vez se surpreende de a ver como se tivesse acabado agora mesmo de pousar, ainda fremente da veloz descida, no seu regaço de arbustos e miríficas trepadeiras, miríficas se lhes há-de chamar porque não é isto terra onde costumadamente cresçam. Não foi roubada, destruída também não, lá está, no mesmo lugar, de asa descaída, o seu pescoço de ave confundido com as ramagens mais altas, a cabeça escura como um ninho suspenso. Baltasar aproximou-se, largou o alforge para o chão, sentou-se a descansar um pouco, antes de se pôr ao trabalho. Comeu duas sardinhas fritas sobre um pedaço de pão, usando a ponta e o fio da navalha com a arte de quem abre miniaturas em marfim, quando terminou limpou a lâmina às ervas, a mão ao calção, e dirigiu-se à máquina. O sol brilhava com força, o ar estava quente. Por cima da asa, pisando cautelosamente para não ofender o revestimento de vime, Baltasar entrou na passarola.

Algumas tábuas do convés estavam apodrecidas. Teria de substituí-las, trazer os materiais necessários, demorar-se aqui uns dias, ou então, só agora lhe ocorria a ideia, desmontar a máquina peça por peça, transportá-la para Mafra escondê-la debaixo duma parga de palha, ou num dos subterrâneos do convento, se pudesse combinar com os amigos mais chegados, confiar-lhes

metade do segredo, consigo mesmo se espantava de nunca ter pensado nesta solução, quando voltasse falaria com Blimunda. Ia distraído, não reparou onde punha os pés, de repente duas tábuas cederam, rebentaram, afundaram-se. Esbracejou violentamente para se amparar, evitar a queda, o gancho do braço foi enfiar-se na argola que servia para afastar as velas, e, de golpe, suspenso em todo o seu peso, Baltasar viu os panos arredarem-se para o lado com estrondo, o sol inundou a máquina, brilharam as bolas de âmbar e as esferas. A máquina rodopiou duas vezes, despedaçou, rasgou os arbustos que a envolviam, e subiu. Não se via uma nuvem no céu.

Capítulo XXIV

Em toda essa noite, Blimunda não dormiu. Pusera-se a esperar que Baltasar regressasse ao cair do dia, como em outras ocasiões acontecera, nessa crença saiu da vila, andou quase meia légua pelo caminho que ele traria, e, durante muito tempo, até fechar-se por completo o crepúsculo, se deixou estar sentada num valado, vendo passar a gente que ia para Mafra, de romaria à sagração, não era festa que se perdesse, certamente haveria esmola e comida para quantos aparecessem, ou elas não faltariam aos mais lestos e lamuriosos, procura a alma as suas satisfações, o corpo não as dispensa. Ao ver aquela mulher ali sentada, alguns melquetrefes vindos de longe julgaram que era assim que a vila de Mafra recebia os visitantes machos, com oferecidas facilidades, e atiravam-lhe chufas obscenas, logo engolidas diante do rosto de pedra que os fitava. E um que se atreveu a experimentar outras aproximações, recuou assustado quando Blimunda lhe disse, numa voz baça, Tens um sapo no coração, cuspo nele, em ti e em toda a tua geração. Quando a noite desceu completamente, acabaram-se os peregrinos, a estas horas já Baltasar não virá, ou chegará tão tarde que o receberei deitada, ou então estará cá amanhã, se teve muito que consertar, foi o que ele disse. Voltou Blimunda para casa, ceou com os cunhados e o sobrinho, Então o Baltasar não veio, disse um deles, Nunca na vida hei-de perceber que saídas são estas, disse o outro, Gabriel é que não abriu a boca, é ainda moço de mais para falar estando gente mais velha, mas, lá consigo, pensa que os pais não têm nada que meter-se na vida dos tios, é cisma de metade do mundo a curiosice pela vida da outra metade, que aliás lhe paga na mesma moeda, ora este rapaz, tão novinho, as coisas que já vai sabendo. Acabada a ceia, Blimunda esperou que todos se deitassem, depois saiu para o quintal. A noite estava serena, o céu limpo, mal se sentia a frescura do ar. Talvez àquela mesma hora viesse Baltasar caminhando ao longo da ribeira de Pedrulhos, com o espigão atado ao braço esquerdo em vez do gancho, de maus encontros e perguntas indiscretas ninguém está livre, conforme se disse já e tem sido comprovado. Nasceu a lua, melhor verá ele o caminho, daqui a pouco lhe ouviremos certamente os passos, no grande silêncio avisador da noite, empurrará a cancela do quintal, e ali estará Blimunda a recebê-lo, o mais não veremos, porque é nossa obrigação ser discretos, basta que saibamos que é muita a inquietação desta mulher.

Em toda a noite não dormiu. Deitada na manjedoura, envolvida nas mantas que cheiravam a corpo e ao surro das ovelhas, abria os olhos para as frinchas do caniçado da barraca, por onde o luaceiro coava, depois a lua pôs-se, era quase madrugada, nem a noite teve tempo de escurecer. Na primeira claridade levantou-se Blimunda, foi à cozinha buscar algum alimento, que desassossego é este, mulher, ainda não estamos fora do que Baltasar prometeu, talvez aí chegue pelo meio-dia, tinha muito que consertar na máquina, tão velha, à chuva e ao vento, ele preveniu. Blimunda não nos ouve, saiu já de casa, vai pelo caminho que conhece, aquele por onde Baltasar virá, não é possível desencontrarem-se. Desencontro, sim, haverá, mas com el-rei, que precisamente entrará hoje na vila de Mafra, logo à tarde, trazendo em sua companhia o príncipe D. José e o senhor infante D. António, mais os criados todos da casa real, em suprema grandeza de estado, ricos coches, soberbos cavalos, tudo em boa arrumação aparecendo na boca da estrada, rodando, tropeando, que nunca se terá visto tão assombrosa perspectiva. Porém, de pompas reais temos nós avonde, as diferenças conhecemo-las, ele é mais brocado, menos brocado, ele é mais ouro, menos ouro, o nosso dever é ir atrás daquela mulher que a quantos encontra vai perguntando se viram um homem com estes sinais, assim, e assim, o mais formoso do mundo, por tal engano se vê como nem sempre se pode dizer o que se sente, quem por este retrato reconheceria Baltasar, escuro, grisalho e maneta, Não, mulher, não vimos, e Blimunda continua a andar, agora já fora dos caminhos principais, atalhando como na viagem que fizeram ambos, aquele monte, aquela mata, quatro pedras alinhadas, seis colinas em redondo, vai o dia adiantado, de Baltasar nem a sombra. Não se sentou Blimunda para comer, ia andando e mastigando, mas a noite em claro fatigara-a, a inquietação come-lhe as forças, o alimento enrola-se-lhe na boca, e o Monte Junto, que já de longe avultava, parece que se afasta, que prodígio será. Não é mistério nenhum, é apenas o passo vagaroso em que vai, arrastado, assim nunca mais lá chego. Há lugares onde Blimunda não se lembra de ter passado, outros reconhece-os por uma ponte, um encontro de vertentes, um prado fundeiro. E soube que já passou nesta terra porque àquela mesma porta está aquela mesma velha cosendo aquela mesma saia, tudo está na mesma, excepto Blimunda, que vai sozinha.

Por estes sítios se recorda de terem encontrado o pastor que lhes disse estarem na serra do Barregudo, além Monte Junto, parece uma colina como qualquer outra, mas não a reteve assim a memória, talvez por causa do abaulado que tem, como se fosse uma miniatura deste lado do planeta, assim uma pessoa acredita que a terra é realmente redonda. Não há pastor nem rebanho, apenas um profundo silêncio quando Blimunda pára, uma solidão profunda quando olha em redor. O Monte Junto está tão perto que parece bastar estender a mão para lhe chegar aos contrafortes, como uma mulher de joelhos que estende o braço e toca as ancas do seu homem. Não é possível que Blimunda tenha pensado esta subtileza, e daí, quem sabe, nós não estamos dentro das pessoas, sabemos lá o que elas pensam, andamos é a espalhar os nossos próprios pensamentos pelas cabeças alheias e depois dizemos, Blimunda pensa, Baltasar pensou, e talvez lhes tivéssemos imaginado as nossas próprias sensações, por exemplo, esta de Blimunda nas suas ancas, como se lhes tivesse tocado o seu homem. Parou para descansar, porque lhe tremiam as pernas, fatigadas do caminho, amolecidas do imaginário contacto, mas de repente entrou-lhe no coração o convencimento de que vai encontrar lá em cima Baltasar, trabalhando e suando, talvez atando os últimos nós, talvez lançando para cima do ombro o alforge, talvez já descendo para o vale, por causa disto gritou, Baltasar.

Não houve resposta, nem podia havê-la, um grito não é nada, chega ali àquela escarpa e volta para trás, enfraquecido, nem parece a nossa voz. Blimunda começou a subir rapidamente, voltaram-lhe as forças em afluxo, chega a correr se a encosta se reduz antes de aprumar-se outra vez, e adiante, entre duas azinheiras anãs, distingue o quase invisível carreiro aberto pelas espaçadas passagens de Baltasar, por ali se chega à passarola. Grita outra vez, Baltasar, agora por força a ouvirá ele, não há montes de permeio, apenas uns covões, se pudesse parar ouviria certamente o grito dele, Blimunda, está tão certa de tê-lo ouvido que sorri, com as costas da mão enxuga o suor ou as lágrimas, ou talvez esteja a dar um jeito aos cabelos, ou a limpar a cara suja, é um gesto de tão vário sentido.

Ali é o lugar, como o ninho de uma grande ave que levantou voo. O grito de Blimunda, terceiro, e sempre o mesmo nome, não foi agudo, apenas uma explosão sufocada, como se as tripas lhe estivessem sendo arrancadas por gigantesca mão, Baltasar, e ao dizê-lo compreendeu que desde o princípio soubera que viria encontrar deserto este lugar. As lágrimas secaram-se-lhe subitamente como se um vento escaldante tivesse soprado de dentro da terra. Aproximou-se aos tropeções, viu os arbustos arrancados, a depressão que o peso da máquina fizera no chão, e, do outro lado, a meia dúzia de passos, o alforge de Baltasar. Não havia outros sinais do que acontecera ali. Blimunda levantou os olhos para o céu, agora menos limpo, algumas nuvens vogavam serenas no quebrar da tarde, e pela primeira vez sentiu o vazio do espaço, como se estivesse pensando, Não há nada além, mas isto mesmo era o que não queria acreditar, em qualquer parte do céu deveria andar Baltasar voando, lutando com as velas para fazer descer a máquina. Tornou a olhar o alforge, foi buscá-lo, sentiu o peso do espigão dentro dele, e então lembrou-se de que a máquina, se subira no dia anterior, a noite fizera-a descer, por isso Baltasar não estava no céu, estaria na terra, em qualquer parte, talvez morto, talvez vivo, mas ferido, que ainda se lembrava de como fora violenta a descida, porém com maior carga.

Deitou o alforge para o ombro, não havia ali mais que fazer, e começou a procurar nas proximidades, subindo e descendo as encostas cobertas de mato, escolhendo os pontos altos, agora desejosa de ter olhos agudíssimos, não os que o jejum lhe dava, mas outros que da superfície nada deixassem escapar, como os do falcão, ou do lince. Com os pés a sangrar, a saia esfarrapada pelo mato espinhoso, deu a volta pelo lado norte do monte, depois tornou ao sítio de partida procurando um nível superior, e então descobriu que nunca tinham ido, nem ela, nem Baltasar, ao cume do Monte Junto agora deveria subir lá, antes que se fizesse noite, dali teria mais larga vista, é certo que à distância a máquina faria pouca figura, mas o acaso às vezes ajuda, quem sabe se, lá chegando, veria Baltasar acenar-lhe com o braço, à beira duma fonte onde ambos matariam a sede.

Começou Blimunda a subir, consigo mesma ralhando que aquela deveria ter sido a sua primeira lembrança, não agora, com a tarde já a despedir-se. Sem dar por isso, encontrou um carreiro que subia, serpenteando, e mais acima um caminho largo, de carros, surpreendeu-se com a novidade, que será que há no alto do monte para que tenha sido aberta esta estrada, e com sinais de passagem, e antiga, quem sabe se Baltasar também deu com ela. Ao dobrar uma curva, Blimunda estacou. À sua frente caminhava um frade, dominicano pelo hábito que vestia, homem corpulento, de pescoço grosso. Inquieta, Blimunda hesitava em correr, em chamar, O frade pareceu ter sentido uma presença. Parou, olhou a um lado e a outro, depois para trás. Fez um gesto de bênção e aguardou. Blimunda aproximou-se, Deo gratias, disse o dominicano, que fazes por aqui, perguntou. Ela não pôde mais que responder, Ando à procura do meu homem, e não sabia como continuar, o frade pensaria que ela estava doida se lhe fosse falar em máquina voadora, em passarola, em nuvens fechadas. Recuou alguns passos, Somos de Mafra, o meu homem veio aqui ao Monte Junto por causa de um grande pássaro que ouvimos dizer que vivia cá, o meu medo é que o pássaro o tenha levado, Nunca ouvi falar de tal, nem ninguém da congregação, Há neste monte algum convento,, Não sabia. O frade desceu um pouco o caminho, como se o fizesse distraidamente. O sol baixara muito, e, como as nuvens se amontoavam do lado do mar, o entardecer tornava-se cinzento. Então não viu por aqui um homem que tem falta da mão esquerda e usa um gancho a fazer as vezes dela, perguntou Blimunda, É esse o teu homem, É, Não, não vi ninguém, E não viu nenhum pássaro grande voar daquele lado de além, ontem ou hoje, Não, não vi nenhum pássaro grande, Sendo assim, vou-me embora, deite-me a sua bênção, padre, Daqui a pouco é noite, vais-te perder se te metes ao caminho algum lobo te apanha, que os há, Se for agora, ainda chego ao vale com luz de dia, É mais longe do que parece daqui, ouve, ao lado do convento há uma ruína, de um outro convento que não se chegou a acabar, podes passar lá a noite e amanhã continuas a procurar o teu homem, Vou-me embora, Faze como quiseres, depois não te queixes de que não te avisei dos perigos, e, tendo dito isto, o frade recomeçou a subir pelo caminho largo.

Blimunda ficou ali parada, outra vez hesitante. Ainda não era noite, mas todo o campo, lá em baixo, se cobria de sombra. As nuvens alastravam-se por todo o céu, começou a soprar um vento húmido, talvez chovesse. Sentia-se cansada, tanto que podia deixar-se morrer de pura fadiga. Já mal pensava em Baltasar. Acreditava confusamente que o encontraria no dia seguinte, que portanto não ganhava nada em procurá-lo hoje. Sentou-se na beira do caminho, sobre uma pedra, meteu a mão ao alforge, encontrou o que restava do farnel de Baltasar, uma sardinha ressequida, uma côdea duríssima. Se alguém passasse ali àquela hora, sentiria um medo mortal, uma mulher assim sentada, sem medo ela, é certamente uma bruxa, à espera de viajante para lhe chupar o sangue ou das companheiras com quem irá ao aquelarre. Contudo, é apenas uma desgraçada mulher que perdeu o seu homem, levado por ares e ventos, que faria todos os bruxedos para que ele regressasse, mas desses não conhece nenhum, de que lhe serviu ser capaz de ver o que os outros não vêem, de que lhe serviu ser recolhedora de vontades, se justamente elas foram que o levaram.

Fez-se noite. Blimunda pôs-se de pé. O vento tornou-se mais frio e mais forte. Havia um grande desamparo naqueles montes, por isso ela começou a chorar, já era tempo de lhe ser trazido esse desafogo. A escuridão encheu-se de sons assustadores, o piar de um mocho, o ramalhar das azinheiras, e, se não era perdição dos ouvidos, para aquele lado ululara um lobo. Ainda a coragem de Blimunda a fez descer cem passos na direcção do vale, mas era como se estivesse a baixar devagarinho para o fundo de um poço, sem saber que goelas a esperavam, abertas ao lume da água. Mais tarde viria a lua, que lhe mostraria o caminho se o céu descobrisse, mas que a tornaria visível a quanto ser vivo batesse os montes, se a alguns assustaria, outros a gelariam de medo. Parou, toda arrepiada. A pouca distância, qualquer coisa rastejara bruscamente. Não aguentou mais. Começou a correr, caminho acima, como se levasse atrás de si todos os diabos do inferno e todos os monstros que povoam a terra, os viventes e os imaginados. Quando dobrou a última curva, viu o convento, uma construção baixa, atarracada. Pelas frestas da igreja coava-se uma luz pálida. Havia um grande silêncio sob o céu estrelado, sob o sussurro das nuvens, tão próximas como se o Monte Junto fosse a mais alta montanha do mundo. Blimunda foi-se aproximando, pareceu-lhe ouvir um murmúrio entoado de orações, seriam as completas, quando chegou perto tornou-se mais forte a melopeia, agora eram cheias as vozes, ali orando ao céu, tão humildemente orando que Blimunda tornou a chorar, talvez estes frades, sem o saber, estivessem trazendo Baltasar das alturas, ou das perdições da selva, talvez as mágicas e latinas palavras estivessem curando as feridas de que certamente padece, por isso Blimunda se juntou às preces, dizendo mentalmente as que sabe e que servem para tudo, perdimento, maleita, alma ansiosa, alguém lá em cima estará encarregado de fazer a destrinça.

Do outro lado do convento, num rebaixo que dava para a encosta, é que eram as ruínas. Havia paredes altas, abóbadas, recantos que se adivinhava serem de celas, bom lugar para passar a noite ao abrigo do frio e das feras. Blimunda, ainda receosa, entrou no breu profundo das abóbadas, apalpou o caminho com as mãos e os pés, temendo cair em algum buraco. Aos poucos, os olhos foram-se habituando ao negrume, depois a claridade difusa do espaço recortou os vãos das frestas, assinalando as paredes. O chão, de erva rasteira, estava limpo. Havia um piso superior aonde não se podia chegar, pelo menos não era agora visível o acesso. Blimunda estendeu a manta a um canto, fez do alforge travesseira, e deitou-se. As lágrimas vieram outra vez. Ainda chorando adormeceu, passou da vigília ao sono entre duas lágrimas, e chorando continuou enquanto dormia, sonhando que chorava. Não durou isto muito tempo. Afastando as nuvens, a lua surgiu, o luar entrou pelas ruínas como uma presença, e Blimunda acordou. Julgou que a luz a sacudira de mansinho, lhe tocara no rosto, ou na mão que repousava sobre a manta, mas o som raspado que ouviu agora era igual ao que percebeu ter ouvido antes, quando dormia ainda. O rumor ouvia-se ora mais perto, ora mais afastado, como de alguém que procura e não acha, mas não desiste, torna e teima, um animal que neste lugar se refugia e que perdeu o sentido dele. Blimunda soergueu-se sobre os cotovelos, apurou o ouvido. O som era agora um pisar cauteloso, quase inaudível, mas próximo. Um vulto passou diante duma fresta, a luz desenhou um perfil torcido na parede rugosa de pedra. Imediatamente Blimunda soube que era o frade do caminho. Dissera-lhe onde podia arranjar abrigo, vinha saber se fora seguido o conselho, mas não por caridade cristã. Deitou-se Blimunda para trás, silenciosamente, e ficou quieta, talvez que ele a não visse, talvez a visse e dissesse, Descansa, pobre alma fatigada, se assim fosse seria um verdadeiro milagre, e tão edificante, mas a verdade não é essa, a verdade é que o frade vem a saciar a carne, nem lho podemos levar a mal, aqui neste deserto, no tecto do mundo, que dolorosa é a vida das pessoas. O vulto cobre toda a luz da fresta, é de homem alto e forte, ouve-se-lhe a respiração. Blimunda puxara o alforge para o lado, e, quando o homem se ajoelhou, meteu rapidamente a mão na bolsa, segurou o espigão pelo encaixe, como um punhal. Já sabemos o que vai acontecer, está escrito desde que em Évora o ferreiro fez o espigão e o gancho, um está aqui na mão de Blimunda, o outro quem o virá dizer. O frade tacteou os pés de Blimunda, afastou-lhe devagarinho as pernas, para um lado, para o outro, excita-o terrivelmente a imobilidade da mulher, porventura está acordada e lhe apetece o homem, já as saias foram atiradas para cima, já o hábito arregaçado, a mão avança a reconhecer o caminho, estremeceu a mulher, mas não faz outro movimento, jubiloso o frade empurra o membro para a invisível fenda, jubiloso sente que os braços da mulher se fecham nas suas costas, há grandes alegrias na vida de um dominicano.

Empurrado pelas duas mãos, o espigão enterra-se entre as costelas, aflora por um instante o coração, depois continua o seu trajecto, há vinte anos que este ferro procurava esta segunda morte. O grito que começou a formar-se na garganta do frade mudou-se em estertor rouco, brevíssimo. Blimunda torceu o corpo, aterrada, não por ter matado, mas por sentir aquele peso, duas vezes esmagador. Usando os cotovelos, empurrou-o violentamente, enfim saiu de debaixo dele. O luar mostrou um pouco do hábito branco, a mancha escura que alastrava. Blimunda levantou-se, apurou o ouvido. O silêncio era total dentro das ruínas, apenas o seu coração batia. Apalpou o chão, recolheu o alforge e a manta, que teve de puxar com força porque se enrodilhara nas pernas do frade, e foi pô-los num sítio iluminado. Depois voltou ao homem, agarrou o encaixe do espigão e puxou uma vez, duas vezes. Com a torção do corpo, o ferro devia ter ficado entalado entre duas costelas. Em desespero, Blimunda pôs um pé em cima das costas do homem e, num sacão brusco, extraiu o ferro. Houve um gorgolejo espesso, a mancha negra alastrou como uma inundação. Blimunda limpou o espigão ao hábito, guardou-o no alforge, que atirou para as costas, com a manta. Quando ia sair dali, olhou para trás e viu que o frade tinha umas sandálias calçadas, foi tirar-lhas, homem morto vai por seu pé aonde tiver que ir, inferno ou paraíso.

Na sombra que as paredes arruinadas projectavam, Blimunda parou a escolher o caminho. Não se arriscaria a atravessar o terreiro defronte do convento, podia vê-la alguém, acaso outro frade sabedor do segredo, à espera que regressasse o primeiro, que, pela demora, devia estar retoiçando muito a seu gosto, Malditos sejam os frades, murmurou Blimunda. Agora tinha de desafiar todos os sustos, o lobo, se não era fábula, o invisível rastejar, que esse ouvira-o ela, meter-se ao mato até encontrar o caminho, lá adiante, onde não pudesse ser vista. Descalçou as chancas arruinadas, enfiou as sandálias do morto, grandes, espalmadas, mas sólidas, atou as tiras de couro aos tornozelos, e pôs-se a caminho, de maneira a ter sempre as ruínas entre si e o convento, enquanto a não escondesse o mato ou um acidente do terreno. Rodearam-na os rumores dos montes, banhava-a a brancura do luar, depois vinham as nuvens e cobriam-na de escuridão, mas subitamente descobriu que nada a assustava, que iria descer para o vale sem que o coração lhe vacilasse, podiam aparecer avantesmas e lobisomens, almas penadas e luzeiros, com o espigão os arredaria para o lado, arma poderosa mais que todos os malefícios e atentados, candeia que vai adiante alumia o meu caminho.

Toda a noite Blimunda andou. Precisava estar muito longe do Monte Junto quando a madrugada apontasse, quando a congregação se reunisse para as primeiras orações. Davam por falta do frade, começariam por buscá-lo na cela, depois por todo o convento, no refeitório, na sala do capítulo, na livraria, na horta, o abade dá-lo-ia por fugido, haveria infinitas murmurações pelos cantos, mas, se algum dos irmãos soubesse do segredo, sobre brasas estaria, quem sabe se invejoso da fortuna do outro, boa saia seria aquela para que ele lançasse o hábito às urtigas, depois a busca passaria para fora dos muros, talvez seja dia claro quando encontrarem o morto, olha do que eu me livrei, pensa o frade já não invejoso, afinal na graça de Deus.

Quando, a meio da manhã, Blimunda chegou à ribeira de Pedrulhos, decidiu que ali descansaria da cega caminhada em que vinha. Atirara fora as sandálias do frade, não fosse o diabo armar-lhe com elas uma ratoeira, do seu próprio calçado se desfez por sem remédio, agora mergulhava as pernas na água fria, enfim lembrando-se de examinar as roupas, se haveria sangue nelas, talvez esta mancha na saia esfarrapada, rasgou o que rasgado estava, lançou fora o farrapo. Vendo a água correr, perguntou, E agora. Já lavara o espigão de ferro, foi como se lavasse a perdida mão de Baltasar ausente, perdido ele, onde. Saiu da água, E agora, tornou a perguntar. Então ocorreu-lhe a ideia, e da bondade dela se convenceu, de que Baltasar afinal estaria em Mafra, à sua espera, tinham-se desencontrado no caminho, se calhar á máquina de voar subira sozinha, depois Baltasar viera-se embora, por esquecimento deixara ficar o alforge e a manta, ou talvez tivesse largado a fugir de susto, um homem também tem direito aos seus medos, e agora ele não sabe que há-de fazer, se esperar, se meter pernas à estrada, aquela mulher é uma doida, ah, Blimunda.

Por estes caminhos já próximos de Mafra corria Blimunda como doida, tão extenuada por fora, duas noites sem dormir, tão resplandecendo por dentro, duas noites batalhando, alcança. deixa para trás os que vão á sagração, se se juntam tantos não caberão em Mafra. De longe vêem-se pendões e panos, distinguem-se ranchos de gente, até domingo ninguém trabalha, tudo é esmerar galas e apurar enfeites. Desce Blimunda para casa, ali é o palácio do visconde, estão soldados da guarda real à porta, seges e coches pela rua acima, aqui se terá hospedado el-rei. Empurrou a cancela do quintal, gritou, Baltasar, mas ninguém lhe apareceu. Então, sentou-se no degrau de pedra, deixou cair: os braços, e ia abandonar-se ao desespero quando pensou que não poderia explicar como estavam na sua posse a manta e o alforge de Baltasar, se justamente teria de dizer que fora por ele e não o encontrara. Mal se segurando nas pernas, dirigiu-se para a barraca e escondeu-os debaixo dum molho de canas. Já não teve forças para regressar. Deitou-se na manjedoura e, daí a pouco, porque o corpo tem às vezes dó da alma, adormeceu. Por isso não deu pela chegada do patriarca de Lisboa, que veio em um riquíssimo coche, com mais quatro onde vinham os criados, e à frente o cruciferário, a cavalo, com a cruz patriarcal levantada, e o meirinho dos clérigos, e vinham também os oficiais da câmara, que haviam saído a esperá-lo a uma grande distância, não se concebe cortejo assim magnífico, a multidão o gozava deleitadamente, quase saltavam os olhos a Inês Antónia, embasbacava gravemente Álvaro Diogo como convém a um lavrante da pedra, quanto a Gabriel, valdevinos, anda por aí. E também não viu Blimunda como chegaram, vindos de vários lugares, mas não por seu pé, mais de trezentos franciscanos para assistir ao acto, por assim dizer o abrilhantando, se de dominicanos fosse a ordem, faltaria um. Perdeu o desfile da milícia triunfante, marchando a quatro de fundo, vinham ver se estavam prontas as obras do quartel, a carreira de tiro à alma, o arsenal das hóstias, o paiol dos sacramentos, a bordadura do estandarte, In hoc signo vinces, e se, para a vitória, não bastar o sinal, usem-se as persuasões violentas. A esta hora Blimunda dorme, é uma pedra que caiu no chão, se não lhe tocarem com o pé, ali ganhará cama, crescer-lhe-á a erva ao redor, assim acontece nas grandes esperas.

À tardinha, acabadas as festividades do dia, desceram a casa Álvaro Diogo e a mulher, não entraram pelo quintal, por isso não viram logo Blimunda, mas quando Inês Antónia foi recolher as galinhas que andavam soltas, deu com a cunhada a dormir, porém, gesticulando violentamente no sono, pudera não, se estava a matar um dominicano, mas isso não podia Inês Antónia adivinhar. Entrou na barraca, sacudiu Blimunda por um braço, não lhe tocou com o pé, não é pedra a que tal se possa fazer, e ela abriu os olhos espavorida, sem saber onde estava, no sonho não havia mais que trevas, aqui ainda o entardecer, e, em vez do frade, esta mulher quem é, ah, a irmã de Baltasar, E Baltasar onde está, pergunta Inês Antónia, veja-se como são as coisas, por estas mesmas palavras se interrogava Blimunda, que resposta há-de dar, a custo levantou-se, todo o corpo lhe dói, cem vezes tinha morto um frade que cem vezes ressuscitava, Baltasar ainda não pode vir, dizer isto é o mesmo que estar calada, a questão não é se pode ou não pode vir, a questão é não vem porquê, Tem na ideia ficar de abegão no Turcifal, todas as explicações são boas desde que sejam recebidas, às vezes a indiferença ajuda, é o caso de Inês Antónia, que não liga muito ao irmão, quando dele quer saber, é curiosidade e pouco mais.

Durante a ceia, depois de estranhar a ausência prolongada, há três dias que Baltasar saiu de casa, deu Álvaro Diogo informações completas sobre quem já está e quem vai chegar, a rainha e a princesa D. Mariana Vitória ficaram em Belas por não haver acomodação em Mafra, e pela mesma razão foi o infante D. Francisco para a Ericeira, mas o que, acima de tudo, faz orgulhar-se Álvaro Diogo é, por assim dizer, cobrirem-no os mesmos ares que cobrem a el-rei, ao príncipe D. José e ao infante D. António, aqui mesmo defronte, no palácio do visconde, quando ceamos nós, ceiam eles, cada um do seu lado da rua, ó vizinha dá-me salsa. Também já vieram o cardeal Cunha e o cardeal Mota, e os bispos de Leiria e de Portalegre, do Pará e de Nanquim, que não estão lá, estão aqui, e vem chegando a corte, fidalgos que não acabam, Queira Deus que Baltasar cá esteja no domingo para ver a festa, disse Inês Antónia em tom de obrigação, Há-de estar, murmurou Blimunda.

Nessa noite dormiu em casa. Esqueceu-se de comer o pão antes de se levantar, e quando entrou na cozinha viu dois fantasmas translúcidos, rapidamente tornados em molhos de vísceras e feixes de paus brancos, é o horror da vida, deu-lhe um vómito, precipitadamente virou a cara e começou a mastigar o pão, mas Inês Antónia soltou uma risada sem maldade, Querem ver que estás prenha ao cabo de todos estes anos, são palavras inocentes que duplicaram a dor de Blimunda, Agora nem que eu o quisesse, pensou, aos gritos por dentro de si. Este foi o dia de se benzerem as cruzes, os quadros das capelas, os paramentos e mais objectos do. culto, e depois o convento e todas as suas dependências. O povo ficou da banda de fora, Blimunda nem chegou a sair de casa, contentou-se com ver el-rei subir para o coche, mais o príncipe e o infante, ia encontrar-se com a rainha e altezas, à noite Álvaro Diogo explicou o melhor que pôde.

Enfim, chegou o mais glorioso dos dias, a data imorredoira de vinte e dois de Outubro do ano da graça de mil setecentos e trinta, quando el-rei D. João V faz quarenta e um anos e vê sagrar o mais prodigioso dos monumentos que em Portugal se levantaram, ainda por acabar, é verdade, mas pela catadura se conhece o catacego. Não se descrevem tantas maravilhas, Álvaro Diogo não viu tudo, Inês Antónia tudo confundiu, Blimunda foi com eles, parecia mal não ir, mas não se sabe se sonha, se está acordada. Eram quatro da manhã quando saíram de casa para apanharem um bom lugar no terreiro, às cinco formou a tropa, ardiam archotes por toda a parte, depois começou a amanhecer, bonito dia, sim senhores, Deus cuida bem da sua fazenda, agora se vê o magnífico trono patriarcal, ao lado esquerdo do pórtico, com as suas cadeiras e dossel de veludo carmesim, com guarnições de ouro, o chão coberto de alcatifas, um primor, e numa credência a caldeirinha e o hissope, mais os restantes instrumentos, já se armou a procissão solene que dará a volta à igreja, el-rei vai nela, atrás os infantes e a fidalgaria, conforme as suas precedências, mas o principal da festa é o patriarca, benze o sal e a água, atira água benta às paredes, porventura não foi tanta quanta devia de ser, ou não cairia Álvaro Diogo de trinta metros daqui a poucos meses, e depois vai bater por três vezes com o báculo na porta grande do meio, que estava fechada, às três foi de vez, é a conta que Deus fez, abriu-se a porta e entrou a procissão, pena temos nós de que não entrem Álvaro Diogo e Inês Antónia, e também Blimunda, apesar do nenhum gosto, veriam as cerimónias, umas sublimes, outras tocantes, umas de derrubar-se prostradamente o corpo, outras de sublimar-se aceleradamente a alma, por exemplo, estar o patriarca escrevendo com a ponta do báculo, em montes de cinza dispostos no pavimento da igreja, os alfabetos grego e latino, parece mais obra de bruxedo, eu te talho e retalho, do que ritual canónico, como é também o caso de toda aquela maçonaria que além está, ouro moído, incenso, cinza outra vez, sal, vinho branco numa garrafa de prata, cal e pó de pedra numa bandeja, uma colher de prata, uma concha dourada, sei lá que mais, não faltam hieroglifos, gatimanhos, passos e passes, para lá e para cá, óleos santos, benzimentos, relíquias dos doze apóstolos, doze, e nisto se passou a manhã e grande parte da tarde, eram cinco horas quando o patriarca começou a missa de pontifical, que, claro está, levou o seu tempo, e não foi pouco, enfim chegou a termo, dali subiu à tribuna da casa de Benedictione para lançar a bênção ao povo que esperava cá fora, setenta mil, oitenta mil pessoas, que num grande sussurro de movimentos e vestes se derrubaram de joelhos no chão, momento inesquecível, por muitos anos que eu viva, D. Tomás de Almeida recitando lá do alto as palavras da bênção, tendo boa vista percebe-se-lhe o mexer dos beiços, ouvidos é que não há que alcancem, havia de ser hoje, clamariam por todo o orbe, urbi et orbis, as trombetas electrónicas, voz verdadeira de Jeová que teve de esperar milénios para que enfim o ouvisse a terra, mas a maior sabedoria do homem ainda continua a ser contentar-se com o que tem, enquanto não inventa melhor, por isso é tão grande a felicidade da vila de Mafra e de quem lá está, bastam-lhe os gestos compassados da mão, de cima para baixo, da esquerda para a direita, o anel faiscante, os ouros e os carmesins resplandecentes, as alvas cambraias, o retumbar do báculo sobre a pedra que veio de Pêro Pinheiro, lembram-se, vede com ela sangra, milagre, milagre, milagre, aquele foi o último gesto, tirar o calço, retirou-se o pastor com o séquito, as ovelhas já se levantaram, a festa continuará, oito são os dias da sagração e este é o primeiro.

Blimunda disse aos cunhados, Já volto. Desceu a ladeira para a vila deserta. Com a pressa, alguns moradores tinham deixado portas e postigos abertos. Os lumes estavam apagados. Blimunda foi à barraca buscar a manta e o alforge, entrou em casa, juntou o que podia de comida, uma escudela de pau, uma colher, algumas roupas suas, outras de Baltasar. Depois meteu tudo no alforge e saiu. Começava a escurecer, mas, agora, de nenhuma noite teria medo, se tão negra é a que leva dentro de si.

Capítulo XXV


Durante nove anos, Blimunda procurou Baltasar
. Conheceu todos os caminhos do pó e da lama, a branda areia, a pedra aguda, tantas vezes a geada rangente e assassina, dois nevões de que só saiu viva porque ainda não queria morrer. Tisnou-se de sol como um ramo de árvore retirado do lume antes de lhe chegar a hora das cinzas, arregoou-se como um fruto estalado, foi espantalho no meio de searas, aparição entre as moradores das vilas, susto nos pequenos lugares e nos casais perdidos. Onde chegava, perguntava se tinham visto por ali um homem com estes e estes sinais, a mão esquerda de menos, e alto como um soldado da guarda real, barba toda e grisalha, mas se entretanto a rapou, é uma cara que não se esquece, pelo menos não a esqueci eu, e tanto pode ter vindo pelas estradas de toda a gente, ou pelos carreiros que atravessam os campos, como pode ter caído dos ares, num pássaro de ferro e vimes entrançados, com uma vela preta, bolas de âmbar amarelo, e duas esferas de metal baço que contêm o maior segredo do universo, ainda que de tudo isto não restem mais que destroços, do homem e da ave, levem-me a eles, que só de lhes pôr as mãos em cima os reconhecerei, nem preciso olhar. Julgavam-na doida, mas, se ela se deixava ficar por ali uns tempos, viam-na tão sensata em todas as mais palavras e acções que duvidavam da primeira suspeita de pouco siso. Por fim já era conhecida de terra em terra, a pontos de não raro a preceder o nome de Voadora, por causa da estranha história que contava. Sentava-se às portas, a conversar com as mulheres do lugar, ouvia-lhes as lamentações, os ais, menos vezes- as alegrias, por serem poucas, por as guardar quem as sentia, talvez porque nem sempre há a certeza de se sentir o que se guarda, é só para não ficar desprovido de tudo. Por onde passava, ficava um fermento de desassossego, os homens não reconheciam as suas mulheres, que subitamente se punham a olhar para eles, com pena de que não tivessem desaparecido, para enfim poderem procurá-los. Mas esses mesmos homens perguntavam, Já se foi, com uma inexplicável tristeza no coração, e se lhes respondiam, Ainda anda por aí, tornavam a sair com a esperança de a encontrar naquele bosque, na seara alta, banhando os pés no rio ou despindo-se atrás dum canavial, tanto fazia, que do vulto só os olhos gozavam, entre a mão e o fruto há um espigão de ferro, felizmente ninguém mais teve de morrer. Nunca entrava em igreja se havia gente lá dentro, apenas para descansar sentada no chão ou apoiada a uma coluna, entrei por um momento, vou-me já embora, esta não é a minha casa. Os padres que ouviam falar dela mandavam-lhe recados para que viesse à confissão, curiosos de saber que mistérios se ocultavam naquela romeira e peregrina, que segredos se escondiam no rosto impenetrável, nos olhos parados, cujas pálpebras raramente batiam, e que a certas horas e certa luz pareciam lagos onde flutuavam sombras de nuvens, as sombras que dentro passavam, não as comuns do ar. A esses mandava dizer que fizera promessa de só se confessar quando se sentisse pecadora, não poderia encontrar resposta que mais escandalizasse, se pecadores todos nós somos, porém, não era raro que falando sobre isto com outras mulheres as deixasse pensativas, afinal, que faltas são essas nossas, as tuas, as minhas, se nós somos, mulheres, verdadeiramente, o cordeiro que tirará o pecado do mundo, no dia em que isto for compreendido vai ser preciso começar outra vez tudo. Mas nem sempre os acidentes da sua passagem foram deste teor, aconteceu-lhe ser apedrejada, escarnecida, e numa aldeia onde assim a maltrataram fez depois um prodígio tal, que pouco faltou para a tomarem por santa, foi o caso que havia no lugar grande secura de água, por estarem exaustas as fontes e consumidos os poços, e Blimunda, após ter sido expulsa, percorreu os arredores usando o seu jejum e a sua vidência, e na noite seguinte, quando todos dormiam, entrou na aldeia, e posta no meio da praça gritou que em tal sítio e a tal profundidade corria um veio de água pura, que a vi eu, por isso lhe foi dado o nome de Olhos-de-água, dos olhos que primeiro se banharam nela. Olhos que água gerassem encontrou-os também, e tantos, se tendo dito que viera de Mafra lhe perguntavam se conhecera lá um homem com este nome e esta figura, era meu marido, era meu pai, era meu irmão, era meu filho, era meu noivo, levaram-no forçado a trabalhar no convento, por ordem de el-rei, e nunca mais o vi, não voltou mais, terá morrido por lá, ter-se-á perdido no caminho, quem sabe, ninguém me soube dar notícia dele, ficou sem amparo a família, abandonada a terra, ou então levou-o o diabo, mas já cá tenho outro homem, é bicho que nunca falta se a mulher lhe abre o covil, não sei se me entendes. Passou por Mafra, soube de Inês Antónia que morrera Álvaro Diogo, de Baltasar nem de morte havia indício, quanto mais de vida.

Nove anos procurou Blimunda. Começou por contar as estações, depois perdeu-lhes o sentido. Nos primeiros tempos calculava as léguas que andava por dia, quatro, cinco, às vezes seis, mas depois confundiram-se-lhe os números, não tardou que o espaço e o tempo deixassem de ter significado, tudo se media em manhã, tarde, noite, chuva, soalheira, granizo, névoa e nevoeiro, caminho bom, caminho mau, encosta de subir, encosta de descer, planície, montanha, praia do mar, ribeira de rios, e rostos, milhares e milhares de rostos, rostos sem número que os dissesse, quantas vezes mais os que em Mafra se tinham juntado, e de entre os rostos, os das mulheres para as perguntas, os dos homens para ver se neles estava a resposta, e destes nem os muito novos nem os muito velhos, alguém de quarenta e cinco anos quando o deixámos além no Monte Junto, quando subiu aos ares, para sabermos a idade que vai tendo basta acrescentar-lhe um ano de cada vez, por cada mês tantas rugas, por cada dia tantos cabelos brancos. Quantas vezes imaginou Blimunda que estando sentada na praça duma vila, a pedir esmola, um homem se aproximaria e em lugar de dinheiro ou pão lhe estender ia um gancho de ferro, e ela meteria a mão ao alforge e de lá tiraria um espigão da mesma forja, sinal da sua constância e guarda, Assim te encontro, Blimunda, Assim te encontro, Baltasar, Por onde foi que andaste em todos estes anos, que casos e misérias te aconteceram, Diz-me primeiramente de ti, tu é que estiveste perdido, Vou-te contar e ficariam falando até ao fim do tempo.

Milhares de léguas andou Blimunda, quase sempre descalça. A sola dos seus pés tornou-se espessa, fendida como uma cortiça. Portugal inteiro esteve debaixo destes passos, algumas vezes atravessou a raia de Espanha porque não via no chão qualquer risco a separar a terra de lá da terra de, cá, só ouvia falar outra língua, e voltava para trás. Em dois anos, foi das praias e das arribas do oceano à fronteira, depois recomeçou a procurar por outros lugares, por outros caminhos, e andando e buscando veio a descobrir como é pequeno este país onde nasceu, Já aqui estive, já aqui passei, e dava com rostos que reconhecia, Não se lembra de mim, chamavam-me Voadora, Ah, bem me lembro, então achou o homem que procurava, O meu homem, Sim esse, Não achei, Ai pobrezinha, Ele não terá aparecido por aqui depois de eu ter passado, Não, não apareceu, nem nunca ouvi falar dele por estes arredores, Então cá vou, até um dia, Boa viagem, Se o encontrar.

Encontrou-o. Seis vezes passara por Lisboa, esta era a sétima. Vinha do Sul, dos lados de Pegões. Atravessou o rio, quase noite na última barca que aproveitava a maré. Não comia há quase vinte e quatro horas. Trazia algum alimento no alforge, mas, de cada vez que ia levá-lo à boca, parecia que sobre a sua mão outra mão se pousava e uma voz lhe dizia, Não comas, que o tempo é chegado. Sob as águas escuras do rio, via passar os peixes a grande profundidade, cardumes de cristal e prata, longos dorsos escamosos ou lisos. A luz interior das casas coava-se através das paredes, difusa como um farol no nevoeiro. Meteu-se pela Rua Nova dos Ferros, virou para a direita na igreja de Nossa Senhora da Oliveira, em direcção ao Rossio, repetia um itinerário de há vinte e oito anos. Caminhava no meio de fantasmas, de neblinas que eram gente. Entre os mil cheiros fétidos da cidade, a aragem nocturna trouxe-lhe o da carne queimada. Havia multidão em S. Domingos, archotes, fumo negro, fogueiras. Abriu caminho, chegou-se às filas da frente, Quem são, perguntou a uma mulher que levava uma criança ao colo, De três sei eu, aquele além e aquela são pai e filha que vieram por culpas de judaísmo, e o outro, o da ponta, é um que fazia comédias de bonifrates e se chamava António José da Silva, dos mais não ouvi falar.

São onze os supliciados. A queima já vai adiantada, os rostos mal se distinguem. Naquele extremo arde um homem a quem falta a mão esquerda. Talvez por ter a barba enegrecida, prodígio cosmético da fuligem, parece mais novo. E uma nuvem fechada está no centro do seu corpo. Então Blimunda disse, Vem. Desprendeu-se a vontade de Baltasar Sete-Sóis, mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia e a Blimunda.

FIM

Anúncios
 

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: