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– Leitura de Memorial VI – X

Capítulo VI

Levar este pão à boca é gesto fácil, excelente de fazer se a fome o reclama, portanto alimento do corpo, benefício, do lavrador, provavelmente maior benefício de alguns que entre a foice e os dentes souberam meter mãos de levar e trazer e bolsas de guardar, e esta é a regra. Não há em Portugal trigo que baste ao perpétuo apetite que os portugueses têm de pão, parece que não sabem comer outra coisa, por isso os estrangeiros que cá moram, doridos das nossas necessidades, que em maior volume frutificam que sementes de abóbora, mandam vir, das suas próprias e outras terras, frotas de cem navios carregados de cereal, como estes que entraram agora Tejo adentro, salvando à torre de Belém e mostrando ao governador dela os papéis do uso, e desta vez são mais de trinta mil moios de pão que vêm da Irlanda, e é a abundância tal, fome que finalmente deu em fartura, enquanto em fome se não tornar, que, achando-se cheias as tercenas e também já os armazéns particulares, andam por aí a alugar depósitos por todo o dinheiro, e põem escritos nas portas da cidade para que conste às pessoas que os tiverem para alugá-los, com que desta vez se vão arrepelar os que mandaram vir o trigo, obrigados pelo excesso a baixar-lhe o preço, tanto mais que se fala em próxima chegada de uma frota da Holanda carregada do mesmo género, mas desta virá a saber-se que a assaltou uma esquadra francesa quase na entrada da barra, e assim o preço, que ia baixar, não baixa, se for preciso deita-se fogo a um celeiro ou dois, mandando em seguida apregoar a falta que o trigo ardido já está fazendo, quando julgávamos que havia tanto e de sobra. São mistérios mercantis que os de fora ensinam e os de dentro vão aprendendo, embora estes sejam ordinariamente tão estúpidos, de mercadores falamos, que nunca mandam vir eles próprios as mercadorias das outras nações, antes se contentam com comprá-las aqui aos estrangeiros que se forram da nossa simplicidade e forram com ela os cofres, comprando a preços que nem sabemos e vendendo a outros que sabemos bem de mais porque os pagamos com língua de palmo e a vida palmo a palmo.

Porém, morando o riso tão perto da lágrima, o desafogo tão cerca da ânsia, o alívio tão vizinho do susto, nisto se passando a vida das pessoas e das nações, conta João Elvas a Baltasar Sete-Sóis o formoso passo bélico de se ter armado a marinha de Lisboa, de Belém a Xabregas, por espaço de dois dias e duas noites, ao mesmo tempo que em terra tomavam posições de combate os terços e a cavalaria, porque correra a nova de que vinha uma armada francesa a conquistar-nos, hipótese em que qualquer fidalgo, ou plebeu qualquer, seria aqui outro Duarte Pacheco Pereira, e Lisboa uma nova praça de Diu, e afinal a armada invasora transformou-se em uma frota de bacalhau, que boa falta estava fazendo, como não tardou a ver-se pelo apetite. De riso murcho souberam os ministros a notícia, de riso amarelo largaram os soldados às armas e os cavalos, mas foram altas e estrepitosas as gargalhadas do vulgo, assim desforrado de não poucas vexações. Enfim, pior que a vergonha de esperar o francês e ver chegar o bacalhau, seria contar com o bacalhau e entrar o francês.

Sete-Sóis concorda, mas imagina-se na pele dos soldados que esperavam a batalha, sabe como bate então o coração, que irá ser de mim, se daqui a pouco ainda estarei vivo, apura-se um homem à altura da possível morte e depois vêm dizer-lhe que estão a descarregar fardos de bacalhau na Ribeira Nova, se os franceses vêm a saber do engano, ainda se rirão mais de nós. Vai Baltasar para ter outra vez saudades da guerra, mas lembra-se de Blimunda e lança-se a querer averiguar de que cor são os olhos dela, é uma guerra em que anda com a sua própria memória, que tanto lhe lembra uma cor como outra, nem os seus próprios olhos conseguem decidir que cor de olhos estão vendo quando os têm diante. Desta maneira se esqueceu das saudades que ia sentir, e responde a João Elvas, Devia era haver maneira certa de saber quem vem e o que traz ou quer, sabem-no as gaivotas que vão pousar nos mastros, e nós, a quem mais importaria, não sabemos, e o soldado velho disse, As gaivotas têm asas, também as têm os anjos, mas as gaivotas não falam, e de anjos nunca vi nenhum.

Atravessava o Terreiro do Paço o padre Bartolomeu Lourenço, que vinha do palácio aonde fora por instância de Sete-Sóis, desejoso de que se apurasse se sim ou não haveria uma pensão de guerra, se tanto vale a simples mão esquerda, e quando João Elvas, que da vida de Baltasar não sabia tudo, viu aproximar-se o padre, disse em continuação da conversa, Aquele que ali vem é o padre Bartolomeu Lourenço, a quem chamam o Voador, mas ao Voador não cresceram bastante as asas, e assim não poderemos ir espiar as frotas que querem entrar e as intenções ou negócios que trazem. Não pôde Sete-Sóis responder porque o padre, parando arredado, lhe fez sinal para que se aproximasse, assim ficando João Elvas na grande estupefacção de ver o seu amigo bafejado pelos ares do Paço e da Igreja, e já pensando se disto poderia vir a tirar proveito um soldado vadio. E para que alguma coisa se fosse adiantando entretanto, estendeu a mão à esmola, primeiro a um fidalgo que de boa maré lha deu, depois, por distracção, a um frade mendicante que passava exibindo uma imagem e oferecendo-a ao ósculo devoto, com o que João Elvas acabou por largar o que tinha recebido. Não me cair um raio em cima, será pecado praguejar, mas alivia muito.

Disse o padre Bartolomeu Lourenço a Sete-Sóis, Falei com os desembargadores destas matérias, disseram-me que iam ponderar o teu caso, se vale a pena fazeres petição, depois me darão uma resposta, E quando será isso, padre, quis Baltasar saber, ingénua curiosidade de quem acaba de chegar à corte e lhe ignora os usos, Não te sei dizer, mas, tardando, talvez eu possa dizer uma palavra a sua majestade, que me distingue com a sua estima e protecção, Pode falar com el-rei, espantou-se Baltasar, e acrescentou, Pode falar a el-rei e conhecia a mãe de Blimunda, que foi condenada pela Inquisição, que padre é este padre, palavras estas últimas que Sete-Sóis não terá dito em voz alta, só inquieto as pensou. Bartolomeu Lourenço não respondeu, apenas o olhou a direito, e assim ficaram parados, o padre um pouco mais baixo e parecendo mais novo, mas não, têm ambos a mesma idade, vinte e seis anos, como de Baltasar já sabíamos, porém são duas diferentes vidas, a de Sete-Sóis trabalho e guerra, uma acabada, outro que terá de recomeçar, a de Bartolomeu Lourenço, que no Brasil nasceu e novo veio pela primeira vez a Portugal, de tanto estudo e memória que, sendo moço de quinze anos, prometia, e muito fez do que prometeu, dizer de cor todo Virgílio, Horácio, Ovídio, Quinto Cúrcio, Suetónio, Mecenas e Séneca, para diante e para trás, ou donde lhe apontassem, e dar a definição de todas as fábulas que se escreveram, e a que fim as fingiram os gentios gregos e romanos, e também dizer quem foram os autores de todos os livros de versos, antigos e modernos, até ao ano de mil e duzentos, e se alguém lhe dissesse uma poesia, logo responderia a propósito com dez versos seus ali mesmo compostos, e prometia também justificar e defender toda a filosofia e os pontos mais intricados dela, e explicar a parte de Aristóteles, ainda que extensa, com todos os seus embaraços, termos e meios termos, e responder a todas as dúvidas da Sagrada Escritura, tanto do Testamento Velho como do Novo, repetindo de cor, quer a fio corrido quer salteado, todos os Evangelhos dos quatro Evangelistas, para trás e para diante, e o mesmo das epístolas de S. Paulo e S. Jerónimo, e os anos de profeta a profeta e quantos de vida teve cada um deles, e o mesmo de todos os reis da Escritura, e o mesmo, para baixo e para cima, para a esquerda e para a direita, dos Livros dos Salmos, dos Cantares, do Êxodo e todos os Livros dos Reis, e que não são canónicos os dois Livros dos Esdras, como afinal não parecem muito canónicos, diga-se aqui para nós e sem outras desconfianças, este sublime engenho, estas prendas e memória nascidas e criadas em terra de que só temos requerido o ouro e os diamantes, o tabaco e o açúcar, e as riquezas da floresta, e o mais que nela ainda virá a ser encontrado, terra doutro mundo, amanhã e pelos séculos que hão-de vir, sem contar com a evangelização dos tapuias, que só ela nos faria ganhar a eternidade.

Agora me disse aquele meu amigo João Elvas que tendes apelido de Voador, padre, por que foi que vos deram tal nome, perguntou Baltasar. Começou Bartolomeu Lourenço a afastar-se, o soldado foi atrás dele, e, distantes dois passos um do outro, seguiram ao longo do Arsenal da Ribeira das Naus, do palácio do Corte Real, e adiante, nos Remolares, onde a praça se abria para o rio, sentou-se o padre numa pedra, fez sinal a Sete-Sóis para que se acomodasse ao lado dele, e enfim respondeu, como se agora mesmo tivesse ouvido a pergunta, Porque eu voei, e disse Baltasar, duvidoso, Com perdão da confiança, só os pássaros voam, e os anjos, e os homens quando sonham, mas em sonhos não há firmeza, Não tens vivido em Lisboa, nunca te vi, Estive na guerra quatro anos e a minha terra é Mafra, Pois eu faz dois anos que voei, primeiro fiz um balão que ardeu, depois construí outro que subiu até ao tecto duma sala do paço, enfim outro que saiu por uma janela da Casa da Índia e ninguém tornou a ver, Mas voou em pessoa, ou só voaram os balões, Voaram os balões, foi o mesmo que ter voado eu, Voar balão não é voar homem, O homem primeiro tropeça, depois anda, depois corre, um dia voará, respondeu Bartolomeu Lourenço, mas logo se pôs de joelhos porque estava passando o Corpo de Nosso Senhor para algum doente de qualidade, o padre debaixo do pálio sustentado por seis pessoas, à frente os trombetas, atrás os irmãos da confraria, de opas encarnadas e círios na mão, mais as coisas necessárias à administração do Santíssimo Sacramento, alguma alma impaciente por voar, apenas à espera de que a aliviassem do lastro corporal e a pusessem de frente para o vento que vem do mar largo, ou do fundo universo, ou do último lugar de além. Sete-Sóis também se ajoelhara, tocando o chão com o seu gancho de ferro enquanto se persignava.

Já não se sentou o padre Bartolomeu Lourenço, devagar aproximou-se da beira do rio, com Baltasar atrás, e ali, estando a um lado uma barca a descarregar palha em grandes panais que os mariolas transportavam às costas correndo equilibrados sobre a prancha, e a outro lado chegando-se duas escravas pretas a despejar para a água os calhandros de seus amos, o mijo e a merda do dia ou da semana, entre o natural cheiro da palha e o cheiro natural do excremento, disse o padre, Tenho sido a risada da corte e dos poetas, um deles, Tomás Pinto Brandão, chamou ao meu invento coisa de vento que se há-de acabar cedo, se não fosse a protecção de el-rei não sei o que seria de mim, mas el-rei acreditou na minha máquina e tem consentido que, na quinta do duque de Aveiro, a S. Sebastião da Pedreira,eu faça os meus experimentos, enfim já me deixam respirar um pouco os maldizentes, que chegaram ao ponto de desejar que eu partisse as pernas quando me lançasse do castelo, sendo certo que nunca eu tal coisa prometera, e que a minha arte tinha mais que ver com a jurisdição do Santo Ofício que com a geometria, Padre Bartolomeu Lourenço, eu destas coisas não entendo, fui homem do campo, soldado deixei de ser, e não creio que alguém possa voar sem lhe terem nascido asas, quem o contrário disser, entende tanto disso como de lagares de azeite, Esse gancho que tens no braço não o inventaste tu, foi preciso que alguém tivesse a necessidade e a ideia, que sem aquela esta não ocorre, juntasse o couro e o ferro, e também estes navios que vês no rio, houve um tempo em que não tiveram velas, e outro tempo foi o da invenção dos remos, outro o do leme, e, assim como o homem, bicho da terra, se fez marinheiro por necessidade, por necessidade se fará voador, Quem põe velas num barco está na água e na água fica, voar é sair da terra para o ar, onde não há chão que nos ampare os pés, Faremos como as aves, que tanto estão no céu como pousam na terra, Então foi por querer voar que conheceu a mãe de Blimunda, por ser de artes subtis, Ouvi dizer que ela tinha visões de ver pessoas voando com asas de pano, é certo que visões não falta por aí quem diga tê-las, mas havia tal verosimilhança no que me contavam, que discretamente a fui visitar um dia, e depois ganhei-lhe amizade, E chegou a saber o que queria, Não, não cheguei, compreendi que o saber dela, se realmente o tinha, era outro saber, e que eu deveria perseverar contra a minha própria ignorância, sem ajudas, prouvera não me engane, Parece-me que estão na verdade aqueles que disseram que essa arte de voar se entendia mais com o Santo Ofício que com a geometria, se eu estivesse no vosso caso dobraria de cautelas, olhai que cárcere, degredo e fogueira costumam ser a paga desses excessos, mas disto sabe um padre mais do que um soldado, Tenho cuidado e não me faltam protecções, Lá virá o dia. Tornaram sobre os passos, voltaram aos Remolares. Sete-Sóis fez menção de falar, retraiu-se, o padre deu pela hesitação, Queres-me dizer alguma coisa, Queria saber, padre Bartolomeu Lourenço, porque é que Blimunda sempre come pão antes de abrir os olhos pela manhã, Tens dormido com ela, Vivo lá, Repara que estão em pecado de concubinato, melhor seria casarem-se, Ela não quer, eu não sei se quereria, se um dia destes volto para a minha terra e ela prefere ficar em Lisboa, para quê casar, mas o que eu tinha perguntado, Porque come Blimunda pão antes de abrir os olhos de manhã, Sim, Se o vieres a saber um dia, será por ela, por mim não, Mas sabe a razão, Sei, E não ma diz, Só te  direi que se trata de um grande mistério, voar é uma simples coisa comparando com Blimunda.

Andando e conversando, chegaram à estrebaria de um alquilador, na porta do Corpo Santo. O padre alugou uma mula, subiu para o albardão, Vou a S. Sebastião da Pedreira ver a minha máquina, queres tu vir comigo, a mula pode com os dois, Irei, mas a pé, que é o caminho da infantaria, És um homem natural, nem cascos de mula nem asas de passarola, É assim que se chama a sua máquina, perguntou Baltasar, e o padre respondeu, Assim lhe têm chamado por desprezo.

Subiram a S. Roque, e depois, contornando o alto morro das Taipas, desceram pela Praça da Alegria até Valverde. Sete-Sóis acompanhava sem dificuldade a andadura da mula, só em terreno plano se deixava atrasar um pouco, para logo recuperar na próxima encosta, tanto a descer como a subir. Apesar de não ter caído pinga de água desde Abril, sendo já passados quatro meses, estavam viçosos todos os campos para cima de Valverde, por via das muitas fontes perenes, encaminhados os mananciais ao cultivo das hortaliças, que ali eram abundantes, às portas da cidade. Passado o convento de Santa Marta e adiante o de Santa Joana Princesa, alargavam-se terras de olival, mas mesmo aí se implantavam as culturas hortenses, e se por lá não rebentavam as fontes naturais, supriam a falta as cegonhas de tirar água, erguendo os seus pescoços compridos, e circulavam burros à nora, de olhos tapados para terem a ilusão de caminhar a direito, não sabendo, como não sabiam os donos, que andando realmente a direito também acabariam por vir parar ao mesmo lugar, porque o mundo. é ele uma nora e são os homens que, andando em cima dele, o puxam e fazem andar. Mesmo já cá não estando Sebastiana Maria de Jesus para ajudar com as suas revelações, é fácil ver que, faltando os homens, o mundo pára.

Quando chegaram ao portão da quinta, onde não está o duque nem criados seus, pois os bens dele foram reunidos aos da coroa, e agora estão a correr autos de processo para se restituírem à casa de Aveiro, porém são lentas as justiças, e então voltará o duque, da Espanha onde vive e onde duque também é, mas de Banhos, quando chegaram, dizíamos, o padre apeou-se, tirou uma chave do bolso e abriu o portão, como se estivesse em casa sua. Fez entrar a mula, que levou para uma sombra, enfiou-lhe no focinho uma alcofa de palha e fava, e ali a deixou aliviada da carga, sacudindo com o rabo farto os tavões e as moscas, excitados pelo manjar que lhes chegava da cidade. Todas as portas e janelas do palácio estavam fechadas, a quinta abandonada, sem cultivo. A um lado do pátio espaçoso ficava um celeiro, ou abegoaria, ou adega, estando vazio não se podia saber que serventia fora a sua, pois para celeiro lhe faltavam tulhas, para abegoaria onde estariam as argolas, e adega não a há sem tonéis. Esta porta tinha um cadeado onde entrava uma chave tão recortada como escrita arábica. O padre retirou a tranca, empurrou a porta, afinal não estava vazia a grande casa, viam-se panos de vela, barrotes, rolos de arame, lamelas de ferro, feixes de vimes, tudo arrumado por espécies, em boa ordem e, ao meio, no espaço desafogado, havia o que parecia uma enorme concha, toda eriçada de arames, como um cesto que, em meio fabrico, mostra as guias do entrançado. Baltasar entrou logo atrás do padre, curioso, olhou em redor sem compreender o que via, talvez esperasse um balão, umas asas de pardal em maior, um saco de penas, e não teve mão que não duvidasse,

Então é isto, e o padre Bartolomeu Lourenço respondeu, Há-de ser isto, e, abrindo uma arca, tirou um papel que desenrolou, onde se via o desenho de uma ave, a passarola seria, isso era Baltasar capaz de reconhecer, e porque à vista era o desenho um pássaro, acreditou que todos aqueles materiais, juntos e ordenados nos lugares competentes, seriam capazes de voar. Mais para si próprio do que para Sete-Sóis, que do desenho não via mais que a semelhança da ave, e ela lhe bastava, o padre explicou, em tom primeiramente sereno, depois animando-se, Isto que aqui vês são as velas que servem para cortar o vento e que se movem segundo as necessidades, e aqui é o leme com que se dirigirá a barca, não ao acaso, mas por mão e ciência do piloto, e este é o corpo do navio dos ares, à proa e à popa em forma de concha marinha, onde se dispõem os tubos do fole para o caso de faltar o vento, como tantas vezes sucede no mar, e estas são as asas, sem elas como se haveria de equilibrar a barca voadora, e destas esferas não te falarei, que são segredo meu, bastará que te diga que sem o que elas levarão dentro não voará a barca, mas sobre este ponto ainda não estou seguro, e neste tecto de arames penduraremos umas bolas de âmbar, porque o âmbar responde muito bem ao calor dos raios do sol para o efeito que quero, e isto é a bússola, sem ela não se vai a parte alguma, e isto são roldanas, servem para largar ou recolher as velas, como nos navios do mar. Calou-se alguns momentos, e acrescentou, E quando tudo estiver armado e concordante entre si, voarei. A Baltasar convencia-o o desenho, não precisava de explicações pela razão simples de que não vendo nós a ave por dentro, não sabemos o que a faz voar, e no entanto ela voa, porquê, por ter a ave forma de ave, não há nada mais simples, Quando, limitou-se a perguntar, Ainda não sei, respondeu o padre, falta-me quem me ajude, sozinho não posso fazer tudo, e há trabalhos para que a minha força não é suficiente. Calou-se outra vez, e depois, Queres tu vir ajudar-me, perguntou. Baltasar deu um passo atrás, estupefacto, Eu não sei nada, sou um homem do campo, mais do que isso só me ensinaram a matar, e assim como me acho, sem esta mão, Com essa mão e esse gancho podes fazer tudo quanto quiseres, e há coisas que um gancho faz melhor que a mão completa, um gancho não sente.

Baltasar recuou assustado, persignou-se rapidamente, como para não dar tempo ao diabo de concluir as suas obras, Que está a dizer, padre Bartolomeu Lourenço, onde é que se escreveu que Deus é maneta, Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua direita, à sua mão direita, que se sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores da Igreja, à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência, portanto Deus é maneta. Respirou fundo o padre, e concluiu, Da mão esquerda.

Sete-Sóis ouvira com atenção. Olhou o desenho e os materiais espalhados pelo chão, a concha ainda informe, sorriu, e, levantando um pouco os braços, disse, Se Deus é maneta e fez o universo, este homem sem mão pode atar a vela e o arame que hão-de voar.

CapítuloVII

Mas tem cada coisa seu tempo. Por enquanto, faltando ao padre Bartolomeu Lourenço o dinheiro para comprar os ímanes que, na sua ideia, hão-de fazer voar a passarola, cujos, ainda por cima, terão de vir do estrangeiro, está Sete-Sóis no açougue do Terreiro do Paço, por empenho do mesmo padre, transportando ao lombo peças de carne variada, quartos de boi, leitões às dúzias, carneiros aos pares, que passam de um gancho para outro gancho, e no trânsito deixam toalhas de sangue na serapilheira que lhe cobre as costas e a cabeça, é um ofício sujo, vá lá que compensado por algumas sobras, um pé de porco, uma franja de dobrada, e, querendo Deus e o humor do açougueiro, a apara de vazia, de alcatra ou pojadouro, embrulhados numa crespa folha de couve, para que Blimunda e Baltasar se alimentem um pouco melhor que o vulgar, quem parte e reparte, mesmo não sendo Baltasar o da partição, para alguma coisa aproveitaria a arte.

Para D. Maria Ana é que lhe vem chegando o tempo. A barriga não aguenta crescer mais por muito que a ele estique, é um bojo enorme, uma nau da Índia, uma frota do Brasil, de vez em quando manda el-rei saber como vai a navegação do infante, se já se avista ao longe, se o traz bom vento ou sofreu assaltos, como aqueles que sofrem as nossas esquadras, que ainda agora, na altura das ilhas, tomaram os franceses seis naus mercantes nossas e uma de guerra, que tudo isto e muito mais se podia esperar dos cabos que temos e dos comboios que armamos, e agora parece que vão os ditos franceses esperar o resto dos nossos barcos à entrada de Pernambuco e da Baía, se é que não estão já à espreita da frota que há-de ter saído do Rio de Janeiro. Tantas foram as descobertas que fizemos quando houve que descobrir, e agora nos passam os outros à capa como a inocentes touros, sem artes de marrar, ou não mais que por acaso. A D. Maria Ana chegam também estas más notícias, coisas que sempre aconteceram há um mês, dois meses, quando o infante ainda era no seu ventre uma gelatina, um girino, um troço cabeçudo, é extraordinário como se formam um homem e uma mulher, indiferentes, lá dentro do seu ovo, ao mundo de fora, e contudo com este mundo mesmo se virão defrontar, como rei ou soldado, como frade ou assassino, como inglesa em Barbadas ou sentenciada no Rossio, alguma coisa sempre, que tudo nunca pode ser, e nada menos ainda. Porque, enfim, podemos fugir de tudo, não de nós próprios.

Porém, nem tudo é assim tão deplorável para as navegações portuguesas. Chegou há dias a nau de Macau que se esperava, tendo partido daqui há vinte meses, onde isso vai, ainda Sete-Sóis andava na guerra, e fez feliz jornada apesar de ser larga a viagem, que fica Macau muito para lá de Goa, terra de tantas bem-aventuranças, a China, que excede a todas as outras nos regalos e riqueza, e os géneros todos quanto pode ser baratos, e tem de mais o favorável e sadio do clima, tanto que de todo se ignoram achaques e doenças, por isso não há nela médicos nem cirurgiões, e morre cada um só de velho e desamparado da natureza, que não nos pode garantir sempre. Carregou a nau na China tudo rico e precioso, passou pelo Brasil a fazer negócio e meteu açúcares e tabacos, mais muita abundância de ouro, que para tudo isto deram os dois meses e meio que esteve no Rio e na Baía, e em cinquenta e seis dias de viagem veio de lá aqui, e houve causa milagrosa para que em jornada tão perigosa e dilatada nem adoeceu nem morreu um só homem que fosse, que parece que aproveitou a missa quotidiana que cá se ficou dizendo por intenção da viagem a Nossa Senhora da Piedade das Chagas, e nem errou o caminho, ignorando-o o piloto, se tal é crível, com o que já se vai dizendo que negócios bons são os da China. Mas, para não ser tudo perfeito, chegou a notícia de estar acesa a luta entre os do Pernambuco e os do Recife, todos os dias ali se dão batalhas, algumas muito sanguinolentas, e foram ao ponto de deitar fogo aos matos, queimando todos os açúcares e tabacos, que para el-rei é perda muito considerável.

Dão, se calha, estas e outras notícias a D. Maria Ana, mas ela está flutuando, indiferente, no seu torpor de grávida, dizerem-lhas ou calarem-lhas tanto faz, e até da sua primeira glória de ter fecundado não resta mais que uma ténue lembrança, pequena brisa do que foi vento de orgulho, quando nos primeiros tempos se sentia como aquelas figuras que à proa das naus se põem e que, não sendo as que mais longe observam, para isso lá está o óculo e lá está o gajeiro, são as que mais fundo vêem. Uma mulher grávida, rainha ou comum, tem um momento na vida em que se sente sábia de todo o saber, ainda que intraduzível em palavras, mas depois, com o inchar excessivo da barriga e outras misérias do corpo, só para o dia de parir têm pensamentos, nem todos alegres, quantas vezes aterradas por agoiros, mas neste caso vai ser de grande ajuda a ordem franciscana, que não quer perder o prometido convento. Andam ao despique todas as congregações da Província da Arrábida, dizendo missas, fazendo novenas, promovendo orações, por intenção geral e particular, explícita e implícita, para que nasça bem o infante e numa boa hora, para que não traga defeito visível ou invisível, para que seja varão, com o que alguma mazela menor poderia desculpar-se, senão ver nela especial distinção divina. Mas, sobretudo, porque um infante macho daria maior contentamento a el-rei.

D. João V vai ter de contentar-se com uma menina. Nem sempre se pode ter tudo, quantas vezes pedindo isto se alcança aquilo, que esse é o mistério das orações, lançamo-las ao ar com uma intenção que é nossa, mas elas escolhem o seu próprio caminho, às vezes atrasam-se para deixar passar outras que tinham par tido depois, e não é raro que algumas se acasalem, assim nascendo orações arraçadas ou mestiças, que não são nem o pai nem a mãe que tiveram, quando calha brigam, param na estrada a debater contradições, e por isso é que se pediu um rapaz e veio uma rapariga, vá lá saudável e robusta, e de bons pulmões, como se percebe pela gritaria. Mas o reino está gloriosamente feliz, não só porque nasceu o herdeiro da coroa e pelas luminárias festivas que por três dias foram decretadas, mas porque, havendo sempre que contar com os efeitos secundários que têm as preces sobre as forças naturais, podendo até acontecer que dêem em grandes secas, como esta que há oito meses durava e só essa causa podia ter, nem se via que outra fosse, acabadas as orações deu em chover, enfim, que já se diz que o nascimento da infanta trouxe auspícios de felicidade, pois agora chove tanto que só Deus a pode estar mandando, por alívio seu da importunação que lhe fazíamos. Já andam os lavradores lavrando, vão para o campo mesmo debaixo de chuva, a leiva cresce da terra húmida como saem as crianças lá donde vêm, e, não sabendo gritar como elas, suspira ao sentir-se rasgada pelo ferro, e deita-se de lado, luzidia, oferecendo-se à água que continua a cair, agora muito devagar, quase poalha impalpável, para que não se perca a forma do alqueive, terra encrespada para o conchego da seara. Este parto é muito simples, mas não se pode fazer sem aquilo que os outros primeiro requereram, a força e a semente. Todos os homens são reis, rainhas são todas as mulheres, e príncipes os trabalhos de todos.

Porém, não convém perder de vista as diferenças, que são muitas. Foi a princesa a baptizar, em dia de Nossa Senhora do Ó dia por excelência contraditório, pois já está a rainha despejada da sua redondez, e logo se observa que, finalmente, nem todos os príncipes são príncipes por igual, como com muita clareza está mostrando a pompa e solenidade com que se dará o nome e o sacramento a este, ou esta, com todo o paço e capela real armados de panos e ouros, e a corte ajoujada de galas, que mal se distinguem as feições e os vultos debaixo de tanto adereço de franças e bandarra e saiu o acompanhamento da câmara da rainha para a igreja, passando pela sala dos Tudescos, e atrás dele o duque de Cadaval, com a sua opa roçagando o chão, sob o pálio vai o duque, e às varas pegam, por distinção, títulos de primeira grandeza e conselheiros de Estado, e nos braços do duque, quem vai, vai a princesa, enfaixada de linhos, franzida de laços, escorrida de fitas, e atrás do pálio a nomeada aia, que é a condessa de Santa Cruz velha, e todas as damas do paço, as formosas e as não tanto, e enfim meia dúzia de marqueses e o duque filho, que trazem as insígnias da toalha, do saleiro, do óleo, e o resto, que para todos havia.

Sete bispos a baptizaram, que eram como sete sóis de ouro e prata nos degraus do altar-mor, e ficou a chamar-se Maria Xavier Francisca Leonor Bárbara, logo ali com o título de Dona adiante, apesar de tão pequena ainda, está ao colo, baba-se e já é dona, que fará em crescendo, e leva, por começo, uma cruz de brilhantes que lhe deu seu padrinho e tio, o infante D. Francisco, cuja custou cinco mil cruzados, e o mesmo D. Francisco mandou à rainha sua comadre, de presente, uma pluma de toucar, estou que por galantaria, e uns brincos de diamantes, esses. sim, de superlativo valor, perto de vinte e cinco mil cruzados, é obra, mas francesa. Para este dia baixou el-rei da sua grandeza e majestade e assistiu, não por trás das rótulas, mas público, e não na sua tribuna, mas na da rainha, em mostra do muito respeito que lhe merecia, assim posta a feliz mãe ao lado do feliz pai, ainda que em cadeira mais baixa, e à noite houve luminárias. Sete-Sóis baixou com Blimunda do alto do castelo para ver as luzes e os adornos, o paço armado de colgaduras, os arcos mandados levantar pelos ofícios. Está mais cansado que de costume, talvez por ter carregado tanta carne para os banquetes que festejaram o nascimento e vão festejar o baptizado. Dói-lhe a mão esquerda de tanto puxar, içar e arrastar. O gancho descansa no alforge que leva ao ombro. Blimunda segura-lhe a mão direita. Em um qualquer destes meses que passaram, morreu de santa morte frei António de S. José. Salvo se vier a aparecer em sonhos a el-rei, já não poderá recordar-lhe a promessa, porém sosseguemos, a pobre não emprestes, a rico não devas, a frade não prometas, e D. João V é rei de palavra. Haveremos convento.

Capítulo VIII

Dorme Baltasar no lado direito da enxerga, desde a primeira noite aí dorme, porque é desse lado o seu braço inteiro, e ao voltar-se para Blimunda pode, com ele, cingi-la contra si, correr-lhe os dedos desde a nuca até à cintura, e mais abaixo ainda se os sentidos de um e do outro despertaram no calor do sono e na representação do sonho, ou já acordadíssimos iam quando se deitaram, que este casal, ilegítimo por sua própria vontade, não sacramentado na igreja, cuida pouco de regras e respeitos, e se a ele apeteceu, a ela apetecerá, e se ela quis, quererá ele. Talvez ande por aqui obra de outro mais secreto sacramento, a cruz e o sinal feitos e traçados com o sangue da virgindade rasgada, quando, à luz amarela do candil, estando ambos deitados de costas, repousando, e, por primeira infracção aos usos, nus como suas mães os tinham parido, Blimunda recolheu da enxerga, entre as pernas, o vivíssimo sangue, e nessa espécie comungaram, se não é heresia dizê-lo ou, maior ainda, tê-lo feito. Meses inteiros se passaram desde então, o ano é já outro, ouve-se cair a chuva no telhado, há grandes ventos sobre o rio e a barra, e, apesar de tão próxima a madrugada, parece escura noite. Outro se enganaria, mas não Baltasar, que sempre acorda à mesma hora, muito antes de nascer o sol, hábito inquieto de soldado, e fica alerta a ver retirar-se devagar a escuridão de cima das coisas e das pessoas, a sentir aquele grande alívio que levanta o peito é o suspiro do dia, o primeiro e impreciso traço grisalho das frinchas, até que um leve rumor acorda Blimunda e outro som começa e se prolonga, infalível, é Blimunda a comer o seu pão, e depois que o comeu abre os olhos, vira-se para Baltasar e descansa a cabeça sobre o ombro dele, ao mesmo tempo que pousa a mão esquerda no lugar da mão ausente, braço sobre braço, pulso sobre pulso, é a vida, quanto pode emendando a morte. Mas hoje não será assim. Um dia e outro dia perguntou Baltasar a Blimunda por que comia todas as manhãs antes de abrir os olhos, perguntou ao padre Bartolomeu Lourenço que segredo era este, ela respondeu-lhe uma vez que se acostumara a isso em criança, ele disse que se tratava de um grande mistério, tão grande que voar faria figura de pequena coisa, comparando. Hoje se saberá.

Quando Blimunda acorda, estende a mão para o saquitel onde costuma guardar o pão, pendurado à cabeceira, e acha apenas o lugar. Tacteia o chão, a enxerga, mete as mãos por baixo da travesseira, e então ouve Baltasar dizer, Não procures mais, não encontrarás, e ela, cobrindo os olhos com os punhos cerrados, implora, Dá-me o pão, Baltasar, dá-me o pão, por alma de quem lá tenhas, Primeiro me terás de dizer que segredos são estes, Não posso, gritou ela, e bruscamente tentou rolar para fora da enxerga, mas Sete-Sóis deitou-lhe o braço são, prendeu-a pela cintura, ela debateu-se brava, depois passou-lhe a perna direita por cima, e assim libertada a mão, quis afastar-lhe os punhos dos olhos, mas ela tornou a gritar, espavorida, Não me faças isso, e o grito tal que Baltasar a largou, assustado, quase arrependido da violência, Eu não te quero fazer mal, só queria saber que mistérios são, Dá-me o pão, e eu digo-te tudo, Juras, Para que serviriam juras se não bastassem o sim e o não Aí tens, come, e Baltasar tirou o taleigo de dentro do alforge que lhe servia de travesseira.

Cobrindo o rosto com o antebraço, Blimunda comeu enfim o pão. Mastigava devagar. Quando terminou, deu um grande suspiro e abriu os olhos. A luz cinzenta do quarto amanheceu de azul para aqueles lados, assim pensaria Baltasar se tivesse aprendido a pensar coisas destas, mas melhor que pensar finezas que poderiam servir nas antecâmaras da corte ou nos palratórios das freiras, foi sentir o calor do seu próprio sangue quando Blimunda se virou para ele, os olhos agora escuros, e de repente uma luz verde passando, que importavam agora os segredos, melhor seria tornar a aprender o que já sabia, o corpo de Blimunda ficará para outra ocasião, porque esta mulher, tendo prometido, vai cumprir, e diz, Lembras-te da primeira vez que dormiste comigo, teres dito que te olhei por dentro, Lembro-me, Não sabias o que estavas a dizer, nem soubeste que estavas a ouvir quando eu te disse que nunca te olharia por dentro. Baltasar não teve tempo de responder, ainda procurava o sentido das palavras, e outras já se ouviam no quarto, incríveis, Eu posso olhar por dentro das pessoas. Sete-Sóis soergueu-se na enxerga, incrédulo, e também inquieto, Estás a mangar comigo, ninguém pode olhar por dentro das pessoas.

Eu posso, Não acredito, Primeiro, quiseste saber, não descansavas enquanto não soubesses, agora já sabes e dizes que não acreditas, antes assim, mas daqui para o futuro não me tires o pão, Só acredito se fores capaz de dizer o que está dentro de mim agora, Não vejo se não estiver em jejum, além disso fiz promessa de que a ti nunca te veria por dentro, Torno a dizer que estás a mangar comigo, E eu torno a dizer que é verdade, Como hei-de ter a certeza, Amanhã não comerei quando acordar, sairemos depois de casa e eu vou-te dizer o que vir, mas para ti nunca olharei, nem te porás na minha frente, queres assim, Quero, respondeu Baltasar, mas diz-me que mistério é este, como foi que te veio esse poder, se não estás a enganar-me, Amanhã saberás que falo verdade, E não tens medo do Santo Ofício, por muito menos têm outros pagado, O meu dom não é heresia, nem é feitiçaria, os meus olhos são naturais, Mas a tua mãe foi açoitada e degredada por ter visões e revelações, aprendeste com ela, Não é a mesma coisa, eu só vejo o que está no mundo, não vejo o que é de fora dele, céu ou inferno, não digo rezas, não faço passes de mãos, só vejo, Mas persignaste-te com o teu sangue e fizeste-me com ele uma cruz no peito, se isso não é feitiçaria, Sangue de virgindade é água de baptismo, soube que o era quando me rompeste, e quando o senti correr adivinhei os gestos, Que poder é esse teu, Vejo o que está dentro dos corpos, e às vezes o que está no interior da terra, vejo o que está por baixo da pele, e às vezes mesmo por baixo das roupas, mas só vejo quando estou em jejum, perco o dom quando muda o
quarto da lua, mas volta logo a seguir, quem me dera que o não tivesse, Porquê, Porque o que a pele esconde nunca é bom de ver-se, Mesmo a alma, já viste a alma, Nunca a vi, Talvez a alma não esteja afinal dentro do corpo, Não sei, nunca a vi, Será porque não se possa ver, Será, e agora larga-me, tira a perna de cima de mim, que me quero levantar.

Durante todo esse dia, Baltasar duvidou se tivera tal conversa, ou se a sonhara, ou se, simplesmente, estivera num sonho de Blimunda. Olhava os grandes animais suspensos dos ganchos de ferro antes de serem esquartejados, esforçava os olhos, mas não via mais que a carne opaca, esfolada ou lívida, e quando os pedaços e as postas se espalhavam nas bancadas ou eram atirados para os pratos das balanças, compreendia que o poder de Blimunda tinha mais de condenação que de prémio, porque o interior destes animais não era realmente um gosto para a vista, como não o seria o das pessoas que vêm à carne, nem o das que a vendem, ou cortam, ou carregam, que é o ofício de Baltasar. Aliás, viu na guerra o que está vendo aqui, que para averiguar o que dentro há é sempre preciso um cutelo ou um pelouro, um machado ou o fio duma espada, uma faca ou uma bala, então se rasga a frágil pele, ainda mais dorida virgindade, os ossos aparecem, e as tripas, e com este sangue não vale a pena benzer-nos, porque não é de vida, sim de morte. São pensamentos confusos, que isto diriam se pudessem ser postos por ordem, aparados de excrescências, nem vale a pena perguntar, Em que estás a pensar, Sete-Sóis, porque ele responderia, julgando dizer a verdade, Em nada, e contudo já pensou tudo isto, e mais ainda que foi lembrar-se dos seus próprios ossos, brancos entre a carne rasgada, quando o levavam para a retaguarda, e depois a mão caída, arredada para o lado pelo pé do cirurgião, Venha outro,e aquele que aí vinha, coitado, bem pior iria ficar, se escapasse com vida, sem as duas pernas. Quer um conhecer os mistérios, e para quê, quando deveria bastar-lhe acordar de manhã e sentir, adormecida ou desperta, a mulher que veio com o tempo, o mesmo tempo que amanhã a levará, quem sabe se para outra cama, enxerga posta no chão, como esta, leito de embutidos e festões de ouro, que não faltam, dar e levar, trocar e trazer, e é loucura ou tentação do diabo perguntar-lhe, Por que comes tu pão, tendo fechados os olhos, se não o comendo és cega, não o comas para não veres tanto, Blimunda, porque ver como tu vês é a maior das tristezas, ou sentido que ainda não podemos suportar, E tu, Baltasar, em que pensas, Em nada, não penso em nada, nem sei se alguma vez pensei alguma coisa, Eh, Sete-Sóis, arrasta para aqui essa manta de toucinho.

Não dormiu ele, ela não dormiu. Amanheceu, e não se levantaram, Baltasar apenas para comer uns torresmos frios e beber um púcaro de vinho, mas depois tornou a deitar-se, Blimunda quieta, de olhos fechados, alargando o tempo do jejum para se lhe aguçarem as lancetas dos olhos, estiletes finíssimos quando enfim saírem para a luz do sol, porque este é o dia de ver, não o de olhar, que esse pouco é o que fazem os que, olhos tendo, são outra qualidade de cegos. Passou a manhã, foi hora de jantar, que é este o nome da refeição do meio-dia, não esqueçamos, e enfim levanta-se Blimunda, descidas as pálpebras, faz Baltasar a sua segunda refeição, ela para ver não come, ele nem assim veria, e depois saem de casa, o dia está tão sossegado que nem parece próprio para estes acontecimentos, Blimunda vai à frente, Baltasar atrás, para que o não veja ela, para que saiba ele o que ela vê, quando lho disser. E isto lhe diz, A mulher que está sentada no degrau daquela porta tem na barriga um filho varão, mas o menino leva duas voltas de cordão enroladas ao pescoço, tanto pode viver como morrer, a sabê-lo não chego, e este chão que pisamos tem por cima barro encarnado por baixo areia branca, depois areia preta, depois pedra cascalha, pedra granita; no mais fundo, e nela há um grande buraco cheio de água com o esqueleto de um peixe maior que o meu tamanho, e este velho que passa está como eu estou, de estômago vazio, mas vai-se-lhe a vista, é o contrário de mim, e aquele homem novo que me olhou tem o seu membro de homem apodrecido de venéreo, purgando como uma bica, enrolado em trapos, e apesar disso sorri, é a sua vaidade de homem que o faz olhar e sorrir, prouvera que não tenhas tu destas vaidades, Baltasar, e sempre te aproximes de mim limpo, e ali vai um frade que leva nas tripas uma bicha solitária que ele tem de sustentar comendo por dois ou três, por dois ou três comeria mesmo que a não tivesse, e agora vê aqueles homens e aquelas mulheres ajoelhados diante do nicho de S. Crispim, o que tu podes ver são persignações, o que tu podes ouvir são pancadas no peito, e as bofetadas que por penitência dão uns nos outros e a si próprios, mas eu vejo sacos de excrementos e de vermes, e ali uma nascida que vai estrangular a garganta daquele homem, não o sabe ele ainda, amanhã saberá, e será tão tarde como já é hoje, porque é sem remédio, E como hei-de eu acreditar que tudo isso é verdade, se tu vais explicando coisas que eu não posso ver com os meus olhos, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Faze com o teu espigão um buraco naquele lugar e encontrarás uma moeda de prata, e Baltasar fez o buraco e encontrou, Enganaste-te, Blimunda, a moeda é de ouro, Melhor para ti, e eu não deveria ter arriscado, porque sempre confundo a prata com o ouro, mas em ser moeda e valiosa acertei, que mais queres, tens a verdade e o lucro, e se a rainha por aqui passasse eu te diria que está outra vez prenha, mas que ainda é cedo para saber se ocupou de varão ou fêmea, já dizia minha mãe que a matriz das mulheres o mal é ter enchido uma vez, logo quer mais e sempre, e agora te digo que começou a mudar o quarto da lua, porque sinto os olhos a arderem-me e vejo umas sombras amarelas a passar diante deles, são como piolhos caminhando, remexendo as patas, e são amarelos, mordem-me os olhos, pela salvação da tua alma te peço, Baltasar, leva-me para casa, dá-me de comer, e deita-te comigo, porque aqui adiante de ti não te posso ver, e eu não te quero ver por dentro, só quero olhar para ti, cara escura e barbada, olhos cansados boca que é tão triste, mesmo quando estás ao meu lado deitado e me queres, leva-me para casa, que eu irei atrás de ti, mas com os olhos baixos, porque uma vez jurei que nunca te veria por dentro, e assim será, castigada seja eu se alguma vez o fizer.

Levantemos agora os nossos próprios olhos, que é tempo de ver o infante D.Francisco a espingardear, da janela do seu palácio, à beirinha do Tejo, os marinheiros que estão empoleirados nas vergas dos barcos, só para provar a boa pontaria que tem, e quando acerta e eles vão cair no convés, sangrando todos, um e outro morto, e se a bala errou não se livram de um braço partido, dá o infante palmas de irreprimível júbilo, enquanto os criados lhe carregam outra vez as armas, bem pode acontecer que este criado seja irmão daquele marinheiro, mas a esta distância nem sequer a voz do sangue é possível ouvir, outro tiro, outro grito e queda, e o contramestre não se atreve a mandar descer os marujos para não irritar sua alteza e porque, apesar das baixas, a manobra tem de ser feita e dizermos nós que ele não se atreve é ingenuidade de quem de longe está olhando, porque o mais certo é nem sequer pensar esta simples humanidade, Lá está aquele filho da puta a dar tiros nos meus marinheiros que vão para o mar a descobrir a Índia descoberta ou o Brasil encontrado, e em vez disso dá ordem para que venham lavar o convés, e sobre esta matéria não temos mais que dizer, que tudo viria a dar em repetição fastidiosa, afinal, se há-de o marinheiro levar um tiro fora da barra, de um corsário francês, melhor é que lho dêem aqui, morto ou ferido sempre está na sua terra, e por falarmos de corsário francês, vão os nossos olhos mais longe, lá no Rio de Janeiro, onde entrou uma armada daqueles inimigos, e não precisaram de dar um tiro, estavam os portugueses a dormir a sesta, tanto os do governo do mar como do governo da terra, e tendo os franceses fundeado a seu bel-prazer, desembarcaram, eles sim que parecia que estavam na sua terra, a prova foi que o governador deu logo ordem formal para que ninguém tirasse nada de casa, lá teria as suas boas razões, pelo menos as que o medo dá, tanto que os franceses deram eles saque a tudo o que encontraram, e com o que não fizeram recolher aos navios armaram uma venda no meio da praça, que não faltou quem ali fosse comprar o que roubado lhe fora uma hora antes, não pode haver maior desprezo, e deitaram fogo à casa do fisco, e foram aos matos, por denúncia de judeus, a desenterrar o ouro que certas pessoas principais tinham escondido, e isto sendo os franceses apenas dois ou três mil e os nossos dez mil, porém estava o governador feito com eles, não há mais que saber, que, entre portugueses traidores houve muitas vezes, ainda que nem tudo seja o que parece, por exemplo, aqueles soldados dos regimentos da Beira de quem dissemos que desertaram para o inimigo, não desertaram, antes foram para onde lhes dariam de comer, e outros houve que fugiram para as suas casas, se isso é traição, é o que está sempre a suceder, quem quiser soldados para entregar à morte há-de ao menos dar-lhes de comer e de vestir, enquanto estiverem vivos, e não andarem por aí descalços, sem trabalhos de marcha e disciplina, mais gostosos de pôr o próprio capitão na mira da espingarda do que de estropiar um castelhano do outro lado, e agora, se quisermos rir do que estes nossos olhos vêem, que a terra dá para tudo, consideremos o caso das trinta naus de França que já se disse estarem à vista de Peniche, ainda que não falte quem diga tê-las avistado no Algarve, que é perto, e na dúvida se guarneceram as torres do Tejo, e toda a marinha se pôs de olho alerta, até Santa Apolónia, como se as naus pudessem vir rio abaixo, de Santarém ou Tancos que isto de franceses é gente capaz de tudo, e estando nós tão pobrezinhos de barcos pedimos a uns navios ingleses e holandeses que aí estão e eles foram pôr-se na linha da barra, à espera do inimigo que há-de estar no espaço imaginário, já em tempos antes contados se deu aquele famoso caso da entrada dos bacalhaus, e agora veio-se a saber que eram vinhos comprados no Porto, e as naus francesas são afinal inglesas que andam no seu comércio, e de caminho vão-se rindo à nossa custa, bom prato somos para galhofas estrangeiras, que também as temos excelentes da nossa lavra, é bom que se diga, esta tão claramente vista à luz do dia que não foram precisos os olhos de Blimunda, e foi o caso que certo clérigo, costumeiro em andar por casas de mulheres de bem fazer e ainda melhor deixar que lhes façam, satisfazendo os apetites do estômago e desenfadando os da carne, e sempre pontualmente dizendo sua missa, quando lá lhe parecia alçava levando os bens que lhe estavam à mão, e tantas fez que um dia a ofendida, a quem muito mais se tirara fio que o tudo que dera, tirou ela ordem de prisão, e indo os oficiais e agarradores a cumpri-la por ordem do corregedor do bairro, a uma casa onde o clérigo já estava vivendo com outras inocentes mulheres, entraram, mas tão desatentos à obrigação que não deram com ele, que estava metido numa cama, e foram a outra onde lhes pareceu que estaria, assim dando vaza para que o padre saltasse, nu em pêlo, e, disparando escada abaixo, a murro e pontapé limpou o caminho, ficaram gemendo os quadrilheiros pretos, mas conforme puderam, cainçando, correram atrás do padre pugilista e garanhão, que já lá ia pela Rua dos Espingardeiros, e eram isto oito horas da manhã, começava bem o dia, gargalhadas pelas portas e janelas, ver o clérigo a correr como lebre, com os pretos atrás, e ele de verga tesa, e bem apeirado, benza-o Deus, que um homem tão dotado o lugar dele não é a servir nos altares mas na cama de serviço às mulheres, e com este espectáculo padeceram grande abalo as senhoras moradoras, coitadas, assim desprevenidas, como desprevenidas e isentas estariam as que se achavam rezando na igreja da Conceição Velha e viram entrar o padre resfolgando, em figura de inocente Adão, mas tão carregado de culpas, sacudindo badalo e guisos, à uma apareceu, às duas se escondeu, às três nunca mais foi visto, que nesse passe de mágica deu a diligência dos padres que o recolheram e deram fuga pelos telhados, já vestido, nem isto é sucesso que cause estranheza, se em cestos içam os franciscanos de Xabregas mulheres para dentro das celas e com elas se gozam, por seu próprio pé subia este padre a casa das mulheres que lhe apeteciam o sacramento, e para não fugirmos ao costumado fica tudo entre o pecado e a penitência, que não é só na procissão da Quaresma que saem à rua as disciplinas excitantes, quantos maus pensamentos hão-de ter de confessar as senhoras moradoras da baixa de Lisboa e as devotas da Conceição Velha por tão rico padre terem gozado com a vista, e os quadrilheiros atrás dele, agarra, agarra, quem pudera agarrá-lo para uma coisa que eu cá sei, dez padre-nossos, dez salve-rainhas, e dez réis de esmola ao nosso padre Santo António, e, estar deitada uma hora inteira, com os braços em cruz, de barriga para baixo como à prosternação convém, de barriga para cima que é posição de mais celestial gozo, mas sempre levantando os pensamentos, não as saias, que isso ficará para o próximo pecado.

Usa cada qual os olhos que tem para ver o que pode ou lhe consentem, ou apenas parte pequena do que desejaria, quando não é por simples obra de acaso, como Baltasar, que por trabalhar no açougue veio com os mais moços de carga e cortadores ao terreiro, a ver chegar o cardeal D. Nuno da Cunha que vai receber o chapéu das mãos de el-rei, acompanha-o o enviado do papa numa liteira toda forrada de veludo carmesim com passaranes de ouro, dourados também os painéis, e ricamente, com as armas cardinalícias de um lado e do outro, traz um coche de respeito, que não leva ninguém dentro, só o respeito, mais uma estufa para o estribeiro e para o secretário doméstico, e também o capelão que leva a cauda quando a cauda tem de ser levada, e vêm dois coches castelhanos a deitar por fora capelães e pagens, e à frente da liteira doze lacaios, que somando a isto tudo os cocheiros e liteireiros é uma multidão para servir um cardeal só, quase íamos esquecendo o criado que lá vai adiante com a maça de prata, lembrou a tempo, feliz povo este que se regala de tais festas e desce à rua para ver desfilar a nobreza toda, que primeiramente foi a casa do cardeal buscá-lo, depois o vem acompanhando até ao paço, aonde já Baltasar não pode ir nem entram os olhos que tem, mas conhecendo nós as artes de Blimunda, imaginemos que ela aqui está, veremos o cardeal subindo por entre fileiras de guardas, e entrando na última casa do dossel sai el-rei a recebê-lo e ele lhe deu água benta, e na casa seguinte ajoelha el-rei numa almofada de veludo, e o cardeal noutra, mais atrás, diante de um altar ricamente armado, onde logo diz missa um capelão do paço, com todas as cerimónias, e acabada ela tira o enviado do papa o breve de nomeação e o entrega a el-rei que o recebe e devolve para que o leia, por assim determinar o protocolo, não porque el-rei não tenha seus fumos de latinista, feito o que recebe el-rei das mãos do enviado o barrete cardinalício e o põe na cabeça do cardeal, esmagado de cristã humildade claro está, que são cargas demasiadas para um pobre homem ser assim íntimo de Deus, mas não terminaram ainda as zumbaias, primeiro foi o cardeal mudar de roupas, e agora reaparece todo de vermelho vestido, como é próprio da sua dignidade, torna a entrar para falar a el-rei, este debaixo do dossel, por duas vezes tira e põe o barrete, por duas vezes faz el-rei o mesmo com o seu chapéu, e à terceira dá quatro passos a recebê-lo, enfim se cobrem ambos, e sentados, um mais acima, outro mais abaixo, dizem algumas poucas palavras, ditas já foram, são horas de despedir, tira chapéu, põe chapéu, mas dali ainda o cardeal vai ao quarto da rainha, onde as continências se repetem, ponto por ponto, até que enfim desce o cardeal à capela onde se vai cantar o Te Deum laudamus, louvado seja Deus que tem de aturar estas invenções.

Chegando a casa, conta Baltasar o que viu .a Blimunda, e como se anunciaram luminárias descem ao Rossio depois de cear, mas as tochas são poucas desta vez, ou o vento as apagou, o que importa é que já lá tem o cardeal o seu barrete, dormirá com ele à cabeceira, e se a meio da noite se levantar da cama para o contemplar sem testemunhas, não recriminemos este príncipe da Igreja porque todos somos homens pela banda do orgulho, e um barrete de cardeal, vindo por mão própria de Roma e de propósito feito, se não anda aqui experimentação maliciosa da modéstia dos grandes, é porque afinal merece inteira confiança a humildade deles, humildes realmente são se lavam pés a pobres, como fez e fará o cardeal, como fizeram e farão o rei e a rainha, ora tem Baltasar as solas rotas e os pés sujos, primeira condição para que o cardeal ou rei se ajoelhem um dia diante dele, com toalhas de linho, bacias de prata e água-de-rosas, desde que a outra condição Baltasar satisfaça, que é a de ser ainda mais pobre do que até agora conseguiu ser, e à condição terceira, que é escolherem-no por virtuoso e cliente da virtude. Da tença que pediu, ainda não há sinal, de pouco têm servido as instâncias do padre Bartolomeu Lourenço, seu padrinho, do açougue o mandarão embora não tarda, por qualquer pretexto, mas lá estão os caldos da portaria, as esmolas das irmandades, é difícil morrer de fome em Lisboa, e este povo habituou-se a viver com pouco. Entretanto, nasceu o infante D. Pedro, que por vir segundo só teve quatro bispos a baptizá-lo, mas ficou a ganhar por ter sido parte no baptismo o cardeal, que ao tempo da sua mana ainda não havia, e veio notícia de que no cerco de Campo Maior morreram muitos soldados inimigos e poucos dos nossos, se amanhã não se disser que foram muitos dos nossos e poucos dos deles, ou ela por ela, que é o que virão a dar as contas quando, ao ir acabar-se o mundo, se contarem os mortos de todos os lados. Baltasar conta a Blimunda casos da sua guerra, e ela segura-lhe o gancho do braço esquerdo como se a verdadeira mão segurasse, é o que ele está sentindo, a memória da sua pele sentindo a pele de Blimunda.

El-rei foi a Mafra escolher o sítio onde há-de ser levantado o convento. Ficará neste alto a que chamam da Vela, daqui se vê o mar, correm águas abundantes e dulcíssimas para o futuro pomar e horta, que não hão-de os franciscanos de cá ser de menos que os cistercienses de Alcobaça em primores de cultivo, a S. Francisco de Assis lhe bastaria um ermo, mas esse era santo e está morto. Oremos.

Capítulo IX

Outro ferro anda agora no alforge de Sete-Sóis, é a chave da quinta do duque de Aveiro, que tendo vindo ao padre Bartolomeu Lourenço os falados ímanes, mas ainda não as substâncias de que faz segredo, podia enfim adiantar-se a construção da máquina de voar e pôr-se em obra material o contrato que fazia de Baltasar a mão direita do Voador, já que a esquerda não era precisa, tão pouco que o próprio Deus a não tem, consoante declarou o padre, que estudou essas reservadas matérias e há-de saber o que diz. E sendo a Costa do Castelo longe de S. Sebastião da Pedreira, de mais para ir e vir todos os dias, decidiu Blimunda que deixaria a casa para estar onde estivesse Sete-Sóis. Não era a perda grande, um telhado e três paredes inseguras, solidíssima a quarta por ser a muralha do castelo, há tantos séculos implantada, se ninguém por ali passar e disser, Olha uma casa vazia, e dizendo, nela não se instalar, um ano não tardará que as paredes abatam, e o telhado, e então ficarão apenas alguns adobes partidos ou desfeitos em terra no lugar onde viveu Sebastiana Maria de Jesus e onde abriu Blimunda pela primeira vez os olhos para o espectáculo do mundo, porque em jejum nasceu.

Sendo os haveres tão poucos, uma viagem chegou para transportar, à cabeça de Blimunda e às costas de Baltasar, a trouxa e o atado a que se resumiu tudo. Descansaram aqui e além no caminho, calados, nem tinham que dizer, se até uma simples palavra sobra se é a vida que está mudando, muito mais que estarmos nós mudando nela. Quanto à leveza do fardo, assim deveria ser de cada vez levarem consigo mulher e homem o que têm, e cada um deles ao outro, para não terem de tornar subir os mesmos passos, é sempre tempo perdido, e basta.

Num canto da abegoaria desenrolaram a enxerga e a esteira, aos pés delas encostaram o escano, fronteira a arca, como os limites de um novo território, raia traçada no chão e em panos levantada, suspensos estes de um arame, para que isto seja de facto uma casa e nela possamos encontrar-nos sós quando estivermos sozinhos. Em vindo o padre Bartolomeu Lourenço, poderá Blimunda, se não tem trabalhos de lavar ou cozinhar que ao tanque a levem ou ao forno a retenham, ou se não prefere assistir a Baltasar passando-lhe o martelo ou a turquês, a ponta do arame ou o feixe de vime, poderá Blimunda estar no seu resguardo de mulher de casa, que às vezes até a mais habituais aventureiras apetece, ainda quando não seja a aventura tanta como a que por derradeiro aqui se promete. Servem também os panos pendurados ao acto da confissão, posto o confessor deste lado de fora, postos os confitentes, um de cada vez, do lado de dentro, precisamente onde constantes pecados de luxúria ambos cometem, além de serem concubinos, se não é pior a palavra que a situação, aliás facilmente absolvida pelo padre Bartolomeu Lourenço que tem diante dos próprios olhos um maior pecado seu aquele de orgulho e ambição de fazer levantar um dia aos ares, aonde até hoje apenas subiram Cristo a Virgem e alguns escolhidos santos, estas espalhadas partes que trabalhosamente Baltasar vai conjugando, enquanto Blimunda diz do outro lado do pano, em voz alta bastante para que Sete-Sóis a ouça, Não tenho pecados a confessar.

Para o dever da missa não faltariam igrejas perto, a dos agostinhos descalços, por exemplo, que é a mais cerca, mas se o padre Bartolomeu Lourenço, como acontece, tem obrigações do seu ministério ou atenções e serviços na corte que o ocupem mais que o costumado de quem aqui nem precisaria vir todos os dias, se não acode o padre a espevitar o fogo da alma cristã que sem dúvida habita Blimunda e Baltasar, ele com os seus ferros, ela com o seu lume e a sua água, ambos com a ardência que os lança sobre a enxerga, não é raro esquecerem o sacrifício divino e do esquecimento não ficarem repesos, com o que passa a ser lícito duvidar se finalmente é cristã a suposta alma de ambos. Vivem dentro da abegoaria, ou saem a tomar o sol, cerca-os a grande quinta abandonada onde as árvores de fruto vão regressando à braveza natural, as silvas cobrindo os caminhos, e no lugar da horta encrespam-se florestas de milhãs e figueiras-do-inferno, mas já Baltasar, com a foice, rapou a maior, e Blimunda, com o enxadão, cortou e pôs ao sol as raízes, havendo tempo ainda esta terra dará alguma coisa do que deve ao trabalho. Mas também não faltam lazeres, por isso, quando a comichão aperta, Baltasar pousa a cabeça no regaço de Blimunda e ela catalhe os bichos, que não é de espantar terem-nos os apaixonados e os construtores de aeronaves, se tal palavra já se diz nestas épocas, como se vai dizendo armistício em vez de pazes. Blimunda é que não tem quem a cate. Faz Baltasar o que pode, mas se lhe chegam mãos e dedos para filar o insecto, faltam-lhe dedos e mão que segurem os pesados, espessos cabelos de Blimunda, cor de mel sombrio, que mal ele os afasta logo regressam, e assim escondem a caça. A vida dá para todos.

Nem sempre o trabalho corre bem. Não é verdade que a mão esquerda não faça falta. Se Deus pode viver sem ela, é porque é Deus, um homem precisa das duas mãos, uma mão lava a outra, as duas lavam o rosto, quantas vezes já teve Blimunda de vir limpar o sujo que ficou agarrado às costas da mão e doutro modo não sairia, são os desastres da guerra, mínimos estes, porque muitos outros soldados houve que ficaram sem os dois braços, ou as duas pernas, ou as suas partes de homem, e não têm Blimunda para ajudá-los ou por isso mesmo a deixaram de ter. É excelente o gancho para travar uma lâmina de ferro ou torcer um vime, é infalível o espigão para abrir olhais no pano de vela. mas as coisas obedecem mal quando lhes falta a carícia da pele humana, cuidam que se sumiram os homens a quem se habituaram, é o desconcerto do mundo. Por isso Blimunda vem ajudar, e, chegando ela, acaba-se a rebelião, Ainda bem que vieste, diz Baltasar, ou sentem-no as coisas, não se sabe ao certo.

Uma vez por outra, Blimunda levanta-se mais cedo, antes de comer o pão de todas as manhãs, e, deslizando ao longo da parede para evitar pôr os olhos em Baltasar afasta o pano e vai inspeccionar a obra feita, descobrir a fraqueza escondida do entrançado, a bolha de ar no interior do ferro, e, acabada a vistoria, fica enfim a mastigar o alimento, pouco a pouco se tornando tão cega como a outra gente que só pode ver o que à vista está. Quando isto fez pela primeira vez e Baltasar depois disse ao padre Bartolomeu Lourenço, Este ferro não serve, tem uma racha por dentro, Como é que sabes, Foi Blimunda que viu, o padre virou-se para ela, sorriu, olhou um e olhou outro, e declarou,


Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras
, e, assim, Blimunda que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem baptizada estava, que o baptismo foi de padre, não alcunha de qualquer um. Dormiram nessa noite os sóis e as luas abraçados, enquanto as estrelas giravam devagar no céu, Lua onde estás, Sol aonde vais.

Quando calha, vem o padre Bartolomeu Lourenço experimentar aqui os sermões que compôs, pela bondade do eco que as paredes têm, o bastante apenas para ficar redonda a palavra, sem a ressonância excessiva que encavala os sons e acaba por empastar o sentido. Assim é que deviam soar as imprecações dos profetas no deserto ou nas praças públicas, lugares sem paredes ou que as não têm próximas, e por isso inocentes das leis da acústica, está a graça no órgão que profere a palavra, não nos ouvidos que a ouvem ou nos muros que a devolvem. Porém, esta religião é de oratório mimoso, com anjos carnudos e santos arrebatados e muitas agitações de túnica, roliços braços, coxas adivinhadas, peitos que arredondam, revirações dos olhos, tanto está sofrendo quem goza como está gozando quem sofre, por isso é que não vão os caminhos dar todos a Roma, mas ao corpo. Esforça-se o padre na oratória, tanto mais que logo li está quem o ouça, mas, ou por efeito intimidativo da passarola ou por frieza egoísta dos auditores, ou por faltar o ambiente eclesial, as palavras não voam, não retumbam, enredam-se umas pelas outras, parece impróprio que tenha o padre Bartolomeu Lourenço tão grande fama de orador sacro, ao ponto de o terem comparado ao padre António Vieira, que Deus haja e o Santo Ofício houve. Aqui ensaiou o padre Bartolomeu Lourenço o sermão que foi pregar a Salvaterra de Magos, estando lá el-rei e a corte, aqui está provando agora o que pregará na festa dos desponsórios de S. José, que lho encomendaram os dominicanos, afinal não lhe desaproveita muito a fama que tem de voador e extravagante, que até os filhos de S. Domingos o requestam, de el-rei não falemos, que sendo tão moço ainda gosta de brinquedos, por isso protege o padre, por isso se diverte tanto com as freiras nos mosteiros e as vai emprenhando, uma após outra, ou várias ao mesmo tempo, que quando acabar a sua história se hão-de contar por dezenas os filhos assim arranjados, coitada da rainha, que seria dela se não fosse o seu confessor António Stieff, jesuíta, por lhe ensinar resignação, e os sonhos em que lhe aparece o infante D. Francisco com marinheiros mortos pendurados dos arções das mulas, e que seria do padre Bartolomeu Lourenço se aqui entrassem os dominicanos que o sermão lhe encomendaram, e dessem com esta passarola, este maneta, esta feiticeira, este pregador a burilar palavras e talvez a esconder pensamentos, que esses não os veria Blimunda nem que jejuasse um ano inteiro.

Acaba o padre Bartolomeu Lourenço de dizer o sermão, nem quer saber do seu religioso efeito, só pergunta alheado, Então, gostaram, e os outros depois respondem, Lá isso, gostámos, sim senhor, mas este é um falar dos dentes para fora, que o coração não dá mostras de ter entendido o que ouviu, e se o coração não entendeu, não chega a ser mentira o falar da boca, mas sim ausência. Recomeçou Baltasar a bater nos seus ferros, Blimunda varreu para o pátio os fragmentos de vime que não serviam, pelo empenho pareciam dois trabalhos urgentes, mas o padre disse de súbito, como quem não pode segurar mais uma preocupação, Assim nunca chegarei a voar, disse-o em voz cansada, e fez um gesto de tão fundo desânimo que Baltasar teve a instantânea percepção da inutilidade do que estava fazendo, por isso largou o martelo, mas querendo emendar o que podia ser tomado por renúncia, disse, Temos de construir aqui uma forja, temperar os ferros se não até o peso da passarola os fará vergar, e o padre respondeu, Não se me dá que verguem ou não o caso é que ela voasse, e assim não pode voar se lhe falta o éter, Que é isso, perguntou Blimunda, É o onde se suspendem as estrelas, E como se há-de ele trazer para cá, perguntou Baltasar, Pelas artes da alquimia, em que não sou hábil, mas sobre isto não dirão nunca uma palavra, suceda o que suceder, Então como faremos, Partirei leve para a Holanda, que é terra de muitos sábios, e lá aprenderei a arte de fazer descer o éter do espaço, de modo a introduzi-lo nas esferas, porque sem ele nunca a máquina voará, Que virtude é essa do éter, perguntou Blimunda, É ser parte da virtude geral que atrai os seres e os corpos, e até as coisas inanimadas, se os libertam do peso da terra, para o sol, Diga isso por palavras que eu perceba, padre, Para que a máquina se levante ao ar, é preciso que o sol atraia o âmbar que há-de estar preso nos arames do tecto, o qual, por sua vez, atrairá o éter que teremos introduzido dentro das esferas, o qual, por sua vez, atrairá os ímanes que estarão por baixo, os quais, por sua vez, atrairão as lamelas de ferro de que se compõe o cavername da barca, e então subiremos ao ar, com o vento, ou com o sopro dos foles, se o vento faltar, mas torno a dizer, faltando o éter, falta-nos tudo. E Blimunda disse, Se o sol atrai o âmbar, e o âmbar atrai o éter, e o éter atrai o íman, e o íman atrai o ferro, a máquina irá sendo puxada para o sol, sem parar. Fez uma pausa e perguntou como se falasse consigo própria, Que será o sol por dentro. Disse o padre, Não iremos ter ao sol, para o evitar lá estarão as velas de cima, que podemos abrir e fechar à vontade, de sorte que pararemos na altura que quisermos. Fez uma pausa também, e rematou, Quanto a saber como será o sol por dentro, levante-se da terra a máquina e o resto virá por acréscimo, querendo nós e não o contrariando insuportavelmente Deus.

É contudo um tempo de contrariedades. Agora sairão as freiras de Santa Mónica em extrema indignação, insubordinando-se contra as ordens de el-rei de que só pudessem falar nos conventos a seus pais, filhos, irmãos e parentes até segundo grau, com o que pretende sua majestade pôr cobro ao escândalo de que são causa os freiráticos, nobres e não nobres, que frequentam as esposas do Senhor e as deixam grávidas no tempo de uma ave-maria, que o faça D. João V, só lhe fica bem, mas não um joão-qualquer ou um josé-ninguém. Acudiu o provincial da Graça, querendo reduzi-las ao sossego e ao acatamento da real vontade, sob pena de excomunhão se a quebrassem, mas elas num rompante se amotinaram, trezentas mulheres catolicamente enfurecidas por assim as cortarem do mundo, primeira vez o fizeram, segunda vez tornam, agora se verá como forçam portas frágeis mãos femininas, e já saem as freiras, trazem consigo violentamente a madre prioresa, vêm com sua cruz alçada, em procissão pela rua fora, até que ao encontro lhes sai a comunidade dos frades da Graça e lhes rogam que, pelas Cinco Chagas, detenham o motim, e aí temos armado um santo colóquio entre frades e freiras, disputando cada qual suas razões, e foi ele caso que correu o corregedor do crime a el-rei, se havia ou não de suspender-se a ordem, e entre ir, chegar e debater o sucesso se passou a manhã, que, para começar-lhes o dia cedo, de madrugada se tinham levantado as protestativas, e enquanto o corregedor não volta, corregedor vai, corregedor vem, ficaram por ali as freiras, sentadinhas no chão natural as mais vetustas, alertas e vivíssimas as da última safra, a apanhar o bom solzinho da estação que faz subir os corações, olhando quem ia de passagem e por curiosidade parava, que pratos destes não os temos todos os dias, e conversando com quem bem apetecia, em modo de ali se terem fortalecido laços com proibidos visitantes que sabendo acorreram, e em acordos, requebros, horas combinadas, palavras de passe, sinais de dedos ou lencinho foi correndo o tempo até ao meio-dia, e porque enfim estava o corpo querendo alimento, ali mesmo comeram dos doces que traziam nos alforges, quem vai à guerra empadas leva, e ao cabo desta manifestação chegou contra-ordem do paço, que tudo voltava à moralidade primeira, posto o que recolheram vitoriosas as freiras a Santa Mónica entoando jubilosos cantos, ainda por cima consoladas com a absolvição do provincial que a mandou por portador, não em pessoa, porque bem podia apanhá-lo uma bala perdida, que isto de freiras amotinadas é a pior das batalhas. Metem, quantas vezes forçadamente, estas mulheres em reclusão conventual, aí ficas, por esta forma aliviando partições de heranças, favorecendo o morgadio e outros irmãos varões, e, estando assim presas, até o simples apertar de dedos à grade querem recusar-lhes, o clandestino encontro, o suave contacto, a doce carícia, mesmo trazendo ela tantas vezes consigo o inferno, abençoado seja. Porque, enfim, se o sol atrai o âmbar e o mundo a carne, alguém haverá de ganhar alguma coisa com isso, nem que seja para aproveitar os restos daqueles que nasceram para cobrar tudo.

Outra contrariedade esperada é o auto-de-fé, não para a Igreja, que dele aproveita em reforço piedoso e outras utilidades, nem para el-rei que, tendo saído no auto senhores. de engenho brasileiros, aproveita da fazenda deles, mas para quem leva seus açoites, ou vai degredado, ou é queimado na fogueira, vá lá que desta vez saiu relaxada em carne só uma mulher, não será muito o trabalho de lhe pintar o retrato na igreja de S. Domingos, ao lado de outros chamuscados, assados, dispersos e varridos, que parece impossível como não serve de escarmento a uns o suplício de tantos, porventura gostarão os homens de sofrer ou estimam mais a convicção do espírito do que a preservação do corpo, Deus não sabia no que se metia quando criou Adão e Eva. Que se há-de dizer, por exemplo, desta freira professa, que era afinal judia, e foi condenada a cárcere e hábito perpétuo, e também esta preta de Angola, caso novo, que veio do Rio de Janeiro com culpas de judaísmo, e este mercador do Algarve que afirmava que cada um se salva na lei que segue, porque todas são iguais, e tanto vale Cristo como Mafoma, o Evangelho como a Cabala, o doce como oamargo, o pecado como a virtude, e este mulato da Caparica que se chama Manuel Mateus, mas não é parente de Sete-Sóis, e tem por alcunha Saramago, sabe-se lá que descendência a sua será, e que saiu penitenciado por culpas de insigne feiticeiro, com mais três moças que diziam pela mesma cartilha, que se dirá de todos estes e de mais cento e trinta que no auto saíram, muitos irão fazer companhia à mãe de Blimunda, quem sabe se ainda está viva.

Sete-Sóis e Sete-Luas, se nome tão belo lhe puseram, bom é que o use, não desceram de S. Sebastião da Pedreira ao Rossio para ver o auto-de-fé, mas não faltou o povo geral à festa, e de alguns que lá estiveram, mais os registos que sempre ficam apesar de incêndios e terramotos, ficou memória do que viram e a quem viram, queimados ou penitentes, a preta de Angola, o mulato da Caparica, a freira judia, os religiosos que diziam missa, confessavam e pregavam sem terem ordens para tal, o juiz de fora de Arraiolos compartes de cristão-novo por ambas as vias, ao todo cento e trinta e sete pessoas, que o Santo Ofício, podendo, lança as redes ao mundo e trá-las cheias, assim peculiarmente praticando a boa lição de Cristo quando a Pedro disse que o queria pescador de homens.

A grande tristeza de Baltasar e Blimunda é não haver uma rede que possa ser lançada até às estrelas e trazer de lá o éter que as sustenta, conforme afirma o padre Bartolomeu Lourenço, que vai partir um destes dias e não sabe quando volta. A passarola, que parecia um castelo a levantar-se, é agora uma torre em ruínas, uma babel cortada a meio voo, cordas, panos, arames, ferros confundidos, nem sequer ficou a consolação de abrir a arca e contemplar o desenho, porque já o padre o leva na sua bagagem, amanhã partirá, vai por mar e sem maior risco que o natural de viagens, porque finalmente foram as pazes com a França apregoadas, com solene procissão de juizes, corregedores e meirinhos, todos muito bem montados, e atrás os trombeteiros, de trombetas bastardas, depois os porteiros do paço com as suas maças de prata ao ombro, e por fim sete reis-de-armas, com as sobrevestiduras ricas, e o último deles levava na mão um papel, que era o pregão das pazes, primeiramente lido no Terreiro do Paço, debaixo das janelas onde estavam as majestades e altezas à vista do mar de povo que enchia a praça, formada a companhia da guarda, e, depois de deitado aqui o pregão, foram deitá-lo outra vez ao adro da Sé e dali terceiro ao Rossio, no adro do hospital, enfim estas pazes com a França estão feitas, agora venham as outras com os mais países, Mas nenhumas me tornam a dar a mão que perdi, diz Baltasar, Deixa lá, tu e eu temos três mãos, isto responde Blimunda.

Deitou o padre Bartolomeu Lourenço a bênção ao soldado e à vidente, eles beijaram-lhe a mão, mas no último momento se abraçaram os três, teve mais força a amizade que o respeito, e o padre disse, Adeus Blimunda, adeus Baltasar, cuidem um do outro e da passarola, que eu voltarei um dia com o que vou buscar, não será ouro nem diamante, mas sim o ar que Deus respira, guardarás a chave que te dei, e como vão partir para Mafra, lembra-te de vir aqui de vez em quando ver como está a máquina, podes entrar e sair sem receio, que a quinta confiou-ma el-rei e ele sabe o que nela está, e tendo dito, montou na mula e partiu.

Já lá vai pelo mar fora o padre Bartolomeu Lourenço, e nós que iremos fazer agora, sem a próxima esperança do céu, pois vamos às touradas, que é bem bom divertimento, Em Mafra nunca as houve, diz Baltasar, e, não chegando o dinheiro para os quatro dias da função, que este ano foi arrematado caro o chão do Terreiro do Paço, iremos ao último, que é o fim da festa com palanques ao redor todo da praça, até do lado do rio, que mal se vêem as pontas das vergas dos barcos além fundeados, arranjaram bons lugares Sete-Sóis e Blimunda, e não foi por chegarem mais cedo que os outros, mas porque um gancho de ferro, na ponta de um braço, abre caminho tão fácil como a colubrina que veio da Índia e está na torre de S. Gião, sente um homem tocarem-lhe nas costas, volta-se para trás, é como se tivesse a boca de fogo apontada à cara. A praça está toda rodeada de mastros, com bandeirinhas no alto e cobertos de volantes até ao chão, que adejam com a brisa, e à entrada do curro armou-se um pórtico de madeira, pintada como se fosse mármore branco, e as colunas fingindo pedra da Arrábida, com os frisos e cornijas dourados. Ao mastro principal sustentam-no quatro grandíssimas figuras, pintadas de várias cores e sem avareza de ouro, e a bandeira, de folha-de-flandres, mostra de um lado e do outro o glorioso Santo António sobre campos de prata, e as guarnições são igualmente douradas, com um grande penacho de plumas de muitas cores, tão bem pintadas que parecem naturais e verdadeiras, com que se remata o varão da bandeira. Estão as bancadas e os terrados formigando de povo, reservadamente acomodadas as pessoas principais, e as majestades e altezas miram das janelas do paço, por enquanto ainda andam os aguadores a aguar a praça, oitenta homens vestidos à mourisca, com as armas do Senado de Lisboa bordadas nas opas que trazem vestidas, impacienta-se o povinho que quer ver sair os touros, já se foram embora as danças, e agora retiraram-se os aguadores, ficou o terreiro um brinco, cheirando a terra molhada, parece que o mundo se acabou agora mesmo de criar, esperem-lhe pela pancada, não tardam aí o sangue e a urina, e as bostas dos touros, e os benicos dos cavalos, e se algum homem se borrar de medo oxalá o amparem as bragas, para não fazer má figura diante do povo de Lisboa e de D. João V.

Entrou o primeiro touro, entrou o segundo, entrou o terceiro, vieram os dezoito toureiros de pé que o Senado contratou em Castela a peso de muito dinheiro, e os cavaleiros saíram à praça, espetaram as suas lanças, e os de pé cravaram dardos enfeitados de papéis recortados, e aquele cavaleiro a quem o touro desfeiteou, fazendo-lhe cair o manto, atira o cavalo contra o animal e fere-o à espada, que é o modo de vingar a honra manchada. E entram o quarto touro, o quinto, o sexto, entraram já dez, ou doze, ou quinze, ou vinte, é uma sangueira por todo o terreiro, as damas riem, dão gritinhos, batem palmas, são as janelas como ramos de flores, e os touros morrem uns após outros e são levados para fora numa carroça de rodas baixas puxada a seis cavalos, como só para gente real ou de grande título se usa, o que, se não prova a realeza e a dignidade dos touros, está mostrando quanto eles são pesados, digam-no os cavalos, aliás bonitos e luzidamente aparelhados, encabuzados de veludo carmesim lavrado, com as mantas franjadas de prata falsa, assim como as cabeçadas e cobertas de pescoço, e lá vai o touro crivado de flechas, esburacado de lançadas, arrastando pelo chão as tripas, os homens em delírio apalpam as mulheres delirantes, e elas esfregam-se por eles sem disfarce, nem Blimunda é excepção, e por que havia de o ser, toda apertada contra Baltasar, sobe-lhe à cabeça o sangue que vê derramar-se, as fontes abertas nos flancos dos touros, manando a morte viva que faz andar a cabeça à roda, mas a imagem que se fixa e arrefece os olhos é a cabeça descaída de um touro, a boca aberta, a língua grossa pendendo, que já não ceifará áspera, a erva dos campos, ou só os pastos de fumo do outro mundo dos touros, como haveremos de saber se inferno ou paraíso.

Paraíso será, se justiça houver, nem pode haver inferno depois do que sofrem estes, os das mantas de fogo que são umas capas grossas, em camadas, recheadas de várias ordens de foguetes, e pelas duas pontas delas se lhes chega o lume, e então começa a manta a arder, e os foguetes rebentam, por largo espaço vão rebentando, estouram e resplandecem por toda a praça, é como assar o touro em vida, e assim vai o animal correndo o terreiro, louco e furioso, saltando e bramindo, enquanto D. João V e o seu povo aplaudem a mísera morte, que nem o touro, ao menos, se pode defender e morrer matando. Cheira a carne queimada, mas é um cheiro que não ofende estes narizes, habituados que estão ao churrasco do auto-de-fé, e ainda assim vai o boi ao prato, sempre é um final proveito, que do judeu só ficam os bens que cá deixou.

Trazem agora umas figuras de barro pintadas, de maior tamanho que o natural de homens citando de braços levantados, e põem-nas no meio do terreiro, que número será este, pergunta quem nunca viu, talvez descansassem da carnificina os olhos, enfim, se as figuras são de barro, o pior que pode sair disto é um monte de cacos, que depois terão de varrer tudo, está a festa estragada, é o que é, dizem os cépticos e os violentos, venha outra manta de fogo para rirmos todos e el-rei, não são assim tantas as ocasiões em que podemos rir juntos, e neste instante saem do curro dois touros que, pasmados, dão com a praça deserta, só aqueles manipanços de braços alevantados e sem pernas, redondos de bojo e sarapintados como demónios, nestes vingaremos todas as ofensas sofridas, e os touros investem, rebentam-se os potes com surdo estrondo e de dentro saem dezenas de coelhos espavoridos, correndo à disparada por todos os lados, perseguidos e mortos a porrete pelos capinha e outros homens que saltaram à praça, um olho no bicho que foge, outro no bicho que marra, enquanto o povo ri em gargalhadas estentóreas, de gente excessiva, subitamente mudam os clamores de tom porque de dois outros bonecos de barro, agora despedaçados, saem estalando bruscamente as asas bandos de pombas, desorientadas pelo choque, feridas pela luz crua, algumas perdem o sentido do voo, não conseguem ganhar altura e vão esbarrar com os altos palanques onde caem em mãos sôfregas, não tanto por mira do salubre petisco que é o pombo estufado, mas para ler a quadra que vai escrita num papel atado ao pescoço da ave, como são estes exemplos, Eu tinha uma ruim prisão e que de boa escapei, mas aqui ditosa serei, se for dar em certa mão, Aqui me traz minha pena com bastante sobressalto, porque quem voa mais alto, a mais queda se condena, Ora já estou descansada, e se hei-de morrer enfim, Deus, que o determina assim, me mate com gente honrada, Eu venho fugindo aos tombos dos que por matar-me morrem, que aqui, quando touros correm, também querem correr pombos, porém nem todos, que alguns abrem voos circulares, escapam ao vórtice das mãos e dos gritos, e sobem, sobem, acertam o bater das asas, colhem nas alturas a luz do sol, e quando se afastam, por cima dos telhados, são como pássaros de ouro.

Na madrugada seguinte, ainda noite, Baltasar e Blimunda, sem outro carrego que uma trouxa de roupa e alguma comida no alforge, saíram de Lisboa para Mafra.

Capítulo X

Regressou o filho pródigo, trouxe mulher, e, se não vem de mãos vazias, é porque uma lhe ficou no campo de batalha e a outra segura a mão de Blimunda, se vem mais rico ou mais pobre não é coisa que se pergunte, pois todo o homem sabe o que tem, mas não sabe o que isso vale. Quando Baltasar empurrou a porta e apareceu à mãe, Marta Maria, que é o seu nome, abraçou-se ao filho, abraçou-o com uma força que parecia de homem e era só do coração. Estava Baltasar com o seu gancho posto, e era um dó de alma, uma aflição ver sobre o ombro da mulher um ferro torcido em vez da concha que os dedos fazem, acompanhando o contorno do que cingem, amparo que o será tanto mais, quanto mais se amparar. O pai não estava em casa, andava no trabalho do campo, a irmã de Baltasar, única, casou-se e já tem dois filhos, chama-se Álvaro Pedreiro o homem dela, puseram-lhe o ofício no nome, caso não raro, que razões teria havido, e em que tempos, para que a alguns tivesse sido dado, ainda que só de alcunha, o apelido de Sete-Sóis. Não passara Blimunda de entreportas, à espera da sua vez, e a velha não a via, mais baixa que o filho, além de estar a casa muito escura. Moveu-se Baltasar para deixar ver Blimunda, era o que ele pensava, mas Marta Maria viu primeiro o que ainda não tinha visto, talvez apenas pressentido no frio desconforto do ombro, o ferro em vez da mão, porém ainda distinguiu o vulto à porta, pobre mulher, dividida entre a dor que a mutilava naquele braço e a inquietação doutra presença, de mulher também, e então Blimunda afastou-se para que cada coisa acontecesse a seu tempo e cá de fora ouviu as lágrimas e as perguntas, Meu querido filho, como foi, quem te fez isto, o dia ia escurecendo, até que Baltasar veio à porta e a chamou, Entra, acendia-se dentro de casa uma candeia, Marta Maria ainda soluçava de mansinho, Minha mãe, esta é a minha mulher, o nome dela é Blimunda de Jesus.

Deveria isto bastar, dizer de alguém como se chama e esperar o resto da vida para saber quem é, se alguma vez o saberemos, pois ser não é ter sido, ter sido não é será, mas outro é o costume, quem foram os seus pais, onde nasceu, que idade tem e com isto se julga ficar a saber mais, e às vezes tudo. Com a última luz do dia chegara o pai de Baltasar, de seu nome João Francisco, filho de Manuel e Jacinta, aqui nascido em Mafra, sempre nela vivendo, nesta mesma casa à sombra da igreja de Santo André e do palácio dos viscondes, e, para ficar a saber-se mais alguma coisa, homem tão alto como o filho, agora um tanto curvado pela idade e também pelo peso do molho de lenha que metia para dentro de casa. Desajoujou-o Baltasar, e o velho encarou com ele, disse, Ah, homem, deu logo pela mutilação, mas dela não falou, apenas isto, Paciência, quem foi à guerra, depois olhou para Blimunda, compreendeu que era a mulher do filho, deu-lhe a mão a beijar, daí a pouco estavam a sogra e a nora a tratar da ceia enquanto Baltasar explicava como tinha sido aquilo da batalha, a mão cortada, os anos de ausência, mas calando que estivera quase dois anos em Lisboa sem dar notícias, quando as primeiras e únicas só aqui tinham sido recebidas há poucas semanas, por carta que o padre Bartolomeu Lourenço ainda escrevera, enfim a pedido de Sete-Sóis, dizendo que estava vivo e ia voltar, ai a dureza de coração dos filhos, que estão vivos e fazem dos seus silêncios morte. Ficava por dizer quando tinha casado com Blimunda, se durante o tempo de soldado, se depois dele, e que casamento era esse, qual a eira e qual a beira, mas os velhos ou não se lembravam de perguntar ou preferiam não saber, subitamente conscientes do estranho ar da rapariga, com aquele cabelo ruço injusta palavra que a cor dele é a do mel, e os olhos claros, verdes, cinzentos, azuis quando lhes dava de frente a luz, e de repente escuríssimos, castanhos de terra, água parda, negros se a sombra os cobria ou apenas aflorava, por isso ficaram todos calados, era a altura de começarem todos a falar, Não conheci o meu pai, acho que já tinha morrido quando nasci, minha mãe foi degredada para Angola por oito anos, só passaram dois, e não sei se está viva, nunca tive notícias, Eu e Blimunda vamos ficar a viver aqui em Mafra, a ver se arranjo uma casa, Não vale a pena procurares, esta dá para os quatro, já cá viveu mais gente, e por que é que a sua mãe foi degredada, Porque a denunciaram ao Santo Ofício, Pai, Blimunda não é judia nem cristã-nova, isto do Santo Ofício, do cárcere e do degredo foi coisa de visões que a mãe dela dizia que tinha, e revelações, e que também ouvia vozes, Não há mulher nenhuma que não tenha visões e revelações, e que não ouça vozes, ouvimo-las o dia todo, para isso não é preciso ser feiticeira, Minha mãe não era feiticeira, nem eu o sou, Também tens visões, Só as que todas as mulheres têm, minha mãe, Ficas a ser minha filha, Sim, minha mãe, Juras então que não és judia nem és cristã-nova, Juro, meu pai, Sendo assim, bem-vinda sejas à casa dos Sete-Sóis, Ela já se chama Sete-Luas, Quem lhe pôs o nome, O padre que nos casou, Padre que tal lembrança tem, não costuma ser fruta que se dê nas sacristias, e com esta todos riram, uns sabendo mais, outros rixentos. Blimunda olhou para Baltasar e ambos viram no olhar do outro o mesmo pensamento, a passarola desfeita pelo chão, o padre Bartolomeu Lourenço a sair o portão da quinta, montado na mula, a caminho da Holanda. Ficava no ar a mentira de não ter Blimunda costela de cristã-nova, se mentira era, quando destes dois sabemos o pouco caso que fazem de tais casos, por salvar maiores verdades se mente às vezes.

O pai disse, Vendi a terra que tínhamos na Vela, não que a vendesse mal, treze mil e quinhentos réis, mas vai fazer-nos falta, Então por que a vendeu, Foi el-rei quem a quis, a minha e outras, E para que as quis el-rei, Vai mandar construir ali um convento de frades, não ouviste falar disso em Lisboa, Não senhor, não ouvi, Disse aí o vigário que foi por causa duma promessa que el-rei fez, se lhe nascesse um filho, quem agora pode ganhar bom dinheiro é o teu cunhado, vão precisar de pedreiros.

Tinham comido feijões e couves, apartadas as mulheres e de pé, e João Francisco Sete-Sóis foi à salgadeira e tirou um bocado de toucinho, que dividiu em quatro tiras, pôs cada uma em sua fatia de pão e distribuiu em redor. Ficou a olhar alerta para Blimunda, mas ela recebeu a sua parte e começou a comer tranquilamente Não é judia, pensou o sogro. Marta Maria também olhara, inquieta, depois encarou o marido com severidade, como se estivesse a recriminá-lo pela astúcia. Blimunda acabou de comer e sorriu, não adivinhava João Francisco que ela teria comido o toucinho mesmo que fosse judia, é outra a verdade que tem de salvar.

Baltasar disse, Tenho de procurar trabalho, e Blimunda também irá trabalhar, não podemos ficar às sopas, Para Blimunda não haja pressa, quero que ela fique aqui em casa por uns tempos, quero conhecer a minha filha nova Está bem, mãe, mas eu preciso arranjar trabalho, Com essa mão a menos, que trabalhos farás, Tenho o gancho, pai, que é uma boa ajuda quando se está habituado, Será, mas cavar não podes, ceifar não podes, rachar lenha não podes, Posso tratar de animais, Sim, isso podes, E também posso ser carreiro para segurar a soga basta o gancho, a outra mão fará o resto, Filho, estou muito contente por teres voltado, E eu já devia ter voltado, pai.

Nessa noite Baltasar sonhou que andava a lavrar com uma junta de bois todo o alto da Vela e que atrás dele ia Blimunda espetando no chão penas de aves, depois estas começaram a agitar-se como se fossem levantar voo, capaz a terra de ir com elas, surgiu o padre Bartolomeu Lourenço com o desenho na mão a apontar o erro que tinham cometido, vamos voltar ao princípio, e a terra apareceu outra vez por lavrar, estava Blimunda sentada e dizia-lhe, Vem-te deitar comigo, que já comi o meu pão. Era ainda noite fechada, Baltasar acordou, puxou para si o corpo adormecido, morna frescura enigmática, ela murmurou o nome dele, ele disse o dela, estavam deitados na cozinha, sobre duas mantas dobradas, e silenciosamente, para não acordarem os pais que dormiam na casa de fora, deram-se um ao outro.

Ao outro dia vieram a festejar a chegada, e a conhecer a nova parenta, Inês Antónia, irmã de Baltasar, e o marido, que afinal se chama Álvaro Diogo. Trouxeram os filhos, um de quatro anos, outro de dois, só o mais velho vingará, porque ao outro hão-de levá-lo as bexigas antes de passados três meses. Mas Deus, ou quem lá no céu decide da duração das vidas, tem grandes escrúpulos de equilíbrio entre pobres e ricos, e, sendo preciso, até às famílias reais vai buscar contrapesos para pôr na balança, a prova é que, por compensação da morte desta criança, morrerá o infante D. Pedro quando chegar à mesma idade, e porque, querendo Deus, qualquer causa de morte serve, a que levará o herdeiro da coroa de Portugal será o tirarem-lhe a mama, só a infantes delicados isto aconteceria, que o filho de Inês Antónia, quando morreu, já comia pão e o mais que houvesse. Equilibrada a contagem, desinteressa-se Deus dos funerais, por isso em Mafra foi só um anjinho a enterrar, como a tantos outros sucede, mal se dá pelo acontecimento, mas em Lisboa não podia ser assim, foi outra pompa, saiu o infante da sua câmara, metido no caixãozito que os conselheiros de Estado levavam, acompanhado de toda a nobreza, e ia também el-rei, mais os irmãos, e se ia el-rei seria por dor de pai, mas principalmente por ser o falecido menino primogénito e herdeiro do trono, são as obrigações do protocolo, vieram descendo até ao pátio da capela, todos de chapéu na cabeça, e quando o caixão foi colocado nas andas que o haviam de transportar, descobriu-se el-rei e pai, e, tendo-se descoberto e coberto outra vez, voltou para o paço, são as desumanidades do protocolo. Lá seguiu o infante sozinho para S. Vicente de. Fora, com o seu luzido acompanhamento; sem pai nem mãe, à frente o cardeal, depois a cavalo os porteiros da maça, os oficiais da casa e títulos, a seguir iam os clérigos e moços da capela, menos os cónegos, que esses foram esperar o corpo a S. Vicente, todos de tochas acesas nas mãos, e logo a guarda em duas alas, adiante os seus tenentes, e agora sim, vem aí o caixão, coberto por uma riquíssima tela encarnada, que também cobre o coche de Estado, e atrás do caixão segue o duque de Cadaval velho, por ser mordomo-mor da rainha, cuja, se tem entranhas de mãe, estará chorando o seu filho, e, por ser dela estribeiro-mor, vai também o marquês das Minas, pelas lágrimas se lhe contará o amor, não pelos títulos que a servem, e os tais panos, mais os arreios e cobertas dos machos, ficarão para os frades de S. Vicente como é antigo costume, e pela serventia dos machos, que são dos ditos frades, foram pagos doze mil réis, é um aluguer como outro, não estranhemos, que machos não são os humanos, mesmo machos sendo, e também os alugam, e tudo isto junto faz pompa, circunstância e solenidade, pelas ruas por onde o funeral passa estão em alas os soldados, mais os frades de todas as ordens, sem excepção, além dos mendicantes como donos da casa que receberá o menino morto de desmame, privilégio que os frades muito merecem, como mereceram o convento que vai ser construído na vila de Mafra, onde há menos de um ano foi enterrado um rapazito de quem não chegou a averiguar-se o nome e que levou acompanhamento completo, iam os pais, e os avós, e os tios, outros parentes, quando o infante D. Pedro chegar ao céu e souber destas diferenças, vai ter um grande desgosto.

Enfim, sendo tão boas as disposições de maternidade da rainha, já el-rei lhe fez outro infante, este, sim, será rei, que daria matéria para outro memorial e outros abalos, e se alguém tiver curiosidade de saber quando equilibrará Deus este nascimento real com um popular nascimento, equilibrará sim, mas não por via destes homens mal conhecidos e destas mulheres por adivinhar, que não quererá Inês Antónia que outros filhos lhe morram, e Blimunda se desconfia que possui artes misteriosas para não os ter. Fiquemo-nos por estes mais crescidos, pelo repetitivo relato que Sete-Sóis tem de fazer da sua história militar, seu pequeno parágrafo dela, como foi a mão ferida e como lha cortaram, mostra os acrescentamentos de ferro, enfim, tornaram a ouvir-se as costumadas e não imaginativas lamentações, Aos pobres é que estas desgraças sempre sucedem, e nem é tão verdade assim, não falta aí morrerem ou ficarem estropiados cabos e capitães, Deus tanto compensa o pouco como reduz o muito, porém, passada uma hora já todos se habituaram à novidade, só os rapazinhos não desviam os olhos, fascinados, e arrepiam-se quando o tio, por divertimento, se serve do gancho para os levantar do chão, são modos, o que maior interesse mostra no exercício é o mais novo, aproveite aproveite enquanto é tempo, só tem três meses para brincar.

Nestes dias primeiros ajuda Baltasar ao pai no trabalho do campo, outra terra de que este é caseiro, tem de aprender tudo desde o princípio, é certo que não esqueceu os antigos gestos, mas agora como os fará. E, para prova de que em sonhos não há firmeza, se foi capaz de lavrar, sonhando, o alto da Vela, bastou-lhe olhar outra vez o arado para perceber o que vale uma mão esquerda. Ofício cabal, só o de carreiro, mas, não havendo carreiro sem carro e junta de bois, por agora servirão os do pai, ora eu, ora tu, amanhã terás que te pertença, E morrendo eu cedo, talvez venhas a forrar o dinheiro que juntares para comprar a junta e o carro, Pai, que não o ouça Deus. Vai também Baltasar à obra onde o cunhado está a trabalhar, é o muro novo da quinta dos viscondes de Vila Nova da Cerveira, não se confunda a geografia, que o viscondado é de lá, mas o palácio está aqui, e se, como então, agora escrevêssemos bisconde e biscondado, não faltaria zombarem de nós pela vergonha de tal pronúncia do Norte em terras do Sul, nem parecemos aquele país civilizado que deu mundos novos ao mundo velho, quando o mundo tem todo ele a mesma idade, e, se vergonha realmente for, decerto não ficará maior se lhe chamarmos bergonha. A este muro não poderá Baltasar acrescentar pedra, afinal teria sido bem melhor se tivesse ficado sem uma perna, um homem tanto pode apoiar-se num pé como num pau, é a primeira vez que tal ideia lhe vem, mas lembra-se como ficaria sem jeito quando estivesse deitado com Blimunda, em cima dela, e acha que não senhor, o melhor foi ter-se ido a mão, muita sorte terem-lhe acertado na esquerda. Álvaro Diogo desce do andaime e, enquanto no resguardo duma sebe come o jantar que lhe traz Inês Antónia, diz que não irá faltar trabalho a pedreiros quando começarem as obras do convento, não precisará sair da terra a procurar serviço nos arredores da vila, semanas e semanas fora de casa, por muito vadio que de sua natureza um homem seja, a casa, se a mulher que nela está é estimada e os filhos amados, tem o gosto que tem o pão, não é para todas as horas, mas sente-se-lhe a falta se não for todos os dias.

Baltasar Sete-Sóis foi vadiar por perto, ao alto da Vela, donde se vê toda a vila de Mafra no seu buraco, ao fundo do vale. Aqui brincou quando tinha a idade do sobrinho mais velho, e depois, mas não por muito tempo, que cedo é preciso entregar os braços ao campo. O mar está longe e parece perto, brilha, é uma espada caída do sol, que o sol há-de embainhar devagarinho quando descer no horizonte e enfim se sumir. São comparações inventadas por quem escreve para quem andou na guerra, não as inventou Baltasar, mas por alguma razão sua se lembrou da espada que tem guardada em casa dos pais, nunca mais a desembainhou, provavelmente já está coberta de ferrugem, um dia destes lhe passará a pedra e azeitará, nunca se sabe o dia de amanhã. Haviam sido terras de cultivo, agora estão abandonadas. As estremas que ainda se mantêm visíveis, as sebes, os caniçados, os valados já não separam propriedades. Tudo isto pertence ao mesmo dono, a el-rei, que se ainda não pagou, pagará, que lá de boas contas é ele, faça-se-lhe essa justiça. João Francisco Sete-Sóis está à espera da sua parte, pena que não fosse tudo dele, ficava rico, até agora alcançam as escrituras de venda trezentos e cinquenta e oito mil e quinhentos réis, e com o andar dos tempos, ao que isto ainda está para crescer, passará de quinze milhões de réis, número que pesa muito nas fracas cabeças populares, por isso traduziremos em quinze contos e quase cem mil réis, um poder de dinheiro. Se o negócio é bom ou mau, isso depende, que o dinheiro não tem sempre o mesmo valor, ao contrário dos homens, que sempre valem o mesmo, tudo e coisa nenhuma. E o convento, vai ser coisa grande, perguntara Baltasar ao cunhado, e este respondeu, Primeiro falou-se em treze frades, depois subiu para quarenta, agora já andamos franciscanos da albergaria e da capela do Espírito Santo a dizer que hão-de ser oitenta, Vai cair aí o poder do mundo, rematou Baltasar. Foi esta conversa quando já Inês Antónia se retirara, e por isso Álvaro Diogo pôde falar com liberdades de homem. Vêm para aí os frades fornicar as mulheres, como é costume deles, e então franciscanos, se um dia apanho algum com partes de atrevido, leva uma surra que fica com os ossos todos partidos, e o pedreiro desfazia a marteladas a pedra onde Inês Antónia estivera sentada. O sol já se pôs, Mafra, em baixo, é escura como um poço. Baltasar começa a descer, olha os marcos de pedra que delimitam os terrenos daquele lado, pedra branquíssima sobre que ainda mal caíram os primeiros frios, pedra que pouco sabe de grandes calores, pedra ainda espantada da luz do dia. Estas pedras são o primeiro alicerce do convento, alguém por ordem de el-rei mandou que as talhassem, pedras portuguesas afeiçoadas por portuguesas mãos, que ainda tempo não é de virem os Garvos milaneses a governar os alvenéis e canteiros que aqui se juntarão. Quando Baltasar entra em casa, ouve o murmúrio que vem da cozinha, é a voz da mãe, a voz de Blimunda, ora uma, ora outra, mal se conhecem e têm tanto para dizer, é a grande, interminável conversa das mulheres, parece coisa nenhuma, isto pensam os homens, nem eles imaginam que esta conversa é que segura o mundo na sua órbita, não fosse falarem as mulheres umas com as outras. Já os homens teriam perdido o sentido da casa e do planeta, Deite-me a sua bênção, minha mãe, Deus te abençoe, meu filho, não falou Blimunda, não lhe falou Baltasar, apenas se olharam, olharem-se era a casa de ambos.

Há muitos modos de juntar um homem e uma mulher, mas, não sendo isto inventário nem vademeco de casamentar, fiquem registados apenas dois deles, e o primeiro é estarem ele e ela perto um do outro, nem te sei nem te conheço, num auto-de-fé, da banda de fora, claro está, a ver passar os penitentes, e de repente volta-se a mulher para o homem e pergunta, Que nome é o seu, não foi inspiração divina, não perguntou por sua vontade própria, foi ordem mental que lhe veio da própria mãe, a que ia na procissão, a que tinha visões e revelações, e se, como diz o Santo Ofício, as fingia, não fingiu estas, não, que bem viu e se lhe revelou ser este soldado maneta o homem que haveria de ser de sua filha, é desta maneira os juntou. Outro modo é estarem ele e ela longe um do outro, nem te sei nem te conheço, cada qual em sua corte, ele Lisboa, ela Viena, ele dezanove anos, ela vinte e cinco, e casaram-nos por procuração uns tantos embaixadores, viram-se primeiro os noivos em retratos favorecidos, ele boa figura e pele escurita, ela roliça e brancaustríaca, e tanto lhes fazia gostarem-se como não, nasceram para casar assim e não doutra maneira, mas ele vai desforrar-se bem, não ela, coitada, que é honesta mulher, incapaz de levantar os olhos para outro homem, o que acontece nos sonhos não conta.

Na guerra de João perdeu a mão Baltasar, na guerra da Inquisição perdeu Blimunda a mãe, nem João ganhou, que feitas as pazes ficámos como dantes, nem ganhou a Inquisição, que por cada feiticeira morta nascem dez, sem contar os machos, que também não são poucos. Cada qual tem sua contabilidade, seu razão e seu diário, escrituraram-se os mortos num lado da página, apuram-se os vivos do outro lado, também há modos diferentes de pagar e cobrar o imposto, com o dinheiro do sangue e o sangue do dinheiro, mas há quem prefira a oração, é o caso da rainha, devota parideira que veio ao mundo só para isso, ao todo dará seis filhos, mas de preces contam-se por milhões,

  • agora vai à casa do noviciado da Companhia de Jesus,
  • agora à igreja paroquial de S. Paulo,
  • agora faz a novena de S. Francisco Xavier,
  • agora visita a imagem de Nossa Senhora das Necessidades,
  • agora vai ao convento de S. Bento dos Loios,
  • e vai à igreja paroquial da Encarnação,
  • e vai ao convento da Conceição de Marvila,
  • e vai ao convento de S. Bento da Saúde,
  • e vai visitar a imagem de Nossa Senhora da Luz,
  • e vai à igreja do Corpo Santo,
  • e vai à igreja de Nossa Senhora da Graça,
  • e à igreja de S. Roque,
  • e à igreja da Santíssima Trindade,
  • e ao real convento da Madre de Deus,
  • e visita a imagem de Nossa Senhora da Lembrança,
  • e vai à igreja de S. Pedro de Alcântara,
  • e à igreja de Nossa Senhora do Loreto,
  • e ao convento do Bom Sucesso, quando está para sair do paço às suas devoções rufa o tambor e repenica o pífaro, não ela, claro está, que ideia, uma rainha a tamborilar e a repenicar, põem-se em ala os alabardeiros, e estando as ruas sujas, como sempre estão, por mais avisos e decretos que as mandem limpar, vão à frente da rainha os mariolas com umas tábuas largas às costas, sai ela do coche e eles colocam as tábuas. no chão, é um corropio, a rainha a andar sobre as tábuas, os mariolas a levá-las de trás para diante, ela sempre no limpo, eles sempre no lixo, parece a rainha nossa senhora Nosso Senhor Jesus Cristo quando caminhou sobre as águas, e desta milagrosa maneira
  •  vai ao convento das Trinas,
  • e ao convento das Bernardas,
  •  e ao do Santíssimo Coração,
  • e ao de Santo Alberto,
  • e à igreja de Nossa Senhora das Mercês, que as faça,
  • e à igreja de Santa Catarina,
  • e ao convento dos Paulistas,
  • e ao da Boa Hora dos agostinhos descalços,
  • e ao de Nossa Senhora do Monte do Carmo,
  • e à igreja de Nossa Senhora dos Mártires, que somos todos,
  • e ao convento de Santa Joana Princesa,
  • e ao convento do Salvador,
  • e ao convento das Mónicas, que foram as tais,
  • e ao real convento do Desagravo,
  • e ao convento das Comendadeiras,
  • mas aonde ela não se atreve a ir sabemos nós, é ao convento de Odivelas, todos adivinham porquê, é uma triste e enganada rainha

que só de rezar não se desengana, todos os dias e todas as horas deles, ora com motivo, ora sem certeza de o ter, pelo marido leviano, pelos parentes tão longe, pela terra que não é sua, e filhos só por metade, ou ainda menos, como jura o infante D. Pedro no céu, pelo império português, pela peste que ameaça, pela guerra que acabou, por outra se começar, pelas infantas cunhadas, pelos cunhados infantes, por D. Francisco também, e a Jesus Maria José, pelas angústias da carne, pelo prazer entrevisto, se adivinhado entre pernas, pela custosa salvação, pelo inferno que a cobiça, pelo horror de ser rainha, pelo dó de ser mulher pelas duas mágoas juntas, por esta vida que vai, por essa morte que vem.

D. Maria Ana terá agora outros e mais urgentes motivos para rezar.

D. João V, o Magnânimo

El-rei anda muito achacado, sofre de flatos súbitos, debilidade que já sabemos antiga, mas agora agravada, duram-lhe os desmaios mais do que um vulgar fanico, aí está uma excelente lição de humildade ver tão grande rei sem dar acordo de si, de que lhe serve ser senhor de Índia, África e Brasil, não somos nada neste mundo, e quanto temos cá fica. Por costume e cautela acodem-lhe logo com a extrema unção, não pode sua majestade morrer inconfessa como qualquer comum soldado em campo de batalha, lá aonde os capelães não chegam nem querem chegar, mas às vezes ocorrem dificuldades, como estar em Setúbal a ver de janela os touros, e sobrevir-lhe sem aviso o desmaio profundo, acode o médico que lhe toma o pulso e procura o sangradouro, vem o confessor com os óleos, mas ninguém sabe que pecados terá cometido D. João V desde a última vez que se confessou, e já foi ontem, quantos maus pensamentos e acções más se podem ter e cometer em vinte e quatro horas, além da impropriedade da situação de estarem a morrer touros na praça enquanto el-rei, de olho revirado para cima não se sabe se morre ou não, e se morrer não será de ferida, como as que vão rasgando os bichos em baixo, ainda assim de vez em quando se vingando do inimigo, como agora mesmo aconteceu a D. Henrique de Almeida que foi pelos ares com o cavalo e já o levam com duas costelas quebradas. Enfim, el-rei abriu os olhos, escapou, não foi desta, mas fica com as pernas frouxas, as mãos trémulas, o rosto pálido, nem parece aquele galante homem que derruba freiras com um gesto, e quem diz freiras diz as que o não são, ainda o ano passado teve uma francesa um filho da sua lavra, se agora o vissem as amantes reclusas e libertas não reconheceriam neste murcho e apagado homenzinho o real e infatigável cobridor. Vai D. João V para Azeitão, a ver se com mezinhas e bons ares se cura desta melancolia, que assim chamam os médicos à sua doença, provavelmente o que sua majestade tem é os humores avariados, de que costumam resultar embaraços da tripa, flatulências, entupimentos da bílis, tudo achaques segundos da atrabile, que essa, sim, é a doença de el-rei, vá lá que não sofre das partes pudendas, apesar dos excessos amatórios e alguns riscos de gálico, caso em que lhe aplicariam sumo de consólida, remédio soberano para chagas da boca e das gengivas, dos testículos e adjacências superiores.

D. Maria Ana ficou em Lisboa a rezar e depois foi continuar a reza para Belém. Dizem que vai agastada por não querer D. João V confiar-lhe o governo do reino, realmente não está bem desconfiar assim um marido de sua mulher, são resistências de ocasião, lá mais para diante será regente a rainha enquanto el-rei se acaba de curar naqueles felizes campos de Azeitão, tendo a assisti-lo os franciscanos da Arrábida, e o marulhar das ondas é o mesmo, a mesma a cor do mar, a maresia o mesmo sortilégio, e o mato cheira como dantes,

Assim fica o infante D. Francisco sozinho em Lisboa, fazendo corte, e já começa a urdir a trama e a teia, deitando contas à morte do irmão e à sua própria vida, Se desta melancolia, que tão gravemente atormenta sua majestade, não houver remédio, e quiser Deus que tão cedo lhe acabe a vida terrenal para mais cedo principiar a eterna, eu poderia, como irmão que vem a seguir, portanto de família chegada, cunhado de vossa majestade e mui dedicado servidor de vossa beleza e virtude, eu poderia, ouso dizer, subir ao trono e, de caminho, ao vosso leito, casando nós em boa e canónica forma, que por méritos de homem posso garantir que não sou menos que meu irmão, ora essa, Ora essa, que conversa tão imprópria de cunhados, el-rei ainda está vivo e, pelo poder das minhas preces, se Deus mas ouve, não morrerá, para maior glória do reino, tanto mais que para a conta dos seis filhos que está escrito terei dele, ainda faltam três, Porém, vossa majestade sonha comigo quase todas as noites, que eu bem no sei, É verdade que sonho, são fraquezas de mulher guardadas no meu coração e que nem ao confessor confesso, mas, pelos vistos, vêm ao rosto os sonhos, se assim mos adivinham, Então, morrendo meu irmão, casamos, Se esse for o interesse do reino, e se daí não vier ofensa a Deus nem dano à minha honra, casaremos, Prouvera que ele morra, que eu quero ser rei e dormir com vossa majestade, já estou farto de ser infante, Farta estou eu de ser rainha e não posso ser outra coisa, assim como assim, vou rezando para que se salve o meu marido, não vá ser pior outro que venha, Acha então vossa majestade que eu seria pior marido que meu irmão, Maus, são todos os homens, a diferença só está na maneira de o serem, e com esta sábia e céptica sentença se concluiu a conversação em palácio, primeira das muitas com que D. Francisco fatigará a rainha, em Belém onde ela agora está, em Belas para onde irá com demora, em Lisboa quando enfim for regente, em câmaras e em quintas discorrendo, a ponto de já não serem os sonhos de D. Maria Ana o que antes eram, tão deliciosos em geral, tão arrebatadores do espírito, tão pungidores do corpo, agora o infante só lhe aparece para dizer que quer ser rei, bom proveito lhe fizesse, para isto nem vale a pena sonhar, digo-o eu que sou rainha. Adoeceu tão gravemente el-rei, morreu o sonho de D. Maria Ana, depois el-rei sarará, mas os sonhos da rainha não ressuscitarão.

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