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– Leitura de Memorial XI – XV

Capítulo XI

Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu. Regressou o padre Bartolomeu Lourenço da Holanda, se sim ou não trouxe o segredo alquímico do éter, mais tarde o saberemos, ou não tem esse segredo que ver com alquimias de tempos passados, porventura uma simples palavra bastará para encher as esferas da máquina voadora, pelo menos Deus não fez mais que falar e tudo com esse pouco se criou, assim ensinaram ao padre no seminário de Belém da Baía, assim lho confirmaram, por outras argumentações e estudos mais avançados, na Faculdade de Cânones de Coimbra, antes de fazer subir ao ar os seus balões primeiros, e, agora que chegou de terras holandesas, vai tornar a Coimbra, um homem pode ser grande voador, mas é-lhe muito conveniente que saia bacharel, licenciado e doutor, e então, ainda que não voe, o consideram.

Bartolomeu Lourenço foi à quinta de S. Sebastião da Pedreira, três anos inteiros haviam passado desde que partira, estava a abegoaria em abandono, dispersos pelo chão os materiais que não valera a pena arrumar, ninguém adivinharia o que ali se andara perpetrando. Dentro do casarão esvoaçavam pardais, tinham entrado por um buraco do telhado, duas telhas partidas, ínfimas aves aquelas que nunca voariam mais alto que o mais alto freixo da quinta, o pardal é uma ave da terra e do terriço, do estrume e da seara, e quando morto se percebe que não poderia voar alto, tão frágil de asas, tão mesquinho de ossos, ao passo que esta minha passarola voará até onde cheguem olhos, veja-se o fortíssimo arcaboiço da concha que me há-de levar, com o tempo enferrujaram os ferros, mau sinal, não parece que Baltasar aqui tenha vindo como lhe recomendei tanto, mas é verdade que veio, por estes sinais de pés descalços, não trouxe Blimunda, ou Blimunda morreu, e dormiu na enxerga, está puxada a manta para trás como se agora mesmo se tivesse acabado de levantar, nesta mesma enxerga me deito, com esta manta me cubro eu padre Bartolomeu Lourenço que voltei da Holanda aonde fui averiguar se já na Europa sabem voar com asas, se nos estudos desta ciência vão mais adiantados do que eu estou no meu país de marinheiros, e em Zwolle, Ede e Nijkerk estudei com alguns sábios velhos e alquimistas, desses que sabem fazer nascer sóis dentro de retortas, mas depois morrem de morte estranha, vão ressequindo até não terem mais substância do que um feixe de palha estaladiça, e então como à hora da morte, não mais que cinzas deixo, é por si próprios que se inflamam, e a mim me estava esperando aqui esta máquina voadora que ainda não voa, estas são as esferas que terei de encher com o éter celeste, cuidam as pessoas que sabem do que falam, olham para o céu e dizem, Éter celeste, eu sim sei o que ele é, afinal tão simples como ter Deus dito, Faça-se a luz, e a luz fez-se, é maneira de falar, que entretanto se fez noite, acendo esta candeia que Blimunda deixou, apago este pequenino sol que de mim depende atear ou extinguir à candeia me reporto, não a Blimunda, nenhum ser humano pode ter quanto deseja nesta sua única vida terrestre, talvez sonhando, boas noites.

Passadas algumas semanas, com todas as disposições, licenças e matriculações necessárias, partiu o padre Bartolomeu Lourenço para Coimbra, cidade tão ilustre, de tão velhos sábios, que, se nela houvesse alquimistas, em coisa alguma ficaria a dever a Zwolle, e vai o Voador por agora cavalgando uma remansosa mula alquilada, como convém a sacerdote sem extremadas artes de ginete e apenas provido de bens medianos, chegando ao seu destino voltará a montada com outro cavaleiro, talvez um doutor acabado, ainda que a esta dignidade melhor coubesse a liteira de longo curso, é como ir balouçando sobre as ondas do mar, se não fosse o macho da dianteira tão incontinente de ventos. Até à vila de Mafra, aonde primeiro vai, não tem a viagem história, salvo a das pessoas que por estes lugares moram, claro está que não podemos deter-nos no caminho e perguntar, Quem és, o que fazes, onde te dói, e se o padre Bartolomeu Lourenço algumas vezes parou, foi parar e andar, não mais que o tempo de uma bênção que lhe pediam, à quantos destes irá suceder entortar-se-lhes a história que tinham para entrarem nesta que vamos contando, o simples encontro do padre é um sinal, porque, indo ele a Coimbra, não seria este o caminho se não tivesse de ir à vila de Mafra por lá estarem Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas. Não é verdade que o dia de amanhã só a Deus pertença, que tenham os homens de esperar cada dia para saber o que ele lhes traz, que só a morte seja certa, mas não o dia dela, são ditos de quem não é capaz de entender os sinais que nos vêm do futuro, como este de aparecer um padre no caminho de Lisboa, abençoar porque a bênção lhe pediram, e seguir na direcção de Mafra, quer isto dizer que o abençoado há-de ir a Mafra também, trabalhará nas obras do convento real e ali morrerá por cair de parede, ou da peste que o tomou, ou da facada que lhe deram, ou esmagado pela estátua de S. Bruno.

É cedo ainda para estes acidentes. Quando o padre Bartolomeu Lourenço, na última volta do caminho, começou a descer para o vale, deu com uma multidão de homens, exagero será dizer multidão, enfim, umas centenas deles, e primeiro não entendeu o que se passava, porque toda aquela gente estava correndo a um lado, ouvia-se tocar uma trombeta, seria festa, seria guerra, deram então em rebentar tiros de pólvora, terra e pedras violentamente atiradas aos ares, foram os tiros vinte, tornou a tocar a trombeta, agora diferente toque, e os homens avançaram para o terreno revolvido, com carros de mão e pás, enchendo aqui, no monte, despejando além, na encosta para Mafra, ao passo que outros homens, de enxada ao ombro, desciam aos caboucos já fundos, neles desapareciam, enquanto mais homens lançavam cestos para dentro e depois os puxavam para cima, cheios de terra, e os iam despejar afastadamente, aonde outros homens iam por sua vez encher carros de mão, que lançavam no aterro, não há diferença nenhuma entre cem homens e cem formigas, leva-se isto daqui para ali porque as forças não dão para mais, e depois vem outro homem que transportará a carga até à próxima formiga, até que, como de costume, tudo termina num buraco, no caso das formigas lugar de vida, no caso dos homens lugar de morte, como se vê não há diferença nenhuma.

Com os calcanhares, o padre Bartolomeu Lourenço tocou para diante a mula, experiente animal que nem com a artilharia se assustara, é o que faz não ser de raça pura, estes já viram muito, a mestiçagem tornou-os pouco espantadiços, que é a maneira melhor de viverem neste mundo as bestas e os homens. Pelo caminho atascado de lama, sinal de que as fontes da terra andavam perdidas naquela comoção e surdiam onde não podiam aproveitar-se, ou em muito delgadas linfas se dividiam até de todo se separarem os átomos da água e ficar o monte seco, por esse caminho, tocando suavemente a mula, desceu o padre Bartolomeu Lourenço à vila e foi perguntar ao vigário onde moravam os Sete-Sóis. Tinha este pároco feito um bom negócio de terrenos por serem dele algumas das terras do alto da Vela, e, ou por valerem elas muito, ou por muito valer o proprietário, fez-se a avaliação pelo alto, cento e quarenta mil réis, nada que se possa comparar com os treze mil e quinhentos que foram pagos a João Francisco. É um vigário feliz, com a promessa de tão grande convento, oitenta frades confirmados, ali mesmo à porta de casa, com o que muito crescerá a vila em baptizados, casamentos e passamentos, cada sacramento dispensando a sua parte material e espiritual, desta maneira tanto se reforçando a burra como a esperança de salvação, na directa razão dos vários actos e prestações, Pois, padre Bartolomeu Lourenço, é grande honra minha recebê-lo nesta casa, os Sete-Sóis moram aqui perto, tinham um terreno ao lado dos meus no alto da Vela, mais pequeno, deve-se dizer, agora o velho e a família vivem de granjear um casal que tinham de renda, quem voltou há quatro anos foi o filho, o Baltasar, veio da guerra maneta, maneta da guerra, quero dizer, e trouxe mulher, acho que não estão casados à face da Santa Igreja, e ela tem um nome nada cristão, Blimunda, disse o padre Bartolomeu Lourenço, Conhece-a, Fui eu que os casei, Ah, então sempre são casados, Fui eu que os casei, em Lisboa, e tendo o Voador agradecido, que ali não era conhecido por tal, as efusões do vigário só tinham que ver com as particulares recomendações do paço, saiu a procurar os Sete-Sóis, contente por assim ter mentido à face de Deus e saber que Deus não se importava, um homem tem de saber, por si próprio, quando as mentiras já nascem absolvidas.

Foi Blimunda quem veio abrir a porta. Estava escurecendo a tarde, mas ela reconheceu o vulto do padre que desmontava, quatro anos não é tanto tempo assim, beijou-lhe a mão, não andassem por ali vizinhos curiosos e seria diferente a saudação, que estes dois, estes três, quando estiver Baltasar, têm razões do coração que os governam, e, em tantas noites passadas, uma terá havido, pelo menos, em que sonharam o mesmo sonho, viram a máquina de voar batendo as asas, viram o sol explodindo em luz maior, e o âmbar atraindo o éter, o éter atraindo o íman, o íman atraindo o ferro, todas as coisas se atraem entre si, a questão é saber colocá-las na ordem justa, e então se quebrará a ordem, Esta é a minha sogra, senhor padre Bartolomeu, aproximara-se Marta Maria, intrigada por não ouvir palavras, sendo certo que Blimunda fora abrir a porta sem que alguém a ela batesse, e agora estava ali um padre novo que perguntava por Baltasar, não é assim que costumam passar-se as visitas deste tempo, mas há excepções, como em todos os tempos sempre se disse, vir um padre de Lisboa a Mafra para falar a um soldado manco, e a uma mulher que é visionária da pior maneira, porque vê o que existe, como já secretamente o sabe Marta Maria que, queixando-se de ter uma nascida na barriga, Blimunda lhe respondeu que não tinha, mas era verdade que sim e ambas o sabiam, Come o teu pão, Blimunda, come o teu pão.

Estava o padre Bartolomeu Lourenço sentado ao lume, que a noite refrescava, quando chegaram Baltasar e o pai. Viram a mula à porta, ainda arreada debaixo da oliveira, Quem terá vindo, perguntou João Francisco, e Baltasar não respondeu, mas adivinhou que seria padre, as mulas que carregam gente eclesiástica exibem uma certa e evangélica mansidão, quiçá induzida, que contrasta com o viço ainda rebelde das que só dão cavalaria a laicos, e sendo de padre a mula, com ar de vir de longe, não se esperando legado do papa nem aviso do núncio, tinha de ser Bartolomeu Lourenço, como logo se viu que era. A quem estranhar que tanto tivesse visto Baltasar Sete-Sóis quando já a noite se fechava, responda-se que o resplendor dos santos não é vã miragem do espírito perturbado dos místicos ou mera propaganda da fé em pintura a óleo, e que, de tanto dormir com Blimunda, e com ela quase todas as noites ter dares e tomares da carne, começava a haver em Baltasar um luzeiro espiritual de dupla visão, que, não dando para mais profundas penetrações, é quanto basta para observações sumárias como esta. Foi João Francisco tirar os arreios ao animal e voltou em tempo que estava o padre dizendo a Baltasar e Blimunda que cearia com o vigário, pois este o convidara, e em casa dele passaria a noite, primeiro, por não haver cómodos suficientes na morada dos Sete-Sóis, segundo, porque não faltaria estranhar Mafra que escolhesse padre vindo de longe para albergue, este só, pouco mais abrigado que o telheiro de Belém, em vez dos mimos paroquiais ou o palácio dos viscondes, onde não se recusaria aposento a um futuro doutor em cânones, e Marta Maria disse, Se estivéssemos prevenidos de que vinha vossa reverência, ao menos matava-se o galo, o resto que temos não é coisa que se apresente, Disso mesmo que têm é que eu comeria com gosto, mas é melhor para todos que cá não fique nem coma, e quanto ao galo, senhora Marta Maria, deixe-o cantar, por melhor que ele soubesse depois de tirado da panela, muito maior alegria é o canto da sua garganta, nem era coisa que às galinhas fizéssemos. Com esta tirada riu João Francisco, Marta Maria não pôde porque lhe deu o ventre uma guinada de dor, Blimunda e Baltasar apenas sorriram, não precisavam mais, se bem sabiam que os ditos do padre sempre iam cair ao lado das palavras esperadas, como pôr estas outras novamente se averiguava, Amanhã, uma hora antes do nascer do sol, levam-me a mula ao presbitério, arreada, vão os dois porque teremos de falar antes de eu partir para Coimbra, e agora, senhor João Francisco, senhora Marta Maria, aí vos fica a minha bênção, se para alguma coisa serve aos olhos de Deus, que é forte presunção cuidarmos que somos nós os juizes da bondade das bênçãos, mais uma vez, não se esqueçam, uma hora antes de nascer o sol, e tendo dito saiu, foi Baltasar acompanhá-lo com uma candeia que pouco alumiava, era só como se fosse dizendo à noite, Sou uma luz, e durante o breve caminho nem falou um nem falou outro, regressou Baltasar às escuras, vêem os pés onde assentam, e quando entrou na cozinha Blimunda perguntou, Então, disse o padre Bartolomeu o que queria, Não disse nada, amanhã o saberemos, e João Francisco, lembrando-se, ria, Teve sua graça a do galo. Quanto a Marta Maria, estava adivinhando mistério, agora, Vamos cear, sentaram-se os dois homens à mesa, as mulheres de parte, o costume das famílias.

Dormiu cada qual como pôde, com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas, acaso parecidos, mas nunca iguais, tão pouco rigoroso seria dizer Vi um homem, como Sonhei com água a correr, não chega isto para sabermos que homem era nem que água corria, a água que correu no sonho é água só do sonhador, não saberemos o que ela significa ao correr se não soubermos que sonhador é esse, e assim vamos do sonhador ao sonhado, do sonhado ao sonhador, perguntando, Um dia terão lástima de nós as gentes do futuro por sabermos tão pouco e tão mal, padre Francisco Gonçalves, isto dissera o padre Bartolomeu Lourenço antes de recolher ao seu quarto, e o padre Francisco Gonçalves, como lhe competia, respondeu, Todo o saber está em Deus, Assim é, respondeu o Voador, mas o saber de Deus é como um rio de água que vai correndo para o mar, é Deus a fonte, os homens o oceano, não valia a pena ter criado tanto universo se não fosse para ser assim, e a nós parece-nos impossível poder alguém dormir depois de ter dito ou ouvido dizer coisas destas.

Madrugada, chegaram Baltasar e Blimunda, traziam a mula pela arreata, mas o padre Bartolomeu Lourenço não precisou que o chamassem, abriu a porta mal ouviu bater as ferraduras nas pedras, e saiu logo, estavam as despedidas já feitas, ficava o vigário de Mafra com matéria para pensar, se Deus era fonte e os homens oceano, e que parte do saber geral lhe caberá de hoje em diante, que do saber passado esqueceu quase tudo, excepto, graças a uma continuada prática, o latim da missa e dos sacramentos e o caminho entre as pernas da ama, que esta noite, por causa do visitante, dormiu no vão da escada. Segurava Baltasar a mula, e Blimunda estava afastada alguns passos, de olhos baixos, com o bioco puxado para diante, Bons dias, disseram eles, Bons dias, disse o padre, e perguntou Blimunda ainda não comeu, e ela, da sombra maior das roupas, respondeu, Não comi, afinal, sempre tinham dito alguma coisa Baltasar e o padre Bartolomeu, Dize a Blimunda que não coma, e assim lhe foi dito a ela, murmurado ao ouvido, quando já estavam deitados, para que não os ouvissem os velhos, para mistério bastava.

Pelas ruas escuras, foram subindo até ao alto da Vela, aquela não era a estrada para a aldeia da Paz, caminho obrigatório para o norte que o padre leva, porém era como se tivessem de apartar-se dos lugares habitados, ainda que em todas estas barracas estejam homens dormindo, ou já acordando, são construções de fábrica precária, o mais que por aqui há são cabouqueiros, gente de muita força e pouco mimo, havemos de tornar a passar por estas bandas daqui por uns meses, mais ainda se forem anos, então veremos uma grande cidade de tábuas, maior que Mafra, quem viver verá, a isto e outras coisas, por agora bastem os toscos aposentos para neles descansarem os ossos os fatigados homens do alvião e da enxada, não tarda que toquem as cornetas, que também cá está a tropa, já não anda a morrer na guerra, e o que faz é guardar estas grosseiras legiões, ou ajudar onde não sofra a farda desdouro, em verdade mal se distinguem os guardas dos guardados, rotos uns, rasgados outros. O céu está cinzento e pérola para o lado do mar, mas, por cima dos cabeços que o defrontam, espalha-se lentamente uma cor de sangue aguado, depois vivo e vivíssimo, e em pouco virá o dia, oiro e azul, que a estação corre formosa. Blimunda é que nada vê, tem os olhos baixos, no bolso o bocado de pão que ainda não pode comer, Que será que vão querer de mim.

É o padre o que quer, não Baltasar, este sabe tão pouco como Blimunda. Em baixo, distingue-se confusamente o traçado dos caboucos, negro sobre sombra, há-de ser ali a basílica. O terrapleno começa a encher-se de homens, estão a acender fogueiras, alguma comida quente para começar o dia, restos de ontem, daqui a pouco estarão bebendo o caldo das gamelas, molhando nele o pão grosso, só Blimunda terá de esperar a sua vez. Diz o padre Bartolomeu Lourenço, No mundo tenho-te a ti, Blimunda, a ti, Baltasar, estão no Brasil os meus pais, em Portugal meus irmãos, portanto pais e irmãos tenho, mas para isto não servem irmãos e pais, amigos se requerem, ouçam então, na Holanda soube o que é o éter, não é aquilo que geralmente se julga e ensina, e não se pode alcançar pelas artes da alquimia, para ir buscá-lo lá onde ele está, no céu, teríamos nós de voar e ainda não voamos, mas o éter, dêem agora muita atenção ao que vou dizer-lhes, antes de subir aos ares para ser o onde as estrelas se suspendem e o ar que Deus respira, vive dentro dos homens e das mulheres, Nesse caso, é a alma, concluiu Baltasar, Não é, também eu, primeiro, pensei que fosse a alma, também pensei que o éter, afinal, fosse formado pelas almas que a morte liberta do corpo, antes de serem julgadas no fim dos tempos e do universo, mas o éter não se compõe das almas dos mortos, compõe-se, sim, ouçam bem, das vontades dos vivos.

Em baixo, começavam os homens a descer para os caboucos, onde mal se via ainda. Disse o padre, Dentro de nós existem vontade e alma, a alma retira-se com a morte, vai lá para onde as almas esperam o julgamento, ninguém sabe, mas a vontade, ou se separou do homem estando ele vivo, ou a separa dele a morte, é ela o éter, é portanto a vontade dos homens que segura as estrelas, é a vontade dos homens que Deus respira, E eu que faço, perguntou Blimunda, mas adivinhava a resposta, Verás a vontade dentro das pessoas Nunca a vi, tal como nunca vi a alma, Não vês a alma porque a alma não se pode ver, não vias a vontade porque não a procuravas, Como é a vontade, E uma nuvem fechada, Que é uma nuvem fechada, Reconhecê-la-ás quando a vires, experimenta com Baltasar, para isso viemos aqui, Não posso, jurei que nunca o veria por dentro, Então comigo. Blimunda levantou a cabeça, olhou o padre, viu o que sempre via, mais iguais as pessoas por dentro do que por fora, só outras quando doentes, tornou a olhar, disse, Não vejo nada. O padre sorriu, Talvez que eu já não tenha vontade, procura melhor, Vejo, vejo uma nuvem fechada sobre a boca do estômago. O padre persignou-se, Graças, meu Deus, agora voarei.

Tirou do alforge um frasco de vidro que tinha presa ao fundo, dentro, uma pastilha de âmbar amarelo, Este âmbar, também chamado electro, atrai o éter, andarás sempre com ele por onde andarem pessoas, em procissões, em autos-de-fé, aqui nas obras do convento, e quando vires que a nuvem vai sair de dentro delas, está sempre a suceder, aproximas o frasco aberto, e a vontade entrará nele, E quando estiver cheio, Tem uma vontade dentro, já está cheio, mas esse é o indecifrável mistério das vontades, onde couber uma, cabem milhões, o um é igual ao infinito, E que faremos entretanto, perguntou Baltasar, Vou para Coimbra, de lá, a seu tempo, mandarei recado, então irão os dois para Lisboa, tu construirás a máquina, tu recolherás as vontades, encontrar-nos-emos os três quando chegar o dia de voar, abraço-te Blimunda, não me olhes tão de perto, abraço-te Baltasar, até à volta. Montou a mula e começou a descer a ladeira. O sol aparecera por cima dos cabeços. Come o pão, disse Baltasar, e Blimunda respondeu, Ainda não, primeiro vou ver a vontade daqueles homens.

Capítulo XII

Vieram da missa e estão sentados debaixo do telheiro do forno. Cai uma chuva branda por entre o sol, Outono precoce, por isso Inês Antónia diz ao filho, Sai daí, que te molhas, e a criança faz de contas que não ouve, já nestes tempos é o costume dos rapazes, enquanto não declaram desobediências mais radicais, e Inês Antónia, tendo dito uma vez, não insiste, se ainda há três meses lhe morreu o mais novo, para que há-de atormentar agora este, deixá-lo brincar, ali, tão feliz, a meter os pés descalços nos charcos do quintal, Nossa Senhora o defenda das bexigas que levaram o irmão. Diz Álvaro Diogo, Já tenho uma promessa de trabalhar nas obras do convento real, era disto que estavam falando, só a mãe pensa no filho morto, assim dividem-se os pensamentos, e ainda bem, para não sobrecarregarem tanto, acabariam por tornar-se insuportáveis, como esta dor que Marta Maria sente, tenacíssima dor que lhe trespassa o ventre como as espadas trespassam o coração da Mãe de Deus, porquê o coração, se é no ventre que se geram as crianças, aí é o forno da vida, e como haveria de alimentar-se a vida senão com o trabalho, razão por que está Álvaro Diogo tão contente, um convento assim é obra para muitos e muitos anos, fica com o seu pão garantido quem souber de artes de pedreiro, trezentos réis de jornal, quinhentos em vindo a sazão, E tu, Baltasar, estás decidido a voltar para Lisboa, olha que fazes mal, porque aqui não vai faltar trabalho, Não haveriam de querer aleijados, tendo tanta gente por onde escolher, Com esse teu gancho fazes quase tudo quanto os mais fazem, Faria, se não é para me confortar que o dizes, mas precisamos voltar para Lisboa, não é, Blimunda, e Blimunda, que tem estado calada, acenou com a cabeça. Um pouco retirado, o velho João Francisco entrança uma soga de couro, ouve falar mas dá pouca atenção ao que estão dizendo, já sabe que o ‘filho partirá uma destas semanas e quer-lhe mal por isso, ir-se outra vez embora, assim, depois de andar aqueles anos na guerra, Bem feito que tornasse sem a mão direita, é tal o amor que chegam a pensar-se coisas destas. Blimunda levantou-se, atravessou o quintal e saiu para o campo, debaixo das oliveiras que subiam pela encosta até aos marcos da obra, ia enterrando as tamancas grossas no alqueive que a chuva amaciara, se fosse descalça e pisasse pedras agudas, não as sentiria como seria possível doer-lhe esse pouco, se toda ela está cheia do horror de ter ousado o que esta manhã ousou, aproximar-se da mesa da comunhão em jejum, fingiu comer o seu pão ainda deitada, como de costume e necessidade, mas não o comeu, depois andou sempre de olhos baixos, fingindo compungimento e devoção em casa, e assim entrou na igreja, esteve no ofício como se a prostrasse a presença de Deus, ouviu o sermão sem levantar a cabeça, esmagada, ao parecer, por todas as ameaças de inferno que caíam do púlpito, e enfim foi receber a sagrada partícula, e viu. Durante todos estes anos, desde que se revelara o dom que possuía, sempre comungara em pecado com alimento no estômago, e hoje decidira, sem nada dizer a Baltasar, que iria em jejum, não para receber a Deus, mas para o ver, se ele lá estava.

Sentou-se na raiz levantada duma oliveira, via-se dali o mar confundido com o horizonte, decerto estaria chovendo com força sobre as águas, então encheram-se de lágrimas os olhos de Blimunda, um grande soluço lhe sacudiu os ombros, e Baltasar tocou-lhe na cabeça, aproximara-se e ela não o ouvira,

Que foi que viste na hóstia, afinal não o iludira a ele, como seria possível se dormem juntos e todas as noites se procuram e encontram, quer dizer, não serão todas, é certo que há seis anos que vivem como marido e mulher, Vi uma nuvem fechada, respondeu ela. Baltasar sentou-se no chão, não chegara ali a relha do arado, havia ervas secas, agora húmidas da chuva, mas esta gente popular não é mimosa, senta-se ou deita-se onde calha, melhor se pode um homem pousar a cabeça no regaço da mulher, estou que foi esse o último gesto quando as águas do dilúvio já afogavam o mundo. E Blimunda disse, Esperava ver Cristo crucificado, ou ressurrecto em glória, e vi uma nuvem fechada, Não penses mais no que viste, Penso, como não hei-de pensar, se o que está dentro da hóstia é o que está dentro do homem, que é a religião, afinal, falta-nos aqui o padre Bartolomeu Lourenço, talvez ele soubesse explicar-nos este mistério, Talvez não soubesse, talvez nem tudo possa ser explicado, quem sabe, e, mal foram estas palavras ditas, pôs-se a chuva a cair com mais força, sinal de sim, sinal de não, o céu agora uma pegada nuvem, mulher e homem debaixo duma árvore, nenhum filho nos braços, afinal não é certo que as situações se repitam, e os lugares são outros, e os tempos também, diferente a própria árvore, mas da chuva diremos que é o mesmo consolo da pele e da terra, vida que sendo excessiva mata, mas a isso nos habituámos desde o começo do mundo, sendo o vento maneiro mói o cereal, mas se é ponteiro rasga as velas do moinho, Entre a vida e a morte, disse Blimunda, há uma nuvem fechada.

Pontualmente escrevera o padre Bartolomeu Lourenço quando se instalou em Coimbra, notícia só de ter chegado e bem, mas agora viera uma nova carta, que sim, seguissem para Lisboa tão cedo pudessem, que ele, aliviando o estudo, os iria visitar, tanto mais que tinha obrigações eclesiásticas na corte, e então se aconselhariam na obra magna em que estavam ocupados, E agora digam-me cá, como vamos nós de vontades, pergunta inocente, parecia que se informava das vontades deles, quando das outras é que queria saber, e dos que as perdiam, mas dizia-o sem contar com a resposta, é como nas guerras, grita o capitão ou manda dizer o clarim por ele, Em frente, e não vai ficar à espera que os soldados se consultem e respondam, Iremos, não iremos, não vamos, mas que avancem e sem demora, ou são levados a conselho de guerra, Partimos para a semana, declarou Baltasar, e afinal ainda se passaram dois meses porque entretanto começou a constar-se em Mafra, e foi confirmado pelo vigário no sermão, que vinha el-rei a inaugurar a obra da raiz dos caboucos para cima, colocando com as suas reais mãos a primeira pedra. Primeiro se anunciou que seria aos tantos de Outubro, mas não houve tempo para cavar os alicerces até à sua conveniente fundura, apesar de serem seiscentos os homens, apesar dos muitos tiros de pólvora que a todas as horas do dia vão atroando os ares, será então em Novembro, meados dele, depois não pode ser, que já seria como de Inverno, andar aí el-rei enterrado na lama até às ligas das pernas. Venha pois sua majestade para que se comecem os dias gloriosos da vila de Mafra, para que os seus moradores levantem as mãos ao céu, eles que com os seus perecíveis olhos vão ver a quanto alcança a grandeza de um rei, monarca sublime, graças a quem podemos gozar estas antecâmaras do paraíso enquanto às celestiais moradas não acedermos, tarde seja, que mais apetece estar vivo que morto, Veremos a festa e depois partimos, decidiu Baltasar.

Já Álvaro Diogo está contratado, talha por enquanto a pedra que é trazida de Pêro Pinheiro, grandes blocos transportados em carros puxados por dez ou vinte juntas de bois, enquanto outros operários partem com os malhos a outra pedra grosseira que há-de servir para alicerces, este de quase seis metros de profundidade, metros é o que dizemos hoje, que então tudo se media a palmos, afinal continua a ser por eles que se medem os homens, os grandes e os pequenos, por exemplo, mais alto é Baltasar Sete-Sóis que D. João V, e não foi rei, e Álvaro Diogo, não sendo fraca figura, é pedreiro de obra grossa, ali está martelando a pedra, desbastando à face, mas este virá a fazer mais do que isto, tendo ajudado a pôr umas sobre outras, será no futuro canteiro e lavrante, porém é já real trabalho levantar uma parede direita, a fio de prumo, não esse ofício de sarrafos e pregos, como os carpinteiros que andam a carpinteirar aquela igreja de madeira, onde se celebrará o acto da bênção e da inauguração, quando el-rei vier. Leva a dita igreja uns altos e fortes mastros, dispostos pela mesma formalidade dos alicerces, quer dizer, segundo o perímetro
que terá a basílica definitiva, e o tecto será armado com velas de navios, forradas de pano de brim, planta em cruz, como igreja que se preza de ser, de madeira, sim, e provisória, mas com a dignidade de anunciadora da que de pedra aqui se construirá, e para ver estes preparos desmazelam os moradores da vila de Mafra os mesteres e os trabalhos da lavoura, tornados mesquinhos pela grande fábrica que se ergue no alto da Vela, e ainda agora estão no princípio. Há quem tenha melhores razões, é o caso de Baltasar e Blimunda, que levam o sobrinho a ver o pai, e sendo hora do jantar vem Inês Antónia com a panela das couves cozidas e o naco do toucinho, está aqui uma família completa, só faltam os velhos, se isto não fosse o que sabemos, resultado de voto piedoso por ter nascido um filho ao rei, diríamos que é tudo romaria, pagamento de promessas gerais, cada qual a sua, Mas o meu filho é que ninguém mo torna a dar, pensou Inês Antónia, e quase quer mal a este que anda a brincar entre as pedras.

Uns dias antes dera-se em Mafra um milagre, que foi ter vindo do mar uma grande tempestade de vento e deu com a igreja de madeira em terra, mastros, tábuas, vigas, barrotes, de confusão com os panos, foi como o sopro gigantesco de Adamastor, se Adamastor soprou, quando lhe dobravam o cabo dos seus e nossos trabalhos, e a quem se escandalizar por dar a isto nome de milagre, sendo destruição, que outro nome se lhe haveria de pôr, sabendo que el-rei, chegado a Mafra e informado do sucesso, se pôs, ele, a distribuir moedas de ouro, assim, com esta mesma facilidade com que o contamos, porque os oficiais da obra em dois dias tinham tornado a levantar tudo, multiplicaram-se as moedas, que foi bem melhor que terem-se multiplicado os pães. É el-rei um monarca previdente que sempre leva arcas de ouro para onde vá, na previsão destes e outros
temporais.

Enfim chegou o dia da inauguração, dormira D. João V no palácio do visconde, guardando-lhe as portas ó sargento-mor de Mafra, com uma companhia de soldados auxiliares, posto o que não quis perder Baltasar o ensejo e foi falar aos tropas, mas não lhe valeu a pena, ninguém o conhecia, e que queria ele, que ideia foi aquela de vir falar de guerras em tempo de paz, Homem, não me esteja a empachar a porta, que daqui a pouco sai el-rei, dito o que subiu Baltasar ao alto da Vela, ia Blimunda com ele, e tiveram sorte, que puderam entrar na igreja, nem todos vieram a gabar-se disso, e era um pasmo lá dentro, o tecto todo toldado e forrado de tafetás encarnados e amarelos, repartidos em matizes vistosos, e as ilhargas cobertas de ricos panos de rás, formando todas as portas e janelas necessárias, à imitação da verdadeira igreja, tudo em igual correspondência, armadas umas e outras de cortinas de damasco carmesim, guarnecidas de galões e franjas de ouro. Quando el-rei chegar, primeiro encarará com as três largas portas da frontaria, tendo por cima um quadro que representa os santos Pedro e João naquele acto de sararem o mendigo que lhes pediu esmola à entrada do templo dito de Jerusalém, insinuada esperança doutros milagres que venham a produzir-se aqui, mas nenhum tão sonante como o das moedas de ouro já relatado, e, sobre aquele quadro, outro, mostrando Santo António, que a este é a basílica dedicada, por voto particular de el-rei, se não ficou dito já, sempre são seis anos de casos acontecidos, alguma coisa havia de esquecer. Lá dentro, como já começou a ser dito, isto sim, é um luxo, nem parece barraca para deitar abaixo depois de amanhã. Do lado do evangelho, quer-se dizer, do lado esquerdo de quem esteja virado para o altar, que só não é mor porque é único, e estas explicações não devem parecer mal, quem cuida ele que nós somos, alguns ignorantes, dão-se estas minúcias porque atrás de crença e ciência dela sempre vêm tempos incréus e ciências outras, sabe-se lá quem nos virá a ler, do lado do evangelho, sobre seis degraus, está um sitial decorado de tela branca preciosa e por cima um dossel, e fronteiramente, do lado da epístola, outro sitial, mas este assenta em só três degraus, em vez dos seis que solevantam o outro, o que se repete para que fique bem compreendida a diferença, e não tem sobrecéu, será para menos importante ocupação. É aqui que estão os paramentos de que D. Tomás de Almeida, o patriarca, se revestirá, e muita prataria para o serviço divino, tudo demonstrando a suma grandeza deste monarca que vem entrando. Não falta nada na igreja, à esquerda do cruzeiro armou-se um coro para os músicos, forrado de damasco carmesim, com um órgão que tocará nas ocasiões próprias, e ali estarão também, em bancada reservada, os cónegos da patriarcal, e do lado direito é a tribuna para onde D. João V se encaminha, dali assistirá à cerimónia, os fidalgos e outras pessoas de merecimento sentados em baixo, nos bancos. O pavimento foi coberto de juncos e espadanas, e por cima estenderam-se panos verdes, já vem de muito longe, como se observa, este gosto português pelo verde e pelo encarnado, que, em vindo uma república, dará bandeira.

Benzeu-se a cruz no primeiro dia, enorme pau com cinco metros de altura, que daria para um gigante, Adamastor ou outro, ou para o tamanho natural de Deus, e diante dela se prosternaram todos os presentes, e maximamente el-rei, derramando muito devotas lágrimas, e quando a adoração da cruz acabou, quatro sacerdotes levantaram-na em peso, cada qual seu extremo, e a arvoraram sobre uma pedra, adrede preparada, mas esta não a cortou Álvaro Diogo, com um buraco onde se lhe encaixou o pé, que, mesmo sendo a cruz divino emblema, não se aguenta se não ficar entalada, é o contrário dos homens, que mesmo sem pernas conseguem ficar direitos, a questão é quererem-no. Tocava airoso o órgão, sopravam os músicos, entoavam as vozes dos cantores, e, cá fora, o povo que não coubera ou estava sujo de mais para entrar, o povo que viera da vila e dos arredores, não admitido no sacro interior, contentava-se com os ecos das antífonas e das salmodias, e assim se acabou o primeiro dia.

Ai o dia seguinte, passado que foi aquele novo susto de repetir-se a rajada do vento do mar, que sacudiu toda a geringonça, mas enfim, soprou e passou, ai o dia seguinte, retorne-se a exclamação, dezassete de novembro deste ano da graça de mil setecentos e dezassete, aí se multiplicaram as pompas e as cerimónias no terreiro, logo às sete da manhã, frio de rachar, se achavam reunidos os párocos de todas as freguesias em redor, com os seus clérigos e muito povo, é forte presunção que tenha vindo desta ocasião o dizer, para uso dos séculos e das gazetas. Chegou el-rei pelas oito horas e meia, já tomado o chocolate matinal, serviu-o por suas próprias mãos o visconde, e então se formou a procissão, à frente sessenta e quatro religiosos arrábidos, depois o clero da terra, a cruz patriarcal, seis homens de opas roxas, os músicos, capelães de sobrepelizes, grande cópia de clérigos vários, um espaço livre a preparar o que aí vinha, e eram os cónegos de pluviais de tela branca e outras bordadas, adiante de cada um deles os seus criados nobres, em pós, sustentando-lhes as caudas, os caudatórios, e atrás o patriarca com preciosos paramentos e mitra do maior custo, adornada de pedras do Brasil, depois el-rei com a sua corte, juiz e vereadores da terra, corregedor da comarca, e grande número de gente, passante três mil, se não se enganou quem a contou, e tudo isto por causa de uma simples pedra, juntou-se aqui um poder de mundo, clarins e timbales atroando os ares superiores e inferiores, e a tropa de cavalaria e infantaria, mais a guarda alemã, e outra vez o povo, muito povo, tanto povo, nunca a vila de Mafra vira tal ajuntamento, porém, não cabendo todos na igreja, entram os grandes, e dos pequenos só os que cabem e tiveram artes de insinuar-se, antes fizeram os soldados as aclamações da ordenança, era isto ainda pela manhã, serenara de vez o vento forte e o que corria era apenas uma viraçãozinha do mar que fazia fraldejar as bandeiras e as saias das mulheres, ventinho fresco como próprio da estação, mas os corações ardiam de pura fé, exultavam as almas, e se, de extenuadas, já algumas vontades queriam retirar-se dos corpos, vinha Blimunda e não se perdiam nem subiam às estrelas.

Foi a pedra principal benzida, a seguir a pedra segunda e a urna de jaspe, que todas três iriam ser enterradas nos alicerces, e depois foi tudo levado em procissão, de andor, dentro da urna os dinheiros do tempo, ouro, prata e cobre, umas medalhas, ouro, prata e cobre, e o pergaminho onde se lavrara o voto, deu a procissão uma volta inteira para mostrar-se ao povo que ajoelhava à passagem, e, tendo constantemente motivos para ajoelhar-se, ora a cruz, ora o patriarca, ora el-rei, ora os frades, ora os cónegos, já nem se levantava, bem poderemos escrever que estava muito povo de joelhos. Enfim se encaminharam el-rei, o patriarca e alguns acólitos para o sítio onde se havia de colocar a pedra e as pedras, descendo por uma espaçosa escada de madeira que tinha trinta degraus, porventura em memória dos trinta dinheiros, e de largura mais de dois metros. Levava o patriarca a pedra principal, ajudado pelos cónegos, e outros destes a pedra segundeira e a urna de jaspe, atrás el-rei e o geral da Sagrada Ordem de S. Bernardo, como esmoler-mor, e que, por o ser, levava o dinheiro.

Assim desceu el-rei trinta degraus para o interior da terra, parece uma despedida do mundo, seria uma descida aos infernos se não estivesse tão bem defendido por bênçãos, escapulários e orações, e se aluíssem estas altas paredes que formam o cabouco, ora não tema vossa majestade, repare como as escorámos com a boa madeira do Brasil por maior fortaleza, aqui está um banco coberto de veludo carmesim, é uma cor que usamos muito em cerimónias de estilo e de estado, com o andar dos tempos vê-la-emos em sanefas de teatro, e sobre o banco está um balde de prata cheio de água benta, e também duas vassourinhas de urze verde com os cabos guarnecidos de cordão de seda e prata, e eu, mestre-da-obra, verto um cocho de cal, e vossa majestade, com esta colher de pedreiro de prata, perdão, senhor, de prata de pedreiro, se pedreiros a têm, estende a cal, mas antes a espargiu com a vassourinha molhada na água benta, e agora, ajudem-me aqui, podemos assentar a pedra, porém, sejam as mãos de vossa majestade as últimas a tocar-lhe, pronto, um toque mais para toda a gente ver, pode vossa majestade subir, cuidado não caia, que o resto do convento nós o construiremos, e agora podem ser postas as outras pedras, cada uma em sua cabeceira desta, e tragam os fidalgos mais doze, número de boa fortuna desde os apóstolos, e conchas de cal dentro de cestos de prata, assim ficará mais aconchegada a pedra principal, e o visconde da terra quer fazer como vê aos serventes de pedreiro, leva o cocho à cabeça, assim mostrando maior devoção, já que não foi a tempo de ajudar o Cristo a levar a cruz, despeja a cal que o haverá de comer, não seria mau o efeito de estilo, porém esta cal não está viva, meu senhor, mas apagada, Como as vontades, dirá Blimunda.

Ao outro dia, depois de el-rei partir para a corte, deitou-se abaixo a igreja sem ajuda do vento, apenas chovia água que Deus a dava, puseram-se a um lado as tábuas e os mastros para necessidades menos reais, andaimes, por exemplo, ou tarimbas, ou beliches, ou mesa de comer, ou rastos de tamancos, e os panos, tafetás ou damascos, as velas dos navios, cada um tornou ao seu natural, as pratas para o tesouro, os fidalgos para a fidalguice, o órgão para outras solfas, e os cantores, os soldados a luzir semelhantes paradas, só ficaram os arrábidos de olho alerta, e sobre a pedra cavada, cinco metros de pau crucificado, a cruz. Para os caboucos alagados tornaram a descer os homens porque nem em todos os lugares se alcançara a fundura requerida, sua majestade não viu tudo, e apenas disse, por outras palavras, quando entrava no coche que o levaria, Agora despachem-se com isto, há mais de seis anos que fiz o voto, não estou para andar com os franciscanos à perna todo o tempo, então o nosso convento, por causa do dinheiro não sejam os atrasos, gasta-se o que for preciso. Mas em Lisboa dirá o guarda-livros a el-rei, Saiba vossa real majestade que na inauguração do convento de Mafra se gastaram, números redondos, duzentos mil cruzados, e el-rei respondeu, Põe na conta, disse-o porque ainda estamos no princípio da obra, um dia virá em que quereremos saber, Afinal, quanto terá custado aquilo, e ninguém dará satisfação dos dinheiros gastos, nem facturas, nem recibos, nem boletins de registo de importação, sem falar de mortes e sacrifícios, que esses são baratos.

Quando o tempo levantou, passada uma semana, partiram Baltasar Sete-Sóis e Blimunda Sete-Luas para Lisboa, na vida tem cada um sua fábrica, estes ficam aqui a levantar paredes, nós vamos a tecer vimes, arames e ferros, e também a recolher vontades, para que com tudo junto nos levantemos, que os homens são anjos nascidos sem asas, é o que há de mais bonito, nascer sem asas e fazê-las crescer, isso mesmo fizemos com o cérebro, se a ele fizemos, a elas faremos, adeus minha mãe, adeus meu pai. Apenas disseram adeus, nada mais, que nem uns sabem compor frases, nem os outros entendê-las, mas, passando tempo, sempre se encontrará alguém para imaginar que estas coisas poderiam ter sido ditas, ou fingi-las, e, fingindo, passam então as histórias a ser mais verdadeiras que os casos verdadeiros que elas contam, ainda que já seja difícil pôr palavras diferentes no lugar destas, que é quando Marta Maria diz, Adeus, que não os torno a ver, e isto sim, vai ser verdade estreme, ainda as paredes da basílica não terão um metro acima do chão e já Marta Maria estará enterrada. Então João Francisco, de repente duas vezes mais velho, irá sentar-se debaixo do telheiro do forno, de olhar vazio, como agora está, vendo
afastar-se o filho Baltasar, a filha Blimunda, que nora é nome sem jeito, porém tem ainda ali perto Marta Maria, é certo que já ausente, com um pé noutra margem, as mãos cruzadas sobre o ventre onde se gerou vida e agora se está gerando morte. Saíram-lhe pela mina do corpo os filhos, uns morreram cá fora, escaparam dois, este não nascerá, é a morte dela, Já não se vêem daqui, vamos para dentro, diz João Francisco.

É Dezembro, os dias são curtos, esfando o céu de nuvens mais cedo anoitece, por isso Baltasar e Blimunda dormirão uma noite no caminho, num palheiro de Morelena, disseram que vêm de Mafra e vão para Lisboa, viu o caseiro que eram gente honrada e emprestou-lhes uma manta para se cobrirem, a tanto pode chegar a confiança. Já sabemos que destes dois se amam as almas, os corpos e as vontades, porém, estando deitados, assistem as vontades e as almas ao gosto dos corpos, ou talvez ainda se agarrem mais a eles para tomarem parte no gosto, difícil é saber que parte há em cada parte, se está perdendo ou ganhando a alma quando Blimunda levanta as saias e Baltasar deslaça as bragas, se está a vontade ganhando ou perdendo quando ambos suspiram e gemem, se ficou o corpo vencedor ou vencido quando Baltasar descansa em Blimunda e ela o descansa a ele, ambos se descansando. Este é o melhor cheiro do mundo, o da palha remexida, dos corpos sob a manta dos bois que ruminam na manjedoura, o cheiro do frio que entra pelas frinchas do palheiro, talvez o cheiro da lua, toda a gente sabe que a noite tem outro cheiro quando faz luar, até um cego, incapaz de distinguir a noite do dia, dirá, Está luar, pensa-se que foi Santa Luzia a fazer o milagre e afinal é só uma questão de fungar, Sim senhores, que lindo luar o desta noite.

De manhã, ainda não nascera o sol, levantaram-se. Blimunda já comeu o pão. Dobrou a manta, era apenas uma mulher repetindo um gesto antigo, abrindo e fechando os braços, segurando debaixo do queixo as dobras feitas, depois descendo as mãos até ao centro do seu próprio corpo e aí fazendo a dobra final, quem para ela olhasse não diria que tem estranhos poderes de ver, que, se esta noite estivesse fora do seu corpo, a si se veria debaixo de Baltasar, em verdade, de Blimunda se pode afirmar que vê os seus próprios olhos vendo. Quando o caseiro aqui entrar, verá a manta dobrada, como sinal de agradecimento, e sendo homem faceto perguntará aos bois, Digam-me cá, houve missa esta noite, e eles virarão as cabeças mal armadas, sem surpresa, os homens sempre têm alguma coisa para dizer, e às vezes acertam, este foi o caso, que entre o amor dos que ali dormiram e a santa missa não há diferença nenhuma, ou, se a houvesse, a missa perderia.

Vão já Blimunda e Baltasar a caminho de Lisboa, ladeando as colinas onde se levantam moinhos, o céu está encoberto, mal saiu o sol logo se escondeu, o vento é do Sul que vem, ameaça muita chuva, e Baltasar diz, Se começa a chover, não teremos onde recolher-nos, depois levanta os olhos para as nuvens, é uma única placa sombria, cor de ardósia, Se as vontades são nuvens fechadas, quem sabe se não ficarão presas nestas, tão escuras e grossas que nem o próprio sol se vê por trás delas, e Blimunda respondeu, Pudesses tu ver a nuvem fechada que dentro de ti está, Ou de ti, Ou de mim, pudesses tu vê-la, e saberias que é bem pouco uma nuvem do céu comparada com a nuvem que está dentro do homem, Mas tu nunca viste a minha nuvem, nem a tua, Ninguém pode ver a sua própria vontade, e de ti jurei que nunca te veria por dentro, mas tu, Baltasar Sete-Sóis, minha mãe não se enganou, quando me dás a mão, quando te encostas a mim, quando me apertas, não preciso ver-te por dentro, Se eu morrer antes de ti, peço-te que me vejas, Morrendo tu, vai-se-te a vontade do corpo, Quem sabe.

Não choveu todo o caminho. Só o grande tecto escuro que se alongava para o Sul e pairava sobre Lisboa, raso com as colinas no horizonte, parecia que levantando a mão se tocaria na primeira flor da água. Às vezes é a natureza boa companhia, vai o homem, vai a mulher, as nuvens a dizerem umas para as outras, A ver se eles chegam a casa, depois já poderemos chover. Entraram Baltasar e Blimunda na quinta, na abegoaria, e enfim começou a chuva a cair, e como havia algumas telhas partidas, a água escorria em fio por ali, discretamente, apenas murmurando, Cá estou, chegaram bem. E quando Baltasar se aproximou da concha voadora e lhe tocou, rangeram os ferros, e os arames, é mais difícil saber o que quereriam dizer.

Capítulo XIII

Enferrujam-se os arames e os ferros, cobrem-se os panos de mofo, destrança-se o vime ressequido, obra que em meio ficou não precisa envelhecer para ser ruína. Baltasar deu duas voltas à máquina voadora, nada contente de ver o que via, com o gancho do braço esquerdo puxou violentamente o esqueleto metálico, ferro contra ferro, a provar-lhe a resistência, e era pouca, Parece-me que melhor será desmanchar tudo e começar outra vez, Desmanchar, sim, respondeu Blimunda, mas, sem que venha o padre Bartolomeu Lourenço, não vale a pena pegares no trabalho, Podíamos ter continuado em Mafra por mais um tempo, Se ele disse que viéssemos é porque não tarda aí, quem sabe se cá esteve enquanto esperávamos o dia da festa, Não esteve, não há sinais disso, Oxalá, Deus queira, Sim, queira Deus.

Em menos de uma semana deixou a máquina de ser máquina ou seu projecto, quanto ali se mostrava poderia servir para mil diferentes coisas, não são muitas as matérias de que os homens se servem, tudo vai é da maneira de as compor, ordenar e juntar, veja-se a enxada, veja-se a plaina, um tanto de ferro, um tanto de madeira, e o que faz aquela, esta não faz. Disse Blimunda, Enquanto o padre Bartolomeu Lourenço não chega, construímos aqui a forja, E como iremos fazer o fole, Vais a um ferreiro, vês como é feito, se à primeira não sair bem, sairá à segunda, se não conseguires à segunda, conseguirás à terceira, ninguém espera por nós para fazermos outra coisa que não seja isto, Não seria preciso tanto trabalho, com o dinheiro que o padre nos deixou compraríamos o fole, E alguém haveria de querer saber para que quererá Baltasar Sete-Sóis um fole, se não é ferreiro nem ferrador, melhor é que o faças tu, nem que tenhas de teimar cem vezes.

Baltasar não foi sozinho. Embora para esta diligência se não necessitassem visões duplas, Blimunda tinha mais rigor no olhar, mais precisão no traço, e não errava tão desastrosamente no que tocava às proporções das diferentes partes da obra. Com o dedo molhado no azeite fuliginoso do candil, desenhou na parede as várias peças, o couro segundo o corte que convinha, o bico por onde sairia o vento, a parte inferior e fixa de madeira, a outra parte articulada, só faltava um boneco a dar ao fole. Num canto afastado dispuseram pedras regulares, formando com elas quatro muros em quadrado, à altura do quadril de um homem, e escoraram-nos com arames que iam de lado a lado, por dentro e por fora cingiam toda a construção, que depois encheram de terra e pedra miúda. Por causa disto ficou o duque de Aveiro com alguns muretes da quinta arruinados, mas esta obra, se não é, como o convento, de sua majestade, tem licença régia, provavelmente já esquecida, nem sequer lembrada para mandar D. João V averiguar se o padre Bartolomeu Lourenço ainda tem esperanças de voar um dia, ou se isto é apenas maneira de viverem três pessoas um sonho, quando tais pessoas poderiam ser mais utilmente empregadas, o padre a pregar a palavra de Deus, Blimunda a sondar nascentes de água, Baltasar a pedir esmola para abrir as portas do paraíso a quem lha desse porque isso de voar está demonstrado que só o podem fazer os anjos e o Diabo, aqueles como ninguém ignora e por alguns foi testemunhado, este por certificação da própria sacra escritura, pois lá se diz que o Diabo levou Jesus ao pináculo do templo, portanto pelos ares o levou, não foram pela escada, e lhe disse, Lança-te daqui abaixo, e ele não lançou, não quis ser o primeiro homem a voar, Um dia voarão os filhos do homem, disse o padre Bartolomeu Lourenço quando chegou e viu a forja feita, mais a pia da água onde se temperarão os ferros, falta apenas o fole, a seu tempo soprará o vento, que o espírito já soprou neste lugar. Quantas vontades recolheste até hoje, Blimunda, perguntou o padre nessa noite, quando ceavam, Não menos de trinta, disse ela, É pouco, e as mais são de homem ou de mulher, tornou a perguntar, As mais são de homem, parece que as vontades das mulheres resistem a separar-se do corpo, porque será. A isto não respondeu o padre, mas Baltasar disse, Quando a minha nuvem fechada está sobre a tua nuvem fechada, às vezes falta bem pouco para que a tua à minha se junte, Então me pareces tu mais vazio de vontade do que eu, respondeu Blimunda, ainda bem que o padre Bartolomeu Lourenço se não escandaliza com estas livres conversações, acaso também teve a sua parte de vontades desfalecidas, na Holanda por onde andou, ou a tem aqui, não o sabendo a Inquisição, ou fazendo de contas que o ignora, por não andar a falta acompanhada de pecados menos veniais.

Falemos agora a sério, disse o padre Bartolomeu Lourenço, sempre que puder aqui virei, mas a obra só pode adiantar-se com o trabalho de ambos foi bom terem construído a forja, eu arranjarei modo de alcançar um fole para ela, não te hás-de fatigar com essa canseira, porém terás de o observar muito bem porque vai ser preciso fazer os foles grandes, de que te darei o risco, para a máquina, faltando o vento na atmosfera trabalharão os foles e voaremos, e tu, Blimunda, lembra-te de que são precisas pelo menos duas mil vontades, duas mil vontades que tiverem querido soltar-se por as não merecerem as almas, ou os corpos as não merecerem, com essas trinta que aí tens não se levantaria o cavalo Pégaso apesar de ter asas, pensem como é grande a terra que pisamos, ela puxa os corpos para baixo, e sendo o sol tão maior como é, mesmo assim não leva a terra para si, ora, para que nós voemos na atmosfera serão precisas as forças concertadas do sol, do âmbar, dos ímanes e das vontades, mas as vontades são, de tudo, o mais importante, sem elas não nos deixaria subir a terra, e se queres recolher vontades, Blimunda, vai à procissão do Corpo de Deus, em tão numerosa multidão não hão-de ser poucas as que se retirem, porque as procissões, bom é que o saibam, são ocasiões em que as almas e os corpos se debilitam, a ponto de não serem capazes, sequer, de segurar as vontades, já o mesmo não sucede nas touradas, e também nos autos-de-fé, há neles e nelas um furor que torna mais fechadas as nuvens fechadas que as vontades são, mais fechadas e mais negras, é como na guerra, treva geral no interior dos homens. Disse Baltasar, E a máquina de voar, como a farei, Como a tínhamos começado, a mesma ave grande que está no meu risco, e estas são as partes de que se compõe, aqui te fica este outro desenho com as indicações dos tamanhos das diferentes peças, irás construindo de baixo para cima, como se estivesses a fazer um navio, entrançarás o vime e o ferro, imagina que estás ligando penas a ossos, já te disse, virei sempre que puder, para comprares o ferro irás a este lugar, procurarás nos vimiais do termo o vime de que precisas, e ao açougue irás comprar as peles para os foles da máquina, eu te direi como deverás curti-las e cortá-las, esses desenhos que Blimunda fez são bons para foles de forja, não para foles de voar, e tens aqui mais este dinheiro, comprarás um burro, sem ele como transportarias todos os materiais necessários, e também mercarás uns ceirões grandes, mas haverás sempre à mão ervas ou palhas para que possas esconder o que trouxeres dentro deles, lembrem-se de que toda esta nossa obra terá de ser feita em absoluto segredo, não o podem saber nem parente nem amigo, amigos mais que nós três não há, e se alguém aí vier com perguntas, dirão que estão a guardar a quinta por ordem de el-rei, e que perante el-rei o responsável sou eu, padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, De quê, perguntaram Blimunda e Baltasar ao mesmo tempo, De Gusmão, foi assim que passei a chamar-me por via do apelido de um padre que no Brasil me educou, Bartolomeu Lourenço era quanto bastava, disse Blimunda, não me vou habituar a dizer Gusmão, Nem precisarás, para ti e Baltasar serei sempre o mesmo Bartolomeu Lourenço, mas a corte e as
academias terão de chamar-me Bartolomeu Lourenço de Gusmão, pois quem, como eu, vai ser doutor em cânones precisa ter um nome que lhe assente à dignidade, Adão não teve outro nome, disse Baltasar, E Deus não tem nenhum, respondeu o padre, mas Deus, em verdade, não é nomeável, e no paraíso não havia outro homem de quem Adão houvesse de distinguir-se, E Eva não foi mais que Eva, disse Blimunda, Eva continua a não ser mais que Eva, estou que a mulher é uma só no mundo, só múltipla de aparência, por isso se escusariam outros nomes, e tu és Blimunda, diz-me se precisas de Jesus, Sou cristã, Quem o duvida, perguntou o padre Bartolomeu Lourenço, e rematou, Bem me entendes; mas dizer-se alguém de Jesus, crença ou nome, não é mais que vento da boca para fora, deixa-te ser Blimunda, não darás outra resposta quando fores perguntada.

Tornou o padre aos estudos, já bacharel, já licenciado, doutor não tarda, enquanto Baltasar chega os ferros à forja e os tempera na água, enquanto Blimunda raspa as peles trazidas do açougue, enquanto ambos cortam o vime e trabalham à bigorna, segurando ela a lamela com a tenaz, batendo ele com o malho, e têm de entender-se muito bem para que não se perca nenhuma pancada, ela apresentando o ferro rubro, ele desferindo o golpe certo, em força e direcção, nem precisam falar. Assim foi o Inverno passando, assim a Primavera, algumas vezes veio o padre a Lisboa, chegava, guardava na arca as esferas de âmbar amarelo que trazia sem dizer donde, perguntava das vontades, olhava por todos os lados a máquina que ia ganhando dimensão e forma, a ponto de exceder o que era quando Baltasar a desmanchou, enfim dava conselhos e avisos, e regressava a Coimbra, às decretais e aos decretalistas, agora deixara de ser estudante, já estava lendo nas aulas, Iuris ecclesiastici universi libri tre, Colectânea doctorum tam veteram quam recentiorum in ius pontificum universum, Reportorium iuris civilis et canonici, et coetera, porém nada em que estivesse escrito, Voarás.

Aí está Junho. Corre por Lisboa a não fausta notícia de que este ano a procissão do Corpo de Deus não trará as antigas figuras dos gigantes, nem a serpente silvante, nem o dragão flamejante, e que não sairão as tourinhas, e também não haverá danças da cidade, nem marimbas, nem charamelas, e não virá o rei David dançando adiante do pálio. Pergunta-se então o povo que procissão vem a ser essa, se não podem sair os foliões da Arruda atroando as ruas com o seu pandeiro, se estão as mulheres de Frielas proibidas de dançar a chacoina, se também não darão a dança das espadas, se não saem castelos, se não tocam a gaita e o tamboril, se não vêm brincando os sátiros e as ninfas os encobertos modos doutra brincadeira, se não se faz mais a dança da retorta, se não navegará aos ombros de homens a nau de S. Pedro, que procissão teremos, que gosto nos vão tirar, ainda se nos deixassem o carro dos hortelões, não tornaremos a ouvir o silvo da serpe, meu primo, que toda me arrepiava quando ela passava assobiando, nem sei explicar as tremuras que sentia, ai.

Desce o povo ao Terreiro do Paço, a ver os preparos da festa, e não está mal, não senhor, com esta colunata de sessenta e uma colunas e catorze pilares, que não têm menos de oito metros de altura, e em extensão excede o arranjo os seiscentos metros, só de frontispícios são quatro, e não têm conto as figuras, os medalhões, as pirâmides e mais ornatos. Começa o povo a apreciar o novo aparato, que por aqui se não fica, basta olhar essas ruas, todas toldadas, e os mastros que sustentam os toldos são enfeitados de seda e ouro, e os medalhões, que dos ditos toldos se dependuram, dourados, tendo de um lado o Sacramento entre resplendores e do outro o brasão do patriarca, isto uns, quanto aos outros, levam os brasões do Senado da Câmara, E as janelas, olha-me estas janelas, tem razão quem o disse, regalam-se os olhos nas cortinas e sanefas de damasco carmesim, franjado de ouro, Nunca tal víramos, já o povo se está meio conformando, tiraram-lhe uma festa, outra lhe darão, não é fácil decidir com qual delas se perde ou ganha, se calhar é consoante, por alguma razão disseram já os ourives do ouro que vão iluminar todo o arruamento, e talvez seja por razão igual que estão cobertas de sedas e damascos as cento e quarenta e nove colunas dos arcos da Rua Nova, porventura serão maneiras de vender, hoje assim, amanhã pior. Passa o povo, chega ao fim dá rua e volta, mas não estende, sequer, a ponta dos dedos para tocar tantas riquezas de panos, contenta-se com espairecer os olhos neles e nos outros de trás que enfeitam as lojas debaixo dos arcos, parece que vivemos no reino da confiança, porém tem cada loja seu escravo preto à porta, de pau numa mão e espadim na outra, se alguém se atrever leva uma varada pelos lombos, e se a ousadia for a mais, não tardam aí os quadrilheiros, já não usam viseira nem elmo, nem escudo trazem, mas, dizendo o corregedor, Alto, para o Limoeiro, que remédio senão obedecer e perder a procissão, talvez por isto é que não haja muitos furtos no Corpo de Deus.

Também não se irão furtar vontades. É tempo de lua nova, Blimunda não tem por agora mais olhos que os de toda a gente, tanto lhe faria jejuar como comer, e isto lhe dá paz e alegria, deixar que as vontades façam o que quiserem, ficar no corpo ou partir, seja este o meu descanso, mas de repente perturba-se por causa de um pensamento que veio e a trespassou, Que outra nuvem fechada veria eu no Corpo de Deus, no seu carnal corpo, em voz baixa o disse a Baltasar, e ele respondeu, também segredando, Havia de ser tal, ela só, que levantaria a passarola, e Blimunda acrescentou, Quem sabe se tudo o que vemos não é a nuvem fechada de Deus. São ditos de maneta e visionária, ele porque lhe falta, ela porque lhe sobra, há-de-se lhes perdoar não terem as medidas comuns e falarem de coisas transcendentes enquanto, noite já, vão passeando pelas ruas de entre Rossio e Terreiro do Paço, no meio de muita outra gente que hoje não se deitará e que, como eles, vai pisando a areia encarnada e as ervas que alcatifam o pavimento, trazidas pelos saloios, em modo tal que nunca se viu cidade mais limpa, esta que, no geral dos dias, não tem igual em sujidade. Por trás das janelas acabam as damas de armar os penteados, enormes fábricas de luzimentos e postiços, daqui a pouco vêm pôr-se em exposição à janela, nenhuma vai querer ser a primeira, é certo que imediatamente atrairia os olhares de quem passa ou se mostra na rua, mas esse gosto tão depressa vem, logo é perdido porque, ao abrir-se a janela da casa em frente e nela aparecendo dama que por ser vizinha é rival, desviam-se os olhares de quem me estiver contemplando, ciúme que não suporto, tanto mais que ela é mesquinhamente feia e eu divinamente bela, ela tem a boca grande e a minha é um botão, e antes que ela o diga, digo eu, Vai mote. Para este torneio estão mais bem servidas as que moram nos andares baixos, logo ali se põem os galantes a retorcer o mote nos bestuntos, palpitando a métrica e a rima, mas entretanto, do alto do prédio, outro mote desceu, gritado para bem se ouvir, enquanto o primeiro poeta diz para cima a glosa enfim armada, e os outros, de raiva e despeito, miram frios o concorrente que já recebe as graças da dama, suspeitando de estarem combinados glosa e mote por se haverem, doutras maneiras, combinado ela e ele. Isto se suspeita, isto se cala, porque disto se distribuem igualmente as culpas. A noite está quente. Passa gente a tocar e a cantar, os rapazes correm uns atrás dos outros, é uma peste que anda a fazer isto desde o princípio do mundo, incurável, enrolam-se nas saias das mulheres, levam pontapés e cachações dos homens que as vão escudeirando, e depois, lá adiante, respondem com manguitos e caretas, para logo dispararem noutra carreira, noutra perseguição. Armam uma tourada de improviso, com uma tourinha simples, formada por dois cornos de carneiro, acaso desirmanados, e uma piteira cortada, tudo fixado numa tábua larga, com um punho à frente, a parte de trás encostada ao peito, e o que assim faz de toiro investe com nobreza magnífica, recebe berrando de dor fingida as bandarilhas de pau que se espetam na piteira, mas se o bandarilheiro falhou no golpe de vista e foi à mão do marrador, perde-se aí a nobreza da casta, é outra correria que rua fora se desmanda, perturbando os poetas que fazem repetir os motes, perguntando para cima, Que disse, e elas, com trejeitos, Mil passarinhos me trazem, assim nestes enleios, folguedos e tropeços vai a noite passando fora das casas, dentro há solaus e chocolate, e quando a madrugada se anuncia começam-se a reunir as tropas que hão-de formar as alas à procissão, fardadas de novo em honra do Santíssimo Sacramento.

Em Lisboa ninguém dormiu. Acabaram os outeiros, as damas voltaram dentro a compor a pintura esmaecida ou esborratada, daqui a pouco regressarão à janela, outra vez gloriosas de carmim e alvaiade. O povo miúdo de brancos, pretos e mulatos de todas as cores, estes, aqueles e os outros, estende-se ao longo das ruas ainda turvas do primeiro amanhecer, só o Terreiro do Paço, aberto para o rio e para o céu, é azul nas sombras, e depois subitamente rubro do lado do paço e da igreja patriarcal, quando o sol rompe sobre as terras de além e desfaz a bruma com um sopro luminoso. É então que começa a sair a procissão. Vêm à frente as bandeiras dos ofícios da Casa dos Vinte e Quatro, primeiro que todas a dos carpinteiros, representando S. José, que desse ofício foi oficial, e as mais insígnias, grandes painéis, cada um com seu santo figurado, feitos de brocado e com bordaduras de ouro, e tão excessivos de tamanho que são precisos quatro homens para sustentá-los, revezando-se com outros quatro, folgando ora uns ora outros ainda bem que não está vento, é ao compasso da andadura que balouçam os cordões de ouro e seda, e as borlas do mesmo metal, suspensas das pontas refulgentes das varas. Atrás vem a imagem de S. Jorge, com todo o seu estado, os tambores a pé, os trombeteiros a cavalo, rufando uns, outros soprando, rataplã, rataplã, tataratará, tá, tatá, não assiste Baltasar no Terreiro do Paço, mas ouve as trombetas ao longe e arrepia-se como se estivesse no campo da batalha, a ver o inimigo disposto em linha de combate, atacam eles, atacamos nós, e então sente que a mão lhe dói, há quanto tempo lhe não doía, talvez seja porque hoje não colocou nem gancho nem espigão, o corpo tem destas e doutras lembranças e ilusões, Blimunda, se não fosses tu, quem teria eu à minha direita para cingir com este braço, és tu, aperto com a mão salva o teu ombro ou a tua cintura, posto que repare o povo por falta de costume de estarem assim homem e mulher. Passaram as bandeiras, afasta-se o alarido das trombetas e dos tambores, agora vem o alferes de S. Jorge, o rei-de-armas, o homem-de-ferro, de ferro vestido e calçado, com plumas no elmo e viseira derrubada, ajudante-de-santo nas batalhas, para lhe segurar a bandeira e a lança, para ir à frente a ver se saiu o dragão ou dorme, escusada prudência hoje, que não saiu e não estará dormindo, suspiroso sim de nunca mais poder vir à procissão do Corpo de Deus, não são coisas que se façam a dragões, nem a serpentes, nem a gigantes, triste mundo este, que assim vai consentindo que lhe roubem as belezas, enfim, algumas se terão preservado, ou são de beleza tanta que não se atrevem os reformadores das procissões a deixar, para só falar destes, os cavalos nas cavalariças, ou a abandoná-los, míseros lazarentos, nas longas campinas livremente, pastando o que puderem, e eis que aí vêm quarenta e seis, pretos e cinzentos, de formosos xairéis, condene-me Deus se não declarar que melhor vestem as bestas do que os homens que as vêem passar, e isto é sendo o Corpo de Deus, trouxe cada um no seu próprio corpo o que de melhor tinha em casa, a roupinha de ver ao Senhor, que tendo-nos feito nus só vestidos nos admite à sua presença, vá lá a gente entender este deus ou a religião que lhe fizeram, é verdade que nus nem sempre somos belos, vê-se pela cara se a não pintam, imaginemos, por exemplo, que corpo terá o S. Jorge que aí vem se lhe tirarmos a armadura de prata e o gorro de plumas, um boneco de engonços, sem fio de pêlo nos lugares onde os homens os têm, pode um homem ser santo e ter o que têm os outros homens, nem sequer devia ser concebível uma santidade que não conhecesse a força dos homens e a fraqueza que às vezes nessa força há, e ainda bem, como se há-de explicar isto a S. Jorge que vem montado no seu cavalo branco, se é isto cavalo que mereça o nome, sempre vivendo nas reais cavalariças, com seu criado para o tratar e passear, cavalo só para o santo montar, cavalo que nunca o diabo montou, nem sequer o homem, triste besta que morrerá sem ter vivido, queira Deus que, morto e esfolado, sejas pele de tambor, e alguém rufando nela acorde o teu indignado coração, tão velho, porém tudo neste mundo se equilibra e compensa, como já foi verificado quando das mortes do menino de Mafra e do infante D. Pedro e mais se comprova hoje, é um menino escudeiro o pajem de S. Jorge e vem montado num cavalo preto, alçando lança e emplumando capacete, quantas mães, postas aos lados das ruas, olhando por cima dos ombros dos soldados a procissão, irão sonhar logo à noite que sobre aquele cavalo é seu filho que vai, pajem de S. Jorge na terra, e talvez no céu, só para isto valeu a pena tê-lo parido, e novamente S. Jorge se aproxima, agora num grande estandarte trazido pela irmandade da Real Igreja do Hospital Real, e enfim, para conclusão desta primeira glória, avançam timbaleiros e trombeteiros, de veludo vestidos e plumas brancas, agora uma pausa, brevíssima, porque já da capela real estão saindo as irmandades, homens e mulheres aos milhares, postos por ordem de pertença e de sexo, aqui não se misturam evas com adões, olha lá vai António Maria, e Simão Nunes, e Manuel Caetano, e José Bernardo, e Ana da Conceição, e António da Beja, e trivialmente José dos Santos, e Brás Francisco, e Pedro Caim, e Maria Caldas, tão variados são os nomes como as cores, capas vermelhas, azuis, brancas, negras e carmesins, opas cinzentas, murças castanhas, e azuis e roxas, e brancas e vermelhas, e amarelas, e carmesins, e verdes, e pretas, como pretos são alguns dos irmãos que passam, o pior é que esta fraternidade, mesmo indo na procissão, não chega aos degraus de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas promete, basta que Deus um dia se disfarce de preto e proclame nas igrejas, Cada branco vale meio preto, agora arranjem-se para conseguir entrar no paraíso, por isso é que, um dia, as praias ‘deste jardim, por acaso à beira-mar plantado, estarão cheias de postulantes a enegrecer os costados, ideia que hoje faria rir, alguns nem à praia irão, deixam-se ficar em casa e untam-se com untos vários, e quando saem não os reconhece o vizinho, Que faz aqui este cabra, essa é a grande dificuldade das irmandades de cor, por enquanto vão saindo estas, é o que se pode arranjar,

  • a de Nossa Senhora da Doutrina,
  • a de Jesus Maria,
  • a do Rosário;
  • a de S. Benedito, o que come pouco e anda gordito,
  • a de Nossa Senhora da Graça,
  • a de S. Crispim,
  • a da Madre de Deus de S. Sebastião da Pedreira, que é onde moram Baltasar e Blimunda,
  • a da Via Sacra de S. Pedro e S. Paulo, outra também da Via Sacra, mas do Alecrim,
  • a de Nossa Senhora da Ajuda,
  • a de Jesus,
  • a de Nossa Senhora da Lembrança,
  • a de Nossa Senhora da Saúde, sem ela como haverá de ter virtude Rosa Maria, e a Severa que virtude teria, e vem depois
  • a irmandade de Nossa Senhora da Oliveira, à sombra da qual Baltasar um dia comeu,
  • a de Santo António das Franciscanas de Santa Marta,
  • a de Nossa Senhora da Quietação das Flamengas de Alcântara,
  • a do Rosário,
  • a de Santo Cristo e Santo António,
  • a de Nossa Senhora da Cadeia,
  • a de Santa Maria Egipcíaca; fosse Baltasar soldado da guarda real e seria esta a sua irmandade de direito, pena não haver a dos manetas,
  • e agora a irmandade da Piedade, esta poderia ser,
  • outra da Nossa Senhora da Cadeia, mas é do convento do Carmo, a primeira era das Terceiras de S. Francisco, parece que vão faltando invocações e já as repetem, torna o Santo Cristo, porém da Trindade, era dos Paulistas o outro e a irmandade do Bom Despacho, a Baltasar não o despachou o Desembargo do Paço,
  • a de Santa Luzia,
  • a de Nossa Senhora da Boa Morte, se alguma o pode ser,
  • a de Jesus dos Esquecidos, por este pouco se descobre como está perdida uma religião que vai largando esquecidos e lhes manda um Jesus mal encomendado, fosse ele o autêntico acabavam-se os esquecimentos,
  • e a das Almas da Igreja da Conceição, faça sol e chuva não,
  • a de Nossa Senhora da Cidade,
  • a das Almas de Nossa Senhora da Ajuda,
  • a de Nossa Senhora da Pena,
  • a de S. José dos Carpinteiros,
  • a do Socorro, a da Piedade,
  • a de Santa Catarina,
  • a do Menino Perdido, uns perdidos outros esquecidos, nem achados nem lembrados, que nem a Lembrança lhes vale,
  • a de Nossa Senhora das Candeias,
  • outra de Santa Catarina, primeiro dos livreiros, agora dos calceteiros,
  • a de Santa Ana,
  • a de Santo Elói, santinho rico dos ourives do ouro,
  • a de S. Miguel e das Almas,
  • a de S. Marçal,
  • a de Nossa Senhora do Rosário,
  • a de Santa Justa,
  • a de Santa Rufina
  • a das Almas dos Mártires,
  • a das Chagas,
  • a da Madre de Deus de S. Francisco da Cidade,
  • a de Nossa Senhora das Angústias, já cá faltavam, enfim
  • a dos Remédios, que os remédios vêm sempre depois e às vezes tarde de mais, caso em que as esperanças, se ainda restam, são postas no Santíssimo Sacramento que lá vem, representado em estandarte, trazendo à frente, por ser o precursor, S. João Baptista em figura de menino, vestido de peles, com quatro anjos que vão espalhando flores, não é crível que haja outra terra onde mais circulem os anjos pelas ruas do vulgo, basta estender

um dedo e logo se vê como são reais e verdadeiros, voar não voam, isso é verdade, e daí, voar não é prova bastante de angelidade, se o padre Bartolomeu de Gusmão, ou só Lourenço, chegar a voar um dia, não se tornará anjo por tão pouco, requerem-se outras qualidades, porém ainda é cedo para tais averiguações, ainda não estão recolhidas todas as vontades, por agora vai a procissão em meio, sente-se o calor da manhã adiantada, oito de Junho de mil setecentos e dezanove, que é que vem agora aí, vêm as comunidades, mas as pessoas estão desatentas, passam frades e não se dá por eles, nem as irmandades foram todas assinaladas, Blimunda olhava para o céu, Baltasar para Blimunda, ela duvidando se seria lua nova, se não iria aparecer por cima do convento do Carmo o primeiro delgado crescente, curva navalha, afiadíssimo alfange que abriria aos seus olhos todos os corpos, e nisto passou a primeira comunidade, quem eram aqueles, não vi, não reparei, frades eram, terceiros de S. Francisco de Jesus, capuchinhos, religiosos de S. João de Deus, franciscanos, carmelitas, dominicanos, cistercienses, jesuítas de S. Roque e de Santo Antão, com tantos nomes e cores se esvai a cabeça e a retentiva, é a altura de comer o farnel trazido ou o alimento comprado, e enquanto se vai comendo vai-se falando do que já passou, as cruzes douradas, as mangas de bofes, os lenços brancos, as casaca compridas, as meias altas, os sapatos de fivela, os tufos, as toucas, as saias rodadas, os mantos de fantasia, as golas de renda, os casaquinhos, só os lírios do campo não sabem fiar nem tecer e por isso estão nus, se Deus quisesse que assim andássemos teria feito homens liliais, as mulheres felizmente já o são, mas vestidos lírios, Blimunda vestida ou não, que pensamentos são esses, Baltasar, que lembranças pecadoras, se agora vem a cruz da igreja patriarcal, e depois dela a comunidade da congregação das Missões, e a do Oratório, e a multidão inúmera. do clero das paróquias, oh senhores, tanta gente cuidando de salvar-nos as almas e elas ainda por achar, não cuides tu, Baltasar, que por seres soldado, ainda que inválido, és da freiria destes que passam, figuras cento e oitenta e quatro da ordem militar de Santiago da Espada, figuras cento e cinquenta da ordem de Aviz, e outras tantas da ordem de Cristo, isto são freires que escolhem os que hão-de ser seus irmãos, além de não querer Deus nos seus altares animais com defeito, maxime se são de sangue vulgar, por isso deixe-se ficar Baltasar onde está, a ver passar a procissão, os pajens, os cantores, os cubiculários, os dois tenentes da guarda real, um, dois, com prima farda, diríamos hoje de gala, e a cruz patriarcal levando ao lado as virgas rubras, os capelães de varas levantadas e molhos de cravos nas pontas delas, ai o destino das flores, um. dia as meterão nos canos das espingardas, os meninos de coro, a basílica de Santa Maria Maior, que é sombreiro, e também a basílica patriarcal, ambas de gomos alternados, brancos e vermelhos, se daqui a duzentos ou trezentos anos começam a chamar basílicas aos chapéus-de-chuva,

  • Tenho a minha basílica com uma vareta partida,
  • Esqueci-me da minha basílica no autocarro,
  • Mandei pôr um cabo novo na minha basílica,
  • Quando ficará pronta a minha basílica de Mafra,

pensa el-rei que vem aí atrás a segurar a uma vara do pálio, mas antes passou o cabido, primeiro os cónegos diáconos de dalmática branca, depois os presbíteros com planetas da mesma cor, enfim as dignidades, com amito pluvial e formálio; que saberá o povo destes nomes, da mitra conhece a palavra e o feitio, que tanto está no cu da galinha como na cabeça dos cónegos, cada um destes assistido por três familiares de sua casa, um de tocha acesa, outro levando o chapéu, ambos trajados à cortesã, e o caudatário pega na cauda e veste simarra e cota, e agora sim, agora começa o cortejo do patriarca,

  • vêm primeiramente seis fidalgos parentes dele com tochas acesas,
  • depois o beneficiado assistente com o báculo,
  • mais um capelão com a naveta do incenso, atrás dos acólitos gingando turíbulos de prata lavrada, e
  • dois mestres de cerimónias, e
  • doze escudeiros também levando tochas,

Ah, gente pecadora, homens e mulheres que em danação teimais viver essas vossas transitórias vidas,

  • fornicando,
  • comendo,
  • bebendo mais que a conta,
  • faltando aos sacramentos e ao dízimo,

que do inferno ousais falar com descaro e sem pavor, vós homens, que podendo ser apalpais o rabo às mulheres na igreja, vós mulheres, que só por derradeira vergonha não apalpais na igreja as partes aos homens, olhai o que está passando, o pálio de oito varas, e eu, patriarca, debaixo dele, com a sagrada custódia na mão, ajoelhai, ajoelhai, pecadores, agora mesmo vos devíeis capar para não fornicardes mais, agora mesmo devíeis atar os queixos para não sujardes mais a vossa alma com a comilança e a bebedice, agora mesmo devíeis virar e despejar os vossos bolsos porque no paraíso não se requerem escudos, no inferno também não, no purgatório pagam-se as dívidas com rezas, aqui sim é que eles são precisos, para o ouro doutra custódia, para sustentar a prata toda esta gente,

  • os dois cónegos que me levantam as pontas do pluvial e levam as mitras,
  • os dois subdiáconos que me soerguem a fímbria da falda,
  • os caudatários que vão atrás, por isso caudatários são,
  • este meu mano, que é conde e me transporta a cauda do pluvial,
  • os dois escudeiros com os flabelos,
  • os maceiros com as varas de prata,
  • o primeiro subdiácono com o véu da mitra aurifrigiata,

a tal em que não se pode tocar com as mãos, tolo foi Cristo que nunca pôs mitra na cabeça, seria filho de Deus, não duvido, mas rústico era, porque desde sempre se sabe que nenhuma religião vingará sem mitra, tiara ou chapéu de coco, pusesse-o ele e passava logo a sumo sacerdote, teria sido governador em vez de Pôncio Pilatos, olha do que eu me livrei, assim é que o mundo está bem, não fosse ele como o fizeram e não me veriam patriarca, pagai portanto o devido, dai a César o que é de Deus, a Deus o que é de César, depois cá faremos as contas e distribuiremos o dinheiro, pataca a mim, a ti pataca, em verdade vos digo e hei-de dizer, E eu, vosso rei, de Portugal, Algarves e o resto, que devotamente vou segurando uma destas sobredouradas varas, vede como se esforça um soberano para guardar, no temporal e no espiritual, pátria e povo, bem podia eu ter mandado em meu lugar um criado, um duque ou um marquês a fazer as vezes, porém, eis-me em pessoa, e também em pessoa os infantesmeus manos e senhores vossos, ajoelhai, ajoelhai lá, porque vai passando a custódia e eu vou passando, Cristo vai dentro dela, dentro de mim a graça de ser rei na terra, ganhará qual dos dois, o que for de carne para sentir, eu, rei e varrasco, bem sabeis como as monjas são esposas do Senhor, é uma verdade santa, pois a mim como a Senhor me recebem nas suas camas, e é por ser eu o Senhor que gozam e suspiram segurando na mão o rosário, carne mística, misturada, confundida, enquanto os santos no oratório apuram o ouvido às ardentes palavras que debaixo do sobrecéu se murmuram, sobrecéu que sobre o céu está, este é o céu e não há melhor, e o Crucificado deixa pender a cabeça para o ombro, coitado, talvez dorido dos tormentos, talvez para melhor poder ver Paula quando se despe, talvez ciumento de se ver roubado desta esposa, flor de claustro perfumada de incenso, carne gloriosa, mas enfim, depois eu saio e lá lhe fica, se emprenhou, o filho é meu, não vale a pena mandar anunciar outra vez, vêm aí atrás os cantores entoando motetes e hinos sacros, e isso me está fazendo nascer uma ideia, não há como os reis para as terem as ideias, senão como reinariam, virem as freiras de Odivelas cantar o Bendito ao quarto de Paula quando estivermos deitados, antes, durante e depois, ámen. Troaram salvas e descargas das naus, salvou também o baluarte do Terreiro do Paço, a dois passos, e indo-se comunicando os ecos daqui e dali, retumbaram ‘os canhões dos fortes e das torres, apresentaram armas os regimentos da corte, de Peniche e de Setúbal, formados na praça. Anda o Corpo de Deus passeando-se na cidade de Lisboa, sacrificado cordeiro, senhor dos exércitos, contradição insolúvel, sol de ouro, cristal e custódia derrubadora de cabeças, divindade devorada e até às fezes digerida quem se espantará de ver-te carne e unha com estes habitantes, degolados carneiros, soldados sem armas próprias, ossadas brancas no deserto, comedores de si próprios comidos, por isso se rojam pelas ruas as mulheres e os homens, dão bofetadas nas suas e próximas caras, batem cavamente nos peitos e ilhargas, estendem as mãos às fímbrias que passam, aos brocados e às rendas, aos veludos e aos laços, às fitas, aos bordados, e às jóias, Pater noster que non estis in coelis.

Desce a tarde. No céu, luz subtilíssima, quase invisível, está o primeiro sinal da lua. Amanhã Blimunda terá os seus olhos, hoje é dia de cegueira.

Capítulo XIV

Já o padre Bartolomeu Lourenço regressou de Coimbra, já é doutor em cânones, confirmado de Gusmão por apelativo onomástico e firma escrita, e nós, quem somos nós para nos atrevermos a taxá-lo do pecado de orgulho, maior bem nos faria à alma perdoar-lhe a falta de humildade em nome das razões que deu, assim possam ser-nos perdoados os nossos próprios pecados, esse e outros, que ainda o pior de tudo não será mudar de nome, mas de cara, ou de palavra. De palavra e cara não parece ele que tenha mudado, para Baltasar e Blimunda de nome também não, e se el-rei o fez fidalgo capelão de sua casa e académico da sua academia, são de tirar e pôr essas caras e palavras, que, com o nome adoptado, ficam ao portão da quinta do duque de Aveiro, e não entram, embora se adivinhe o que fariam os três se chegassem à vista da máquina, diria o fidalgo que são trabalhos mecânicos, esconjuraria o capelão a obra diabólica ali manifesta, por ser isto coisa do futuro se retiraria o académico, para só voltar quando fosse coisa passada. Ora, este dia é hoje.

Vive o padre nas varandas do Terreiro do Paço, em casa de uma mulher viúva há muitos anos, cujo marido foi porteiro da maça até acabar morto de estoque numa rixa, episódio passado em tempo que ainda reinava el-rei D. Pedro II, caso portanto antigo que só veio a talhe por viver a mulher onde o padre está vivendo, e mal parecer não mencionar dela ao menos este pouco, nem sequer o nome, que é o mesmo que nada, como foi já explicado. Mora o padre cerca do paço, e ainda bem, pois muito o frequenta, não tanto por obrigações firmes do seu título de capelão fidalgo, mais honorífico que efectivo mas por lhe querer bem el-rei, que ainda não perdeu de todo as esperanças, e já vão onze anos passados, por isso pergunta, benévolo, Verei voar a máquina um dia, ao que o padre Bartolomeu Lourenço, honestamente, não pode responder mais do que isto, Saiba vossa majestade que a máquina um dia voará, Mas estarei cá para ver, Viva vossa majestade nem tanto quanto viveram os antigos patriarcas do Testamento velho, e não só verá voar a máquina, como nela voará. Parece ter seu quê de impertinente a resposta, mas el-rei não faz reparo, ou reparou e usa de indulgência, ou o distrai lembrar-se de que vai assistir à lição de música de sua filha, a infanta D. Maria Bárbara, isto terá sido, faz um sinal ao padre para que se junte ao séquito, nem todos se podem gabar destes favores.

Está a menina sentada ao cravo, tão novinha ainda não fez nove anos e já grandes responsabilidades lhe pesam sobre a redonda cabeça, aprender a colocar os dedinhos curtos nas teclas certas, saber, se o sabe, que em Mafra se está construindo um convento, muito verdade é o que se diz, pequenas causas, grandes efeitos, por nascer uma criança em Lisboa levanta-se em Mafra um montanhão de pedra e vem de Londres contratado Domenico Scarlatti. À lição assistem as majestades, em pequeno estado, umas trinta pessoas, se tanto, contando os camaristas de semana dele e dela, aias, açafatas várias, mais o padre Bartolomeu de Gusmão, lá para trás, e outros eclesiásticos. Il maestro vai corrigindo a digitação fá lá dó, fá dó lá, sua alteza apura-se muito, morde o beicinho, nisto não se distingue de qualquer criança, em paço nascida, ou noutras passagens, a mãe disfarça uma certa impaciência, o pai está real e severo, só as mulheres, tenros corações, se deixam embalar pela música, e pela menina, mesmo tocando ela tão mal, nem admira, que esperaria D. Maria Ana, milagres, ainda agora está no princípio, il signor Scarlatti só chegou há poucos meses, e por que hão-de estes estrangeiros tornar os nomes difíceis, se tão pouco custa descobrir que é Escarlate o nome deste, e bem lhe fica, homem de completa figura, rosto comprido, boca larga e firme, olhos afastados, não sei que têm os italianos, e então este, em Nápoles nascido há trinta e cinco anos, É a força da vida, mana.

Terminou a lição, desfez-se a companhia, rei para um lado, rainha para outro, infanta não sei para onde, todos observando precedências e preceitos, cometendo plurais vénias, enfim, afastou-se a restolhada dos guarda-infantes e dos calções de fitas, e no salão de música apenas ficaram Domenico Scarlatti e o padre Bartolomeu de Gusmão.

O italiano dedilhou o cravo, primeiro sem destino, depois como se estivesse à procura de um tema ou quisesse emendar os ecos, e de repente pareceu fechado dentro da música que tocava, corriam-lhe as mãos sobre o teclado como uma barca florida na corrente, demorada aqui e além pelos ramos que das margens se inclinam, logo velocíssima, depois pairando nas águas agitadas de um lago profundo, baía luminosa de Nápoles, secretos e sonoros canais de Veneza, luz refulgente e nova do Tejo, já lá vai el-rei, resguardou-se a rainha na sua câmara, a infanta debruça-se para o bastidor, de pequenina se aprende, e a música é um rosário profano de sons, mãe nossa que na terra estais.

Senhor Scarlatti, disse o padre quando o improviso terminou e todos os ecos ficaram corrigidos, senhor Scarlatti, não me gabo de saber dessa arte, mas estou que até um índio da minha terra, que dela sabe ainda menos do que eu, haveria de sentir-se arrebatado por essas harmonias celestes, Porventura não, respondeu o músico, porque bem sabido é que há-de o ouvido ser educado se quer estimar os sons musicais, como os olhos têm de aprender a orientar-se no valor das letras e sua conjunção de leitura, e os próprios ouvidos no entendimento da fala, São palavras
ponderadas, essas, que emendam as levianas minhas, é um defeito comum nos homens, mais facilmente dizerem o que julgam querer ser ouvido por outrem do que cingirem-se à verdade, Porém, para que os homens possam cingir-se à verdade, terão primeiramente de conhecer os erros, E praticá-los, Não saberei responder à pergunta com um simples sim ou um simples não, mas acredito na necessidade do erro.

O padre Bartolomeu de Gusmão apoiou os cotovelos no tampo do cravo, olhou demoradamente Scarlatti, e, enquanto não falam, digamos nós que esta fluente conversação entre um padre português e um músico italiano não será, provavelmente, invenção pura, mas transposição admissível de frases e cumprimentos que sem dúvida trocaram um com o outro durante estes anos, no paço e fora dele, como adiante continuará a ver-se. E se alguém se surpreender de que este Scarlatti, em tão poucos meses, saiba assim falar português, primeiramente não nos esqueçamos de que é músico, e depois, fique dito que desde há sete anos lhe é familiar a língua, pois em Roma entrou ao serviço do nosso embaixador, e em suas andanças pelo mundo, por cortes reais e episcopais, não esqueceu o que aprendeu. Quanto ao carácter erudito do diálogo, pertinência e arredondado das palavras, alguém ajudou.

Tendes razão, disse ó padre, mas, desse modo não está homem livre de julgar abraçar a verdade e achar-se cingido com o erro, Como livre também não está de supor abraçar o erro e encontrar-se cingido com a verdade, respondeu o músico, e logo disse o padre, Lembrai-vos de que quando Pilatos perguntou a Jesus o que era a verdade nem ele esperou pela resposta, nem o Salvador lha deu, Talvez soubessem ambos que não existe resposta para tal pergunta, Caso em que, sobre esse ponto, estaria Pilatos sendo igual de Jesus, Derradeiramente, sim, Se a música pode ser tão excelente mestra de argumentação, quero já ser músico e não pregador, Fico obrigado pelo cumprimento, mas quisera eu, senhor padre Bartolomeu de Gusmão, que a minha música fosse um dia capaz de expor, contrapor e concluir como fazem sermão e discurso, Ainda que, reparando bem no que se diz e como, senhor Scarlatti, se exponham e contraponham, as mais das vezes, fumo e nevoeiro, e se conclua coisa nenhuma. A isto não respondeu o músico, e o padre rematou, Todo o pregador honesto o sente quando baixa do púlpito. Disse o italiano, encolhendo os ombros, Fica o silêncio depois da música e depois do sermão, que importa que se louve o sermão e aplauda a música, talvez só o silêncio exista verdadeiramente.

Desceram Scarlatti e Bartolomeu de Gusmão ao Terreiro do Paço, aí se separaram, o músico foi inventar músicas pela cidade enquanto não eram horas de começar o ensaio na capela real, o padre recolheu a casa, à sua varanda donde se via o Tejo, na outra margem as terras baixas do Barreiro, as colinas de Almada e do Pragal, por aí fora, até, já invisível, à Cabeça Seca do Bugio, que dia luminoso, quando Deus andou a criar o mundo não disse Fiat, se assim fosse teria ficado o mundo todo por igual, uma palavra e basta, mas foi andando e fazendo, fez o mar e navegou nele, depois fez a terra para poder desembarcar, e em alguns lugares demorou-se, noutros passou sem olhar, aqui descansou, e, não havendo ninguém da humana espécie a espreitá-lo, tomou seu banho, por ainda se lembrarem disso é que as gaivotas se reúnem em tão grandes bandos perto da margem, continuam à espera de que Deus volte a banhar-se nas águas do Tejo, embora outras, uma vez ao menos, em paga de terem nascido gaivotas. E também querem saber se Deus envelheceu muito. Veio a viúva do porteiro da maça dizer ao padre que tinha o jantar servido, em baixo passou uma companhia de alabardeiros rodeando um coche. Desgarrada das suas irmãs, uma gaivota pairou sobre o beiral do telhado, sustentava-a o vento que soprava da terra, e o padre murmurou, Bendita sejas, ave, e em seu coração achou-se feito da mesma carne e do mesmo sangue, arrepiou-se como se estivesse sentindo que lhe nasciam penas nas costas, e, sumindo-se a gaivota, viu-se perdido num deserto, Caso em que Pilatos estaria sendo igual de Jesus, isto pensou de repente e regressou ao mundo, transido por se sentir nu, esfolado como se tivesse deixado a pele dentro do ventre da mãe, e então disse em voz alta, Deus é uno.

Todo esse dia ficou o padre Bartolomeu Lourenço fechado no quarto, gemendo, suspirando, fez-se a tarde noite, bateu a viúva do porteiro da maça à porta e disse que estava a ceia pronta, mas o padre não comeu, parecia que estava preparando o seu grande jejum, aguçando novos olhos de entendimento, embora não suspeitasse que coisas haveria mais que entender, depois de haver proclamado a unidade de Deus às gaivotas do Tejo, supremo arrojo, que seja Deus uno em essência é ponto que nem heresiarcas negam, mas ao padre Bartolomeu Lourenço ensinaram que Deus, se sim é uno em essência, é trino em pessoa, e hoje as mesmas gaivotas o fizeram duvidar. Fechou-se a noite por completo, a cidade dorme, e se não dorme calou-se, apenas se ouve a espaços gritarem alerta as sentinelas, não venham desembarcar por aí os corsários franceses, e

Domenico Scarlatti, tendo fechado portas e janelas, senta-se ao cravo, que subtil música é esta que sai para a noite de Lisboa por frinchas e chaminés, ouvem-na os soldados da guarda portuguesa e da guarda alemã, e tanto a entendem uns como a entendem os outros,

  • ouvem-na sonhando os marujos que dormem à fresca nos conveses e acordando a reconhecem,
  • ouvem-na os vadios que se acoitam na Ribeira, debaixo dos barcos varados em terra,
  •  ouvem-na os frades e as freiras de mil conventos, e dizem, São os anjos do Senhor, terra esta para milagres ubérrima, ouvem-na os embuçados que vão a matar e os apunhalados que, ouvindo, não pedem mais confissão e morrem absolvidos,
  • ouviu-a um preso do Santo Ofício, no seu fundo cárcere, e estando perto um guarda lhe jogou as mãos à garganta e o esganou, por este assassínio não terá pior morte,
  • ouvem-na, tão longe daqui, Baltasar e Blimunda, que deitados perguntam, Que música é esta,
  • ouviu-a primeiro que todos Bartolomeu Lourenço por morar perto, e levantando-se da cama acendeu o candil e abriu a janela para ouvir melhor.

Também entraram grandes melgões que foram pousar-se no tecto e ali ficaram, primeiro oscilando nas altas pernas, depois imóveis, como se a luz minúscula não pudesse atraí-los, talvez hipnotizados pelo ranger da pena, sentara-se o padre Bartolomeu Lourenço a escrever, Et ego in illo, E eu estou nele, quando amanheceu ainda escrevia, era o sermão do Corpo de Deus, e do corpo do padre não se alimentaram esta noite as melgas.

Dias passados, estando Bartolomeu de Gusmão na capela real, veio o italiano falar-lhe. Trocadas as palavras de primeira circunstância, saíram por uma das portas que, debaixo das tribunas do rei e da rainha, davam para a galeria por onde se entrava no palácio. Para lá e para cá discorreram, olhando vez por outra os panos de rás suspensos das paredes, a história de Alexandre Magno, os triunfos da Fé e do Sacramento, segundo os desenhos de Rubens, a história de Tobias, segundo os desenhos de Rafael, a conquista de Tunes, se um dia estes panos pegam fogo, nem um só fio de seda se salvará. Em tom que facilmente dava a entender não ser essa a matéria importante que ali se iria tratar, disse Domenico Scarlatti ao padre, El-rei tem na sua tribuna uma cópia da basílica de S. Pedro de Roma que ontem armou na minha presença, foi para mim honra grande, Com que a mim não me distinguiu nunca, mas não o digo por qualquer sentimento de inveja, antes me louvo de ver honrada num seu filho a nação italiana, Dizem-me que el-rei é grande edificador, será por causa disso este seu gosto de levantar com as suas próprias mãos a cabeça arquitectural da Santa Igreja, ainda que em escala reduzida, Muito diferente é a dimensão da basílica que está a ser construída na vila de Mafra, gigantesca fábrica que será o assombro dos séculos, Como se mostram variadas as obras das mãos do homem, são de som as minhas, Fala das mãos, Falo das obras, tão cedo nascem logo morrem, Fala das obras, Falo das mãos, que seria delas se lhes faltasse a memória e o papel em que as escrevo, Fala das mãos, Falo das obras.

Parece apenas um gracioso jogo de palavras, um brincar com os sentidos que elas têm, como nesta época se usa, sem que extremamente importe o entendimento ou propositadamente o escurecendo. É o mesmo que gritar um pregador para a imagem de Santo António, clamar na igreja, Negro, ladrão, bêbedo, e, tendo assim escandalizado o auditório, explica a intenção e o artifício, mostra como toda a apóstrofe foi aparência, agora sim vai dizer porquê Negro porque tivera a pele tisnada pelo demónio que lhe não conseguira enegrecer a alma, ladrão porque dos braços de Maria roubara seu divino filho, bêbedo porque vivera embriagado da divina graça, mas eu te direi, Cuidado, ó pregador, que quando fazes virar ao conceito os pés pela cabeça estás dando involuntária voz à tentação herética que dorme dentro de ti e se revolve no sono, e clamas outra vez, Maldito seja o Pai, maldito seja o Filho, maldito o Espírito Santo, e logo acrescentas, Bradam os demónios no inferno, e dessa maneira julgas escapar à condenação, mas aquele que tudo vê, não este cego Tobias, o outro para quem não existem as trevas e a cegueira, esse sabe que disseste duas verdades profundas, e das duas escolherá uma, a sua, porque nem tu nem eu sabemos qual é a verdade de Deus, muito menos se é verdadeiro Deus.

Parecem jogos de palavras, as obras, as mãos, o som, o voo, Disseram-me, padre Bartolomeu de Gusmão, que por obra dessas mãos se levantou ao ar um engenho e voou, Disseram a verdade do que então viram, depois ficaram cegos para a verdade que a primeira escondeu, Gostaria de entender melhor, Há doze anos que isso foi, desde então a verdade mudou muito, Repito que gostaria de entender, Que é um segredo, A essa pergunta responderei que, quanto imagino, só a música é aérea, Então iremos amanhã a ver um segredo. Estão parados diante do último pano da história de Tobias, aquele onde o amargo fel do peixe restitui a vista ao cego, A amargura é o olhar dos videntes, senhor Domenico Scarlatti, Um dia se há-de pôr isso em música, senhor padre Bartolomeu de Gusmão.

No dia seguinte, cavalgou cada um sua mula e foram a S. Sebastião da Pedreira. Entre o palácio, de um lado, e o celeiro e a abegoaria, do outro, o pátio apresentava-se varrido. Corria água numa caleira, ouvia-se girar uma nora. Os canteiros próximos estavam cultivados, as árvores de fruto tinham sido limpas e podadas, à vista nada havia que pudesse lembrar a brava selva de há dez anos, quando pela primeira vez Baltasar e Blimunda aqui entraram. Lá para diante, a quinta continua inculta, por força assim tem de ser, se para trabalhar a terra só há três mãos, e essas ocupadas, grande parte do tempo, em obra que da terra não é. De dentro da abegoaria, portas abertas, vêm rumores de oficina. O padre Bartolomeu Lourenço pediu ao italiano que esperasse fora e entrou. Baltasar estava sozinho, desbastando com uma enxó um comprido barrote. Disse o padre, Boas tardes, Baltasar, trouxe hoje comigo um visitante a ver a máquina, Quem é esse, Uma pessoa do paço, Não pode ser el-rei, Um dia ele virá, ainda há poucos dias me chamou de parte para me perguntar quando veria voar a máquina, é outra a pessoa que veio, Ficará a saber o que era de tanto segredo, afinal não foi essa a nossa combinação, para que nos calámos durante tantos anos, Eu é que sou o inventor da passarola, eu decido do que convém, Mas somos nós quem a está construindo, se quiser podemos ir-nos embora, Baltasar, não te saberei explicar, mas sinto que a pessoa que trago é de grande confiança, por ela poria as mãos no fogo ou deixaria a alma como penhor, É mulher, É homem, italiano de nação, está há poucos meses na corte, e é músico, mestre de cravo da infanta, mestre da capela real, o nome dele é Domenico Scarlatti, Escarlate, Não é bem assim que se diz, mas a diferença é tão pouca que podes chamar-lhe Escarlate, afinal, é como toda a gente lhe chama, mesmo quando julgam estar a dizer certo. Dirigia-se o padre à porta, mas parou para perguntar, Onde está a Blimunda, Anda na horta, respondeu Baltasar.

O italiano abrigara-se à sombra fresca de um grande plátano. Não parecia curioso do que o rodeava, olhava tranquilo as janelas fechadas do palácio, a cimalha onde cresciam ervas, a caleira da água por cima da qual passavam andorinhas rasando, à caça dos insectos. O padre Bartolomeu Lourenço aproximou-se, trazia na mão um pano que tirara do bolso, Só de olhos vendados se chega ao segredo, disse, sorrindo, e o músico respondeu, em tom igual, Quantas vezes assim mesmo se volta dele, Não seja este o caso, senhor Scarlatti, cuidado com a soleira, essa pedra mais alta, agora, antes de tirar a venda, quero dizer-lhe que vivem aqui duas pessoas, um homem chamado Baltasar Sete-Sóis, e uma mulher, Blimunda, a quem, por viver com Sete-Sóis, chamei Sete-Luas, são eles quem está construindo a obra que lhe vou mostrar, eu explico o que devem fazer, eles executam, e agora já pode desatar o pano, senhor Scarlatti. Sem precipitação, tão tranquilamente como antes estivera olhando as andorinhas, o italiano tirou a venda.

Na sua frente estava uma ave gigantesca, de asas abertas, cauda em leque, pescoço comprido, a cabeça ainda em tosco, por isso não se sabia se viria a ser falcão ou gaivota, É este o segredo, perguntou, Este é, até hoje de três pessoas, agora de quatro, aqui está Baltasar Sete-Sóis, e Blimunda não se demora, anda na horta. O italiano fez uma pequena vénia na direcção de Baltasar, que respondeu com outra mais profunda, ainda que inábil, sempre era ele o mecânico, e além disso estava sujo, enfarruscado da forja, em todo ele só brilhava o gancho, do muito e constante trabalho. Domenico Scarlatti aproximou-se da máquina, que se equilibrava sobre uns espeques laterais, pousou as mãos numa das asas como se ela fosse um teclado, e, singularmente, toda a ave vibrou apesar do seu grande peso, cavername de madeira, lamelas de ferro, vime entrançado, se houver forças que façam levantar isto, então ao homem nada é impossível, Estas asas são fixas, Assim é, Nenhuma ave pode voar sem bater as asas, A isso Baltasar responderia que basta ter forma de ave para voar, mas eu respondo que o segredo do voo não é nas asas que está, E esse segredo não o posso saber eu, Não posso dar mais que mostrar o que aqui se vê, Já isso basta para que eu agradeça, mas, havendo esta ave de voar, como sairá, se não cabe na porta.

Baltasar e o padre Bartolomeu Lourenço olharam-se perplexos, e depois para fora. Blimunda estava ali, com um cesto cheio de cerejas, e respondia, Há um tempo para construir e um tempo para destruir, umas mãos assentaram as telhas deste telhado, outras o deitarão abaixo, e todas as paredes, se for preciso.


Esta é que é Blimunda
, disse o padre, Sete-Luas, acrescentou o músico. Ela tinha brincos de cerejas nas orelhas, trazia-as assim para se mostrar a Baltasar, e por isso foi para ele, sorrindo e oferecendo o cesto, É Vénus e Vulcano, pensou o músico, perdoemos-lhe a óbvia comparação clássica, sabe ele lá como é o corpo de Blimunda debaixo das roupas grosseiras que veste, e Baltasar não é apenas o tição negro que parece, além de não ser coxo como foi Vulcano, maneta sim, mas isso também Deus é. Sem falar que a Vénus cantariam todos os galos do mundo se tivesse os olhos que Blimunda tem, veria facilmente nos corações amantes, em alguma coisa há-de um simples mortal prevalecer sobre as divindades. E sem contar que sobre Vulcano também Baltasar ganha, porque se o deus perdeu a deusa, este homem não perderá a mulher.

Sentaram-se todos em redor da merenda, metendo a mão no cesto, à vez, sem outro resguardar de conveniências que não atropelar os dedos dos outros, agora o cepo que é a mão de Baltasar, cascosa como um tronco de oliveira, depois a mão eclesiástica e macia do padre Bartolomeu Lourenço, a mão exacta de Scarlatti, enfim Blimunda, mão discreta e maltratada, com as unhas sujas de quem veio da horta e andou a sachar antes de apanhar as cerejas. Todos eles atiram os caroços para o chão, el-rei que aqui estivesse faria o mesmo, é por pequenas coisas assim que se vê serem

os homens realmente iguais. As cerejas são grossas, carnudas, algumas já vêm bicadas pelos pássaros, que cerejal haverá no céu para que também lá possa ir alimentar-se, chegando a hora, este outro pássaro que ainda não tem cabeça, porém, se vier a ser de gaivota ou falcão podem os anjos e os santos confiar que comerão as cerejas intactas, pois, como se sabe, aquelas são aves que desprezam o vegetal.

Disse o padre Bartolomeu Lourenço, Não irei revelar o segredo último do voo, mas, tal como escrevi na petição e memória, toda a máquina se moverá por obra de uma virtude atractiva contrária à queda dos graves, se eu largar este caroço de cereja, ele cai para o chão, ora, a dificuldade está em encontrar o que o faça subir, E encontrou, O segredo descobri-o eu, quanto a encontrar, colher e reunir é trabalho de nós três, É uma trindade terrestre, o pai, o filho e o espírito santo, Eu e Baltasar temos a mesma idade, trinta e cinco anos, não poderíamos ser pai e filho naturais, isto é, segundo a natureza, mais facilmente irmãos, mas, sendo-o, gémeos teríamos de ser, ora ele nasceu em Mafra, eu no Brasil, e as parecenças são nenhumas, Quanto ao espírito, Esse seria Blimunda, talvez seja ela a que mais perto estaria de ser parte numa trindade não terrenal, Trinta e cinco anos é também a minha idade, mas nasci em Nápoles, não poderíamos ser uma trindade de gémeos, e Blimunda, que idade tem, Tenho vinte e oito, e sem irmão ou irmã, e isto dizendo levantou Blimunda os olhos, quase brancos na meia penumbra da abegoaria, e Domenico Scarlatti ouviu ressoar dentro de si a corda mais grave duma harpa. Ostensivamente Baltasar levantou o cesto quase vazio com o seu gancho, e disse, Acabou a merenda, vamos trabalhar.

O padre Bartolomeu Lourenço foi encostar uma escada à passarola, Senhor Scarlatti, se quiser ver por dentro a minha máquina de voar. Subiram ambos, o padre levava o desenho, e lá dentro, andando sobre o que parecia um convés de barco, explicou as posições e funções das diversas partes, os arames com o âmbar, as esferas, as lamelas de ferro, repetindo que tudo operaria por atracção mútua, mas não falou do sol nem do que haveriam de conter as esferas, porém o músico perguntou, Que coisa atrairá o âmbar, Talvez Deus, em quem toda a força mora, respondeu o padre, O âmbar atrairá que coisa, O que estiver dentro das esferas, Esse é o segredo Sim, esse é o segredo, É mineral, vegetal ou animal, Não é mineral, nem vegetal, nem animal Tudo é mineral, ou vegetal, ou animal, Nem tudo, há coisas que o não são, a música, por exemplo, Padre Bartolomeu de Gusmão, decerto não quer dizer-me que estas esferas vão conter música, Não, mas quem sabe se com ela não subiria também a máquina, tenho de pensar nisso, afinal pouco falta para que me erga eu ao ar quando o ouço tocar no cravo, É um gracejo, Menos do que parece,
senhor Scarlatti.

Entardecia quando o italiano se retirou. O padre Bartolomeu Lourenço passaria ali a noite, aproveitava a vinda para ensaiar o seu sermão, já poucos dias estavam faltando para a festa do Corpo de Deus. À despedida disse, Senhor Scarlatti, quando o enfadar o paço, lembre-se deste lugar, Lembrarei, por certo, e, se com isso não perturbar o trabalho de Baltasar e Blimunda, trarei para cá um cravo e tocarei para eles e para a passarola, talvez a minha música possa conciliar-se dentro das esferas com esse misterioso elemento, Senhor Escarlate, disse Baltasar, tomando bruscamente a palavra, venha quando quiser, se o senhor padre Bartolomeu Lourenço autoriza, mas, Mas, No lugar da minha mão esquerda tenho este gancho, ou um espigão em vez dele, sobre o coração uma cruz de sangue, Sangue meu, acrescentou Blimunda, Sou o irmão de todos, disse Scarlatti, se me aceitarem. Baltasar acompanhou-o fora, ajudou-o a montar na mula, Senhor Escarlate, querendo que eu ajude a trazer o cravo, não tem mais que dizer.

Fez-se noite, ceou o padre Bartolomeu Lourenço com Sete-Sóis e Sete-Luas sardinhas salgadas e uma fritada de ovos, a infusa da água, pão grosseiro e duro. Duas candeias mal alumiavam a abegoaria. Nos recantos, a escuridão parecia enovelar-se, avançando e recuando consoante as oscilações das pequenas e pálidas luzes. A sombra da passarola movia-se sobre a parede branca. Estava quente a noite. Pela porta aberta, acima do telhado do palácio fronteiro, viam-se estrelas no céu já côncavo. O padre saiu para o pátio, aspirou profundamente o ar, depois contemplou a estrada luminosa que atravessava a abóbada celeste de um lado a outro, caminho de Santiago, se não teriam sido antes os olhos dos peregrinos que, de tanto fixarem o céu, foram deixando nele a própria luz, Deus é uno em essência e em pessoa, gritou Bartolomeu Lourenço subitamente. Vieram Blimunda e Baltasar à porta saber que grito era aquele, não que estranhassem as declamações do padre, porém assim, fora, a clamar violento contra o céu, nunca acontecera. Houve uma pausa, mas os grilos não interromperam o seu estrilar, e depois a voz ergueu-se outra vez, Deus é uno em essência e trino em pessoa. Nada acontecera primeiro, nada aconteceu agora. Bartolomeu Lourenço voltou para a abegoaria e disse aos outros que o tinham seguido, Fiz duas afirmações contrárias entre si, respondam-me qual acham que é a verdadeira, Eu não sei, disse Baltasar, Nem eu, disse Blimunda, e o padre repetiu, Deus é uno em essência e pessoa, Deus é uno em essência e trino em pessoa, onde está a verdade, onde está a falsidade, Não sabemos, respondeu Blimunda, e não compreendemos as palavras, Mas acreditas na Santíssima Trindade, no Padre, no Filho e no Espírito Santo, falo do que ensina a Santa Igreja, não do que disse o italiano, Acredito, Então Deus, para ti, é trino em pessoa, Pois será, E se eu te disser agora que Deus é uma só pessoa, que era ele só quando criou o mundo e os homens, acreditarás, Se me diz que é assim, acredito, Digo-te apenas que acredites, em quê nem eu próprio sei, mas destas minhas palavras não fales a ninguém, e tu, Baltasar, qual é a tua opinião, Desde que comecei a construir a máquina de voar, deixei de pensar nessas coisas, talvez Deus seja um, talvez seja três, pode bem ser que seja quatro, a diferença não se nota, se calhar Deus é o único soldado vivo de um exército de cem mil, por isso é ao mesmo tempo soldado, capitão e general, e também maneta, como me foi explicado, e isso, sim, passei a acreditar, Pilatos perguntou a Jesus o que era a verdade e Jesus não respondeu, Talvez ainda fosse muito cedo para o saber, disse Blimunda, e foi com Baltasar sentar-se numa pedra ao lado da porta, aquela mesma onde às vezes se catavam, agora o libertava ela das correias que prendiam o gancho, depois pousou-lhe o coto no regaço para o aliviar daquela grande e irreparável dor.

Et ego in illo, disse o padre Bartolomeu Lourenço dentro da abegoaria, pregoava assim o tema do sermão, mas hoje não procurava os efeitos da voz, os trémulos rolados que comoveriam os ouvintes, a instância das injunções, a suspensão insinuante. Dizia as palavras que escrevera, outras que de improviso lhe surgiam agora, e estas negavam aquelas, ou duvidavam-nas, ou faziam-nas exprimir sentidos diferentes, Et ego in illo, sim, e eu estou nele, eu Deus, nele homem, em mim, que sou homem, estás tu, que Deus és, Deus cabe dentro do homem, mas como pode Deus caber no homem se é imenso Deus e o homem tão pequena parte das suas criaturas, a resposta é que fica Deus no homem pelo sacramento, claro está, claríssimo é, mas, ficando no homem pelo sacramento, é preciso que o homem o tome, e assim Deus não fica no homem quando quer, mas quando o homem o deseja tomar, posto o que será dito que de alguma maneira o criador se fez criatura do homem, ah, mas então grande foi a injustiça que se cometeu contra Adão, dentro de quem Deus não morou porque ainda não havia sacramento, e Adão bem poderá arguir contra Deus que, por um só pecado, lhe proibiu para sempre a árvore da vida e lhe fechou para sempre as portas do paraíso, ao passo que os descendentes do mesmo Adão, com tantos outros e mais terríveis pecados, têm Deus em si e comem da árvore da Vida sem nenhuma dúvida ou impedimento, se a Adão castigaram por querer assemelhar-se a Deus, como têm agora os homens a Deus dentro de si e não são castigados, ou o não querem receber e castigados não são, que ter e não querer ter Deus dentro de si é o mesmo absurdo, a mesma impossibilidade, e contudo Et ego in illo, Deus está em mim, ou em mim não está Deus, como poderei achar-me nesta floresta- de sim e não, de não que é sim, do sim que é não, afinidades contrárias, contrariedades afins, como atravessarei salvo sobre o fio da navalha, ora, resumindo agora, antes de Cristo se ter feito homem, Deus estava fora do homem e não podia estar nele, depois, pelo sacramento, passou a estar nele, assim o homem é quase Deus, ou será afinal o próprio Deus, sim, sim, se em mim está Deus, eu sou Deus, sou-o de modo não trino ou quádruplo, mas uno, uno com Deus, Deus nós, eleeu, eu ele, Durus est hic sermo, et quis potest eum audire.

A noite refrescava. Blimunda adormecera, com a cabeça apoiada no ombro de Baltasar. Mais tarde, ele levou-a para dentro, deitaram-se. O padre saiu para o pátio, toda a noite ali ficou, de pé, olhando o céu e murmurando em tentação.

Capítulo XV

Meses passados, um frade consultor do Santo Ofício, na sua censura ao sermão, escreveu que, por tal papel, se ficavam a dever ao autor mais aplausos que sustos, maisadmirações que dúvidas. Algum rebate de incomodidade há-de ter experimentado este frei Manuel Guilherme, ao mesmo tempo que ia aprovando as admirações e reconhecendo os aplausos, algum fumozinho herético lhe terá passado à pituitária, para assim não conseguir calar os sustos e dúvidas que a leitura do sermão lhe teria lançado ao piedoso espulgar. E outro reverendo padre mestre, Dom António Caetano de Sousa, chegando-lhe a vez de ler e censurar, confirma que o revisto papel nada continha contra a santa fé ou bons costumes, não releva as dúvidas e os sustos que parece terem apoquentado a primeira instância, e, por argumento conclusivo, encarece as atenções com que a corte extensamente distingue o doutor Bartolomeu Lourenço de Gusmão, assim branqueando por via paçã negruras doutrinais porventura reclamativas de mais fundo descasque. Porém, a palavra derradeira virá a ser encontrada pelo padre frei Boaventura de S. Gião, censor do paço, que, depois de desmanchar-se em louvores e pasmações, remata que só a voz do silêncio poderia ser a melhor expressão das suas vozes, que, diz ele, suspensas ficariam mais atentas, e emudecidas mais reverentes. Caso é para perguntarmos, nós que da verdade conhecemos parte maior, que outras atroadoras vozes ou mais terríveis silêncios responderiam às palavras que as estrelas ouviram na quinta do duque de Aveiro, enquanto Baltasar e Blimunda, cansados, dormiam, e a passarola, na escuridão da abegoaria, esforçava todos os ferros para entender o que estava dizendo lá fora o seu criador.

Três, se não quatro, vidas diferentes tem o padre Bartolomeu Lourenço, e uma só apenas quando dorme, que mesmo sonhando diversamente não sabe destrinçar, acordado, se no sonho foi o padre que sobe ao altar e diz canonicamente a missa, se o académico tão estimado que vai incógnito el-rei ouvir-lhe a oração por trás do reposteiro, no vão da porta, se o inventor da máquina de voar ou dos vários modos de esgotar sem gente as naus que fazem água, se esse outro homem conjunto, mordido de sustos e dúvidas, que é pregador na igreja, erudito na academia, cortesão no paço, visionário e irmão de gente mecânica e plebeia em S. Sebastião da Pedreira, e que torna ansiosamente ao sonho para reconstruir uma frágil, precária unidade, estilhaçada mal os olhos se lhe abrem, nem precisa estar em jejum como Blimunda. Abandonara a leitura consabida dos doutores da Igreja, dos canonistas, das formas variantes escolásticas sobre essência e pessoa, como se a alma já tivesse extenuada de palavras, mas porque o homem é o único animal que fala e lê, quando o ensinam, embora então lhe faltem ainda muitos anos para a homem ascender, examina miudamente e estuda o padre Bartolomeu Lourenço o Testamento velho, sobretudo os cinco primeiros livros, o Pentateuco, pelos judeus chamado Tora, e o Alcorão. Dentro do corpo de qualquer de nós poderia Blimunda ver os órgãos, e também as vontades, mas não pode ler os pensamentos nem ela a estes entenderia, ver um homem pensando, como em um pensamento só, tão opostas e inimigas verdades, e com isso não perder o juízo, ela se o visse, ele porque tal pensa.

A música é outra coisa. Domenico Scarlatti trouxe para a abegoaria um cravo, não o carregou ele, mas dois mariolas a pau, corda, chinguiço, e muito suor da testa, desde a Rua Nova dos Mercadores, onde foi comprado, até S. Sebastião da Pedreira, onde seria ouvido, veio Baltasar com eles para indicar o caminho outra ajuda lhe não requereram, que este transporte não se faz sem ciência e arte, distribuir o peso, combinar as forças como na pirâmide da Dança da Bica, aproveitar o molejo das cordas e do pau para ritmar a passada, enfim, segredos de ofício que tanto valem como outros, e cuida cada qual que os do seu são máximos. O cravo foi deixado pelos galegos do lado de fora do portão, não faltava mais nada verem eles a máquina de voar, e para a abegoaria o levaram, com grande esforço, Baltasar e Blimunda, não tanto pelo peso, mas por lhes faltarem arte e ciência, sem contar que as vibrações das cordas pareciam queixumes magoados e por causa deles se lhes apertava o coração, também duvidoso e assustado de tão extrema fragilidade. Nessa mesma tarde veio Domenico Scarlatti, ali se sentou a afinar o cravo, enquanto Baltasar entrançava vimes e Blimunda cosia velas, trabalhos calados que não perturbavam a obra do músico. E tendo concluído a afinação, ajustado os saltarelos que o transporte havia desacertado, verificado as penas de pato uma por uma,

Scarlatti pôs-se a tocar, primeiro deixando correr os dedos sobre as teclas, como se soltasse as notas das suas prisões, depois organizando os sons em pequenos segmentos, como se escolhesse entre o certo e o errado, entre a forma repetida e a forma perturbada, entre a frase e o seu corte, enfim articulando em discurso novo o que parecera antes fragmentário e contraditório. De música sabiam pouco Baltasar e Blimunda, a salmodia dos frades, raramente o estridor operático do Te Deum, toadas populares campestres e urbanas, cada qual suas, porém nada que se parecesse com estes sons que o italiano tirava do cravo, que tanto pareciam brinquedo. infantil como colérica objurgação, tanto parecia divertirem-se anjos como zangar-se Deus.

Ao fim de uma hora levantou-se Scarlatti do cravo, cobriu-o com um pano de vela, e depois disse para Baltasar e Blimunda, que tinham interrompido o trabalho, Se a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão chegar a voar um dia, gostaria de ir nela e tocar no céu, e Blimunda respondeu, Voando a máquina, todo o céu será música, e Baltasar, lembrando-se da guerra, Se não for inferno todo o céu. Não sabem, estes dois, ler nem escrever, e contudo dizem coisas assim, impossíveis em tal tempo e em tal lugar, se tudo tem a sua explicação, procuremos esta, se agora a não encontrarmos, outro dia será. Muitas vezes voltou Scarlatti à quinta do duque de Aveiro, nem sempre tocava, mas em certas ocasiões pedia que não se interrompessem os trabalhos ruidosos, a forja rugindo, o malho retumbando na bigorna, a água fervendo na tina, mal se ouvia o cravo no meio do grande clamor da abegoaria, e no entanto o músico encadeava serenamente a sua música, como se o rodeasse o grande silêncio do espaço onde desejara tocar um dia.

Procura cada qual por seu próprio caminho, a graça, seja ela o que for, uma simples paisagem com algum céu por cima, uma hora do dia ou da noite, duas árvores, três se forem as de Rembrandt, um murmúrio, sem sabermos se com isto se fecha o caminho ou finalmente se abre, e para onde, para outra paisagem, ou hora, ou árvore, ou murmúrio, veja-se este padre que anda a tirar de si um Deus e a pôr outro, mal sabendo que proveito haverá na troca, e, se proveito houver, quem dele finalmente aproveitará, veja-se este músico que outra música que esta não saberia compor, que não estará vivo daqui a cem anos para ouvir a primeira sinfonia do homem, erradamente chamada Nona, veja-se este soldado maneta que, por ironia dos acasos, é fabricante de asas, nunca tendo passado da infantaria, alguma vez sabe o homem o que o espera, este menos que qualquer outro, veja-se a mulher dos olhos excessivos, que para descobrir vontades nasceu, não passavam de peloticas e bufarinhices as suas demonstrações de tumor, feto estrangulado e moeda de prata, agora, sim, é que se irão ver as obras maiores do seu destino, quando o padre Bartolomeu Lourenço chegar à quinta de S. Sebastião da Pedreira e disser, Blimunda, está Lisboa atormentada de uma grande doença, morrem pessoas em todas as casas, lembrei-me de que não teremos melhor ocasião para recolher as vontades dos moribundos, se as conservam ainda, mas é meu dever avisar-te de que correrás grandes perigos, não vais se não quiseres, nem eu te obrigaria, ainda que obrigar-te estivesse na minha mão, que doença é essa, Dizem que foi trazida por uma nau do Brasil e que primeiro se manifestou na Ericeira. A minha terra fica perto, disse Baltasar, e o padre respondeu, Não há notícia de ter morrido gente em Mafra, mas, sobre a doença, pelos sinais que dá, é vómito negro ou febre amarela, o nome importa pouco, o caso é que estão morrendo como tordos, que decides tu, Blimunda. Levantou-se Blimunda do mocho onde estava sentada, ergueu a tampa da arca e lá de dentro tirou o frasco de vidro, quantas vontades ali haveria, talvez umas cem, quase nada para as necessidades, e mesmo assim fora uma longa e custosa caçada, muito jejum, às vezes perdida num labirinto, onde está a vontade que a não vejo, só vísceras e ossos, a rede agónica dos nervos, o mar de sangue, a comida pastosa no estômago, o excremento final, Irás, perguntou o padre, Irei, respondeu ela, Mas não sozinha, disse Baltasar.

No dia seguinte, muito cedo, estava o tempo de chuva, saíram Blimunda e Baltasar da quinta, ela em jejum natural, ele transportando no alforge o sustento de ambos, para quando, pela extenuação do corpo ou por recolha satisfatória, já Blimunda puder ou tiver de alimentar-se. Durante muitas horas desse dia não verá Baltasar o rosto de Blimunda, ela sempre adiante, avisando se tem de voltar-se, é um estranho jogo o destes dois, nem um quer ver, nem o outro quer ser visto, parece tão fácil, e só eles sabem quanto lhes custa não se olharem. Por isso, lá para o fim do dia, quando Blimunda já tiver comido e os seus olhos regressarem à comum humanidade, Baltasar poderá sentir acordar o seu próprio e entorpecido corpo, menos cansado da caminhada que de não ser olhado.

Porém, antes visitou Blimunda os agonizantes. Aonde chega recebem-na com louvores e agradecimentos, nem lhe perguntam se é parenta ou amiga, se mora naquela mesma rua ou noutro bairro, e como esta terra é tão exercitada em obras de misericórdia, às vezes nem por ela dão, encheu-se o quarto do doente, está cheio o corredor, a escada é um sobe e desce, um corropio, o padre que deu ou vai dar a extrema-unção, o médico se valeu a pena chamá-lo e havia com que pagar-lhe, o sangrador que vai de casa em casa  apurando as navalhas, e ninguém dá por entrar e sair uma ladra, com o seu frasco de vidro enrolado em panos, colado no fundo dele o âmbar amarelo a que as vontades furtadas se agarram como pássaros ao visco. Entre S. Sebastião da Pedreira e a Ribeira entrou Blimunda em trinta e duas casas, colheu vinte e quatro nuvens fechadas, em seis doentes já as não havia, talvez as tivessem perdido há muito tempo, e as restantes duas estavam tão agarradas ao corpo que, provavelmente, só a morte as seria capaz de arrancar de lá. Em cinco outras casas que visitou, já não havia vontade nem alma, apenas o corpo morto, algumas lágrimas ou muito alarido.

Por toda a parte se queimava alecrim para afastar a epidemia, nas ruas, nas entradas das casas, principalmente nos quartos dos doentes, ficava o ar azulado de fumo, e cheiroso, nem parecia a fétida cidade dos dias saudáveis. Havia grande procura de línguas de S. Paulo, que são pedras com o feitio de língua de pássaro, achadas nas praias que de S. Paulo vão até Santos, será por santidade própria dos lugares ou por santificação que os nomes lhes dêem, o que toda a gente sabe é que tais pedras, e umas outras, redondas, tamanho de grãos-de-bico, são de soberana virtude contra as febres malignas justamente, porque, sendo feitas de subtilíssimo pó, podem mitigar o demasiado calor, aliviar as areias, e algumas vezes provocar suor. O mesmo pó, resultante da moição das pedras, é conclusivo contra o veneno, qualquer que seja e qualquer que tenha sido a sua ministração, maxime em caso de mordedura de bicho venenoso, basta colocar a língua de S. Paulo ou o grão-de-bico sobre a ferida, num instante é chupado o veneno. Quando assim, chama-se a tais pedras olhos-de-víbora.

Com tudo isto, parece impossível que ainda morra gente, havendo tanto remédio e tanta salvaguarda, alguma irreparável falta, aos olhos de Deus, terá Lisboa cometido para virem a morrer nesta epidemia quatro mil pessoas em três meses, o que representa mais de quarenta cadáveres para enterrar todos os dias. Ficaram as praias sem pedras e caladas as línguas dos que morreram, impedidos estes de explicar que tal farmácia os não curaria. Mas, que o dissessem, isso mesmo demonstraria a sua impenitência, pois não devia ser causa de espanto curarem pedras febres malignas só por se reduzirem a pó e misturarem no cordial ou no caldo, quando tão divulgado foi o que aconteceu a madre Teresa da Anunciação, que estando a fazer confeitos e faltando-lhe o açúcar, o mandou pedir a uma religiosa doutro mosteiro, tendo esta respondido que não valia a pena mandar-lho por ser de qualidade inferior, posto o que ficou madre Teresa em aflição extrema, e agora que é que eu vou fazer da minha vida, pois farei caramelos, que é obra menos fina, entendamo-nos bem, não foi da sua própria vida que ela fez caramelos, foi do açúcar, mas assim que este tomou o ponto respectivo, abateu tanto e ficou tão amarelo que mais parecia resina que doçura aproveitável, ai que maior aflição, não há outro reclamar, voltou-se a madre para o Senhor e pô-lo diante das suas responsabilidades, o método costuma resultar, lembremo-nos de Santo António e das lâmpadas de prata, Vós bem sabeis que não tenho outro açúcar, nem de onde me venha, a obra não é minha, senão vossa, vós disponde o que fordes servido, a virtude a poreis vós, não eu, e tendo dito, lembrando-se de que talvez não bastasse a intimação, cortou uma partícula da corda que o Senhor leva à cinta e deitou-a ao tacho, meu dito, meu feito, começa o açúcar, de amarelo e abatido que estava, a tornar-se tão branco e subido, que dali se fizeram caramelos como em tempo algum se vira na história dos mosteiros, ora toma. E se hoje não continuam a fazer-se milagres desta confeitaria, é porque logo ali se acabou a corda do Senhor, distribuída em pedacinhos por quantas congregações havia de freiras e doceiras, são tempos que nunca mais voltam.

Cansados da grande caminhada, de tanto subir e descer de escadas, recolheram-se Blimunda e Baltasar à quinta, sete mortiços sóis, sete pálidas luas, ela sofrendo uma insuportável náusea, como se regressasse de um campo de batalha, de ver mil corpos estraçalhados pela artilharia, e ele, se quiser adivinhar o que viu Blimunda, basta-lhe juntar numa só recordação a guerra e o açougue. Deitaram-se, e nessa noite não se quiseram os seus corpos, não tanto por fadiga, que bem sabemos quanto ela é, tantas vezes, boa conselheira dos sentidos, mas por uma como que consciência excessiva dos órgãos internos, como se estes lhes tivessem saído para fora da pele, talvez seja difícil de explicar, porém, é com a pele que os corpos se conhecem, reconhecem e aceitam, e se certas profundas penetrações, certos íntimos contactos são entre mucosa e pele, quase se não dá pela diferença, é como se se tivesse procurado e encontrado uma pele mais remota. Dormem os dois, cobertos por uma manta velha, nem se despiram, causa admiração ver tão grande empresa entregue a dois vagabundos, pior agora, que já se lhes apagou a frescura da mocidade, são como pedras de um alicerce, sujas da terra que reforçam, e também como elas esmagados sob o peso que há-de vir. A lua, nessa noite, nasceu tarde, dormiam e não a viram, mas o luar entrou pelas frestas, percorreu lentamente toda a abegoaria, a máquina de voar, e, ao passar, iluminou o frasco de vidro, distintamente se viam dentro dele as nuvens fechadas, talvez porque ninguém estivesse a olhar, talvez por ser esta luz da lua capaz de mostrar o invisível.

Ficou o padre Bartolomeu Lourenço satisfeito com o lanço, era o primeiro dia, mandados assim à ventura, para o meio duma cidade afligida de doença e luto, aí estão vinte e quatro vontades para assentar no papel. Passado um mês, calcularam ter guardado no frasco um milheiro de vontades, força de elevação que o padre supunha ser bastante para uma esfera, com o que segundo frasco foi entregue a Blimunda. Já em Lisboa muito se falava daquela mulher e daquele homem que percorriam a cidade de ponta a ponta, sem medo da epidemia, ele atrás, ela adiante, sempre calados, nas ruas por onde andavam, nas casas onde não se demoravam, ela baixando os olhos quando tinha de passar por ele, e se o caso, todos os dias repetido, não causou maiores suspeitas e estranhezas, foi por ter começado a correr a notícia de que cumpriam ambos penitência, estratagema inventado pelo padre Bartolomeu Lourenço quando se ouviram as primeiras murmurações. Com um pouco mais de imaginação, teria feito do misterioso casal dois enviados do céu, propiciatórios de bom passamento para moribundos, reforço da extrema-unção porventura enfraquecida pelo continuado uso. Um nada é quanto basta para desfazer reputações, um quase nada as faz e refaz, a questão é encontrar o caminho certo para a credulidade ou para o interesse dos que vão ser eco inocente ou cúmplice.

Quando a epidemia terminou, já iam rareando os casos mortais e de repente passara-se a morrer doutra coisa, havia, bem contadas, duas mil vontades nos frascos. Então, Blimunda caiu doente. Não tinha dores, febre não se lhe sentia, apenas uma extrema magreza, uma palidez profunda que lhe tornava transparente a pele. Jazia na enxerga, de olhos sempre fechados, noite e dia, porém não como se dormisse ou repousasse, mas com as pálpebras crispadas e uma expressão de agonia no rosto. Baltasar não saía de junto dela, a não ser para preparar a comida ou para satisfazer necessidades expulsórias do corpo, não parecia bem fazê-lo ali mesmo. O padre Bartolomeu Lourenço, sombrio, sentava-se no mocho, e aí ficava horas. De vez em quando parecia rezar, mas nunca ninguém pôde compreender as palavras que murmurava nem a quem as dirigia. Deixou de os ouvir em confissão, por duas vezes que Baltasar, a isso se sentindo obrigado, fez vaga menção a pecados que, por se acumularem, vão esquecendo, respondeu que Deus vê nos corações e não precisa de que alguém absolva em seu nome, e se os pecados forem tão graves que não devam passar sem castigo, este virá pelo caminho mais curto, querendo o mesmo Deus, ou serão julgados em lugar próprio, quando o fim dos tempos chegar, se entretanto, as boas acções não compensarem por si mesmas as más, também podendo vir a acontecer que tudo acabe em geral perdão ou castigo universal, apenas está por saber quem há-de perdoar a Deus ou castigá-lo. Mas, olhando Blimunda, consumida e retirada do mundo, o padre mordia as unhas, arrependia-se de a ter mandado às instâncias vizinhas da morte com tanta continuidade que a sua própria vida teria de padecer, como se ,estava observando, essa outra tentação de passar para o lado de lá, sem nenhuma dor, apenas como quem desiste de se segurar às margens do mundo e se deixa afundar.

Todas as noites, o padre, quando se retirava para a cidade, pelos caminhos escuros e azinhagas que desciam para Santa Marta e Valverde, punha-se a desejar, meio delirando, que lhe saltassem ao caminho facinorosos, talvez o próprio Baltasar, com a espada ferrujenta e o mortal espigão, para vingar Blimunda, assim se acabaria tudo. Mas Sete-Sóis, a essa hora, já estava deitado, cobria Sete-Luas com o braço são e murmurava, Blimunda, então o nome atravessava um largo e escuro deserto cheio de sombras, demorava muito tempo a chegar ao seu destino, depois outro tanto regressando, as sombras afastadas penosamente, os lábios moviam-se custosos, Baltasar, lá fora ouvia-se o ramalhar das árvores, às vezes um grito de ave nocturna, bendita sejas tu, noite, que cobres e proteges o belo e o feio com a mesma indiferente capa, noite antiquíssima e idêntica, vem. Mudava-se a cadência da respiração de Blimunda, sinal de que adormecera, e Baltasar, extenuado de ansiedade, podia também entrar no sono para reencontrar o riso de Blimunda, que seria de nós se não sonhássemos. Muitas vezes durante a doença, se doença foi, se não foi apenas um longo regresso da própria vontade, refugiada em confins inacessíveis do corpo, muitas vezes veio Domenico Scarlatti, primeiro apenas para visitar Blimunda, informar-se das melhoras que tardavam, depois demorando-se a conversar com Sete-Sóis, e um dia retirou o pano de vela que cobria o cravo, sentou-se e começou a tocar, branda, suave música que mal ousava desprender-se das cordas feridas de leve, vibrações subtis de insecto alado que, imóvel, paira, e de súbito passa de uma altura a outra, acima, abaixo, não tem isto nada que ver com os movimentos dos dedos sobre as teclas, como se uns aos outros se andassem perseguindo, não é deles que nasce a música, como poderia ser se o teclado tem uma primeira tecla e uma última tecla e a música não tem fim nem princípio, vem deste além que está à minha mão esquerda, vai para aquele outro que está à minha mão direita, ao menos tem a música duas mãos, não é como certos deuses. Porventura seria esta a medicina que Blimunda esperava, ou, dentro dela, o que ainda estaria esperando alguma coisa, que cada um de nós, conscientemente, só espera o que conhece, ou tem parecenças, o que para cada caso nos disseram ter utilidade, uma sangria se a fraqueza não fosse tanta, uma língua de S. Paulo se a epidemia não tivesse deixado as praias joeiradas, umas bagas de alquequenge, uns troquiscos de Gordónio, uma raiz de cardo corredor, o elixir do Francês, se não fosse tudo isto uma inocente mixórdia que só tem de bom não fazer mal nenhum.

Não esperaria Blimunda que, ouvindo a música, o peito se lhe dilatasse tanto, um suspiro assim, como de quem morre ou de quem nasce, debruçou-se Baltasar para ela, temendo que ali se acabasse quem afinal estava regressando. Nessa noite, Domenico Scarlatti ficou na quinta, tocando horas e horas, até de madrugada, já Blimunda estava de olhos abertos, corriam-lhe devagar as lágrimas, se aqui estivesse um médico diria que ela purgava os humores do nervo óptico ofendido, talvez tivesse razão, talvez as lágrimas não sejam mais que isso, o alívio duma ofensa. Durante uma semana, todos os dias, sofrendo o vento e a chuva pelos caminhos alagados de S. Sebastião da Pedreira, o músico foi tocar duas, três horas, até que Blimunda teve forças para levantar-se, sentava-se ao pé do cravo, pálida ainda, rodeada de música como se mergulhasse num profundo mar, diremos nós, que ela nunca por aí navegou, o seu naufrágio foi outro. Depois, a saúde voltou depressa, se realmente faltara. E, não tornando o músico, por discreto ou finalmente retido pelas obrigações de mestre da capela real, acaso descuidadas, e pelas lições da infanta, esta decerto não queixosa das ausências, acharam Baltasar e Blimunda que estava em falta o padre Bartolomeu Lourenço e com isso se inquietaram. Uma manhã, tendo aliviado o mau tempo, desceram à cidade, agora um ao lado do outro, e, enquanto iam conversando, podia Blimunda olhar Baltasar e não ver mais do que ele, ainda bem, para alívio de ambos. As pessoas que encontravam no caminho eram arcas fechadas, cofres aferrolhados, se por fora sorriam ou mostravam má cara, tanto fazia, o olhador não deve saber daquele a quem olha mais do que o olhado. Por isso é que Lisboa parecia tão quieta, apesar dos pregões da rua, das zaragatas de vizinhas, dos diferentes toques dos sinos das orações gritadas diante dos nichos, duma trombeta além, dum rufo de tambor, dum tiro de par tida ou chegada das naus do Tejo, da ladainha e da sineto dos frades mendicantes. Quem tem vontade, que a guarde e use, quem a não tem, aguente-se com a falta, Blimunda não quer mais saber de contos, já lá tem na quinta a sua conta, só ela sabe quanto lhe custou.

O padre Bartolomeu Lourenço não estava em casa, talvez tivesse ido ao paço, disse a viúva do porteiro da maça, ou à academia, Se quiserem deixar algum recado, mas Baltasar respondeu que não, voltariam mais tarde ou ficariam ali pelo Terreiro, à espera. Enfim, lá pelo meio-dia apareceu o padre, emagrecido por outra espécie de doença por outras visões, e, contra o seu costume desmazelado de traje, como se dormisse vestido. Vendo-os ali, à porta da casa, sentados num poial, cobriu a cara com as mãos, mas logo as retirou, e foi para eles como se tivesse acabado de ser salvo de um grande perigo, não este que parecia pelas primeiras palavras que disse, Só tenho estado à espera de que Baltasar viesse para me matar, julgaríamos que temeu pela sua própria vida, e não é verdade, Não se faria justiça mais justa contra mim, Blimunda, se tivesses morrido, O senhor Escarlate sabia que eu estava melhor, Não o quis procurar, e quando me procurou ele inventei pretextos para não o receber, fiquei à espera do meu destino O destino chega sempre, disse Baltasar, não ter morrido Blimunda foi meu e nosso bom destino, e agora que faremos, se já lá vai a doença, se estão recolhidas as vontades, se está acabada a máquina. se não há mais ferros a bater, nem velas a coser e embrear, nem vimes a entrançar, se com o âmbar amarelo que temos se poderão fazer tantas bolas quantas vezes se cruzam os arames do tecto, se está pronta a cabeça da ave, não é gaivota, mas parece-se, se enfim se concluiu o nosso trabalho, qual será o destino dele e de nós, padre Bartolomeu Lourenço. O padre tornou-se mais pálido, olhou em redor como se temesse que alguém estivesse ouvindo, depois respondeu, Terei de informar el-rei de que a máquina está construída, mas antes haveremos de experimentá- la, não quero que tornem a rir-se de mim, como há quinze anos fizeram, agora voltem para a quinta, breve lá irei.

Afastaram-se os dois alguns passos, depois Blimunda parou, Está doente, padre Bartolomeu Lourenço, tem a cara branca, os olhos pisados, nem ficou contente por saber a notícia, Fiquei, Blimunda, fiquei, mas as notícias do destino são sempre meias notícias, o que vem amanhã é que conta, hoje é sempre nada, Deite-nos a sua bênção, padre, Não posso, . não sei em nome de que Deus a deitaria, abençoem-se antes um ao outro, é quanto basta, pudessem ser todas as bênçãos como essa.

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