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– Leitura de Memorial XVI – XX

Capítulo XVI

Dizem que o reino anda mal governado, que nele está de menos a justiça, e não reparam que ela está como deve estar, com sua venda nos olhos, sua balança e sua espada, que mais queríamos nós, era o que faltava, sermos os tecelões da faixa, os aferidores dos pesos e os alfagemes do cutelo, constantemente remendando os buracos, restituindo as quebras, amolando os fios, e enfim perguntando ao justiçado se vai contente com a justiça que se lhe faz, ganhado ou perdido o pleito. Dos julgamentos do Santo Ofício não se fala aqui, que esse tem bem abertos os olhos, em vez de balança um ramo de oliveira, e uma espada afiada onde a outra é romba e com bocas. Há quem julgue que o raminho é oferta de paz, quando está muito patente que se trata do primeiro graveto da futura pilha de lenha, ou te corto, ou te queimo, por isso é que, havendo que faltar à lei, mais vale apunhalar a mulher, por suspeita de infidelidade, que não honrar os fiéis defuntos, a questão é ter padrinhos que desculpem o homicídio e mil cruzados para pôr na balança, nem é para outra coisa que a justiça a leva na mão. Castiguem-se lá os negros e os vilões para que não se perca o valor do exemplo, mas honre-se a gente de bem e de bens, não lhe exigindo que pague as dívidas contraídas, que renuncie à vingança, que emende o ódio, e, correndo os pleitos, por não se poderem evitar de todo, venham a rabulice, a trapaça, a apelação, a praxe, os ambages, para que vença tarde quem por justa justiça deveria vencer cedo, para que tarde perca quem deveria perder logo. É que, entretanto, vão-se mungindo as tetas do bom leite que é o dinheiro, requeijão precioso, supremo queijo, manjar de meirinho e solicitador, de advogado e inquiridor, de testemunha e julgador, se falta algum é porque o esqueceu o padre António Vieira e agora não lembra.

Estas são as justiças visíveis. Das invisíveis, o menos que se poderia dizer é que são cegas e desastradas, como ficou definitivamente demonstrado naufragando o barco em que vinham de caçar na outra banda do Tejo o infante D. Francisco e o infante D. Miguel, ambos manos de el-rei, deu-lhes uma rajada de vento sem avisar e virou-lhes a vela, caso foi ele que morreu afogado D. Miguel e se salvou D. Francisco, quando honrada justiça seria o contrário, conhecidas como são as maldades deste, desencaminhar a rainha, cobiçar o trono de el-rei, dar tiros em marinheiros, ao passo que do outro não constam, ou são de somenos. Porém, não devemos julgar com leviandade, quem sabe se não se arrependeu já D. Francisco, quem sabe se não pagou D. Miguel com a vida ter andado a cornear o mestre da barca ou a enganar-lhe a filha, a história das famílias reais está cheia destas acções.

O que, finalmente, veio a saber-se, foi ter perdido el-rei a demanda em que andava, não ele em pessoa, mas a coroa, com ó duque de Aveiro, desde mil seiscentos e quarenta, durante mais de oitenta anos metidas em tribunais as duas casas, a casa de Aveiro e a casa real, e não se tratava de nenhuma brincadeira, nenhuma questão de águas ou estremas, duzentos mil cruzados de renda, imagine-se., três vezes os direitos que el-rei cobra pelos pretos que vão para as minas do Brasil. Afinal, sempre há justiça neste mundo, e por causa de haver ela vai ter agora el-rei de restituir ao duque de Aveiro todos os bens, que a nós importam pouco, incluindo a quinta de S Sebastião da Pedreira, chave, poço, pomar e palácio, que ao padre Bartolomeu Lourenço não importam muito, o pior é a abegoaria. Mas, não vindo juntos todos os males, chegou a sentença estão vontades humanas dentro das esferas, para o Santo Ofício não há vontades, há só almas, dirão que as mantemos presas, a almas cristãs, e as impedimos de subir ao paraíso, bem sabem que, querendo o Santo Ofício, são más todas as razões boas, e boas todas as razões más, e quando umas e outras faltem, lá estão os tormentos da água e do fogo, do potro e da polé, para fazê-las nascer do nada e à discrição, Mas, estando el-rei do nosso lado, o Santo Ofício não irá contra o gosto e a vontade de sua majestade, El-rei, sendo caso duvidoso, só fará o que o Santo Ofício lhe disser que faça. Tornou Blimunda a perguntar, De que tem mais medo, padre Bartolomeu Lourenço, do que poderá vir a acontecer, ou do que está acontecendo, Que queres dizer, Que já o Santo Ofício acaso se está aproximando como se aproximou de minha mãe, conheço bem os sinais, é como uma aura que envolve aqueles que se tornaram suspeitos aos olhos dos inquisidores, ainda não sabem do que vão ser acusados e já parecem culpados, Eu sei do que me acusarão, se a minha hora chegar, dirão que me converti ao judaísmo, e é verdade, dirão que me entrego a feitiçarias, e também verdade é, se feitiçaria é esta passarola e outras artes em que não paro de meditar, e com o que acabo de dizer estou nas mãos de ambos e perdido estarei se me forem denunciar. Disse Baltasar, Perdesse eu a outra mão, se tal fizesse. Disse Blimunda, Se tal fizesse, não pudesse eu mais fechar os olhos e vissem sempre eles como em jejum constante.

Encerrados na quinta, Baltasar e Blimunda assistem ao passar dos dias. Agosto acabou, Setembro vai em meio, já andam as aranhas a tecer os seus fios na passarola, levantando velas suas, acrescentando asas, o cravo do senhor Escarlate ao tempo que não toca, não há lugar mais triste no mundo que S. Sebastião da Pedreira. A estação arrefeceu, o sol esconde-se por muitas horas, como se há-de fazer a prova da máquina estando o céu coberto, se o padre Bartolomeu Lourenço se esqueceu de que sem sol não se levantará do chão a máquina e aparece aí com el-rei, será a pior das vergonhas, capaz de pintar a minha cara de preto.

Não veio el-rei, não veio o padre, o céu apareceu limpo outra vez, o sol brilhou, e Blimunda e Baltasar tornaram à mesma ansiosa espera. Então o padre chegou. Ouviram fora do portão os cascos da mula batendo com força, insólito caso, que isto não é animal de arrebatamentos, temos novidade, talvez finalmente venha assistir el-rei ao grande levantamento da passarola, mas assim, sem aviso, sem virem primeiro criados da sua casa averiguar da limpeza do lugar, assegurar as comodidades, levantar os pavilhões, há-de ser outra coisa. Era outra coisa. O padre Bartolomeu Lourenço entrou violentamente na abegoaria, vinha pálido, lívido, cor de cinza, como um ressuscitado que já fosse apodrecendo, Temos de fugir, o Santo Ofício anda à minha procura, querem prender-me, onde estão os frascos. Blimunda abriu a arca, retirou umas roupas, Estão aqui, e Baltasar perguntou, Que vamos fazer. O padre tremia todo, mal podia sustentar-se de pé, Blimunda amparou-o, Que faremos, repetiu, e ele gritou, Vamos fugir na máquina, depois, como subitamente assustado, murmurou quase inaudivelmente, apontando a passarola, Vamos fugir nela, Para onde, Não sei, o que é preciso é fugir daqui. Baltasar e Blimunda olharam-se demoradamente, Estava escrito, disse ele, Vamos, disse ela.

São duas horas da tarde e há tanto trabalho a fazer, não se pode perder um minuto, retirar as telhas, cortar as ripas e os barrotes que não puderem ser arrancados, mas antes disso colocar as bolas de âmbar nos cruzamentos dos arames, abrir as velas superiores para que a luz do sol não caia cedo de mais sobre a máquina, transferir para as esferas as duas mil vontades, mil deste lado, mil daquele, não vão puxar umas mais que outras, com perigo de dar a máquina uma cambalhota no ar, se tiver de dá-la, que seja por razões que não podíamos prever. Tanto trabalho ainda, e tão pouco o tempo. Baltasar já está no telhado, retirando as telhas e lança-as para baixo, vai um estrilho de cacos em redor da abegoaria, e o padre Bartolomeu Lourenço conseguiu vencer a prostração em que estava, e usa as suas fracas forças para arrancar, de dentro, as ripas mais delgadas, que os barrotes requerem um vigor que lhe falta, esses vão ter de esperar, enquanto Blimunda, calma como se em toda a sua vida não tivesse feito mais que voar, verifica o estado das velas, se o breu está espalhado por igual, e reforça algumas bainhas.

E agora que farás tu, Anjo Custódio, nunca tão necessário foste desde que te nomearam para esse lugar, aqui tens estes três que não tarda se erguerão aos ares, lá aonde nunca foram homens, e precisam de quem os proteja, eles por eles já fizeram quanto podiam, reuniram os materiais e as vontades, conjugaram o sólido e o evanescente, juntaram tudo à sua própria ousadia, estão prontos, é só acabar de tirar este telhado, fechar as velas, deixar entrar o sol, e adeus, cá vamos, se tu, Anjo Custódio, não ajudares ao menos um poucochinho, não és anjo nem coisa nenhuma, claro está que não faltam santos invocáveis, mas nenhum é, como tu, aritmético, tu sim, que sabes as treze palavras, e de uma a treze, sem falha, as enumeras, e sendo esta uma obra que requer todas as geometrias e matemáticas que se puderem reunir, podes começar já pela

  • primeira palavra, que é a Casa de Jerusalém onde Jesus Cristo morreu por todos nós, é o que dizem, e agora
  •  as duas palavras, que são as duas Tábuas de Moisés onde Jesus Cristo pôs os pés, é o que dizem, e agora
  • as três palavras, que são as três pessoas da Santíssima Trindade, é o que dizem, e agora
  • as quatro palavras, que são os quatro evangelistas, João, Lucas, Marcos e Mateus, é o que dizem, e agora
  • as cinco palavras, que são as cinco chagas de Jesus Cristo, é o que dizem, e agora
  • as seis palavras, que são os seis círios bentos que Jesus Cristo teve no seu nascimento, é o que dizem, e agora
  • as sete palavras, que são os sete sacramentos, é o que dizem, e agora
  • as oito palavras, que são as oito bem-aventuranças, é o que dizem, e agora
  • as nove palavras, que são os nove meses que Nossa Senhora trouxe o seu bendito filho no seu puríssimo ventre, é o que dizem, e agora
  • as dez palavras, que são os dez mandamentos da lei de Deus, é o que dizem, e agora
  •  as onze palavras, que são as onze mil virgens, é o que dizem, e agora
  • as doze palavras, que são os doze apóstolos, é o que dizem, e agora
  • as treze palavras, que são os treze raios que tem a lua, e isto sim, não é preciso que o digam, porque

pelo menos está Sete-Luas aqui, é aquela mulher que tem na mão um frasco de vidro, cuida dela, Anjo Custódio, se se parte o vidro, lá se vai a viagem e não poderá fugir aquele padre que pelos modos parece louco, cuida também do homem que está no telhado, falta-lhe a mão esquerda, foi culpa tua, estavas desatento lá na batalha, talvez ainda não soubesses bem a tua tabuada.

São quatro horas da tarde, a abegoaria é só paredes, parece imensa, a máquina de voar ao meio, a forja minúscula cortada por uma faixa de sombra, no outro extremo o canto da enxerga onde durante seis anos dormiram Baltasar e Blimunda, a arca já não está, transportaram-na para dentro da passarola, que mais nos falta, os alforges, alguma comida, e o cravo, que se há-de fazer do cravo, pois que fique, são egoísmos que devemos compreender e desculpar, tanta é a aflição, nenhum destes três se lembra de que, ficando o cravo, as justiças eclesiásticas e seculares hão-de sentir despertar a curiosidade, porquê e para quê está aqui um instrumento tão pouco adequado ao sítio, e se foi um tufão que arrancou as telhas e o travejamento, como é possível que não tenha destruído o cravo, tão delicado que até mesmo a ombro de carregadores se lhe desacertaram os saltarelos, Não tocará o senhor Escarlate no céu, disse Blimunda.

Agora, sim, podem partir. O padre Bartolomeu Lourenço olha o espaço celeste descoberto, sem nuvens, o sol que parece uma custódia de ouro, depois Baltasar que segura a corda com que se fecharão as velas, depois Blimunda, prouvera que adivinhassem os seus olhos o futuro, Encomendemo-nos ao Deus que houver, disse-o num murmúrio, e outra vez num sussurro estrangulado, Puxa, Baltasar, não o fez logo Baltasar, tremeu-lhe a mão, que isto será como dizer Fiat, diz-se e aparece feito, o quê, puxa-se e mudamos de lugar, para onde. Blimunda aproximou-se, pôs as duas mãos sobre a mão de Baltasar, e, num só movimento, como se só desta maneira devesse ser, ambos puxaram a corda. A vela correu toda para um lado, o sol bateu em cheio nas bolas de âmbar, e agora, que vai ser de nós. A máquina estremeceu, oscilou como se procurasse um equilíbrio subitamente perdido, ouviu-se um rangido geral, eram as lamelas de ferro, os vimes entrançados, e de repente, como se a aspirasse um vórtice luminoso, girou duas vezes sobre si própria enquanto subia, mal ultrapassara ainda a altura das paredes, até que, firme, novamente equilibrada, erguendo a sua cabeça de gaivota, lançou-se em flecha, céu acima. Sacudidos pelos bruscos volteios, Baltasar e Blimunda tinham caído no chão de tábuas da máquina, mas o padre Bartolomeu Lourenço agarrara-se a um dos prumos que sustentavam as velas, e assim pôde ver afastar-se a terra a uma velocidade incrível, já mal se distinguia a quinta, logo perdida entre colinas, e aquilo além, que é, Lisboa, claro está, e o rio, oh, o mar, aquele mar por onde eu, Bartolomeu Lourenço de Gusmão, vim por duas vezes do Brasil, o mar por onde viajei à Holanda, a que mais continentes da terra e do ar me levarás tu, máquina, o vento ruge-me aos ouvidos, nunca ave alguma subiu tão alto se me visse el-rei, se me visse aquele Tomás Pinto Brandão que se riu de mim em verso, se o Santo Ofício me visse, saberiam todos que sou filho predilecto de Deus, eu sim, eu que estou subindo ao céu por obra do meu génio, por obra também dos olhos de Blimunda, se haverá no céu olhos como eles, por obra da mão direita de Baltasar, aqui te levo, Deus um que também não tem a mão esquerda, Blimunda, Baltasar, venham ver, levantem-se daí, não tenham medo. Não tinham medo, estavam apenas assustados com a sua própria coragem. O padre ria, dava gritos, deixara já a segurança do prumo e percorria o convés da máquina de um lado a outro para poder olhar a terra em todos os seus pontos cardeais, tão grande agora que estavam longe dela, enfim levantaram-se Baltasar e Blimunda, agarrando-se nervosamente aos prumos, depois à amurada, deslumbrados de luz e de vento, logo sem nenhum susto, Ah, e Baltasar gritou, Conseguimos, abraçou-se a Blimunda e desatou a chorar, parecia uma criança perdida, um soldado que andou na guerra, que nos Pegões matou um homem com o seu espigão, e agora soluça de felicidade abraçado a Blimunda, que lhe beija a cara suja, então, então. O padre veio para eles e abraçou-se também, subitamente perturbado por uma analogia, assim dissera o italiano, Deus ele próprio, Baltasar seu filho, Blimunda o Espírito Santo, e estavam os três no céu, Só há um Deus, gritou, mas o vento levou-lhe as palavras da boca. Então Blimunda disse, Se não abrirmos a vela, continuaremos a subir, aonde iremos parar, talvez ao sol. Nunca perguntamos se haverá juízo na loucura, mas vamos dizendo que de louco todos temos um pouco. São maneiras de nos segurarmos do lado de cá, imagine-se, darem os doidos como pretexto para exigir igualdades no mundo dos sensatos, só loucos um pouco, o mínimo juízo que conservem, por exemplo, salvaguardarem a própria vida, como está fazendo o padre Bartolomeu Lourenço, Se abrirmos de repente a vela, cairemos na terra como uma pedra, e é ele quem vai manobrar a corda, dar-lhe a folga precisa para que se estenda a vela sem esforço, tudo depende agora do jeito, e a vela abre-se devagar, faz descer a sombra sobre as bolas de âmbar e a máquina diminui de velocidade, quem diria que tão facilmente se poderia ser piloto nos ares, já podemos ir à procura das novas Índias. A máquina deixou de subir, está parada no céu, de asas abertas, o bico virado para o Norte, se se está movendo, não parece. O padre abre mais a vela, três quartas partes das bolas de âmbar estão já à sombra, e a máquina desce suavemente, é como estar dentro de um bote num lago tranquilo, um jeito no leme, um harpejo de remo, as coisas que um homem é capaz de inventar.

Terreiro do Paço.2Devagar, a terra aproxima-se, Lisboa distingue-se melhor, o rectângulo torto do Terreiro do Paço, o labirinto das ruas e travessas, o friso das varandas onde o padre morava, e onde agora estão entrando os familiares do Santo Ofício para o prenderem, tarde piaram, gente tão escrupulosa dos interesses do céu e não se lembram de olhar para cima, é certo que, a tal altura, a máquina é um pontinho no azul, como levantariam os olhos se estão aterrados diante de uma Bíblia rasgada na altura do Pentateuco, de um Alcorão feito em pedaços indecifráveis, e já saem, vão na direcção do Rossio, do palácio dos Estaus, a informar que fugiu o padre a quem iam buscar para o cárcere, e não adivinham que o protege a grande abóbada celeste aonde eles nunca irão, é bem verdade que Deus escolhe os seus favoritos, doidos, defeituosos, excessivos, mas não familiares do Santo Ofício. Desce a passarola um pouco mais, com algum esforço se observa a quinta do duque de Aveiro, é certo que estes aviadores são principiantes, falta-lhes a experiência que permitiria identificar de relance os acidentes principais, os cursos de água, as lagoas, as povoações como estrelas derramadas no chão, as escuras florestas, mas lá estão as quatro paredes da abegoaria, o aeroporto donde levantaram voo, lembra-se o padre Bartolomeu Lourenço de que tem um óculo na arca, em dois tempos o vai buscar e aponta, oh que maravilha é viver e inventar, vê-se claramente, a enxerga ao canto, a forja; só o cravo desapareceu, que foi que aconteceu ao cravo, nós o sabemos e vamos dizer,

abegoaria.1que indo Domenico Scarlatti à quinta, viu, já chegando perto, levantar-se de repente a máquina, num grande sopro de asas, que faria se elas batessem, e tendo entrado deu com os destroços da largada, as telhas partidas, espalhadas pelo chão, as ripas e os barrotes cortados ou arrancados, não há nada mais triste que uma ausência, corre o avião pista fora, levanta-se ao ar, só fica uma pungente melancolia, esta que faz sentar-se Domenico Scarlatti ao cravo e tocar. um pouco, quase nada, apenas passando os dedos pelas teclas como se estivessem aflorando um rosto quando já as palavras foram ditas ou são de menos, e depois, porque muito bem sabe ser perigoso deixar ali o cravo, arrasta-o para fora, sobre o chão irregular, aos solavancos, gemem desencontradas as cordas, agora sim se desacertarão os saltarelos e vai ser para nunca mais, levou Scarlatti o cravo até ao bocal do poço, felizmente que é baixo, e levantando-o em peso, muito lhe custa, o precipita a fundo, bate a caixa duas vezes na parede interior, todas as cordas gritam, e enfim cai na água, ninguém sabe o destino para que está guardado, cravo que tão bem tocava, agora descendo, gorgolejando como um afogado, até assentar no lodo. Do alto já não se vê o músico, vai por aí, por essas azinhagas, porventura desviando o caminho, porventura olhando para cima, torna a ver a passarola, acena com o chapéu, uma vez só, melhor é disfarçar, fingir que não sabe nada, por isso não o viram da nave, quem sabe se tornarão a encontrar-se.

O vento está do Sul, uma brisa que mal faz agitar os cabelos de Blimunda, com esta aragem não poderão ir a lado algum, seria o mesmo que querer atravessar o oceano a nado, por isso Baltasar pergunta, Dou ao fole, todas as moedas têm duas faces, primeiro proclamou o padre, Só há um Deus, agora quer Baltasar saber, Dou ao fole, primeiro o sublime, depois o trivial, quando Deus não sopra, tem o homem de fazer força. Mas o padre Bartolomeu Lourenço parece ter sido tocado por um ramo de estupor, não fala, não se mexe, apenas olha o grande círculo da terra, uma parte de rio e mar, uma parte de monte e planície, se aquilo não é espuma, além, será a vela branca duma nau, se não for farrapo de névoa é fumo de chaminé, e contudo dir-se-ia que o mundo acabou, os homens nele, o silêncio aflige, e o vento caiu, nem um cabelo de Blimunda se move, Dá ao fole, Baltasar, disse o padre.

É como a pedaleira de um órgão, tem umas sapatas para encaixe dos pés, e, à altura do peito, fixada ao cavername da máquina, há uma barra para apoio dos braços, não é nenhuma invenção complementar do padre Bartolomeu Lourenço, foi ir à sé patriarcal e imitar do órgão que lá está, a diferença é que neste não há música para ouvir, apenas o resfolgo do sopro atirado para as asas e para a cauda da passarola, que finalmente começa a mover-se, devagar, tão devagar que só de a ver assim cansada, e ainda não chegou a voar um tiro de besta já é Baltasar que está cansado, também desta maneira não vamos a parte alguma. De cara fechada, o padre avalia os esforços de Sete-Sóis, compreende que a sua grande invenção tem um ponto fraco, no espaço celeste não se pode fazer como na água, meter os remos ao ar quando falta o vento, Pára, não dês mais aos foles, e Baltasar, esgotado, senta-se no fundo da máquina.

O susto, o júbilo, cada qual de sua vez, já passaram, agora vem o desânimo, subir e descer sabem eles, estão como homem que fosse capaz de levantar-se e deitar-se mas não de andar. O sol vai baixando para o lado da barra, já se estendem as sombras na terra. O padre Bartolomeu Lourenço sente uma inquietação cuja causa não consegue discernir, mas dela o distrai a súbita observação de que se orientam para o norte as nuvens de fumo de uma queimada distante, quer isto dizer que, próximo da terra, o vento não deixou de soprar. Manobra a vela, estende-a um pouco mais, de modo a cobrir de sombra outra fileira de bolas de âmbar, e a máquina desce bruscamente, porém não o bastante para apanhar o vento. Mais uma fileira deixa de receber a luz do sol, a queda é tão violenta que o estômago parece querer saltar-lhes pela boca, e agora sim, o vento colhe a máquina com uma mão poderosa e invisível e lança-a para a frente, com tal velocidade que de repente fica Lisboa para trás, já no horizonte, diluída numa bruma seca, é como se finalmente tivessem abandonado o porto e as suas amarras para ir descobrir os caminhos ocultos, por isso se lhes aperta o coração tanto, quem sabe que perigos os esperam que adamastores, que fogos de santelmo acaso se levantam do mar, que ao longe se vê, trombas de água que vão sugar os ares e o tornam a dar salgado. Então Blimunda perguntou, Aonde vamos, e o padre respondeu, Lá aonde não possa chegar o braço do Santo Ofício, se existe esse lugar.

Este povo, que tanto espera do céu, olha pouco para o alto onde se diz que o céu é. Anda gente a trabalhar nos campos, as pessoas, nas aldeias, entram e saem das casas, vão ao quintal, à fonte, agacham-se atrás dum pinheiro, só uma mulher. que está deitada num restolho com um homem em cima de si, cuida ver qualquer coisa a passar no céu, mas julga serem visões próprias de quem está a gostar tanto. Só as aves, curiosas, voam, e perguntam, girando em redor da máquina ansiosamente, que é, que é, talvez seja este o messias dos pássaros, em comparação, a águia não passa de um S. João Baptista qualquer, Após mim vem aquele que é mais forte do que eu, a história da aviação não acaba aqui. Durante algum tempo voaram acompanhados por um milhafre que assustara e fizera fugir todos os pássaros, iam só os dois, o milhafre adejando e pairando, percebe-se que voe, a passarola sem mover as asas, não soubéssemos nós que isto é feito de sol, âmbar, nuvens fechadas, ímanes e lamelas de ferro, e não acreditaríamos no que os nossos olhos vêem, além de que não teríamos a desculpa da mulher que estava deitada no restolho e já não está, acabou-se-lhe o gosto, daqui nem o sítio se vê.

O vento mudou para Sudeste, sopra com muita força, a terra passa em baixo como a superfície móvel de um rio que transportasse na corrente campos, bosques, aldeias, cores de verde e amarelo, ocres e castanhos, paredes brancas, velas de moinhos, e também fios de água sobre a água, que forças seriam capazes de fazer a separação dessas águas, o grande rio que passa e tudo leva consigo, os pequenos regatos que nele procuram caminho, água dentro da água, e não o sabem. Estão os três voadores à proa da máquina, vão na direcção do poente, e o padre Bartolomeu Lourenço sente que a inquietação regressou e cresce é pânico já, enfim vai ter voz, e essa voz é um gemido, quando o sol se puser, descerá irremediavelmente a máquina, talvez caia, talvez se despedace e todos morrerão, É Mafra, além, grita Baltasar, parece o gajeiro a bradar do cesto da gávea, Terra, nunca comparação alguma foi tão exacta, porque esta é a terra de Baltasar, reconhece-a, mesmo nunca a tendo visto do ar, quem sabe se por termos no coração uma orografia particular que, para cada um de nós, acertará com o particular lugar onde nascemos, o côncavo meu no teu convexo, no meu convexo o teu côncavo, é o mesmo que homem e mulher, mulher e homem, terra somos na terra, por isso é que Baltasar grita, É a minha terra, reconhece-a como um corpo. Passam velozmente sobre as obras do convento, mas desta vez há quem os veja, gente que foge espavorida, gente que se ajoelha ao acaso e levanta as mãos implorativas de misericórdia, gente que atira pedras, o alvoroço toma conta de milhares de homens, quem não chegou a ver duvida, quem viu, jura e pede o testemunho do vizinho, mas provas já ninguém as pode apresentar porque a máquina afastou-se na direcção do sol, tornou-se invisível contra o disco refulgente, talvez não tivesse sido mais que uma alucinação, já os cépticos triunfam sobre a perplexidade dos que acreditaram.

Em poucos minutos, a máquina atinge a costa do mar, parece que a está puxando o sol para a levar ao outro lado do mundo. O padre Bartolomeu Lourenço compreende que vão cair na água, puxa violentamente a corda, a vela corre toda para um lado, fecha-se de golpe, e a subida é tão rápida que a terra se alarga de novo e o sol surge muito acima do horizonte. É demasiado tarde, porém. Para o lado do oriente já se avistam sombras, a noite está-se aproximando, não é possível fugir-lhe. Pouco a pouco, a máquina começa a derivar para nordeste, em linha recta, obliquando na direcção da terra, sujeita à dupla atracção da luz, que rapidamente enfraquece, mas ainda tem forças para a sustentar no espaço, e da escuridão nocturna, que já oculta os vales distantes. Agora não se sente o vento natural, vencido pela violenta corrente de ar provocada pela descida, pelo silvo agudo que a deslocação faz vibrar na cobertura de vime.

solO sol está pousado no horizonte do mar, como uma laranja na palma da mão, é um disco metálico retirado da forja para arrefecer, já o seu brilho não fere os olhos, foi branco, cereja, rubro, vermelho, ainda fulge, mas sombriamente, está a despedir-se, adeus, até amanhã, se houver amanhã para os três nautas aéreos que tombam como uma ave ferida de morte, mal equilibrada nas asas curtas, com o seu diadema de âmbar, em círculos concêntricos, queda que parece infinita e vai acabar. Na frente deles ergue-se um vulto escuro, será o adamastor desta viagem, montes que se erguem redondos da terra, ainda riscados de luz vermelha na cumeada. O padre Bartolomeu Lourenço olha indiferente, está fora do mundo, para além da própria resignação, espera o fim que não vai tardar. Mas de súbito Blimunda solta-se de Baltasar, a quem convulsa se agarrara quando a máquina precipitou a descida, e rodeia com os braços uma das esferas que contêm as nuvens fechadas, as vontades, duas mil são mas não chegam, cobre-as com o corpo, como se as quisesse meter dentro de si ou juntar-se a elas. A máquina dá um salto brusco, levanta a cabeça, cavalo a que puxaram o bridão, suspendese por um segundo, hesita, depois recomeça a cair, mas menos depressa, e Blimunda grita, Baltasar, Baltasar, não precisou chamar três vezes; já ele se abraçara com a outra esfera, fazia corpo com ela, Sete-Luas e Sete-Sóis sustentando com as suas nuvens fechadas a máquina que baixava, agora devagar, tão devagar que mal rangeram os vimes quando tocou o chão, só bandeou para um lado, não havia ali espeques para a receber, é que não se pode ter tudo. Frouxos de membros, extenuados, os três viajantes escorregaram para fora, tentaram ainda segurar-se à amurada, não o conseguiram, e, rolando, acharam-se estendidos no chão, nem sequer feridos de raspão, é bem verdade que não se acabaram os milagres, e este foi dos bons, nem foi preciso invocar S. Cristóvão, ele lá estava, vigiando o trânsito, viu aquele avião desgovernado, deitou-lhe a grande mão e evitou a catástrofe, para seu primeiro milagre aéreo não esteve nada mal.

Despede-se o último ar de dia, não tarda que se feche a noite completamente, luzem no céu as primeiras estrelas, nem por terem estes chegado tão perto puderam alcançá-las, afinal das contas, que foi isto, o salto duma pulga, subimos ao ar em Lisboa, sobrevoámos a vila de Mafra e a obra do convento, estivemos prestes a cair ao mar, e agora, Onde estamos, perguntou Blimunda, e gemeu porque o estômago lhe doía muito, os braços tinha-os quebrados de forças, inertes, do mesmo se estava queixando Baltasar enquanto se punha de pé e tentava endireitar-se, cambaleando como os bois antes de caírem redondos com o crânio perfurado pela choupa, muita sorte a sua, que, ao contrário deles, passava da quase morte para a vida, não lhe faz mal nenhum cambalear, para que saiba quanto vale poder assentar os pés no chão, Não conheço onde estamos, nunca estive neste sítio, a mim parece-me uma serra, talvez o padre Bartolomeu Lourenço tenha informações. O padre estava a levantar-se, não lhe doíam os membros nem o estômago, apenas a cabeça, mas essa era como se um estilete lhe perfurasse de lado a lado as fontes, Estamos em tão grande perigo como se não tivéssemos chegado a sair da quinta, se ontem não nos encontraram, encontram-nos amanhã, Mas este lugar onde estamos, como se chama, Todo o lugar da terra é antecâmara do inferno, umas vezes vai-se morto a ele, outras vai-se vivo e a morte é depois que vem, Por enquanto ainda estamos vivos, Amanhã estaremos mortos.

Blimunda aproximou-se do padre, disse, Passámos por um grande perigo quando descemos, se fomos capazes de nos livrar desse, doutros também nos livraremos, diga para onde devemos ir, Não sei onde estamos, Quando nascer o dia, veremos melhor, subiremos a um destes montes, e de lá, orientando-nos pelo sol, acharemos caminho, e Baltasar acrescentou, Faremos subir a máquina, já conhecemos as manobras, se o vento nos não faltar, um dia inteiro dará para chegarmos longe, onde o Santo Ofício o não alcance. O padre Bartolomeu Lourenço não respondeu. Apertava a cabeça entre as mãos, depois fazia gestos como se conversasse com um ser invisível, e o seu vulto tornava-se cada vez mais impreciso na escuridão. A máquina pousara num espaço coberto de mato rasteiro, mas, a trinta passos para um lado e para outro, havia moitas altas que se recortavam contra o céu. Tanto quanto dali se podia julgar, não havia sinais de gente nas proximidades. A noite arrefecera muito, nem admirava, Setembro estava no fim e o dia não fora quente. Na revessa da máquina, abrigado do vento, Baltasar acendeu um pequeno lume, mais por se sentirem acompanhados do que para se aquecerem, não convindo, aliás, fazer grande fogueira que poderia ser vista de longe. Sentaram-se, ele e Blimunda, a comer do que traziam no alforge, primeiro chamaram o padre, mas ele não respondeu nem se aproximou, via-se o seu vulto, de pé, agora quieto, talvez estivesse olhando as estrelas, talvez o vale profundo, as terras baixas onde não brilhava uma só luz, parecia que o mundo tinha sido abandonado pelos seus habitantes, afinal não faltavam por aí máquinas voadoras capazes de viajar com qualquer tempo, até de noite, foi-se toda a gente embora, ficaram estes três com um passaroco que não sabe para onde há-de ir se lhe tiram o sol.

Depois de terem comido, deitaram-se sob o casco da máquina, cobertos com o capote de Baltasar e um pano de vela que tiraram da arca, e Blimunda murmurou, Está doente o padre Bartolomeu Lourenço, não parece o mesmo homem, Há muito tempo que não é o mesmo homem, que se lhe há-de fazer, E nós, que faremos, Não sei, porventura tomará ele amanhã uma resolução. Ouviram o padre mexer-se, arrastar os pés no mato, ouviram-no murmurar, com isso se tranquilizaram, o pior de tudo era o silêncio, e, apesar do frio e do desconforto, adormeceram, mas não profundamente. Ambos sonhavam que viajavam pelo ar, Blimunda num coche puxado por cavalos com asas, Baltasar cavalgando um touro que levava uma manta de fogo, de repente os cavalos perdiam as asas e ateava-se o rastilho, começavam a rebentar os foguetes, e na aflição do pesadelo ambos acordaram, não tinham dormido muito, havia um clarão como se o mundo estivesse a arder, era o padre com um ramo inflamado que pegava fogo à máquina, já a cobertura de vime estalava, e de um salto Baltasar pôs-se de pé, foi para ele, e deitando-lhe os braços à cintura puxou-o para trás, mas o padre resistia, de modo que Baltasar o apertou com violência, atirou-o ao chão, calcou a pés o archote, enquanto Blimunda batia com o pano de vela as chamas que tinham alastrado ao mato e agora, aos poucos, se deixavam apagar. Vencido e resignado, o padre levantou-se. Baltasar cobria com terra a fogueira. Mal conseguiam ver-se no escuro. Blimunda perguntou em voz baixa, num tom neutro, como se conhecesse de antemão a resposta, Porque foi que deitou fogo à máquina, e Bartolomeu Lourenço respondeu, no mesmo tom, como se estivesse à espera da pergunta, Se tenho de arder numa fogueira, fosse ao menos nesta. Afastou-se para as moitas que ficavam da banda do declive, viram-no baixar-se rapidamente, e, olhando outra vez, já lá não estava, alguma necessidade urgente do corpo, se ainda as tem um homem que quis deitar fogo a um sonho. O tempo passava, o padre não reaparecia. Baltasar foi buscá-lo. Não estava. Chamou por ele, não teve resposta. A lua começava a nascer, cobria tudo de alucinações e de sombras, e Baltasar sentiu que se lhe arrepiavam os cabelos da cabeça e do corpo. Pensou em lobisomens, em avantesmas de feitio e porte vário, se andariam por ali almas penadas, acreditou firmemente que o padre tinha sido levado pelo demónio em pessoa, e antes que o mesmo demónio dali o levasse também a espernear, rezou um padre-nosso a Santo Egídio, santo auxiliar e intercessor em casos e situações de pânico, epilepsia, loucura e temores nocturnos. Terá o santinho ouvido a invocação, pelo menos não veio o diabo buscar a Baltasar, porém os temores é que não se dissiparam, de repente toda a terra começou a murmurar, era o que parecia, talvez efeito da lua, melhor santa me será Sete-Luas, por isso a ela voltou, ainda a tremer do susto, Sumiu-se, e Blimunda, declarou, Foi-se embora, não o tornaremos a ver.

Mal dormiram nessa noite. O padre Bartolomeu Lourenço não voltou. Ao amanhecer, nasceria o sol daí a pouco, Blimunda disse, Se não estenderes a vela, se não tapares bem tapadas as bolas de âmbar, a máquina vai-se sozinha, nem precisa de quem a governe, talvez fosse melhor deixá-la ir, porventura se encontraria em algum lugar da terra ou do céu com o padre Bartolomeu Lourenço, e Baltasar respondeu, num rompante violento, Ou no inferno, a máquina, onde está, fica, e foi estender a vela embreada, cobrir de sombra o âmbar, mas não ficou satisfeito, podia a vela rasgar-se, ser afastada pelo vento. Com a faca cortou ramos das moitas altas, cobriu com eles a máquina, e, passada uma hora, dia claro, quem de longe olhasse naquela direcção não veria mais que um amontoado vegetal no meio de um espaço de mato rasteiro, não é tão raro assim, o pior vai ser quando tudo isto secar. Do que sobejara da véspera almoçou Baltasar um pouco, Blimunda antes, é sempre a primeira a comer, fechados os olhos, como estamos lembrados, hoje até escondera a cabeça debaixo do capote de Baltasar. Não têm mais que fazer aqui, E agora, perguntou um deles, e o outro respondeu, Não temos mais nada que fazer aqui, Então vamos, Descemos pelo sítio onde estava o padre Bartolomeu Lourenço quando desapareceu, talvez lhe encontremos a rasto.

Serra de Montejunto.netDurante toda a manhã procuraram daquele lado da serra, enquanto baixavam do alto, grandes montes redondos e silenciosos, que nome teriam, e nem um sinal descobriram, uma pegada que fosse, um farrapo preto que espinhos tivessem agarrado, parecia que o padre se sumira nos ares, onde irá a estas horas, E agora, esta foi a pergunta de Blimunda, Agora vamos em frente, o sol está além, para a direita fica o mar, em alcançando lugar de gente, saberemos onde estamos, que serra é esta, quando quisermos cá voltar, Isto aqui é a serra do Barregudo, lhes disse um pastor, légua andada, e aquele monte além, muito grande, é Monte Junto.

Levaram dois dias a chegar a Mafra, depois de um largo rodeio, por fingimento de que vinham de Lisboa. Andava procissão na rua, todos dando graças pelo prodígio que fora Deus servido fazer, mandando voar por cima das obras da basílica o seu Espírito Santo.

Capítulo XVII

Vivemos em tempo que qualquer freira, como a mais natural coisa do mundo, encontra no claustro o Menino Jesus ou no coro um anjo tocando harpa, e, se está fechada em sua cela, onde, por causa do segredo, são mais corporais as manifestações, atormentam-na diabos sacudindo-lhe a cama, e assim lhe abalando os membros, os superiores em modo de lhe agitarem os seios, os inferiores tanto que freme e transpira a fenda que no corpo há, janela do inferno, se não porta do céu, esta por estar gozando, aquela porque gozou, e em tudo isto se acredita, porém, não pode Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, dizer, Eu voei de Lisboa ao Monte Junto, tomá-lo-iam por doido, e vá com muita sorte, por tão pouco não se inquietaria o Santo Ofício, é o que por aí não falta, loucos varridos em terra que a loucura varreu. Dos dinheiros do padre Bartolomeu Lourenço tinham vivido Baltasar e Blimunda até agora, juntando-lhes as couves e o feijão da horta, um pedaço de carne enquanto foi tempo dela, sardinha salgada quando não chegava fresca, e quanto se gastasse e comesse era muito menos para sustentar o corpo próprio que para alimentar o crescimento da máquina voadora, se então realmente acreditavam que ela voaria.

Voou a máquina, se tal se crê, e hoje está reclamando, o corpo o seu alimento, é para isto que sobem os sonhos alto, nem sequer o ofício de carreiro pode Sete-Sóis tomar, os bois foram vendidos, partiu-se o carro, não fosse Deus tão descuidado, e os bens dos pobres seriam eternos. Com junta de bois e carro seus, poderia Baltasar ir à vedoria-geral oferecer-se para trabalhar, e apesar de manco o aceitariam. Assim, duvidariam que fosse ele capaz, com uma só mão, de governar os animais de el-rei ou dos nobres e outros particulares, que, para obterem as boas graças da coroa, os haviam emprestado, Em que posso então eu trabalhar, irmão, isto perguntou Baltasar a Álvaro Diogo, seu cunhado, na noite mesma do dia em que chegaram, agora moradores todos na casa paterna, tinham acabado de cear, mas antes ouviram da boca de Inês Antónia, ele e Blimunda, o maravilhoso caso da passagem do Espírito Santo por cima da vila, Que com estes olhos que a terra há-de comer o vi, mana Blimunda, e viu Álvaro Diogo, que estava na obra, pois não é verdade que viste, meu homem, e Álvaro Diogo, soprando um tição da fogueira, respondeu que sim, que passara uma coisa por cima da obra, Foi o Espírito Santo, insistiu Inês Antónia, disseram-no os frades para quem os quis ouvir e tanto foi o Espírito Santo que se fez a procissão de graças, Pois seria, resignou-se o marido, e Baltasar, com os olhos em Blimunda que sorria, Ele há coisas no céu que não sabemos explicar, e Blimunda devolvendo a intenção, Soubéssemo-las nós e as coisas do céu teriam outros nomes. Ao canto da lareira dormitava o velho João Francisco, sem carro nem junta de bois, sem terra nem Marta Maria, parecia alheado da conversa, mas disse, e logo se ausentou outra vez para o sono, no mundo só há morte e vida, ficaram todos à espera do resto, porque será que os velhos se calam quando deveriam continuar falando, por isso os novos têm de aprender tudo desde o princípio. Há aqui mais quem esteja dormindo, por essa razão não poderia falar, mas, se acordado estivesse, talvez lho não consentissem, porque só tem doze anos, pode a verdade estar na boca das crianças, mas para a dizerem têm de crescer primeiro, e então passam a mentir, este é o filho que ficou, chega à noite morto de dar serventia, andaime acima, andaime abaixo, acaba de cear e adormece logo, Querendo, há trabalho para toda a gente, disse Álvaro Diogo, podes ir de servente ou fazer carretos com os carros de mão, o teu gancho é quanto basta para amparares o varal, são assim os tropeções da vida, um homem vai à guerra, volta de lá aleijado, depois voa por artes misteriosas, confidenciais, e enfim se quer ganhar o pobre pão de cada dia, é o que se vê, e pode gabar-se da sorte, que há mil anos, se calhar, ainda não se fabricavam ganchetas a fazer de mãozinha, como será daqui a outros mil.

Manhã cedo, saíram Baltasar e Álvaro Diogo, mais o rapaz, é a casa dos Sete-Sóis, como antes foi explicado, muito perto da igreja de Santo André e do palácio dos viscondes, moram aqui na parte mais antiga da vila, ainda se vêem uns restos do castelo que os mouros levantaram no seu bom tempo, manhã cedo saíram, vão encontrando pelo caminho outros homens da terra, que Baltasar conhece, vai tudo para a obra, por isso, talvez, é que estão abandonados os campos, não chegam velhos e mulheres para o amanho, e, como Mafra está no fundo duma cova, têm aqueles de subir por carreiros que já não são os de antigamente, cobriu-os o entulho que do alto da Vela vem sendo despejado. Olhando cá de baixo, o que de paredes se vê não promete nenhuma torre de Babel, e, chegando mais ao sopé da vertente, de todo a construção se esconde, sete anos há que andam nisto, por este passo só no dia do juízo, e então não valeu a pena, A obra é grande, diz Álvaro Diogo, quando estiveres ao pé saberás, e Baltasar, que está desdenhando de canteiros e pedreiros, mete a viola no saco, não tanto pela pedraria já levantada, mas pela multidão de homens que cobrem o terreiro, é um formigueiro de gente que acorre de todos os lados, se tudo isto veio para trabalhar, então mordo a língua, falei antes de tempo. O rapazito já os deixou, foi ao serviço, acarretar cochos de cal, e os dois homens atravessam o terreiro para a banda da esquerda, vão à vedoria, dirá Álvaro Diogo que este aqui é meu cunhado, natural e morador em Mafra, que em Lisboa viveu muitos anos, mas agora voltou de vez à casa de seu pai, e quer trabalho, não que sirvam de muito recomendações, mas enfim, Álvaro Diogo está cá desde a primitiva, é operário capaz e cumpridor, uma palavrinha sempre conforta. Baltasar abre a boca de espanto, vem duma aldeia e entra numa cidade, bem está que Lisboa seja o que é, nem poderia ser de menos a cabeça de um reino senhor do Algarve, que é pequeno e perto, mas também doutras partes grandes e distantes, que são o Brasil, África e Índia, mais uns tantos lugares avulsos espalhados pelo mundo, bem está, digo, que seja Lisboa aquela desmedida e confusão, porém, este ajuntamento enorme de telheiros e casas de muitos e variados tamanhos, é coisa que só vendo ao perto se acredita, quando há três dias sobrevoou Sete-Sóis este lugar, levava tão agitada a alma que lhe pareceu ilusão dos sentidos o casario e arruamentos, e pouco maior que capela a principiada fábrica da basílica. Se Deus, que lá do alto vê tudo, vê tudo assim tão mal, então mais lhe valia andar cá pelo mundo, por seu próprio e divino pé, escusavam-se intermediários e recados que nunca são de fiar, a começar pelos olhos naturais, que vêem pequeno ao longe o que é grande ao perto, salvo se usa Deus um óculo como o do padre Bartolomeu Lourenço, quem dera que me esteja olhando agora, se sim ou não me vão dar trabalho.

Álvaro Diogo já foi à sua vida, por pedra em cima de pedra, se demorasse mais perderia um quartel, grande prejuízo, agora tem Baltasar de acabar de convencer o escrivão da matrícula de que tanto vale um gancho de ferro como uma mão de carne e osso, mas o matriculador duvida, não pode assumir a responsabilidade, e vai perguntar dentro, pena não poder Baltasar apresentar a sua carta credencial de construtor de aeronaves, quando menos explicar que andou na guerra, se isso lhe serviria de alguma coisa, passaram catorze anos, vivemos felizmente em paz, que tem ele que vir para aqui falar de guerras, as guerras que acabaram é como se nunca tivessem acontecido. Voltou o matriculador, vem de boa cara, Como é que te chamas, e pega na pena de pato, molha-a na tinta castanha, afinal valeu a pena ter falado Álvaro Diogo, ou por ser da terra o pretendente, ou por estar ainda na força da vida, trinta e nove anos, embora com alguns cabelos brancos, ou simplesmente porque, tendo passado por aqui o Espírito Santo há três dias, havia Deus de ofender-se se logo fosse recusado trabalho a quem o pede, Como é que te chamas, Baltasar Mateus, de alcunha o Sete-Sóis,

carrinho de mãoPodes vir trabalhar na segunda-feira, começas a semana, vais para os carros de mão. Baltasar agradeceu como devia ao matriculador e saiu da vedoria-geral, nem triste nem alegre, um homem deve ser capaz de ganhar o seu pão de qualquer maneira e em qualquer lugar, mas se é o caso de esse pão não lhe alimentar também a alma, satisfez-se o corpo, a alma padece. Sabia já Baltasar que o sítio onde se encontrava era conhecido pelo nome de Ilha da Madeira, e bem posto lhe fora, porque, tirando umas poucas casas de pedra e cal, todo o mais era de tabuado, mas construído para durar. Havia oficinas de ferreiros, bem que podia Baltasar ter mencionado a sua experiência de forja, nem tudo lembra, e outras artes de que nada sabia, mais tarde se juntarão as dos latoeiros, dos vidraceiros, dos pintores, e quantas mais. Muitas das casas de madeira tinham sobrados, em baixo acomodavam-se as bestas e os bois, em cima as pessoas de muita ou alguma distinção, os mestres da obra, os matriculadores e outros senhores da vedoria-geral, e oficiais da guerra que governavam os soldados. A esta hora da manhã estavam saindo das lojas os bois e as mulas, outros teriam sido levados mais cedo, o chão empapava-se de urina e excrementos, e, como em Lisboa, na procissão do Corpo de Deus, os rapazitos corriam pelo meio da gente e do gado, empurravam-se com violência, e um deles, querendo fugir a outro, caiu e rebolou para debaixo duma junta de bois, mas não foi pisado, estava lá o anjo custódio, livrou-se de boa, sem mais mazela que ficar todo sujo de bosta e mal-cheiroso. Baltasar riu como os outros, a obra tinha os seus divertimentos. A sua guarda também.

Passavam nesta altura uns vinte soldados de infantaria, armados como para a guerra, serão manobras, ou irão à Ericeira rechaçar um desembarque de piratas franceses, tantas vezes hão-de tentar que um dia vêm por aí abaixo, muitos e muitos anos depois de estar concluída esta babel, entrará Junot em Mafra, onde no convento apenas ficaram uns vinte frades velhos, a cair da tripeça, e mandando adiante o coronel Delagarde, ou capitão, tanto faz, quis este entrar no palácio e achou a porta fechada, visto o que foi mandado chamar frei Félix de Santa Maria da Arrábida, que era o guardião, mas o pobrezinho não tinha as chaves isso era com a família real, que tinha fugido, e então o pérfido Delagarde, pérfido lhe chamou o historiador desanda um bofetão no triste frade, cujo, ó evangélica mansidão, ó lição divina, lhe oferece incontinente a outra face, se quando Baltasar perdeu a mão esquerda em Jerez de los Caballeros tivesse oferecido a direita, não poderia agora segurar nos varais do carro. E, por falar de Caballeros, também ali passavam cavaleiros armados como os infantes que já lá vão no terreiro, agora se percebe, a colocar sentinelas, não há nada como trabalhar com guarda à vista.

Nestas grandes barracas de madeira dormem os homens, não comporta cada uma menos de duzentos e, aqui onde está, não pode Baltasar contar os barracões todos, chegou a cinquenta e sete e perdeu-se, sem falar que ao cabo destes anos não melhorou em aritméticas, o melhor seria ir com um balde de cal e uma brocha, sinal neste, sinal naquele, para não repetir nem falhar, assim como quem prega cruzes de S. Lázaro nas portas, por causa do mal de pele. Numa esteira ou num beliche como estes é que Baltasar dormiria se não tivesse casa em Mafra, e mulher para dormir acompanhado, coitados de tantos, vindos de longe, diz-se que um homem não é de pau, muito pior e mais custoso de aguentar é justamente quando se arma o pau no homem, de certeza não vão chegar as viúvas de Mafra para satisfazer tanta precisão, como será. Deixou Baltasar as casas da acomodação e foi ver o campo militar, aí deu-lhe o coração um salto tantas tendas de campanha, foi como se o tempo tivesse desandado para trás, talvez pareça impossível, mas há momentos em que um soldado retirado do serviço pode sentir saudades até da guerra, a Baltasar não é a primeira vez que tal sucede. Já lhe dissera Álvaro Diogo que estavam em Mafra muitos soldados, uns a auxiliar nos trabalhos das minas e do rebentamento dos tiros de pólvora, outros para guardar os trabalhadores e castigar as desordens, e, a julgar pelo número de tendas de campanha, os muitos eram milhares. Está um pouco azamboado Sete-Sóis, que nova Mafra é esta, cinquenta moradas lá em baixo, quinhentas cá em cima, sem falar noutras diferenças, como esta fiada de casas de pasto, barracões quase tão grandes como os dormitórios, com mesas e bancos corridos, fixados ao chão, e compridos mostradores, agora não se vê por aqui gente, mas lá para o meio da manhã põem-se ao lume os caldeirões para o jantar do meio-dia, e, tocando a corneta ao rancho, será uma carreira geral a ver quem chega primeiro, vêm sujos como estavam na obra, é uma algazarra de ensurdecer, amigos chamando amigos, senta-te aqui, guarda-me o lugar, mas carpinteiros sentam-se com carpinteiros, pedreiros com pedreiros, cabouqueiros com cabouqueiros, e a arraia-miúda da serventia acomoda-se lá à ponta, cada qual com seu igual, ainda bem que Baltasar pode ir comer a casa, com quem haveria ele de falar, se de carros de mão ainda nada sabe e de aviões é o único a saber.

Diga Álvaro Diogo o que disser, em abono seu e dos mais operários, a obra não está adiantada. Baltasar deu-lhe a volta por inteiro, com o vagar de quem observa a casa onde passará a viver, lá vão aqueles com os carros de mão, outros subindo aos andaimes, uns levando a cal e a areia, outros, aos pares, transportando as pedras a pau e corda pelas rampas suaves, e os mestres-de-obra vigiando de bastão em punho, e os olheiros com o olho na diligência do operário e na perfeição do serviço. As paredes não têm mais que três vezes a altura de Baltasar, e não abraçam todo o perímetro da basílica, mas são grossas como muralhas de guerra, não chegam a tanto as que restam do castelo de Mafra, também eram outros os tempos, sem artilharia, só a pedra que isto leva na largura justifica os vagares de crescimento na altura. Ali tombado está um carro de mão, quer Baltasar experimentar se lhe aprende facilmente o jeito, não custa nada, e se com uma goiva cavar uma meia-lua na parte inferior do varal esquerdo, então poderá medir meças a qualquer par de mãos.

Enfim, desce pelo carreiro que subiu, por trás da encosta ficam escondidas a obra e a Ilha da Madeira, se não fosse estarem constantemente rolando do alto pedras e terra solta poderia pensar-se que não iria ali haver basílica nenhuma, nem convento, nem palácio real, só Mafra outra vez, no seu tamanhinho de tantos séculos, ou pouco mais até hoje, no tempo dos romanos, que semearam decretos, dos mouros que vieram depois e plantaram hortas e pomares de que já mal se vê sombra e sítio, até nós, que nos tornámos cristãos por vontade de quem mandava, que, se Cristo em pessoa andou pelo mundo, aqui não chegou, porque nesse caso teria sido no alto da Vela o seu calvário, agora andam a fazer lá um convento, provavelmente é a mesma coisa. E, por pensar com mais afinco nestas coisas de religião, se em verdade são de Baltasar os pensamentos, mas de que serviria perguntar-lhe, lembra-se do padre Bartolomeu Lourenço, não é a primeira vez, claro está, a sós com Blimunda quase não têm outro assunto lembra-se e tem uma dor no coração, arrepende-se de o ter maltratado com tal brutalidade na serra, naquela terrível noite, foi como se tivesse batido num irmão doente, bem sei que ele é padre, e eu nem soldado já sou, porém temos a mesma idade e fizemos a mesma obra. Repete Baltasar, para si próprio, que em dia favorável voltará à serra do Barregudo e ao Monte Junto, a ver se ainda lá estará a máquina que bem podia ter acontecido regressar às escondidas o padre e sozinho levantar voo para terras mais propícias a invenções, como seja, para dar um exemplo, a Holanda, país por excelência dado a fenómenos aeronáuticos, como virá a comprovar um certo Hans Pfaall, que, por não ter sido perdoado de alguns insignificantes crimes, continua a viver na lua, até hoje. Não faltava mais nada que conhecer Baltasar estes acontecimentos futuros, e outros mais cabais, como já terem ido dois homens à lua, que todos os vimos lá, e não encontrarem Hans Pfaall, será porque não procuraram bem. Por serem custosos de encontrar os caminhos.

Estes são mais fáceis. Desde que o sol nasce até que se põe, Baltasar, e com ele, quantos mais, setecentos, mil, mil e duzentos homens, carregam os carros com terra e pedras, no caso de Baltasar o gancho ampara o cabo da pá, o braço direito anda há quase quinze anos a triplicar o jeito e a força, e depois, infindável procissão do Corpus Homini, vão uns atrás dos outros despejar o entulho pela encosta abaixo, e não é só mato o que vão cobrindo, também alguma terra de cultivo, além uma horta do tempo mourisco, vai-se-lhe acabar a vida, pobre dela, tantos séculos a dar couves tenras, alfaces que estalavam de frescura, orégãos, pezìnhos de salsa e hortelã, primícias e primores, e agora adeus, já não correrá mais a água por estas regueiras, já não virá o hortelão puxar o comorozinho de terra para dar de beber ao canteiro que tem sede, enquanto o do lado se regala, da sede que matou: E dando o mundo tantas voltas, muitas mais as dão os homens que nele vivem, talvez que aquele que lá em cima agora mesmo despejou um carro de mão, aí vêm as pedras aos saltos e rebolões, a terra escorregando, adiante a mais pesada, talvez seja ele o hortelão da horta, porém não deve de ser ele, se nem sequer as lágrimas lhe caem.

Passam os dias, as semanas, e as paredes mal crescem. Os tiros vão rebentando a rocha duríssima que os soldados andam a atacar agora, bom proveito ela daria, e pagamento do trabalho que dá, se pudesse servir; como outra, para encher as paredes, mas esta, que agarrada ao monte só consente desprender-se dele com grande violência, quando posta ao ar não demora a esfarelar-se, às lascas, em pouco tempo se tornaria terriço se não viesse o carro de mão deitá-la a fundo. Andam também no transporte carros maiores, com rodas de sege, puxados a mulas, não falta carregarem-nos em excesso, e, como nestes dias tem chovido, atascam-se as bestas no lamaçal, donde por fim se arrancam apertadas pelo chicote que lhes desaba nos lombos, na cabeça quando Deus não está a olhar, embora tudo isto seja para serviço e glória do mesmo Deus, e assim não se sabe se ele não estará desviando os olhos de propósito. Os homens dos carros de mão, porque levam menos carga, não se atolam tanto, além de terem feito, com tábuas que ficam ao desbarato quando se alteiam os andaimes, uns passadiços firmes, mas, não chegando estes para todos, há sempre uma guerra de espreita e corre, a ver quem primeiro chega, e, chegando a par, a ver quem mais empurra, e a partir daí já se conta que salte murro e pontapé, se não cortarem sarrafos o ar, momento em que avança a patrulha de soldados, manobra em geral suficiente para esfriar os ânimos aquecidos, ou, caso não, duas pranchadas, dois vergões na lombeira, como às mulas. Vem chovendo, mas não tanto que o trabalho tenha de parar, excepto o dos pedreiros, pois a água desfaz a argamassa, empoça nas larguíssimas paredes, por isso recolhem-se os operários aos telheiros, à espera que levante, enquanto os canteiros, que são gente fina, batem abrigados o mármore, tanto para a cantaria como para o lavrado, provavelmente prefeririam descansar. A estes tanto faz que as paredes cresçam depressa como devagar, têm o risco da pedra a seguir, caneluras, acantos, festões, acrotérios, grinaldas, estando acabada a obra logo a levam os carregadores a pau e corda, para o telheiro onde com outras ficará guardada, chegando a hora a irão buscar do mesmo modo, salvo se for tão pesada que requeira cabrestante e plano inclinado. Mas têm os canteiros o privilégio de trabalhar pelo seguro, quer chova, quer faça sol, com o jornal sempre garantido, ali debaixo de telha, brancos do pó do mármore, parecem fidalgos de cabeleira, truca-truca, truca-truca, com o cinzel e a maceta, trabalho de duas mãos. Esta chuva de hoje não tem sido tão forte que mandassem os olheiros recolher toda a gente, sequer os dos carros de mão, menos afortunados que as formigas, que essas, estando o céu de aguagem, levantam a cabeça a farejar os astros, e recolhem aos buracos, não são nenhuns homens para terem de trabalhar à chuva.

chuvaEnfim, vem do lado do mar, caminhando sobre os campos, uma escura cortina de água, largam os homens, mesmo sem ordem, os carros de mão, e debandam para os telheiros ou chegam-se à revessa das paredes, se vale a pena, mais molhados do que estavam não podem ficar. As mulas atreladas ficam quietas sob o grande chuveiro que cai, o pêlo empapado de suor está agora ensopado da contínua água, os bois ruminam jungidos e indiferentes, quando a chuva bate com mais força sacodem as cabeças, quem haverá aí capaz de dizer o que sentem estes animais, que fibras lhes estremecem, e até onde, se no movimento que fazem se tocam os cornos luzidios, porventura apenas, Estás aí. Quando a chuva se afasta ou se tornou aturável, voltam os homens e tudo recomeça, carregar e descarregar, puxar e empurrar, arrastar e levantar, hoje não há tiros de pólvora por causa desta geral humidade, melhor para os soldados que gozam a folga debaixo dos telheiros, de gorra com as sentinelas também recolhidas, é a alegria da paz. E como a chuva voltou novamente, caindo de um céu escuríssimo, tão cedo não vai acabar, deu-se ordem para largarem os homens o trabalho, só os canteiros continuaram a bater a pedra, truca-truca, truca-truca, são largos os telheiros, nem os salpicos soprados pelo vento vêm macular o grão do mármore.

Baixou Baltasar à vila pelo carreiro escorregadio, um homem que descia à sua frente estatelou-se na lama e todos riram, de riso caiu outro, o que vale são estas distracções, que nesta terra de Mafra não há pátios de comédias, não há cantarinas nem representantes, ópera só em Lisboa, para vir o cinema ainda faltam duzentos anos, quando houver passarolas a motor, muito custa o tempo a passar, até que chegue a felicidade, olá. O cunhado e o sobrinho já terão chegado a casa, ainda bem para eles, não há nada que valha uma fogueira quando um homem está enregelado, aquecer as mãos à labareda alta, o coirato dos pés descalços rente ao brasido, e o frio a retirar-se dos ossos, devagarinho, como geada que se derrete ao sol. A bem dizer, melhor do que isto, que o há, só uma mulher na cama, e se a mulher é a que se quer, não precisa mais que aparecer no caminho, como agora vemos Blimunda, veio partilhar o mesmo frio e a mesma chuva, e traz uma saia das suas que lança sobre a cabeça do homem, este cheiro de mulher que faz subir lágrimas aos olhos, Estás cansado, perguntou ela, quanto basta para que o mundo se torne suportável, uma aba da saia cobre as duas cabeças, mal comparado é um céu, assim vivesse Deus com os nossos anjos.

Terramoto de 1755A Mafra chegaram soltas notícias de que em Lisboa se sentiu um terramoto, sem outros estragos que caírem beirais e chaminés, e abrirem-se algumas rachas em paredes velhas, mas, como todo o mal traz de caminho o seu bem, fizeram negócio magnífico os cerieiros, foi um corropio de velas para as igrejas, com particular preferência pelos altares de S. Cristóvão, santo de grande valimento em casos de peste, epidemias, raios, incêndios e tempestades, inundações, más viagens e tremores de terra, em concorrência com Santa Bárbara e Santo Eustáquio, que também não são pecos nestas protecções. Mas os santos são como os homens, estes que andam aqui a construir o convento, e quem diz estes diz outros, noutras construções e destruições, os santos cansam-se, estimam muito o seu repouso, que só eles sabem quanto trabalho dá segurar as forças naturais, fossem elas forças de Deus, e seria fácil, bastava ir a Deus pedir-lhe, Olhe lá, não sopre agora, não sacuda, não ateie e não alague, não deite praga nem ladrão à estrada, e só se ele fosse um deus de maldade é que não atenderia aos rogos, mas, como as forças o que são é naturais e os santos se distraem, mal acabámos de suspirar de alívio por ter sido benigno o abalo, aí temos uma tempestade como doutra não há memória, porém, sem chuva nem granizo, antes fosse, talvez lhe quebrassem esta força do vento que joga livremente com os navios ancorados, como cascas de noz, repuxando, esticando e rebentando as amarras ou arrancadas do fundo as âncoras, e logo os arrasta dos surgidoiros, e vão bater uns contra os outros, arrombando-se os costados e indo a pique com os marinheiros clamando, só eles é que saberão a quem pedem socorro, ou encalhando em terra onde a força das águas derradeiramente os despedaça. Todos os cais se desmoronam rio acima o vento e as vagas arrancam de raiz as pedras e lançam-nas para terra, arrombando janelas e portas como pelouros, que inimigo é este que fere sem ferro nem fogo. Na presunção de que seja o demónio o autor do distúrbio, tudo quanto é mulher, ama, criada ou escrava, está de joelhos no oratório, Maria Santíssima, Virgem Nossa Senhora, enquanto os homens, pálidos de morte, sem mouro ou tapuia em quem meter a espada, debulham as contas do rosário, padre nosso, ave-maria, afinal, se tanto chamamos por estes, o que nos falta é pai e mãe. As ondas batem com tal força na praia deste sítio da Boavista, que os borrifos, levantados e levados pelo vento, vão cair de chapa, como chuveiros, contra os muros do convento das Bernardas e, mais longe ainda, do mosteiro de S. Bento. Se o mundo fosse barca e vogasse num grande mar, iria desta vez ao fundo, juntando-se água e águas num dilúvio enfim universal que não pouparia nem Noé nem a pomba. Desde a Fundição até Belém, quase légua e meia, não se viram mais que destroços nas praias, madeiras quebradas, e das cargas dos navios o que por seu peso não ia ao fundo, às praias vinha dar, com lastimosa perda de seus donos e muito prejuízo de el-rei. A alguns navios foram cortados os mastros para que não se virassem, e, mesmo assim, três naus de guerra foram empurradas para a praia, onde se perderiam se não lhes acudisse prontamente socorro particular. Não têm conto as barcas, muletas e lanchas que se despedaçaram nas praias, embarcações de maior porte foram cento e vinte as que encalharam e se perderam, e quanto a gente morta nem vale a pena falar, sabe-se lá quantos cadáveres a maré levou barra fora ou ficaram presos no fundo, o que se sabe é que nas praias, arrojados pelo mar, foram contados cento e sessenta, contas de um rosário que andam por aí a chorar as viúvas e os órfãos, ai o meu rico pai, são poucas as mulheres afogadas, algum homem dirá, ai a minha rica mulher, depois de mortos todos somos ricos. Sendo tantos os mortos, enterram-nos onde calha, ao acaso, alguns não se chegou a apurar quem eram, moravam longe os parentes, não vieram a tempo, mas, para grandes males, grandes remédios, se o terramoto passado tivesse sido maior, e extensa a mortandade, assim mesmo se faria, enterrar os mortos e cuidar dos vivos, fica o aviso para o futuro se tal calamidade vier a acontecer, livre-nos Deus.

Passam mais de dois meses que Baltasar e Blimunda chegaram a Mafra e cá vivem. Em um dia santo, parado o trabalho na obra, fez Baltasar uma jornada e foi ao Monte Junto ver a máquina de voar. Estava no mesmo sítio, na mesma posição, descaída para um lado e apoiada na asa, debaixo da sua cobertura de ramagens já secas. A vela superior, embreada, toda aberta, fazia sombra sobre as bolas de âmbar. Por causa da inclinação do casco, a chuva não empoçara na vela, e assim não havia perigo de esta apodrecer. Ao redor, pelo chão pedregoso, rebentava mato novo e alto, até silvas, caso sem dúvida singular por não ser este o tempo próprio nem o lugar adequado, para cia estar a passarola a defender-se por artes suas, tudo se deve esperar de uma máquina destas. Pelo sim, pelo não, deu Baltasar uma ajuda ao disfarce indo cortar ramos das moitas, como da primeira vez, mas agora com menos custo porque levara um podão, e, concluído o trabalho, deu a volta a esta outra basílica, e viu que estava bem. Depois subiu para a máquina, e, numa tábua do convés, com o bico do espigão, que nos últimos tempos não precisara usar, riscou um sol e uma lua, recado que ficará para o padre Bartolomeu Lourenço, se aqui voltar um dia verá este sinal dos seus amigos, não há confusão possível. Meteu Baltasar pés ao caminho, saíra de Mafra ao nascer do sol, chegou tinha-se fechado a noite, entre ir e voltar andara mais de dez léguas, quem corre de gosto não cansa, dizem, mas Baltasar chegou cansado e ninguém o obrigara a ir, se calhar, quem inventou o ditado tinha alcançado a ninfa e gozado com ela, assim não admira.

Meados de dezembro, voltava Baltasar para casa ao fim do dia, quando viu Blimunda, que, como quase sempre, o viera esperar ao caminho, porém, havia nela uma agitação e uma tremura não costumadas, só quem não conhece Blimunda não sabe que ela anda no mundo como se já o conhecesse de outras vidas anteriores, e chegando-se, perguntou, É meu pai que está pior, e ela respondeu, Não, e logo, baixando muito a voz, O senhor Escarlate está em casa do senhor visconde, que terá ele vindo cá fazer, Tens a certeza, viste-o, Com estes olhos, Seria talvez um homem parecido, É ele, a mim basta-me ver uma vez uma pessoa, e vi-o muitas. Entraram em casa, cearam, depois foi cada qual à enxerga onde dormia, cada casal na sua, o velho João Francisco com o neto, tem este o sono desassossegado, toda a noite a escoicinhar, salvo seja, mas o avô não se importa, sempre é uma companhia para quem não consegue dormir. Por isso é que só ele ouviu, pelas tantas, tarde para quem se deita cedo, uma frágil música que entrava pelas frinchas da porta e do telhado, grande silêncio haveria nessa noite em Mafra para que um simples cravo, tocado no palácio do visconde, com portas e janelas fechadas por causa do frio, e frio não estivesse, assim impunha a decência, pudesse ser ouvido por um velho que a idade ia ensurdecendo, ainda se fossem Blimunda e Baltasar, esses diriam, É o senhor Escarlate que está a tocar, é bem verdade que pelo dedo se conhece o gigante, isto dizemos nós, uma vez que existe o provérbio e vem a propósito. Ao outro dia, no crepúsculo da madrugada, enquanto se acomodava ao canto da lareira, o velho disse, Esta noite ouvi uma música, não lhe ligaram importância Inês Antónia, nem Álvaro Diogo, nem o neto, isto de velhos estão sempre a ouvir coisas, mas Baltasar e Blimunda ficaram tristes de ciúme, se alguém ali tinha direito a ouvir músicas assim, eles eram, e mais ninguém. Foi ele para o trabalho, e ela ficou rondando durante toda a manhã o palácio.

Domenico Scarlatti pedira licença ao rei para ir ver as obras do convento. Recebeu-o o visconde em sua casa, não porque fosse excessivo o seu gosto pela música, mas, sendo o italiano mestre da capela real e professor da infanta D. Maria Bárbara, figurava, por assim dizer, uma emanação corpórea do paço. Nunca se sabe quando agasalhos rendem mercês e, não sendo casa de visconde hospedaria, vale a pena, em todo caso, fazer o bem olhando a quem. Tocou Domenico Scarlatti no cravo desafinado do visconde, à tarde o ouviu a viscondessa, tendo ao colo sua filha Manuela Xavier, só de três anos, de quantos estiveram no salão a mais atenta foi ela, agitava os deditos como via Scarlatti fazer, o que muito acabou por incomodar a mãe, por isso a passou para os braços da ama. Não vai haver muita música na vida desta criança, à noite estará dormindo quando Scarlatti tocar, daqui a dez anos morrerá e será sepultada na igreja de Santo André, onde ainda está, se no mundo há lugar e caminho para prodígios e maravilhas, talvez por baixo da terra lhe cheguem as músicas que a água estará dedilhando no cravo que foi lançado ao poço de S. Sebastião da Pedreira, se poço continua, que o fim dos mananciais é secarem e depois entulham-se as minas.

Saiu o músico a visitar o convento e viu Blimunda, disfarçou um o outro disfarçou, que em Mafra não haveria morador que não estranhasse, e estranhando não fizesse logo seus juízos muito duvidosos, ver a mulher do Sete-Sóis conversando de igual com o músico que está em casa do visconde, que terá ele vindo cá fazer, ora veio ver as obras do convento, para quê se não é pedreiro nem arquitecto, para organista ainda o órgão nos falta, isso a razão há-de ser outra, Vim-te dizer, e a Baltasar, que o padre Bartolomeu de Gusmão morreu em Toledo, que é em Espanha, para onde tinha fugido, dizem que louco, e como não se falava de ti nem de Baltasar, resolvi vir a Mafra saber se estavam vivos. Blimunda juntou as mãos, não como se rezasse, mas como quem estrangula os próprios dedos, Morreu, Foi essa a notícia que chegou a Lisboa, Na noite em que a máquina caiu na serra, o padre Bartolomeu Lourenço fugiu de nós e nunca mais voltou, E a máquina, continua, que faremos com ela, Defendam-na, cuidem-na, pode ser que um dia volte a voar Quando foi que morreu o padre Bartolomeu Lourenço, Que Diz-se que foi no dia dezanove de Novembro, por sinal que nessa data houve em Lisboa uma grande tempestade, se o padre Bartolomeu de Gusmão fosse santo seria um sinal do céu, Que é ser santo, senhor Escarlate, Que é ser santo, Blimunda.

Ao outro dia, Domenico Scarlatti partiu para Lisboa. Numa volta do caminho, fora da vila, esperavam-no Blimunda e Baltasar, este perdera um quartel para poder despedir-se. Aproximaram-se da sege como quem ia pedir uma esmola, Scarlatti mandou parar e estendeu-lhes as mãos, Adeus, Adeus. Ao longe ouvia-se o rebentar dos tiros de pólvora, parece uma festa, o italiano vai triste, não admira, se vem da festa, mas tristes vão os outros também, quem diria, se voltam para a festa.

Capítulo XVIII

infante D. HenriqueEm seu trono entre o brilho das estrelas, com seu manto de noite e solidão, tem aos seus pés o mar novo e as mortas eras, o único imperador que tem, deveras, o globo mundo em sua mão, este tal foi o infante D. Henrique, consoante o louvará um poeta por ora ainda não nascido, lá tem cada um as suas simpatias, mas, se é de globo mundo que se trata e de império e rendimentos que impérios dão, faz o infante D. Henrique fraca figura comparado com este D. João, quinto já se sabe de seu nome na tabela dos reis, sentado numa cadeira de braços de pau-santo, para mais comodamente estar e assim com outro sossego atender ao guarda-livros que vai escriturando no rol os bens e as riquezas,

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Macau as sedas, os estofos, as porcelanas, os lacados, o chá, a pimenta, o cobre, o âmbar cinzento, o ouro
Goa os diamantes brutos, os rubis, as pérolas, a canela, mais pimenta, os panos de algodão, o salitre
Diu os tapetes, os móveis tauxiados, as colchas bordadas
Melinde o marfim
Moçambique os negros, o ouro
Angola outros negros, mas estes menos bons, o marfim, que esse, sim, é o melhor do lado ocidental da África
São Tomé a madeira, a farinha de mandioca, as bananas, os inhames, as galinhas, os carneiros, os cabritos, o indigo, o açúcar
Cabo Verde alguns negros, a cera, o marfim, os couros, ficando explicado que nem todo o marfim é de elefante,
Açores e Madeira os panos, o trigo, os licores, os vinhos secos, as aguardentes, as cascas de limão cristalizadas, os frutos
 e dos lugares que hão-de vir a ser Brasil o açúcar, o tabaco, o copal, o indigo, a madeira, os couros, o algodão, o cacau, os diamantes, as esmeraldas, a prata, o ouro

que só deste vem ao reino, ano por ano, o valor de doze a quinze milhões de cruzados, em pó e amoedado, fora o resto, e fora também o que vai ao fundo ou levam os piratas, claro está que este todo não é o rendimento da coroa, rica sim, mas não tanto, porém, tudo somado, de dentro e de fora, entram nas burras de el-rei para cima de dezasseis milhões de cruzados, só o direito de passagem dos rios por onde se vai às Minas Gerais rende trinta mil cruzados, tanto trabalho teve Deus Nosso Senhor a abrir as valas por onde as águas haviam de correr e vem um rei português cobrar portagem gananciosa.

D. João vMedita D. João V no que fará a tão grandes somas de dinheiro, a tão extrema riqueza, medita hoje e ontem meditou, e sempre conclui que a alma há-de ser a primeira consideração, por todos os meios devemos preservá-la, sobretudo quando a podem consolar também os confortos da terra e do corpo. Vá pois ao frade e à freira o necessário, vá também o supérfluo, porque o frade me põe em primeiro lugar nas suas orações, porque a freira me aconchega a dobra do lençol e outras partes, e a Roma, se com bom dinheiro lhe pagámos para ter o Santo Ofício, vá mais quanto ela pedir por menos cruentas benfeitorias, a troco de embaixadas e presentes, e se desta pobre terra de analfabetos, de rústicos, de toscos artífices não se podem esperar supremas artes e ofícios, encomendem-se à Europa, para o meu convento de Mafra, pagando-se, com o ouro das minhas minas e mais fazendas, os recheios e ornamentos, que deixarão, como dirá o frade historiador, ricos os artífices de lá, e a nós, vendo-os, aos ornamentos e recheios, admirados. De Portugal não se requeira mais que pedra, tijolo e lenha para queimar, e homens para a força bruta, ciência pouca. Se o arquitecto é alemão, se italianos são os mestres dos carpinteiros e dos alvenéus e canteiros, se negociantes ingleses, franceses, holandeses e outras reses todos os dias nos vendem e nos compram, está muito certo que venham

  • de Roma,
  • de Veneza,
  • de Milão e
  • de Génova, e
  • de Liège, e da França, e da

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Holanda os sinos e os carrilhões, e os candeeiros, as lâmpadas, os castiçais, os tocheiros de bronze, e os cálices, as custódias de prata sobredourada, os sacrários, e as estátuas dos santos de que el-rei é mais devoto, e os paramentos dos altares, os frontais, as dalmáticas, as planetas, os pluviais, os cordões, os dosséis, os pálios, as alvas de peregrinas, as rendas, etrês mil pranchas de pau de nogueira para os caixões da sacristia e cadeiral do coro, por ser madeira muito estimada para esse fim por S. Carlos Borromeu

países do Nortenavios inteiros carregados de tabuado para os andaimes, telheiros e casas de acomodação, e cordas e amarras para os cabrestantes e roldanas

Brasilpranchas de angelim, incontáveis, para as portas e janelas do convento, para o solho das celas, dormitórios, refeitório e mais dependências, incluindo as grades dos espulgadoiros por ser incorrompível madeira

não como este rachante pinho português, que só serve para ferver as panelas e sentar-se nele gente de pouco peso e aliviada de algibeiras.

Desde que na vila de Mafra, já lá vão oito anos, foi lançada a primeira pedra da basílica, essa de Pêro Pinheiro graças a Deus, tudo quanto é Europa vira consoladamente a lembrança para nós, para o dinheiro que receberam adiantado, muito mais para o que hão-de cobrar no termo de cada prazo e na obra acabada,

  • ele é os ourives do ouro e da prata,
  • ele é os fundidores dos sinos,
  • ele é os escultores de estátuas e relevos,
  • ele é os tecelões,
  • ele é as rendeiras e bordadeiras,
  • ele é os relojoeiros,
  • ele é os entalhadores,
  • ele é os pintores,
  • ele é os cordoeiros,
  • ele é os serradores e madeireiros,
  • ele é os passamaneiros,
  • ele é os lavrantes do couro,
  • ele é os tapeceiros,
  • ele é os carrilhadores,
  • ele é os armadores de navios,

se a vaca que tão dócil se deixa mungir não puder ser nossa, ou enquanto nossa não puder vir a ser, ao menos deixá-la ficar com os portugueses, que em pouco tempo estarão a comprar-nos, fiado, um quartilho de leite para fazerem farófias e papos-de-anjo, Querendo vossa majestade repetir, é só dizer, avisa madre Paula.

Vão as formigas ao mel, ao açúcar derramado, ao maná que cai do céu, são quê, quantas, talvez umas vinte mil, todas para o mesmo lado viradas, como certas aves marinhas que às centenas se reúnem nas praias para adorar o sol, tanto faz que o vento lhes dê de rabo, ao arrepio das penas, o que lhes importa é seguir o olho viajante do céu, e em carreirinhas curtas vão passando à frente umas das outras, até que se acaba a praia ou o sol se esconde, amanhã voltaremos a este mesmo lugar, se não viermos nós, nossos filhos virão. Dos vinte mil, quase todos são homens, as poucas mulheres ficam na periferia do ajuntamento, não tanto por causa do costume de se separarem os sexos na missa, mas porque, perdendo-se elas no meio da multidão, vivas, sim, talvez saíssem, mas violadas, como hoje diríamos, não tentarás o Senhor teu Deus, e se o tentares não venhas depois queixar-te de que ficaste grávida.

Já foi dito que é isto missa. Entre a obra e a Ilha da Madeira fica um espaço amplo, calcado pelo ir e vir dos operários, sulcado pelas rodeiras dos carros que vêm e vão, felizmente está agora tudo seco, é a virtude da Primavera quando começa a chegar-se aos braços do Verão, daqui a pouco os homens poderão ajoelhar-se sem temer demasiado pelas joelheiras dos calções, ainda que esta gente não seja da que mais cuida de limpezas, lavam-se com o próprio suor. Numa eminência ao fundo está posta uma capela de madeira, se julgam os assistentes que há milagre capaz de metê-los a todos lá dentro, redondamente se enganam, mais fácil foi multiplicar os peixes e os pães, ou caberem duas mil vontades num frasco de vidro, isso não é milagre nenhum, mas sim a mais natural coisa do mundo, querendo. Então rangem os cabrestantes, com este barulho, ou semelhante, se abrem as portas do céu e do inferno, cada qual de sua qualidade, cristal a da casa de Deus, bronze a da casa de Satã, logo se percebe pela diferença que fazem os ecos, porém, aqui, o estridor é só o da fricção das madeiras, levanta-se lentamente a frontaria da capela, vai-se levantando até se transformar a parede em alpendre, ao mesmo tempo que as partes laterais se afastam, é como se mãos invisíveis estivessem abrindo um sacrário, a primeira vez que isto aconteceu ainda não havia tanta gente na obra, mas sempre foram cinco mil pessoas a fazer Ah, em todos os tempos há-de haver uma novidade que espante os homens, depois habituam-se, abriu-se enfim a capela de par em par, mostrando lá dentro o celebrante e o altar, será esta uma missa como outra qualquer, parece impossível, mas toda esta gente já se esqueceu de que Mafra foi um dia sobrevoada pelo Espírito Santo, diferentes são as missas que precedem as batalhas campais, quando se contarem e enterrarem os mortos sabe-se lá se não estarei entre eles, aproveitemos bem o santo sacrifício, salvo se o inimigo atacar antes, ou por ter ido à missa mais cedo ou por ser de uma religião que a dispensa.

púlpitoDa sua gaiola de madeira pregou o celebrante ao mar de gente, se fosse o mar de peixes, que formoso sermão se teria podido repetir aqui, com a sua doutrina muito clara, muito sã, mas, peixes não sendo, foi a pregação como a mereciam homens e só a ouviram os fiéis que mais ao perto estavam, porém, se é certo que o hábito não faz o monge, faz sem dúvida a fé, ouvindo o assistente réu já sabe que foi dito céu, se eterno inferno, se isto Cristo, se Zeus Deus, e se mais nada se ouve, palavra ou eco, é porque acabou o sermão e podemos debandar. Espantoso é ter-se acabado a missa e não terem ficado mortos no terreno, não os matou sequer o sol quando deu em cheio na custódia e faiscou, muito mudadas estão as eras, já vai tempo que estando os Betsamitas no campo a ceifar o seu trigo, levantaram por acaso os olhos do trabalho e viram que vinha a Arca da Aliança da terra dos Filisteus, pois foi quanto bastou para caírem ali redondos cinquenta mil e setenta agora olharam vinte mil, estavas lá, não dei por ti. É uma religião de grandes lazeres, mormente estando reunidos tantos fiéis, onde é que se ia arranjar vagar e instalações para se confessarem todos ou todos comungarem, assim vão ficar por aí ao Deus dará, se der, bocejando muito, entrando em brigas, umbigando uma mulher atrás dum valado ou em lugares mais ribaldeiros, até amanhã, que é outra vez dia de trabalho.

Baltasar atravessa o terreiro, há homens que armam inocentes jogos de malha, outros que el-rei proíbe, como o caras-ou-cruzes, se vem por aí o corregedor na sua volta, não passam estes sem tronco. Esperam Baltasar, no sítio combinado, Blimunda e Inês Antónia, e ali irão ter também, ou já lá estão, Álvaro Diogo e o filho. Descem todos juntos ao vale, em casa espera-os o velho João Francisco que mal pode mexer as pernas, contenta-se com a missa discreta que o vigário diz na igreja de Santo André, assiste toda a casa do visconde, provavelmente por isso são os sermões menos aterradores, embora tenham a desvantagem de se terem de ouvir por inteiro e logo se notarem as desatenções de quem ouve, tão naturais quando os anos são muitos ou muito fatigaram. Acabam de jantar, Álvaro Diogo dorme a sesta, o filho vai aos pardais com outros da sua idade, as mulheres remendam e passajam discretamente, porque este dia é de guarda e portanto não quer Deus Que se trabalhe, porém, se este rasgão não fosse remendado hoje, amanhã estaria maior, e se é verdade que Deus castiga sem pau nem pedra, verdade é também que, remendar, só com agulha e linha, ainda que não seja grande o meu jeito, nem é para admirar, quando Adão e Eva foram criados, tanto sabia um como sabia outro, e quando os expulsaram do paraíso, não consta que tenham recebido do arcanjo uma lista de trabalhos de homem e trabalhos de mulher, a esta só foi dito, Parirás com dor, mas até isso há-de acabar um dia. Baltasar deixa em casa o espigão e o gancho, vai com o seu coto à fresca, quer ver se volta a sentir aquelas reconfortantes dores na mão, agora cada vez mais raras, e aquela comichãozinha na parte interna do dedo polegar, a sensação voluptuosa de o coçar com a unha do dedo indicador, não lhe venham dizer que tudo isso se passa na sua cabeça, ele responderia que dentro da cabeça não tem dedos, Mas você, ó Baltasar, já não tem a mão, Disso é que ninguém pode ter a certeza, vá lá uma pessoa discutir com gente desta, capaz até de negar a própria realidade.

É sabido que Baltasar vai beber, mas não se embriagará. Bebe desde que soube da morte do padre Bartolomeu Lourenço, triste morte, foi um abalo muito grande como um terramoto profundo que lhe tivesse rachado os alicerces, deixando embora, à superfície, as paredes aprumadas. Bebe porque constantemente se lembra da passarola, lá na serra do Barregudo, numa encosta do Monte Junto, quem sabe se já encontrada por contrabandistas ou pastores, e só de pensar nisso sofre como se o estivessem a apertar no potro. Mas, bebendo, sempre chega o momento em que sente pousar sobre o seu ombro a mão de Blimunda, não é preciso mais nada, está Blimunda sossegada em casa, Baltasar pega no púcaro cheio de vinho, julga que o vai beber como bebeu os outros, mas a mão toca-lhe no ombro, é uma voz que diz, Baltasar, e o púcaro volta à mesa intacto, os amigos sabem que não beberá mais nesse dia.

Ficará calado, ouvindo apenas, enquanto o torpor do vinho se desvanece lentamente e as palavras dos outros refazem um sentido, ainda que seja o da mesma e repetida história, o meu nome é

Francisco Marques nasci em Cheleiros, que é aqui perto de Mafra, umas duas léguas, tenho mulher e três filhos pequenos, toda a minha vida foi trabalhar de jornal, e como da miséria não via jeito de sair, resolvi vir trabalhar para o convento, que até foi um frade da minha terra o da promessa, segundo ouvi contar, que nessa altura era eu um rapazito, assim como o teu sobrinho mas vá lá que não tenho muitas razões de queixa, Cheleiros não é longe, de vez em quando meto pernas ao caminho, as duas que andam e a do meio, dá como resultado que a mulher está prenha outra vez, o dinheiro que eu forró lá lho deixo, mas os pobres como nós têm de comprar tudo, não lhes vem por negócio da Índia ou do Brasil, nem temos empregos ou comendas do paço, que é que eu posso fazer com os duzentos réis de jornal, tenho de pagar o que como aqui na casa de pasto e o púcaro de vinho que bebo, a vida vai boa é para os donos das vendas de comida, e se é verdade que vieram obrigados de Lisboa muitos deles, eu por necessidade vivo e necessitado continuo

José Pequeno não tenho pai, nem mãe, nem mulher que minha seja, nem sei sequer se o nome certo é este, ou se tive algum antes, apareci numa aldeia ao pé de Torres Vedras, pelo seguro, o vigário baptizou-me, José é o nome de pia, o Pequeno puseram-mo depois, porque não cresci muito, com esta corcunda às costas nenhuma mulher me quis para viver, mas todas pedem mais se calha deixarem que me ponha em cima delas, não tenho outra compensação, chega-te para cá, agora vai-te embora, se me vejo velho nem para isso sirvo, se a Mafra vim foi porque gosto de trabalhar com os bois, os bois andam emprestados neste mundo, como eu, não somos de cá

 Joaquim da Rochanasci no termo de Pombal, lá tenho a família, só a mulher, filhos tive quatro, mas todos morreram antes de fazerem dez anos, dois de bexigas negras, os outros de espinhela caída e sangue chupado, tinha lá um cerrado de renda, mas o ganho não dava para comer, então disse à mulher, vou para Mafra, é trabalho garantido e por muitos anos, enquanto durar durou, agora há seis meses que não vou a casa, se calhar nem volto lá mais, mulheres não faltam, e a minha devia ser de má casta para assim ter parido quatro filhos e deixado morrer todos

Manuel Milho venho dos campos de Santarém, um dia os oficiais do corregedor passaram por lá com pregão de haver bom jornal e bom passadio nestas obras de Mafra, vim eu, e mais alguns, dois que vieram comigo ficaram naquelealuimento de terras que houve o ano passado, não gosto dos sítios daqui, e não é por terem cá morrido dois patrícios meus, ao homem não é dado escolher o lugar onde há-de morrer, salvo se é ele a escolher a sua própria morte, mas porque sinto a falta do rio da minha terra, bem sei que água tem-na o mar de sobra, vê-se daqui, mas digam-me o que pode um homem fazer daquela imensidão, sempre a onda a marrar nas pedras, sempre a bater na areia, ao passo que o rio corre entre duas margens, é como uma procissão penitente, ele é que vai rasteirinho, e nós, de pé, olhando, somos como os freixos e os choupos, e quando um homem quer ver como está a sua cara, se envelheceu muito, a água é o espelho que passa e está parado, e nós que estamos parados é que vamos passando, donde me vêm estas coisas à cabeça é que eu não sei dizer

 João Anes vim do Porto e sou tanoeiro, também para construir um convento são precisos tanoeiros, quem haveria de fazer e consertar as dornas, as pipas e os baldes, se um pedreiro está no andaime e lhe chegam o cocho da massa, tem de molhar as pedras com a vassoura para que façam boa presa a pedra que está e a outra que vai assentar, para isso é que lá tem o balde, e os animais bebem onde, bebem nas tinas, e quem fez as tinas, fizeram-nas os tanoeiros, não é por me gabar, mas não há ofício como o que eu tenho, até Deus foi tanoeiro, vejam-me essa grande dorna que é o mar, se a obra não estivesse perfeita, se as aduelas não estivessem tão bem ajustadas, entrava-nos o mar pela terra dentro, era aí outro dilúvio, sobre a minha vida não tenho muito que dizer, deixei a família no Porto, lá se vão governando, há dois anos que não vejo a mulher, às vezes sonho que estou deitado com ela, mas se sou eu não tenho a minha cara, no dia seguinte corre-me sempre mal o trabalho, gostava de me ver completo no sonho, em vez daquela cara sem boca nem feição, sem olhos nem nariz, que cara estará a minha mulher vendo nessa ocasião, não sei, era bom que fosse a minha

 Julião Mau-Tempo sou natural do Alentejo e vim trabalhar para Mafra por causa das grandes fomes de que padece a minha província, nem sei como resta gente viva, se não fosse termo-nos acostumado a comer de ervas e bolota, estou que já teria morrido tudo, é um dó de alma ver uma terra tão grande, só pode saber quem alguma vez por lá passou, e não é mais que charneca, poucas são as terras fabricadas e semeadas, o resto mato e solidão, e é um país de guerras, com os espanhóis entrando e saindo como em casa sua, agora está a paz em sossego, quem adivinhará por quanto tempo, mas os reis e os fidalgos, quando não é dia de nos fazerem correr e morrer a nós, fazem correr e morrer a caça, por isso ai do pobre que for apanhado com um coelho na saca, ainda que o tivesse achado já morto de doença ou velhice, o menos que lhe pode suceder é levar uma dúzia de vergastadas pelas costas, para aprender que quando Deus fez os coelhos foi para divertimento e panela dos senhores, só valiam a pena as vergastadas se pudéssemos ficar com a caça, eu se vim para Mafra foi porque o vigário da minha freguesia apregoava nas igrejas que quem viesse passava a ser criado de el-rei, não bem bem criado, mas como se o fosse, e que os criados de el-rei, isto dizia ele, não sofrem privações de boca e andam com as carnes tapadas, ainda melhor que no paraíso, porque se é certo que Adão, não tendo quem lhe disputasse a pitança, comia a seu gosto e conforme o apetite, já de vestidos andava pior, afinal saiu-me tudo mentira, do paraíso não falo, que não sou desse tempo, mas de Mafra sim, se não consigo morrer de fome é porque gasto tudo quanto ganho, roto ando como andava, e, quanto a ser criado de el-rei, ainda espero não morrer sem ver a cara do meu amo, a não ser que me agonie de estar tanto tempo longe da família, um homem, se tem filhos, também se alimenta de ver a cara deles, bom era que se alimentassem eles de ver a nossa cara, é o destino, acabar-se a vida a olharmos uns para os outros, quem és tu, que vieste cá fazer, quem eu seja e o que faça, já perguntei e não tive resposta, não, nenhum dos meus filhos tem os olhos azuis, mas tenho a certeza de que são todos meus filhos, isto dos olhos azuis é coisa que aparece de vez em quando na família, já a mãe da minha mãe tinha os olhos desta cor,

 Baltasar Mateus todos me conhecem por Sete- Sóis, o José Pequeno sabe porque assim lhe chamam, mas eu não sei desde quando e porquê nos meteram os sete sóis em casa, se fôssemos sete vezes mais antigos que o único sol que nos alumia, então devíamos ser nós os reis do mundo, enfim, isto são conversas loucas de quem já esteve perto do sol e agora bebeu de mais, se me ouvirem dizer coisas insensatas, ou é do sol que apanhei, ou do vinho que me apanhou, o certo é ter nascido aqui, há quarenta anos feitos, se não me enganei a contar, minha mãe já morreu, chamava-se Marta Maria, meu pai mal pode andar, acho que lhe estão a nascer raízes nos pés, ou é o coração à procura de terra para descansar, tínhamos aí um cerrado, como o Joaquim da Rocha, mas, com tanto mexer de aterros, já lhe perdi o sítio, até eu levei alguma terra dele no carro de mão, quem haveria de dizer ao meu avô que um neto seu atiraria fora terra que foi, cavada e semeada, agora põem-lhe um torreão em cima, são as voltas da vida, a minha também não tem dado poucas, enquanto moço cavei e semeei para os lavradores, o nosso cerrado era tão pequeno que o meu pai dava conta do trabalho em toda a volta do ano e ainda ficava com tempo para tratar duns bocados que trazia de renda, bem, fome, o que se chama fome, não passámos, mas fartura ou suficiência nunca soubemos o que era, depois fui para a guerra de el-rei, ficou-me lá a mão esquerda, só mais tarde é que soube que sem ela começava a ser igual a Deus, e como deixei de servir para a guerra, voltei a Mafra, mas estive uns anos em Lisboa, é só isto e nada mais.

E em Lisboa, que fizeste, perguntou João Anes, por ser, de todos, o único oficial de um ofício, Estive no açougue do Terreiro do Paço, mas era só a acarretar a carne, E quando foi que estiveste perto do sol, isto quis Manuel Milho saber, provavelmente por ser ele o que costumava ver o rio passando, Essa, foi de uma vez que subi a uma serra muito alta, tão alta que estendendo o braço tocava-se no sol, nem sei se perdi a mão na guerra, se foi o sol que ma queimou, E que serra era, em Mafra não há serras que cheguem ao sol, e no Alentejo também as não há, que Alentejo conheço eu bem, perguntou Julião Mau-Tempo, Talvez tenha sido uma serra que nesse dia estava alta e agora está baixa, Se para arrasar um monte destes são precisos tantos mil tiros de pólvora, para fazer baixar uma serra alta gastava-se toda a pólvora que há no mundo, disse Francisco Marques, o que primeiro falara, e Manuel Milho teimou, Chegar perto do sol, só se tivesses voado como os pássaros, lá na lezíria vêem-se às vezes uns milhafres que vão subindo, subindo, fazendo rodeios, e depois desaparecem, ficam tão pequenos que já não podem ser vistos, e então vão ao sol, nós é que não sabemos nem o caminho por onde se chega, nem a porta por onde se entra, mas tu és homem, não tens asas, A não ser que sejas bruxo, disse o José Pequeno, como uma mulher da terra onde fui achado, que se untava com unguentos, punha-se a cavalo numa vassoura e ia à noite de um sítio para outro, isto era o que se dizia, que eu, ver, nunca vi, Eu não sou bruxo, ponham-se a dizer essas coisas, e leva-me o Santo Ofício, e também ninguém me ouviu dizer que voei, Mas declaraste que estiveste perto do sol, e ainda outra coisa, que começaste a ser igual a Deus depois de teres ficado sem a mão, se tal heresia chega aos ouvidos do Santo Ofício, então é que não te salvas mesmo, Salvávamo-nos todos se nos fizéssemos iguais a Deus, disse João Anes, Se nos fizéssemos iguais a Deus poderíamos julgá-lo por não termos logo recebido dele essa igualdade, disse Manuel Milho, e Baltasar explicou enfim, com grande alívio de já não se estar falando de voar, Deus não tem a mão esquerda porque é à sua direita que senta os seus eleitos, e uma vez que os condenados vão para o inferno, à esquerda de Deus não vem a ficar ninguém, ora, se não fica lá ninguém, para que quereria Deus a mão esquerda, se a mão esquerda não serve, quer dizer que não existe, a minha não serve porque não existe, é só a diferença, Talvez à esquerda de Deus esteja outro deus, talvez Deus esteja sentado à direita doutro deus, talvez Deus seja só um eleito doutro deus, talvez sejamos todos deuses sentados, donde é que estas coisas me vêm à cabeça, é que eu não sei, disse Manuel Milho, e Baltasar rematou, Então sou eu o último da fila, à minha esquerda é que não se pode sentar ninguém, comigo acaba-se o mundo, Donde vêm tais coisas à cabeça destes rústicos, analfabetos todos, menos João Anes, que tem algumas letras, é que nós não sabemos.

O sino da igreja de Santo André, no fundo do vale, deu as trindades. Por sobre a Ilha da Madeira, nas ruas e terreiros, dentro das tabernas e casas de acomodação, ouve-se um murmúrio contínuo, como o do mar ao longe. Estariam vinte mil homens dizendo a oração da tarde, estariam contando uns aos outros as suas vidas, vá lá averiguar-se.

Capítulo XIX

Terra solta, pedrisco, calhau que a pólvora ou o alvião arrancaram ao pedernal profundo, esse pouco o transportam por mão de homem os carrinhos, enchendo o vale com pó que se vai arrasando do monte ou extraindo dos novos caboucos. Para o entulho de maior porte e arrastado peso andam os carros grandes, chapeados de ferro, que os bois e as bestas puxam sem mais pausa que carregar e descarregar. Aos andaimes, pelas travejadas rampas de madeira, sobem homens as pedras suspensas do jugo que sobre os ombros e a nuca lhes assenta, para sempre seja louvado quem inventou o chinguiço, alguém a quem lhe doía. São trabalhos já ditos, que mais facilmente se recapitulam por serem de força bruta, porém, é causa da sua reiteração não consentir que esqueçamos o que, por tão comum é de tão mínima arte, se costuma olhar sem mais consideração que distraidamente vermos os nossos próprios dedos escrevendo, assim de um modo e outro ficando oculto aquele que faz sob aquilo que é feito. Muito melhor veríamos, e muito mais, se olhássemos de alto, por exemplo, pairando na máquina voadora sobre este lugar de Mafra, o passeado monte, o conhecido vale, a Ilha da Madeira que as estações escureceram de chuva e sol, e alguns tabuados apodrecem já,

  • o derrubamento das árvores no pinhal de Leiria e nos termos de Torres Vedras e Lisboa,
  • os fumos diurnos e nocturnos dos fornos de tijolo e cal que entre Mafra e Cascais são centenas,
  • os barcos que outros tijolos trazem do Algarve e de Entre- Douro-e-Minho e os vão descarregar, Tejo adentro, por um canal aberto a braço, ao cais de Santo António do Tojal,
  •  os carros que por Monte Achique e Pinheiro de Loures trazem estas e outras matérias ao convento de sua majestade,
  • e aqueles outros que carregam as pedras de Pêro Pinheiro,

não há melhor miradouro que este onde estamos, não faríamos ideia da grandeza da obra se o padre Bartolomeu Lourenço não tivesse inventado a passarola, a nós nos sustentam no ar as vontades que Blimunda juntou dentro das esferas de metal, lá em baixo outras vontades andam, presas ao globo terra pela lei da gravidade e da necessidade, se pudéssemos contar os carros que se movem por estes caminhos de ir e voltar, próximos ou mais longe, chegaríamos aos dois mil e quinhentos, vistos daqui parece que estão parados, é por ser tão pesada a carga. Mas os homens, se os quisermos ver, tem de ser de mais perto.

Durante muitos meses, Baltasar puxou e empurrou carros de mão, até que um dia se achou cansado de ser mula de liteira, ora à frente, ora atrás, e, tendo prestado públicas e boas provas perante oficiais do ofício, passou a andar com uma junta de bois, das muitas que el-rei tinha comprado. Fora de boa ajuda na promoção o José Pequeno, a cuja corcundice o abegão achava sua graça, ao ponto de dizer que o boieiro ficava com a cara à altura do focinho dos bois, e era quase verdade, mas, se pensou que com isso o ofendeu, muito enganado estava, porque o José Pequeno, pela primeira vez, ganhou consciência do gosto que lhe dava poder olhar a direito com os seus olhos de homem os imensos olhos dos animais, imensos e mansos, onde via reflectida a sua própria cabeça, o tronco, e, lá para baixo, sumindo-se na fímbria inferior da pálpebra, as pernas, quando um homem cabe inteiro no olho de um boi, pode-se enfim reconhecer que o mundo está bem construído. Fora de boa ajuda o José Pequeno porque instou com o abegão que passasse Baltasar Sete- Sóis a boieiro, se já andava com os bois um aleijado, podiam andar dois, fazem companhia um ao outro, e se ele não se entender com o trabalho, não arrisca nada, volta para os carros de mão, em um dia se verá a habilidade do homem. De bois sabia Baltasar o bastante, mesmo não lidando com eles há tantos anos, e em dois trajectos logo se viu que o gancho não era defeito e que a mão direita não esquecera nenhuma cláusula da arte da aguilhada. Quando nessa noite chegou a casa, ia tão contente como quando, em garoto, descobrira o primeiro ovo num ninho, quando homem estivera com a primeira mulher, quando soldado ouvira o primeiro toque de trombeta, e de madrugada sonhou com os seus bois e a mão esquerda, nada lhe faltava, se até Blimunda ia montada num dos animais, entenda isto quem souber de sonhos sonhados.

Estava Baltasar há pouco tempo nesta sua nova vida, quando houve notícia de que era preciso ir a Pêro Pinheiro buscar uma pedra muito grande que lá estava, destinada à varanda que ficará sobre o pórtico da igreja tão excessiva a tal pedra que foram calculadas em duzentas as juntas de bois necessárias para trazê-la, e muitos os homens que tinham de ir também para as ajudas. Em Pêro Pinheiro se construíra o carro que haveria de carregar o calhau, espécie de nau da Índia com rodas, isto dizia quem já o tinha visto em acabamentos e igualmente pusera os olhos, alguma vez na nau da comparação. Exagero será, decerto, melhor é julgarmos pelos nossos próprios olhos, com todos estes homens que se estão levantando noite ainda e vão partir para Pêro Pinheiro, eles e os quatrocentos bois, e mais de vinte carros que levam os petrechos para a condução, convém a saber, cordas e calabres, cunhas, alavancas, rodas sobressalentes feitas pela medida das outras, eixos para o caso de se partirem alguns dos primitivos, escoras de vário tamanho, martelos, torqueses, chapas de ferro, gadanhas para quando for preciso cortar o feno dos animais, e vão também os mantimentos que os homens hão-de comer, fora o que puder ser comprado nos lugares, um tão numeroso mundo de coisas carregando os carros, que quem julgou fazer a cavalo a viagem para baixo, vai ter de fazê-la por seu pé, nem é muito, três léguas para lá, três para cá, é certo que os caminhos não são bons, mas tantas vezes já fizeram os bois e os homens esta jornada com outros carregos, que só de pôr no chão a pata e a sola logo vêem que estão em terra conhecida, ainda que custosa de subir e perigosa de descer. Daqueles homens que conhecemos no outro dia, vão na viagem José Pequeno e Baltasar, conduzindo cada qual sua junta, e, entre o pessoal peão, só para as forças chamado, vai o de Cheleiros, aquele que lá tem a mulher e os filhos, Francisco Marques é o nome dele, e também vai o Manuel Milho, o das ideias que lhe vêm e não sabe donde. Vão outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos os Baltasares, e haverá Joões, Álvaros, Antónios e Joaquins, talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, e Pedros, e Vicentes, e Bentos, Bernardos e Caetanos, tudo quanto é nome de homem vai aqui, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, já que não podemos falar-lhes das vidas, por tantas serem, ao menos deixemos os nomes escritos, é essa a nossa obrigação, só para isso escrevemos, torná-los imortais, pois aí ficam, se de nós depende,

  • Alcino; Brás, Cristóvão, Daniel, Egas, Firmino, Geraldo, Horácio, Isidro, Juvino, Luís, Marcolino, Nicanor, Onofre, Paulo, Quitério, Rufino, Sebastião, Tadeu, Ubaldo, Valério, Xavier, Zacarias,

uma letra de cada um para ficarem todos representados, porventura nem todos estes nomes serão os próprios do tempo e do lugar, menos ainda da gente, mas, enquanto não se acabar quem trabalhe, não se acabarão os trabalhos, e alguns destes estarão no futuro de alguns daqueles, à espera de quem vier a ter o nome e a profissão. De quantos pertencem ao alfabeto da amostra e vão a Pêro Pinheiro, pese-nos deixar ir sem vida contada aquele Brás que é ruivo e camões do olho direito, não tardaria que se começasse a dizer que isto é uma terra de defeituosos, um marreco, um maneta, um zarolho, e que estamos a exagerar a cor da tinta, que para heróis se deverão escolher os belos e formosos, os esbeltos e escorreitos, os inteiros e completos, assim o tínhamos querido, porém, verdades são verdades, antes se nos agradeça não termos consentido que viesse à história quanto há de belfos e tartamudos, de coxos e prognatas, de zambros e epilépticos, de orelhudos e parvos, de albinos e de alvares, os da sarna e os da chaga, os da tinha e do tinhó, então sim, se veria o cortejo de lázaros e quasímodos que está saindo dá vila de Mafra, ainda madrugada, o que vale é que de noite todos os gatos são pardos e vultos todos os homens, se Blimunda tivesse vindo à despedida sem ter comido o seu pão, que vontade veria em cada um, a de ser outra coisa.

Mal o sol nasceu, logo se pôs quente o dia, nem admira, se Julho é. Três léguas, para este povo de andarilhos, não é jornada de matar, tanto mais que o comum do pessoal regula o passo pela andadura dos bois, e estes não sabem de nenhum motivo para ir depressa. Soltos de carga, apenas jungidos aos pares, vão desconfiados da fartura e quase sentem inveja dos manos que vêm puxando os carros dos petrechos, é como estar na engorda antes do matadouro. Os homens, já se disse, vão devagar, calados uns, outros conversando, cada qual puxado aos amigos que tem, mas a um deles chegou-se-lhe o fogo ao rabo e, mal saiu de Mafra, largou num trote curto, parecia que ia a Cheleiros salvar o pai da forca, era o Francisco Marques que aproveitava a ocasião para ir enforcar-se entre as pernas da mulher, agora que ela já despejou, ou não será tal a ideia, talvez queira apenas estar com os filhos, dar uma palavra à esposa, cortejá-la somente, sem pensar em fornicações que teriam de ser apressadas porque os companheiros vêm aí atrás, e pelo menos a Pêro Pinheiro convém que chegue ao mesmo tempo que eles, já à nossa porta estão passando, afinal sempre me deitei contigo, o menino está a dormir, não dá por nada, os outros mandámo-los ver se está a chover, e eles entendem que o pai quer estar com a mãe que seria de nós se el-rei tem mandado fazer o convento no Algarve, e ela perguntou, Já te vais, e ele respondeu, Que remédio, mas na volta, acampando nós perto, fico toda a noite contigo.

Quando Francisco Marques chegou a Pêro Pinheiro a deitar os bofes pela boca, de perna fraca, já estava armado o arraial, enfim, não havia barracas, não havia tendas, os soldados eram apenas os da vigilância costumada, mas parecia aquilo uma feira de gado, mais de quatrocentas cabeças, e os homens andando pelo meio dos bois, apartando-os para um lado, e com isso espantavam-se alguns animais, davam grandes cabeçadas, aparatosas, mas sem malícia, depois acomodaram-se a comer o feno que estava a ser descarregado dos carros, iam ter muito que esperar, agora comiam rapidamente os homens da pá e da enxada, que esses eram precisos lá adiante. A manhã estava em meio, o sol batia já violento no chão duro e seco, coberto de miúdos fragmentos de mármore, lascas, esquírolas, e, a um lado e outro do rebaixo fundo da pedreira, grandes blocos esperavam a sua vez de ser levados a Mafra. Estava-lhes certa a viagem, mas hoje não.

Alguns homens tinham-se juntado no meio do caminho, os de trás tentavam olhar por cima das cabeças dos outros, ou forcejavam por furar pelo meio deles, e Francisco Marques aproximou-se, compensando o atraso com o empenho de saber, Que é que estão a ver além, por acaso foi o ruivo que lhe respondeu, É a pedra, e outro acrescentou, Nunca vi uma coisa assim em dias da minha vida, e abanava a cabeça, abismado. Nisto vieram os soldados, e com ordens e empurrões afastaram o ajuntamento, Cheguem-se para lá, os homens são tão curiosos como os cachopos, e veio o oficial da vedoria que tinha encargo deste transporte, Apartem-se, dêem campo, lá se afastaram os homens atropelando-se, e ela apareceu, bem tinha dito o Brás ruivo e zarolho, A pedra.

mãe da pedraEra uma laje rectangular enorme, uma brutidão de mármore rugoso que assentava sobre troncos de pinheiro, chegando mais perto sem dúvida ouviríamos o gemer da seiva,como ouvimos agora o gemido de espanto que saiu da boca dos homens, neste instante em que a pedra desafogada apareceu em seu real tamanho. Aproximou-se o oficial da vedoria e pôs-lhe a mão em cima, como se estivesse tomando posse dela em nome de sua majestade, mas se estes homens e estes bois não fizerem a força necessária, todo o poder de el-rei será vento, pó e coisa nenhuma. Porém, farão a força. Foi para isso que vieram, para isso deixaram terras e trabalhos seus, trabalhos que eram também de força em terras que a força mal amparava, pode o vedor estar sossegado que aqui ninguém se irá negar.

Os homens da pedreira aproximam-se, vão terminar e apurar o corte da pequena elevação para onde a pedra havia sido arrastada, em modos de fazer-lhe uma parede vertical, à face do lado mais estreito da laje. É aqui que virá acostar a nau da Índia, mas primeiro terão os homens vindos de Mafra de abrir uma larga avenida por onde baixará o carro, uma rampa que suavemente vá até à estrada, só depois a viagem poderá começar. Armados de alviões e pás, os homens de Mafra avançaram, já o oficial riscou no chão o traçado deste rebaixo, e Manuel Milho, que estava ao lado do de Cheleiros, medindo-se com a laje agora tão próxima, disse, É a mãe da pedra, não disse que era o pai da pedra, sim a mãe, talvez porque viesse das profundas, ainda maculada pelo barro da matriz, mãe gigantesca sobre a qual poderiam deitar-se quantos homens, ou ela esmagá-los a eles, quantos, faça as contas quem quiser, que a laje tem de comprimento trinta e cinco palmos, de largura quinze, e a espessura é de quatro palmos, e, para ser completa a notícia, depois de lavrada e polida, lá em Mafra, ficará só um pouco mais pequena, trinta e dois palmos, catorze, três, pela mesma ordem e partes, e quando um dia se acabarem palmos e pés por se terem achado metros na terra, irão outros homens a tirar outras medidas e encontrarão sete metros, três metros, sessenta e quatro centímetros, tome nota, e porque também os pesos velhos levaram o caminho das medidas velhas, em vez de duas mil cento e doze arrobas, diremos que o peso da pedra da varanda da casa a que se chamará de Benedictione é de trinta e um mil e vinte e um quilos, trinta e uma toneladas em números redondos, senhoras e senhores visitantes, e agora passemos à sala seguinte, que ainda temos muito que andar.

Entretanto, durante todo o dia, os homens cavaram a terra. Vieram os boieiros dar uma ajuda, Baltasar Sete-Sóis tornou ao carro de mão, sem desdouro, é bom que não esqueçamos os trabalhos pesados, ninguém está livre de voltar a precisar deles, imaginemos que amanhã se perde o sentido da alavanca, não haverá mais remédio que meter o ombro e o braço, até que ressuscite Arquimedes e diga, Dêem-me um ponto de apoio para vocês levantarem o mundo. Quando o sol se pôs, estava aberta a avenida, numa extensão de cem passos, até à estrada calcetada, que mais folgadamente fora andada durante a manhã. Cearam os homens e foram dormir, espalhados por estes campos, debaixo das árvores, ao abrigo dos blocos de pedra, alvíssimos, que se tornaram fulgurantes quando a lua nasceu. A noite estava quente. Se algumas fogueiras ardiam, era apenas para companhia dos homens. Os bois ruminavam, deixando coar o fio de baba que devolvia à terra os sucos da terra, aquela aonde tudo volta, até as pedras com tanto trabalho alçadas, os homens que as erguem, as alavancas que as suportam, os calços que as amparam, nem os senhores imaginam a soma de trabalho que está neste convento.

Escuro ainda, tocou a corneta. Os homens levantaram-se, enrolaram as mantas, os boieiros foram jungir os bois, e da casa onde dormira desceu o vedor à pedreira com os seus ajudantes, mais os olheiros, para saberem estes que ordens haveriam de dar e para quê. Descarregaram-se dos carros as cordas e os calabres, dispuseram-se as juntas de bois pelo caminho acima, em dois cordões. Mas ainda faltava vir a nau da Índia. Era uma plataforma de grossos madeiros assente sobre seis rodas maciças, de eixos rígidos, no tamanho um pouco maior que a laje que teria de transportar. Vinha puxada a braço, em grande alarido de quem fazia a força e de quem a mandava fazer, um homem distraiu-se, deixou ficar um pé debaixo da roda, ouviu-se um berro, um grito de dor insuportada, a viagem começa mal. Baltasar estava perto com os seus bois, viu o sangue esguichar, e num repente achou-se em Jerez de los Caballeros, quinze anos atrás, como o tempo passa. Com ele costumam passar as dores, mas para passarem estas é cedo ainda, o homem já lá vai, gritando sempre, levam-no num esquife para Morelena onde há uma enfermaria, talvez escape com menos um bocado da perna, merda. Também em Mórelena dormiu Baltasar uma noite com Blimunda, é assim o mundo, junta no mesmo lugar o grande gosto e a grande dor, o bom cheiro dos humores sadios e o podre fétido da ferida gangrenada, para inventar céu e inferno não seria preciso mais que conhecer o corpo humano. Já não se vê sinal do sangue que ficou no chão, passaram as rodas da carro, pisaram os pés dos homens, as patas patudas dos bois, a terra sugou e confundiu o resto, só um calhau que foi arredado para o lado ainda conserva alguma cor.

A plataforma desceu muito devagar, amparada no declive pelos homens que prudentemente iam folgando as cordas, até finalmente entestar com a parede de terra que os pedreiros tinham alisado. Agora sim, se veriam ciência e arte. Com grandes pedras foram calçadas as rodas todas do carro, para que não se afastasse da parede quando a laje fosse puxada de cima dos troncos e descaísse e deslizasse sobre a plataforma. Toda a superfície desta foi coberta de barro para reduzir o atrito da pedra contra a madeira, e enfim começaram a ser passados os calabres, de modo a abraçarem a laje no sentido do comprimento, um de cada lado, por fora dos troncos, outro que a cingia em toda a sua largura, assim se formando seis pontas que na dianteira do carro se juntaram e ataram a um rijo madeiro reforçado de cintas de ferro, donde nasciam dois outros calabres, mais grossos, que eram os tirantes principais, sucessivamente acrescentados com ramos de menor grossura, a que deviam puxar os bois. Não é este, aqui, o caso de levar menos tempo a fazer do que a explicar, pelo contrário, o sol já nasceu, já se levantou por cima daqueles montes que além vemos, e ainda agora estão a ser reforçados os últimos nós, deitou-se água para cima do barro que entretanto secara, mas primeiro é preciso dispor as juntas de bois a boa distância, tensas todas as cordas o bastante para que não se perca a força de arrastamento por causa dos desencontros, puxo eu, puxas tu, tanto mais que, afinal, não há espaço que chegue para as duzentas juntas e a tracção tem de ser exercida a direito, em frente e para cima, É um bico-de-obra, disse o José Pequeno, que era o primeiro do cordão da esquerda, se de Baltasar veio alguma opinião, não chegou a ser ouvida porque está mais longe. Lá no alto, o mestre da manobra vai dar a voz, um grito que começa arrastado e depois acaba secamente como um tiro de pólvora, sem ecos, Êeeeeeüiô, se os bois puxarem mais de um lado que do outro, estamos mal aviados, Êeeeeeüi-ô, agora saiu o grito, duzentos bois agitaram-se, puxaram, primeiro de esticão, depois com uma força contínua, logo interrompida, porque há os que escorregam, outros inclinam para fora ou para dentro, questão de ciência do boieiro, as cordas roçam asperamente os costados, enfim, entre clamores, insultos, incitamentos, acertou-se a tracção por alguns segundos e a laje avançou um palmo, trilhando debaixo de si os troncos. O primeiro puxão foi certo, o segundo errou, o terceiro teve de ajustar os dois, agora só puxam estes, aqueles aguentam, finalmente a laje começou a avançar sobre a plataforma, ainda mantida acima dela pela altura dos troncos, até que se desequilibrou, desceu bruscamente e caiu para. o carro, tumba, a aresta rugosa mordeu os madeiros e aí se imobilizou a pedra, ter ou não ter estendido ali o barro seria o mesmo que nada, se não aparecessem outras providências. Subiram homens à plataforma com longas e fortíssimas alavancas, esforçadamente soergueram a pedra ainda instável, e outros homens introduziram-lhe debaixo calços com o rasto de ferro, que puderam deslizar sobre ó barro, agora vai ser fácil, Êeeeeeüi-ô, Êeeeeeüi-ô, Êeeeeeüi-ôô, todo o mundo puxa com entusiasmo, homens e bois, pena é que não esteja D. João V no alto da subida, não há povo que puxe melhor que este. Já os calabres laterais foram largados, toda a tracção se exerce naquele que abraça a pedra no sentido da largura, é quanto basta, parece a laje leve, tão facilmente escorrega sobre a plataforma, só quando enfim descai por inteiro se ouve retumbar o peso, todo o arcaboiço do carro range, se não fosse estar o chão naturalmente calcetado, calhaus sobre calhaus, enterrar-se-iam as rodas até aos cubos. Foram retirados os grandes blocos de mármore que serviam de calços, já não há perigo que o carro fuja. Agora avançam os carpinteiros, com maços, trados e formões abrem, a espaços, na espessa plataforma, ao rente da laje, janelas rectangulares onde vão encaixando e batendo cunhas, depois fixam-nas com pregos grossos, é um trabalho que leva o seu tempo, o resto do pessoal está por aí, descansando pelas sombras, os bois ruminam e sacodem os moscardos, o calor é muito. Tocara para o jantar quando os carpinteiros acabaram a tarefa, e o vedor vem dar ordens para se atar a laje ao carro, é operação que está a cargo dos soldados, talvez por causa da disciplina e da responsabilidade, talvez por estarem habituados com a artilharia, em menos de meia hora a pedra fica solidamente atada, cordas e mais cordas, como se fizesse corpo com a plataforma, aonde uma for, vai a outra. Não há nada a emendar, é obra asseada. Visto de largo, o carro é um bicho de carapaça, um cágado atarracado, sobre pernas curtas, e como está sujo de barro, parece ter acabado de sair da terra funda, é ele próprio terra que prolonga a elevação a que ainda está encostado. Os homens e os bois já estão no seu jantar, depois será a hora da sesta, se a vida não tivesse tão boas coisas como comer e descansar, não valia a pena construir conventos.

Diz-se que o mal não atura, embora, pela fadiga que traz consigo, pareça às vezes que sim, mas o que nenhuma dúvida tem, é não durar o bem sempre. Está um homem em suavíssimo torpor, ouvindo as cigarras, não foi a comida fartura, mas um estômago avisado sabe encontrar muito no pouco, e além disso temos o sol, que também alimenta, eis senão quando ressoa a corneta, se estivéssemos no vale de Josafá mandávamos acordar os mortos, assim não há outro remédio que levantarem-se os vivos. Recolhem-se aos carros os petrechos diversos, que de tudo é preciso dar contas no inventário, verificam-se os nós, faz-se a ligação dos calabres ao carro, e, à nova voz de Eeeeeeüi-ô, os bois, em desencontrada agitação, começam a puxar, fincam os cascos no solo irregular da pedreira, as aguilhadas picam os cachaços, e o carro, como se estivesse a ser arrancado do forno da terra, move-se devagar, as rodas trituram os fragmentos de mármore que juncam o chão, pedra como esta de hoje é que nunca daqui saiu. O vedor e certos seus auxiliares graduados já montaram nas mulas, outros deles farão o caminho a pé por necessidade da obrigação, são subalternos, mas todos têm uma parte de ciência e outra de mando, a ciência por causa do mando, o mando por causa da ciência, não é o caso deste arraial de homens e bois, que são mandados só, uns e outros, e o melhor é sempre o que mais força for capaz de fazer. Aos homens pede-se, por acrescentamento, algum jeito, não puxar ao contrário, meter a tempo o calço à roda, dizer as palavras que estimulam os animais, saber juntar a força à força e multiplicar ambas, o que, enfim, não é despecienda ciência. O carro já subiu até meio da rampa, cinquenta passos, se tanto, e continua, oscilando duramente nos ressaltos das pedras, que isto não é coche de alteza nem sege de eclesiástico, esses molejam como Deus manda. Aqui os eixos são rígidos, as rodas trambolhos, não luzem arreios nas lombeiras dos bois nem os homens apuram librés nos encontros, é uma tropa-fandanga que não irá aos triunfais cortejos nem seria admitida na procissão do Corpus Christi. Uma coisa é transportar a pedra para a varanda donde o patriarca, daqui por uns anos, nos há-de abençoar a todos, outra e melhor seria sermos nós a bênção e o abençoador, assim como semear pão e comê-lo. Vai ser uma grande jornada. Daqui a Mafra, mesmo tendo el-rei mandado consertar as calçadas, o caminho é custoso, sempre a subir e a descer, ora ladeando os vales, ora empinando-se para as alturas, ora mergulhando a fundo, quem fez as contas aos quatrocentos bois e aos seiscentos homens, se as errou, foi na falta, não que estejam de sobra. Os moradores de Pêro Pinheiro desceram à estrada para admirar o aparato, nunca se viu tanta junta de bois desde que começou a obra, nunca se ouviu tão alto vozear, e há quem comece a ter saudades de ver partir aquela tão formosa pedra, criada aqui nesta nossa terra de Pêro Pinheiro, oxalá não se parta pelo caminho, para isso não valia a pena ter nascido. O vedor já seguiu à frente, é como um general de batalha com o seu estado-maior, os seus ajudantes-de-campo, os seus ordenanças, vão reconhecer o terreno, medir a curva, calcular o declive, prever o acampamento. Depois regressam ao encontro do carro, quanto andou, se de Pêro Pinheiro saiu, em Pêro Pinheiro ainda está. Neste primeiro dia, que foi só a tarde, não avançaram mais que quinhentos passos. A estrada era estreita, atropelavam-se nela as juntas de bois, um cordão de cada lado, sem espaço de manobra, metade da força de tracção perdia-se por não haver igualdade no arranque, as ordens ouviam-se mal. É lá estava o peso assombroso da pedra. Quando o carro tinha de parar, ou porque uma roda se metesse numa cova do caminho, ou porque o esforço compassado dos bois se medisse de repente com uma subida e obrigasse a uma pausa, parecia que já não seria possível movê-lo mais. E quando, finalmente, avançava, todos os madeiros rangiam como se fossem libertar-se das cintas e dos grampos de ferro. E esta ainda era a parte mais fácil da viagem.

Nessa noite, os bois foram descangados, mas deixaram-nos na estrada, não os reuniram em malhada. A lua nasceu mais tarde, muitos homens já dormiam, com a cabeça em cima das botas, os que as tinham. A alguns chamava-os a luz fantasmal, ficavam a olhar o astro, e nele viam distintamente o vulto do homem que foi cortar silvas em dia de domingo e a quem o Senhor castigou obrigando-o a carregar por toda a eternidade o molho que juntara antes que o fulminasse a sentença, assim ficando, em desterro lunar, a servir de emblema visível da justiça divina, para escarmento de irreverentes. Baltasar fora à procura de José Pequeno, os dois encontraram Francisco Marques, e, com mais alguns, arrumaram-se em redor duma fogueira, que a noite arrefecia. Mais tarde chegou-se-lhes Manuel Milho que contou uma história,


  • Era uma vez uma rainha que vivia com o seu real marido em palácio, mais os filhos, que eram um infante e uma infanta assim deste tamanho, e então diz-se que o rei gostava muito de ser rei, mas a rainha é que não sabia se gostava, ou não, de ser o que era, porque nunca lhe tinham ensinado a ser outra coisa, por isso não podia escolher e dizer, gosto mais de ser rainha, ainda se ela fosse como o rei, que esse gostava de ser o que
    era porque outra coisa também lhe não tinham ensinado, mas a rainha era diferente, se fosse igual não haveria história, então aconteceu que lá no reino havia um ermitão que correra muitas aventuras e, depois de levar anos e anos a corrê-las, foi meter-se naquela cova, ele vivia numa cova do monte, não sei se já tinha dito, e não era ermitão desses de reza e penitência, chamavam-lhe ermitão porque vivia sozinho, a comida dele era o que apanhava, se lhe davam outra não recusava, mas pedir nunca pediu, ora uma vez a rainha foi passear ao monte com o seu séquito e disse à aia mais velha que queria falar ao ermitão para lhe fazer uma pergunta, e a aia respondeu, saiba vossa majestade que este ermitão não é de igreja, é homem como os outros, a diferença é que vive sozinho num buraco, isto disse a aia, mas nós já sabíamos, e a rainha respondeu, a pergunta que quero fazer não é de religião; e então foram andando e quando chegaram à boca da cova um pajem gritou para dentro e o ermitão apareceu, era um homem já avançado na idade, mas robusto, assim como uma árvore de encruzilhada, e quando apareceu perguntou, quem me chama, e o pajem disse, sua majestade a rainha, e pronto, por hoje acabou-se a história, vamos dormir.

Protestaram os outros, queriam saber o resto do conto da rainha e do ermitão, porém Manuel Milho não se deixou convencer, que amanhã também era dia, tiveram de conformar-se, foi cada qual ao seu sono, cada qual pensando, antes que ele chegasse, consoante as suas conhecidas inclinações, José Pequeno que o rei se calhar já não se atrevia com a rainha, mas se o ermitão é velho, como é que vai ser, Baltasar que a rainha é Blimunda e ele próprio o ermitão, nisto se confirma por ser a história de homem e mulher, embora as diferenças sejam tantas, Francisco Marques que como esta história vai acabar sei eu, em chegando a Cheleiros explico. A lua já acolá vai, não é que pese muito um molho de silvas, o pior são os espinhos, mal parece vingar-se Cristo da coroa que lhe puseram.

O dia seguinte foi de grandes aflições. A estrada alargava-se um pouco, podiam portanto as juntas de bois manobrar mais à vontade, sem atropelos, mas o carro, pelo seu tamanho, pela rigidez dos eixos, e também pela carga que suportava, virava dificultosamente nas curvas, por isso tinham de arrastá-lo lateralmente, primeiro à frente, depois atrás, as rodas resistiam, empeçavam nas pedras, que era preciso desfazer a malho, e ainda assim não se queixavam os homens se havia espaço para desatrelar e tornar a atrelar os bois suficientes para deslocar o carro, de modo a entestá-lo novamente com o caminho. As subidas, se não havia curvas, resolvia-as a força bruta, tudo a puxar, os bois esticando as cabeças para diante, quase a tocarem com os focinhos os quartos traseiros dos da frente, resvalando às vezes na bosta e na urina que faziam regueiros em valetas abertas aos poucos pelo calcar das patas e pelo trilhar das rodas. A cada duas juntas de bois ia um homem, viam-se-lhes as cabeças e as aguilhadas até longe, entre as armações dos animais, por sobre os dorsos fulvos, só do José Pequeno se não distinguia o vulto, nem admira, estaria falando à orelha dos seus bois, manos na altura, Puxem, boizinhos, puxem.

Mas a aflição tornava-se agonia se o caminho era a descer. A todo o momento o carro se escapava, era preciso meter-lhe logo os calços, desatrelar as juntas quase todas, três ou quatro de cada lado chegavam para mover a pedra, mas então tinham os homens de pegar às cordas da traseira da plataforma, centenas de homens como formigas, de pés fincados no chão, corpos inclinados para trás, músculos retensos, sustentando o carro que ameaçava arrastá-los para o vale, lançá-los para fora da curva como uma chicotada. Os bois, mais acima ou mais abaixo, ruminavam sossegadamente, olhando a agitação, as correrias dos homens que davam ordens, o vedor a cavalo na mula, os rostos congestionados e alagados de suor, e eles ali, quietos, à espera da sua vez, tão tranquilos que nem a aguilhada se movia, apoiada contra o jugo. Alguém teve a ideia de atrelar bois à parte de trás da plataforma, mas tiveram de desistir porque o boi não compreende uma aritmética de esforço que venha a resultar em dois passos em frente e três à retaguarda. O boi, ou vence a rampa e faz subir o que deveria descer, ou é arrastado sem resistência e chega esfacelado onde deveria poder repousar.

Neste dia, desde o nascer do sol até ao fim da tarde, fizeram uns mil e quinhentos passos, menos de meia légua das nossas, ou, se quisermos julgar por comparação, o equivalente a duzentas vezes o comprimento da laje. Tantas horas de esforço para tão pouco andar, tanto suor, tanto medo, e aquele monstro de pedra a resvalar quando devia estar parado, imóvel quando deveria mexer-se, amaldiçoado sejas tu, mais quem da terra te mandou tirar e a nós arrastar por estes ermos. Os homens deitam-se no chão, sem forças, ficam arquejando de barriga para cima, olhando o céu que devagar vai escurecendo, primeiramente de um modo que parece estar o dia a nascer e não a chegar ao fim, depois tornando-se transparente à medida que a luz vai a diminuir, e de repente onde havia um cristal surge uma espessura profunda e aveludada, é a noite. A lua, hoje, virá muito mais tarde, já minguante, todo o acampamento estará a dormir. Come-se à luz das fogueiras, e a terra está fazendo concorrência ao céu, onde lá há estrelas, aqui estão lumes, porventura ao redor delas, no princípio do tempo, se teriam também sentado os homens que arrastaram as pedras com que se fez a abóbada celeste, quem sabe se teriam estes mesmos rostos fatigados, estas barbas crescidas, estas grossas e calosas mãos, sujas, as unhas negras de luto, como é costume dizermos, este intenso suor. Então Baltasar pediu, Conta lá, Manuel Milho, que foi que a rainha perguntou quando o ermitão apareceu à boca da cova, e José Pequeno deitou-se a adivinhar, Se calhar mandou embora as aias e os pajens, este José Pequeno é malicioso, enfim, deixemo-lo entregue à penitência que o confessor lhe mandará fazer, se for o confitente homem para boa e recta confissão, do que convém duvidar, e demos atenção a Manuel Milho que está dizendo,


Quando o ermitão apareceu à boca da cova, a rainha avançou três passos e perguntou, se uma mulher é rainha, se um homem é rei, que hão-de fazer para se sentirem mulher e homem, e não só rainha e rei, isto foi o que ela perguntou, e o ermitão respondeu com outra pergunta, se um homem é ermitão, que haverá de fazer para sentir-se homem e não só ermitão, e a rainha pensou um bocado e disse, deixará a rainha de ser rainha, o rei não será rei, o ermitão sairá do ermitério, isso é o que terão de fazer, mas agora farei eu outra pergunta, que mulher e homem serão esses que não são rainha nem ermitão, e só mulher e homem, que é ser homem e mulher não sendo estes ermitão e rainha,
que é ser não sendo o que se é, e o ermitão respondeu, ninguém pode ser não sendo, homem e mulher não existem, só existe o que forem e a rebelião contra o que são, e a rainha declarou, eu rebelo-me contra o que sou, diz-me agora tu se te rebelas contra o que és, e ele respondeu, ser ermitão é o contrário de ser, pensam os que vivem no mundo, mas ainda é ser alguma coisa, e ela, então onde está o remédio, e ele, se é mulher que queres ser, deixa de ser rainha, o resto só saberás depois, e ela, se queres ser homem, por que continuas ermitão, e ele, porque o que mais se teme é ser homem, e ela, sabes tu que é ser homem e mulher, e ele, ninguém sabe, com esta resposta se retirou a rainha, levando atrás de si o séquito que murmurava, amanhã direi o resto.

Bem fez Manuel Milho em calar-se, porque dois dos ouvintes, José Pequeno e Francisco Marques, já ressonavam, enrolados nas mantas. As fogueiras iam-se apagando. Baltasar pôs-se a olhar para Manuel Milho insistentemente, Essa história não tem pés nem cabeça, não se parece nada com as histórias que se ouvem contar, a da princesa que guardava patos, a da menina que tinha uma estrela na testa, a do lenhador que achou uma donzela no bosque, a do touro azul, a do diabo do Alfusqueiro, a da bicha-de-sete-cabeças, e Manuel Milho disse, Se no mundo houvesse um gigante tão grande que chegasse ao céu, dirias que os pés eram montanhas e a cabeça a estrela-da-manhã, para homem que declarou ter voado e ser igual a Deus, és muito desconfiado. Com esta censura ficou Baltasar emudecido, depois deu as boas-noites, virou-se de costas para o lume e em pouco tempo adormeceu. Manuel Milho ainda ficou acordado, a pensar no modo melhor de sair da história em que se tinha metido, se o ermitão se faria rei, se a rainha se faria ermitoa, porque será que os contos têm de acabar sempre assim.

CheleirosTão grande fora o sofrimento durante este arrastado dia, que todos diziam, Amanhã não pode ser pior, e no entanto sabiam que iria ser pior mil vezes. Lembravam-se do caminho que descia para o vale de Cheleiros, aquelas apertadas curvas, aqueles declives espantosos, aquelas empinadas encostas que caíam quase a pique sobre a estrada, Como será que vamos passar, murmuravam para si próprios. Em todo aquele Verão não houve dia mais quente, a terra parecia uma braseira, o sol uma espora cravada nas costas. Os aguadeiros corriam a longa fila, levando quartões de água ao ombro, iam buscá-la aos poços que por ali havia, nas terras baixas, às vezes muito afastados, e tinham de trepar monte acima por carreiros de pé posto, para encher as dornas, não podem as galés ser piores do que isto. Perto da hora de jantar chegaram a um alto donde se via Cheleiros, no fundo do vale. Com isto mesmo é que Francisco Marques vinha contando, quer conseguissem descer quer não, esta noite em companhia da mulher é que ninguém lha tiraria. Levando consigo os ajudantes, o vedor desceu até ao ribeiro que lá em baixo passava, foi de caminho assinalando os lugares mais perigosos, os sítios onde o carro deveria ser encostado para garantir os repousos e maior segurança da pedra, e finalmente tomou a decisão de mandar desatrelar os bois e conduzi-los para um espaço desafogado, depois da terceira curva, bastante afastados para não empatarem a manobra, suficientemente próximos para serem trazidos sem maior demora se a mesma manobra o pedisse. Assim, a plataforma ia descer a pulso. Não havia outra maneira. Enquanto estavam a ser levadas as juntas, os homens, espalhados pela crista do monte, à torreira do sol, olhavam o vale sossegado, as hortas, as sombras frescas, as casas que pareciam irreais, tão aguda era a impressão de calma que irradiava delas. Pensariam isso ou não, talvez apenas esta simplicidade, Se me apanho lá em baixo, ainda vou julgar que é mentira.

Como foi, digam-no outros que mais saibam. Seiscentos homens agarrados desesperadamente aos doze calabres que tinham sido fixados na traseira da plataforma, seiscentos homens que sentiam, com o tempo e o esforço, ir-se-lhes aos poucos a tesura dos músculos, seiscentos homens que eram seiscentos medos de ser, agora sim, ontem aquilo foi uma brincadeira de rapazes, e a história de Manuel Milho uma fantasia, que é realmente um homem quando só for a força que tiver, quando mais não for que o medo de que lhe não chegue essa força para reter o monstro que implacavelmente o arrasta, e tudo por causa de uma pedra que não precisaria ser tão grande, com três ou dez mais pequenas se faria do mesmo modo a varanda, apenas não teríamos o orgulho de poder dizer a sua majestade, É só uma pedra, e aos visitantes, antes de passarem à outra sala, É uma pedra só, por via destes e outros tolos orgulhos é que se vai disseminando o ludíbrio geral, com suas formas nacionais e particulares, como esta de afirmar nos compêndios e histórias Deve-se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão aqui seiscentos homens que não fizeram filho nenhum à rainha, e eles é que pagam o voto, que se lixam, com perdão da anacrónica voz.

Descesse a estrada a direito para o vale e tudo se reduziria a um jogo alternado, acaso divertido jogo, de libertação e retenção deste papagaio de pedra, dar-lhe a guita e enrolá-la, deixá-lo deslizar enquanto a aceleração não se tornasse indominável, travá-lo a tempo para que não se precipitasse no vale, de caminho esfacelando os homens que não tivessem conseguido libertar-se, eles, papagaios destas e doutras guitas. Mas há o pesadelo das curvas. Enquanto o caminho era plano, foram os bois utilizados consoante se explicou, puxando alguns lateralmente a dianteira do carro até conseguir alinhá-lo com a recta, breve ou extensa, em que a curva se prolongava. Era apenas um trabalho de paciência, que de tão repetido se tornara rotineiro, desatrelar, atrelar, desatrelar, atrelar, dos bois era a maior fadiga, os homens pouco mais faziam que gritar. Agora gritariam estes de desespero diante da diabólica combinação de curva e declive que vão ter de vencer muitas vezes, mas gritar, em tal caso, seria perder o fôlego, e ele já não é muito. Estude-se antes o jeito, deixemos os gritos para quando puderem ser de alívio.

O carro vai descendo até à entrada da curva, tão encostado à parte interior dela quanto possível, e aí é calçada a roda da frente desse mesmo lado, porém, não há-de o calço ser tão sólido que por si só trave o carro inteiro, nem tão frágil que se deixe esmagar pelo peso, se achar que não tem o caso supremas dificuldades é porque não levou esta pedra de Pêro Pinheiro a Mafra e apenas assistiu sentado, ou se limita a olhar de longe, do lugar e do tempo desta página. Assim perigosamente travado, o carro pode ter o demoníaco capricho de ficar tão quieto como se tivesse todas as rodas cravadas no chão. É o mais comum. Só em raríssimas condições conjuntas de inclinação da curva para o lado de fora, mínimo atrito do terreno, acentuação conveniente do declive, tudo na boa conta, só assim a plataforma cederá sem dificuldade ao impulso lateral que será dado na sua parte de trás, ou, milagre ainda maior, por si própria rodará sobre o seu único ponto de apoio, lá à frente. A regra é outra, a regra é outra vez a enorme força que vai ser preciso aplicar nos sítios óptimos, pelo tempo rigorosamente necessário, para que o movimento não seja demasiado amplo, e portanto fatal, ou, a Deus graças pelo mal menor, exigindo novo e penoso esforço em sentido contrário. Aplicam-se as alavancas às quatro rodas posteriores, tenta-se deslocar o carro, meio palmo que seja, para o lado exterior da curva, os homens que trabalham às cordas ajudam puxando na mesma direcção, é uma balbúrdia, com os das alavancas de fora entre uma floresta de calabres esticados e tensos como fios de lâmina, com os das cordas às vezes dispostos pela encosta abaixo, não raro escorregando e rolando, por enquanto sem maior mal. Cedeu finalmente o carro, deslocouse um ou dois palmos, mas, lá à frente, pelo tempo que esta manobra durou, a roda do lado de fora foi sucessivamente calçada e descalçada, para prevenir o perigo de se desmandar a plataforma no meio de um destes movimentos, naquele segundo em que está como suspensa e desamparada, e sem homens suficientes para segurá-la, pois os mais deles, com todas estas confusas operações, nem espaço têm para se mover. Em cima deste valado está o diabo assistindo, pasmando da sua própria inocência e misericórdia por nunca ter imaginado suplício assim para coroação dos castigos do seu inferno.

Um dos homens que trabalham aos calços é Francisco Marques. Provou já a sua destreza, uma curva má duas péssimas, três piores que todas, quatro só se fôssemos doidos, e por cada uma delas vinte movimentos, tem consciência de que está a fazer bem o trabalho, por acaso agora nem pensa na mulher, a cada coisa seu tempo, toda a atenção se fixa na roda que vai começar a mover-se, que será preciso travar, não tão cedo que torne inútil o esforço que lá atrás estão fazendo os companheiros, não tão tarde que ganhe o carro velocidade e se escape ao calço. Como agora aconteceu. Distraiu-se talvez Francisco Marques, ou enxugou com o antebraço o suor da testa, ou olhou cá do alto a sua vila de Cheleiros, enfim se lembrando da mulher, fugiu-lhe o calço da mão no preciso momento em que a plataforma deslizava, não se sabe como isto foi, apenas que o corpo está debaixo do carro, esmagado, passou-lhe a primeira roda por cima, mais de duas mil arrobas só a pedra, se ainda estamos lembrados. Diz-se que uma desgraça nunca vem só, e costuma ser verdade, diga-o qualquer de nós, porém, desta vez, o mandador delas achou que era bastante ter morto um homem. O carro, que bem poderia ter-se precipitado, aos cambulhões, pela encosta abaixo, parou logo adiante, presa a roda numa cova da calçada, nem sempre as salvações estão onde deveriam estar.

Tiraram Francisco Marques de debaixo do carro. A roda passara-lhe sobre o ventre, feito numa pasta de vísceras e ossos, por um pouco se lhe separavam as pernas do tronco, falamos da sua perna esquerda e da sua perna direita, que da outra, a tal do meio, a inquieta, aquela por amor da qual fez Francisco Marques tantas caminhadas, dessa não há sinal, nem vestígio, nem um simples farrapito. Trouxeram um esquife, puseram-lhe o corpo em cima, enrolado numa manta que ficou logo empapada em sangue, dois homens pegaram aos varais, outros dois para revezamento os acompanharam, os quatro para dizer à viúva, Trazemos aqui o seu homem, vão declará-lo a esta mulher que assomou agora ao postigo, que olha o monte onde está seu marido, e diz aos filhos, Vosso pai esta noite dorme em casa.

Quando a pedra chegou ao fundo do vale, as juntas de bois tornaram a ser atreladas. Porventura o mandador das desgraças se arrependeu da parcimónia primeira, foi o caso que a plataforma desandou sobre um afloramento de rocha e entalou dois animais contra a encosta a pique, partindo-lhes as pernas. Foi preciso acabar com eles, à machadada, e quando a notícia correu vieram os moradores de Cheleiros ao bodo, ali mesmo foram os bois esfolados e desmanchados, corria o sangue pela estrada, em regueiros, de nada serviram os soldados e as pranchadas que deram, enquanto houve carne agarrada aos ossos esteve o carro parado. Entretanto, anoiteceu. Naquele lugar se armou o acampamento, uns ainda caminho acima, outros espalhados pela margem da ribeira. O vedor e alguns se auxiliares foram dormir debaixo de telha, os mais forma do costume, enrolados nas mantas, extenuados da grande descida ao centro da terra, espantados ainda estarem vivos, uns que outros resistindo ao sono, com medo de ser isso a morte. Os mais chegados de amizade a Francisco Marques foram velá-lo, Baltasar, José Pequeno, Manuel Milho, uns tantos daqueles, Brás, Firmino, Isidro, Onofre, Sebastião, Tadeu, e outro de quem não se chegou a falar, Damião. Entravam, olhavam o morto, como é possível morrer homem de tão violenta morte e tão sereno estar, mais do que se dormisse, sem pesadelos nem
apoquentações, depois murmuravam uma oração, aquela mulher ali é que é a viúva, não sabemos que nome tem, nem adiantaria nada à história ir lá perguntar-lhe, se alguma coisa adiantou escrever Damião, só por escrever. Amanhã, antes de nascer o sol, recomeçará a pedra a sua viagem, em Cheleiros ficou um homem para enterrar, fica também a carne de dois bois para comer.

Não se nota a falta deles. O carro vai ladeira acima, tão devagar como tem vindo, se Deus houvesse piedade dos homens teria feito um mundo rasinho como a palma da mão, levariam as pedras menos tempo a chegar. Esta já vai no seu quinto dia, agora por melhor caminho, quando estiver vencida a encosta, mas sempre em desassossego de espírito, que do corpo não vale a pena falar, doem todos os músculos dos homens, mas quem se queixa, se para isto mesmo lhes foram dados. A boiada não argumenta nem se lastima, apenas se nega, faz que puxa e não puxa, o remédio é deixá-los descansar um migalho, chegar-lhes ao focinho um manípulo de palha, daí a pouco estão como se folgassem desde ontem, ondulam as garupas alceiras pelo caminho fora, é um gosto vê-los. Enquanto não aparece outra descida, outra subida. Então agrupam-se as hostes, repartem-se os esforços, tantos para aqui, tantos para atém, puxem lá, Êeeeeeüi-ô, berra a voz, taratatá-tá, sopra a corneta, verdadeiramente isto é um campo de batalha, nem lhe faltam os seus mortos e os seus feridos, não sendo todos da mesma qualidade, como diríamos, quatro cabeças, que é boa maneira de contar.

À tarde caiu um aguaceiro, e foi bem-vindo. Tornou a chover já quando se fechara a noite, mas ninguém praguejou. Esta é a melhor sabedoria, não ligar importância ao que o céu manda, chuva ou sol, salvo se passa a mais, e mesmo assim, que não bastou um dilúvio para afogar todos os homens, nem a seca é alguma vez tão grande que não se salve um fio de erva ou a esperança de o encontrar. Choveu assim uma hora, se tanto, depois as nuvens afastaram-se, até as nuvens se agastam de não lhes ligarem importância. Alargaram-se as fogueiras, homem houve que se despiu em pelote para secar as roupas, por pouco se diria ser este um ajuntamento pagão, quando sabemos que é a mais católica das acções, levar a pedra a Garcia, a carta a Mafra, o esforço avante, a fé a quem a pudesse merecer, condição sobre a qual infinitamente discutiríamos se não fosse estar Manuel Milho a contar a sua história, falta aqui um ouvinte, só eu, e tu, e tu, damos pela ausência, outros nem sabiam quem fosse Francisco Marques, alguns o viram morto, a maior parte nem isso, não se vá julgar que desfilaram seiscentos homens diante do cadáver em última e comovida homenagem, são coisas que só acontecem nas epopeias, vamos nós então à história,

  • Um dia a rainha sumiu-se do palácio, onde vivia com o marido rei e os filhos infantes, e, como tinham corrido zunzuns de que a conversa na cova não fora como a têm rainhas e ermitões costumadamente, antes parecera passo de dança e cauda de pavão, entrou o rei em furor ciumento e foi a correr à cova, já se imaginando enxovalhado na sua honra, que os reis são assim, têm uma honra maior que a dos outros homens, nota-se logo pela coroa, e quando chegou não viu ermitão nem rainha, mas isso ainda o deixou mais enfurecido porque seria certo sinal de terem fugido os dois, posto o que mandou o exército à procura dos fugitivos, por todo o reino, e enquanto eles procuram vamos nós dormir, que são horas.

José Pequeno protestou, Nunca se ouviu história assim, em bocadinhos, e Manuel Milho emendou, Cada dia é um bocado de história, ninguém a pode contar toda, e Baltasar ia pensando, Quem havia de gostar deste Manuel Milho era o padre Bartolomeu Lourenço.

Ao outro dia, que foi domingo, houve missa e sermão. Para ser ouvido com mais proveito, pregou o frade de cima do carro, tão airoso como se estivesse de púlpito, e não se dava conta o imprudente de que cometia a maior das profanações, com as sandálias ofendendo esta pedra de ara, que o é por lhe ter sido sacrificado sangue inocente, o sangue do homem de Cheleiros que tinha filhos e mulher, o que ficou sem o pé em Pêro Pinheiro, ainda o préstito não saíra, e os bois, não devemos esquecer os bois, pelo menos não vão esquecê-los tão cedo os moradores que foram à carniça e que hoje mesmo, domingo, fazem refeição melhorada. Pregou o frade e disse, como dizem todos, Amados filhos, dos altos céus nos vê Nossa Senhora e o seu Divino Filho, dos altos céus nos contempla também o nosso padre Santo António, por amor de quem levamos esta pedra à vila de Mafra, é certo que pesada, mas muito mais pesados são os vossos pecados, e contudo andais com eles no coração como se vos não carregassem, por isso deveis tomar esta transportação como penitência, e também amorosa oferta, singular penitência, oferta estranha, pois não só vo-las pagam com o salário do contrato, como também vo-las remunerará a indulgência do céu, porque em verdade vos digo que levar esta pedra a Mafra é obra tão santa como foi a dos antigos cruzados quando partiram a libertar os Santos Lugares, sabei que todos quantos lá morreram gozam hoje da vida eterna, e juntamente com eles, contemplando a face do Senhor, já lá está aquele vosso companheiro que morreu anteontem, precioso sucesso que foi ter sido a sua morte a uma sexta-feira, sem dúvida morreu sem confissão, não houve tempo de chegar-lhe um confessor à cabeceira, já estava morto quando fostes por ele, mas salvou-o ser cruzado desta cruzada, como salvos estão os que em Mafra têm morrido nas enfermarias ou se despenharam das paredes, excepto aqueles irredimíveis pecadores que foram levados por vergonhosas doenças, e é tanta a misericórdia do céu que se abrem as portas do paraíso até àqueles que morrem de facadas, nessas brigas em que sempre andais metidos, nunca se viu gente tão crente e tão desordeira mas vá lá que a obra vai continuando, Deus nos dê a nós paciência, a vós força e a el-rei dinheiro para a levar a termo, que muito necessário é este convento para fortalecimento da ordem e alargado triunfo da fé, ámen. Acabou-se o sermão, baixou o frade à terra, e como era domingo, dia de guarda e santificado, não havia mais que fazer, uns foram confessar-se, outros comungaram, não todos, nem seria bastante a reserva de sagradas partículas, salvo se se desse ali o milagre da multiplicação das hóstias, caso não verificado. Para o fim da tarde armou-se uma zaragata entre cinco cruzados desta cruzada, episódio que passa sem mais desenvolvido relato, não passou de murros e algum sangue do nariz. Tivessem morrido que iam logo direitos ao paraíso.

Nessa noite contou Manuel Milho o fim da história. Perguntara-lhe Sete-Sóis se os soldados do rei sempre tinham conseguido apanhar a rainha e o ermitão, e ele respondeu,

  • Não apanharam, correram o reino de ponta a ponta buscaram casa por casa, e não os encontraram, e tendo dito isto, calou-se. Perguntou José Pequeno, E então, é isso história que se ande a contar há quase uma semana, e Manuel Milho respondeu, O ermitão deixou de ser ermitão, a rainha deixou de ser rainha, mas não se averiguou se o ermitão chegou a fazer-se homem e se a rainha chegou a fazer-se mulher, eu por mim acho que não foram capazes, senão tinha-se dado por isso, quando uma coisa dessas um dia acontecer não passará sem dar um grande sinal, mas estes não, foi o caso há tantos anos que já não podem estar vivos, nem um nem outro, e com a morte sempre se acabam as histórias.

Baltasar bateu com o gancho de ferro numa pedra solta. José Pequeno esfregou o queixo, áspero da barba, e perguntou, Como é que um boieiro se faz homem, e Manuel Milho respondeu, Não sei. Sete-Sóis atirou o calhau para a fogueira e disse, Talvez voando.

Dormiram ainda outra noite no caminho. Entre Pêro Pinheiro e Mafra gastaram oito dias completos. Quando entraram no terreiro, foi como se estivessem chegando duma guerra perdida, sujos, esfarrapados, sem riquezas. Toda a gente se admirava com o tamanho desmedido da pedra, Tão grande. Mas Baltasar murmurou, olhando a basílica, Tão pequena.

Capítulo XX

Desde que a máquina voadora descera no Monte Junto, contavam-se por seis, ou eram sete, as vezes que Baltasar Sete-Sóis metera pés ao caminho para ver e remediar, quanto podia, os estragos que o tempo ia causando ali à descoberta apesar da protecção do mato e dos silvados. Quando deu por que se enferrujavam as lâminas de ferro, levou uma panela de sebo e untou-as cuidadosamente, renovando a operação de cada vez que lá voltava. Também se habituara a transportar às costas um molho de vimes, que cortava numa terra meio alagadiça que lhe ficava em viagem, e com eles remendava as falhas e os rasgões do entrançado, nem sempre de causa natural, como quando encontrara dentro da carcaça da passarola uma toca com seis raposinhos. Matou-os como se fossem coelhos, dando-lhes com o gancho no alto da cabeça, e depois atirou-os para longe, uns aqui, outros além, ao acaso. O pai e a mãe dariam com os filhos mortos, cheirariam o sangue, o mais certo era nunca mais tornarem àquele lugar. Durante a noite ouviu-lhes o regougo. Tinham-lhe sentido o rasto. Quando encontraram os cadáveres fizeram alarido, coitados, e, como não sabiam contar, ou, sabendo, não tinham a certeza de estarem mortos todos os filhotes, aproximaram-se do que tinha sido fojo seu e era máquina de voar alheia, ainda que pousada, prudentemente se vieram chegando, medrosos do cheiro do homem, e enfim farejaram outra vez o derramado sangue do seu sangue e recuaram, de pêlo eriçado, a rosnar. Não apareceram mais. Porém, o remate do caso poderia ter sido diferente, se em vez de ser conto de raposas fosse história de lobos. E por assim pensar é que Sete-Sóis, a partir desse dia, levava consigo a espada, já basto comida de ferrugem no fio, mas ainda muito capaz de degolar lobo e loba.

Ia sempre sozinho, sozinho está pensando que novamente irá, mas hoje Blimunda diz-lhe, em três anos é a primeira vez  Vou também, e ele estranhou, A jornada é comprida, vais-te cansar, Quero conhecer o caminho, se alguma vez tiver de lá ir sem ti. Era uma boa razão, ainda que Baltasar não esquecesse a probabilidade do lobo, Aconteça o que acontecer, não vás nunca sozinha, os caminhos são ruins, o sítio ermo, se ainda te lembras, e não estás livre de que te assaltem feras, e Blimunda respondeu, Jamais se diga aconteça o que acontecer, porque sempre podem primeiro acontecer coisas com que não contávamos quando dissemos aconteça o que acontecer, Pois sim, até pareces o Manuel Milho a falar, Quem é esse Manuel Milho, Andava comigo na obra, mas resolveu voltar para a terra, disse que antes queria morrer afogado numa cheia do Tejo que ficar esborrachado debaixo duma pedra de Mafra, que ao contrário do que se costuma dizer a morte não é toda igual, o que é igual é estar morto, e assim ia para a sua terra, onde as pedras são pequenas e poucas, e é doce a água.

burrinhoNão quis Baltasar sujeitar Blimunda à grande caminhada a pé, por isso foi alugar um burro, e, feitas as despedidas, lá seguiram, deixando sem resposta as perguntas de Inês Antónia e do cunhado, Aonde é que vão, por causa dessa viagem perdes dois jornais, e se acontecer alguma fatalidade não sabemos para onde havemos de avisar, provavelmente a fatalidade de que falava Inês Antónia era a morte de João Francisco, que lhe andava a rondar a porta, dava um passo para entrar, arrependia-se, talvez a intimidasse o silêncio do velho, como se há-de dizer a um homem, Vem comigo, se ele não pergunta nem responde, apenas olha, com um olhar assim até a morte se acobarda. Não sabe Inês Antónia, não sabe Álvaro Diogo, o filho deles está na idade de só querer saber de si próprio, que a João Francisco foi Baltasar dizer aonde iam, Meu pai, vou com Blimunda à serra do Barregudo, ao Monte Junto, ver como está a máquina em que voámos de Lisboa, lembra-se, quando aí se disse que o Espírito Santo tinha passado pelos ares, por cima da obra, não foi Espírito Santo nenhum, fomos nós, com o padre Bartolomeu Lourenço, lembra-se, aquele padre que esteve cá em casa quando a mãe ainda era viva, e ela quis matar o galo, mas ele não deixou, que muito melhor que comer o galo era ouvi-lo cantar, nem seria coisa que se fizesse às galinhas. Ouviu estas recordações João Francisco, e ele, que costumava não falar, disse Lembro-me de tudo, e tu vai descansado, que eu ainda não estou para morrer, quando chegar a ocasião serei contigo onde estiveres, Mas o pai acredita que eu voei, É quando somos velhos que as coisas que estão para vir começam a acontecer, e uma razão de ser assim é que já somos capazes de acreditar naquilo de que duvidávamos, e mesmo não podendo acreditar que tenha sido, acreditamos que será, Eu voei, pai, Filho, eu acredito.

Toque-toque-toque, lindo burriquito, deste não o diria o verso, que tem, o verso não, não poucas mataduras debaixo do albardão, mas caminha contente o asno a carga é leve e faz-se ligeira, onde já vai a esbelteza aérea de Blimunda, dezasseis anos passaram desde que a vimos pela primeira vez, mas- desta maturidade se fariam admiráveis mocidades, não há nada que conserve tanto a juventude como guardar um segredo. Chegaram ao alagadiço, Baltasar cortou um molho de vimes, entretanto colhia Blimunda lírios-de-água com eles teceu uma capela que enfiou nas orelhas do burro, e como ficou gracioso, nunca tal festa lhe haviam feito, parece isto um episódio da Arcádia, o pastor, ainda que manco, a zagala, guardadora de vontades, o asno que em geral não entra em histórias destas, mas agora veio, alugado, porque não quis o pastor que se cansasse a zagala, e quem achar que isto é aluguer comum, é porque não sabe como tantas vezes andam contrariados os burros, com erradas cargas, por isso lhes crescem as mataduras e atormentam as matações. Enfeixados e atados os vimes, aumentou a carga, mas quem de gosto carrega não cansa, menos ainda se Blimunda resolve descer do burro e seguir a pé, são três que vão a passeio, um leva as flores, os outros acompanham.

malmequeresO tempo é de Primavera, cobre-se o campo de brancos malmequeres, rasteirinhos, se para atalhar caminho cortam os viajantes pelo meio deles, rufam as duras cabeças das flores nos pés descalços de Baltasar e Blimunda, têm um e outro sapatos ou botas, mas vão guardados no alforge para quando o caminho for de pedras, e do chão sobe um cheiro acre, é a seiva do malmequer, perfume do mundo no primeiro dia, antes de Deus ter inventado a rosa. Está um lindo tempo para ir ver uma máquina de voar, passam no céu grandes nuvens brancas, que bom seria levantar-se a passarola uma vez mais que fosse, subir pelos ares fora, rodear aqueles castelos suspensos, ousar o que aves não ousam, entrar por eles gloriosamente, tremer de medo e de frio, e depois sair para o azul e para o sol, ver a terra formosa e dizer, Terra, que bela é Blimunda. Mas este caminho é pedestre, Blimunda menos bela, até o burro deixou cair os lírios, mortos murchos de sede, vamos sentar-nos aqui a comer o duro pão do mundo, comemos e seguimos logo, que ainda temos muito que andar. Vai Blimunda tomando nota do caminho na sua memória, aquele monte, aquela mata, quatro pedras alinhadas, seis colinas em redondo, as vilas como se chamam, foi Codeçal e Gradil, Cadriceira e Furadouro, Merceana e Pena Firme, tanto andámos que chegámos, Monte Junto, passarola.

Era assim nos contos antigos, dizia-se uma palavra secreta e diante da gruta maravilhosa levantava-se um bosque de carvalhos, impenetrável para quem não soubesse a outra palavra mágica, aquela que poria no lugar do bosque um rio e no rio uma barca com seus remos. Neste lugar também foram ditas palavras, Se tenho de morrer numa fogueira, fosse ao menos esta, disse-as louco o padre Bartolomeu Lourenço, porventura serão estes silvados o bosque de carvalhos, este mato florido os remos e o rio, será barca a ave magoada, que palavra se dirá que dê sentido a isto. Tirou-se a albarda ao burro, deitou-se-lhe uma peia às mãos para que não se afastasse de mais, e agora coma do que puder e quiser, se alguma escolha pode encontrar-se no simples possível, e entretanto foi Baltasar desimpedir a passagem que através das silvas leva à protegida máquina, é um trabalho de todas as vezes feito, porém, mal ele vira costas avançam os rebentos, os enleios, muito custa defender aqui um espaço de passagem, um túnel, por dentro e ao redor, sem ele como se restaurariam os entrançados de vimes, como se amparariam as asas que o tempo afrouxou, a erecta cabeça se descai a sustentação da cauda, a afinação dos lemes, é verdade que estamos, nós e a máquina, caídos no chão, mas preparados. Laborou Baltasar por muito tempo, ferindo as mãos nos espinhos, e depois que ficou fácil o acesso chamou Blimunda, mesmo assim ela teve de avançar rastejando sobre os joelhos, enfim chegou, estavam imersos numa sombra verde, translúcida, talvez por causa dos braços mais novos que passavam por cima da vela negra sem a esconderem, tenras folhas que ainda deixavam coar a luz, e sobre esta cúpula, outra de silêncio, é sobre o silêncio uma abóbada de luz azul, apercebida em pedaços, rasgões, confidências. Subindo pela asa que se apoiava no chão, chegava-se ao convés da máquina. Lá estavam o sol e a lua, numa tábua inscritos, nenhum outro sinal se lhes juntara, era como se não houvesse mais ninguém neste mundo. Em alguns lugares o soalho apodrecera, outra vez teria Baltasar de trazer algum tabuado da obra do convento, sarrafos desprezados dos andaimes, de nada valeria cuidar das lamelas de ferro e do cesto exterior se debaixo dos pés se esboroavam as madeiras. Luziam mortiças as bolas de âmbar sob a sombra da vela, como olhos que não pudessem fechar-se, ou resistissem ao sono para não perderem a hora da partida. Mas há em tudo isto um ar de abandono, as folhas mortas escurecem na água que empoçou e ainda resiste aos primeiros calores, se não fosse a constância de Baltasar, encontraríamos aqui uma triste ruína, os ossos de um pássaro morto.

esferasSó as esferas, fabricadas de misteriosa liga, brilham como no primeiro dia, foscas mas luminosas, nítidas as nervuras, precisos os encaixes, não se acreditaria que estão aqui vai para quatro anos. Blimunda aproximou-se de uma delas, pôs-lhe a mão em cima, não estava quente, não estava fria, foi como se tivesse juntado as duas mãos, não sente frio, não sente calor, apenas que ambas estão vivas, Ainda aqui dentro viverão as vontades, de certeza não saíram, se vejo inteiras as esferas, incorrupto o metal, coitadas delas, fechadas há tanto tempo, à espera de quê. Baltasar já estava trabalhando em baixo, ouviu uma parte qualquer da pergunta, ou adivinhou-a, Se as vontades saíram das esferas, a máquina não serve para nada, nem valia a pena cá voltar, e Blimunda disse, Amanhã o saberei.

Trabalharam ambos até ao pôr do sol. Com ramos de arbustos, Blimunda fez uma vassoura para varrer as folhas e os detritos, depois ajudou Baltasar a substituir os vimes partidos, a untar com sebo as lamelas. Coseu, seu trabalho de mulher, a vela que se esgarçava em dois lugares, como Baltasar fizera outras vezes, seu trabalho de soldado, e agora rematava cobrindo de breu a superfície restaurada. Fez-se entretanto noite. Baltasar foi despear o burro para que o coitado não ficasse por ali tão incomodamente travado, e prendeu-o perto da máquina, .daria sinal se viesse bicho. Já antes tinha inspeccionado o interior da passarola, descendo por uma abertura do convés, escotilha desta nave aérea, ou aeronave, nome facilmente formável no futuro, quando for preciso. Não havia sinais de vida, nem uma cobra, nem a simples lagartixa que em todo o oculto corre, de aranhas nem fio de teia, que moscas ali viriam. Era como o dentro de um ovo, a casca dele, o silêncio que lá está. Ali se deitaram, numa cama de folhagem, servindo as próprias roupas despidas de abrigo e enxerga. Em profunda escuridão se procuraram, nus, sôfrego entrou ele nela, ela o recebeu ansiosa, depois a sofreguidão dela, a ânsia dele, enfim os corpos encontrados, os movimentos, a voz que vem do ser profundo, aquele que não tem voz, o grito nascido, prolongado, interrompido, o soluço seco, a lágrima inesperada, e a máquina a tremer, a vibrar, porventura não está já na terra, rasgou a cortina de silvas e enleios, pairou na alta noite, entre as nuvens, Blimunda, Baltasar, pesa o corpo dele sobre o dela, e ambos pesam sobre a terra, afinal estão aqui, foram e voltaram.

Quando a primeira luz do dia começou a coar por entre os vimes, Blimunda, desviando os olhos de Baltasar, levantou-se devagarinho, nua como dormira, e passou pela escotilha. Arrepiou-se ao ar frio da manhã, arrepiou-a talvez mais a já quase esquecida visão de um mundo feito de transparências sucessivas, por trás da amurada da máquina a rede dos silvados e das trepadeiras, o vulto irreal do burro, e através dele matos e árvores que pareciam flutuar, enfim a mais sólida espessura do monte próximo, se ali não estivesse veríamos os peixes do mar distante. Blimunda aproximou-se de, uma das esferas e olhou. Lá dentro, circularmente, movia-se uma sombra, como um turbilhão de vento visto a grande distância. Na outra esfera havia uma sombra igual. Blimunda tornou a descer pela escotilha, mergulhou na penumbra do ovo, procurou entre as roupas o seu bocado de pão. Baltasar não acordara, tinha o braço esquerdo meio oculto pela folhagem, à vista homem inteiro. Blimunda adormeceu outra vez. Era dia claro quando sentiu que despertava com o contacto instante de Baltasar. Antes de abrir os olhos, disse, Podes vir, já comi o pão, e então Baltasar entrou nela sem medo, porque ela não entraria nele, assim fora prometido. Quando saíram do interior da máquina e se vestiam, Baltasar perguntou, Foste ver as vontades, Fui, respondeu ela, E estão lá, Estão, As vezes penso que devíamos abrir as esferas, e deixá-las ir, Se as deixarmos ir, será o mesmo que se não tivesse acontecido nada, será como se não tivéssemos nascido, nem tu, nem eu, nem o padre Bartolomeu Lourenço, Continuam a parecer-se com nuvens fechadas, São nuvens fechadas.

Pelo meio da manhã acabaram o trabalho. Mais por a terem cuidado homem e mulher do que por terem sido dois os cuidadores, a máquina parecia renovada, tão esperta como no seu primeiro voo. Puxando e enredando ramagens do silvado, Baltasar tapou a passagem da entrada. Afinal de contas, isto é mesmo um conto de fadas. Diante da gruta está um bosque de carvalhos, se o que vemos não é antes um rio sem barca nem remos. Só do alto se veria o singular tecto negro da gruta, só uma passarola que passasse lá em cima, mas a única que no mundo existe está aqui derrubada, e as aves comuns, as que Deus fez ou mandou fazer, passam e tornam a passar, olham e tornam a olhar, e não entendem. Também o burro não sabe ao que veio. Besta alugada, vai aonde o levam, carrega quanto lhe ponham no lombo, todas as viagens se equivalem para ele, mas todas as da sua vida fossem como esta, que o mais do caminho veio escoteiro, de lírios nas orelhas, algum dia havia de ser a primavera dos burros.

Desceram a serra, tomaram por prudência outros caminhos, Lapaduços e Vale Benfeito, sempre descendo, e porque quanto mais entre gente menos dariam nas vistas, ladearam por Torres Vedras, depois para o Sul, ribeira de Pedrulhos, se não houvesse tristeza nem miséria, se em todo o lugar corressem águas sobre as pedras, se cantassem aves, a vida podia ser apenas estar sentado na erva, segurar um malmequer e não lhe arrancar as pétalas, por serem já sabidas as respostas, ou por serem estas de tão pouca importância, que descobri-las não valeria a vida duma flor. Há também outros simples e rústicos prazeres, como lavarem Baltasar e Blimunda os pés na água, ela levantando as saias até à curva da perna, melhor será que as desça, porque para cada ninfa que se banha há sempre um fauno espreitando, e este está perto e arremete. Blimunda foge da água rindo, ele agarra-a pela cintura, ambos caem, qual de baixo, qual de cima, nem parecem pessoas deste século. O burro levanta a cabeça, fitando as orelhas compridas, mas não vê o que nós vemos, apenas um remexer de sombras, as árvores cinzentas, o mundo de cada um é os olhos que tem. Baltasar levanta Blimunda ao colo, vai sentá-la no albardão, arre burro, toque, toque. É a hora da tardinha, não corre vento, nem brisa, nem aragem, sente a pele o suspiro do ar como outra pele, não se encontra diferença alguma entre Baltasar e o mundo, entre o mundo e Blimunda que diferença haveria. Em Mafra, é noite quando chegam. Ardem fogueiras no alto da Vela. Se as chamas se alongam e alargam, vêem-se as paredes da basílica, irregulares, os nichos vazios, os andaimes, os buracos negros das janelas, mais ruína que construção nova, é sempre assim quando se ausenta o trabalho dos homens.

Fatigosos dias, mal dormidas noites. Por estes barracões repousam os operários, passam de vinte mil, acomodados em beliches toscos, para muitos, em todo caso, melhor cama que a nenhuma das suas casas, só a esteira no chão, o dormir vestido, a capa por inteiro agasalho, ao menos, em tempo de frio, se aquecem aqui os corpos uns aos outros, pior é quando vem o calor, com o bichedo de pulga e percevejo a chupar o sangue, e também o piolho da cabeça, o outro do corpo, os torturantes pruridos. E o comichar do sexo, o engorgitamento dos humores, as descargas seminais do sonho, o vizinho de beliche resfolgando, se não há mulheres que faremos. É certo que há mulheres, porém não chegam a todos. Os mais afortunados são os da primitiva, os que se juntaram com viúvas e abandonadas, mas Mafra é terra pequena, em pouco tempo não ficou mulher devoluta, agora a preocupação dos homens é defenderem de tentações e assaltos o seu jardim, ainda que de poucos ou nenhuns encantos. Algumas facadas têm sido trocadas por razões desta qualidade. Em caso de morte, vem o corregedor do crime, vêm os quadrilheiros, se preciso a tropa ajuda, vai o matador para a prisão, posto o que, de duas uma, se o criminoso foi o homem da mulher, em pouco tempo tem sucessor, se da mulher era o homem morto, em menos tempo ainda sucessor tem.

E os outros, que fazem os outros. Esses rondam por estas ruas sempre lamacentas das águas despejadas, vão a certos becos onde as casas são também de tábuas, talvez construídas pela previdência da vedoria, que não ignora o que são precisões de homem, talvez pela usura de um empreiteiro de bordéis, quem fez a casa vendeu, quem a comprou alugou, quem alugou alugou-se, mais afortunado foi o burro que Baltasar e Blimunda levaram, a ele puseram-lhe lírios-de-água na cabeça, a estas mulheres, por trás das suas meias-portas, ninguém leva flores, apenas um sexo impaciente que às escuras entrou e saiu, quantas vezes trazendo consigo o princípio da podridão, o gálico, e então gemem os pobres tão desgraçados como as desgraçadas que os contaminaram, escorre o pus pelas pernas abaixo em intérmino fluxo, não é doença que os cirurgiões admitam nas enfermarias, o remédio, se o for, é aplicar nas partes o sumo da consólida, milagrosa e já referida planta que dá para tudo e não cura nada. Vieram para aqui rapagões que hoje, passados três ou quatro anos, estão podres dos pés à cabeça. Vieram limpas mulheres que mal acabaram de morrer tiveram de ser enterradas fundo porque se desfaziam em trampa e envenenavam o ar. No dia seguinte a casa tem nova inquilina. A enxerga é a mesma, os trapos nem foram lavados, um homem bate à porta e entra, não há perguntas a fazer nem respostas a dar, o preço é conhecido, desaperta-se ele, ela levanta as saias, gemeu ele o seu gozo, ela não precisa fingir, estamos entre gente séria.

Passam de largo os frades do hospício, por aparência de virtude, não tenhamos dó destes, que jamais se viu congregação tão conhecedora de como se alternam e compensam as mortificações e as consolações. Vão de olhos baixos, chocalhando as camândulas, as do rosário que levam à cintura, as do troço que ocultamente dão a rezar às confitentes, e se algum cilício de crina lhes cinge os rins, ou de puas, em caso extravagante, podemos apostar que a eles os não cingem os rins silenciosamente, isto se devendo ler com muita atenção para que não escape ao entendimento. Se não acodem a outras obras e obrigações, vão assistir às dolências do hospital, a soprar e chegar o caldo, a encarreirar os moribundos, que dias há de se finarem dois e três, sem que lhes valham os santos da invocação das enfermarias, a saber,

  • S. Cosme e S. Damião, padrons dos médicos,
  • Santo António, tão capaz de colar ossos como de remendar bilhas,
  • S. Francisco, por saber de estigmas,
  • S. José, para carpinteirar muletas,
  • S. Sebastião, porque muito resiste à morte,
  • S. Francisco Xavier, por ser entendido em medicinas orientais,
  • Jesus Maria José, a sagrada família,

porém em tudo apartada a relé das pessoas de distinção e dos oficiais militares, que esses têm enfermaria à parte, e por esta desigualdade sabendo os frades donde lhe vem o convento, se podem avaliar as diferenças de tratamento e extrema-unção. Atire-lhes a segunda pedra quem não caiu nunca em pecados afins, o mesmo Cristo favoreceu a Pedro e amimou a João, e eram doze os apóstolos. Um dia se averiguará que Judas traiu por ciúme e abandono.

Em uma hora destas morreu João Francisco Sete-Sóis. Esperou que o filho descesse da obra, primeiro entrara Álvaro Diogo que tinha pressa de comer e voltar para o telheiro da pedraria, estava desfazendo pão na sopa quando Baltasar entrou, Boas noites, a sua bênção, meu pai, parecia esta noite igual às outras noites, só faltava o mais novo da família, que é sempre o último a aparecer, talvez que já se vá demorando pelas ruas das mulheres, às escondidas, como se arranjará para pagar o que deve, se tem de entregar ao pai o jornal inteiro, sem quebra de um real, e é Álvaro Diogo quem justamente está perguntando, Ainda não chegou o Gabriel, imagine-se, há tantos anos que conhecemos o moço e só agora lhe ouvimos o nome, foi preciso ter-se feito um homem, e Inês Antónia responde, encobridora, Não tarda aí, é uma noite igual às outras, são as mesmas palavras, e ninguém repara no espanto que apareceu na cara de João Francisco, sentado ao pé da lareira apesar do calor que faz, nem Blimunda, distraída com Baltasar que entrou, deu as boas-noites ao pai e pediu-lhe a bênção sem reparar se ele lha dava, quando se é filho durante muitos anos cai-se nestas desatenções foi assim, A sua bênção, meu pai, e o velho levanta devagar a mão, o devagar de quem só para isso ainda tem forças, é o seu último gesto, não concluído, não rematado, caiu a mão junto da outra, sobre as dobras da capa, e quando Baltasar enfim se volta para o pai, vai receber a bênção, vê-o apoiado à parede, com as mãos abertas, a cabeça derrubada para o peito, Está doente, é uma pergunta escusada, não faltariam agora assombros se João Francisco respondesse, Estou morto, e esta seria a maior das verdades ditas. Choraram-se as naturais lágrimas, Álvaro Diogo não foi trabalhar, e quando Gabriel entrou em casa não teve mais remédio que mostrar-se triste, ele que tão contente vinha do paraíso, oxalá o não queime o inferno entre as pernas.

João Francisco Mateus deixou um quintal e uma casa velha. Tinha um cerrado no alto da Vela. Levou anos a limpá-lo de pedras até que a enxada pudesse cavar em terra fofa. Não valeu a pena, as pedras já lá estão outra vez, afinal para que vem um homem a este mundo.

 

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