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– Leitura de Memorial I – V

Capítulo I


D. João, quinto do nome na tabela real, irá esta noite ao quarto de sua mulher, D.Maria Ana Josefa, que chegou há mais de dois anos da Áustria para dar infantes à coroa portuguesa e até hoje ainda não emprenhou. Já se murmura na corte, dentro e fora do palácio, que a rainha, provavelmente, tem a madre seca, insinuação muito resguardada de orelhas e bocas delatoras e que só entre íntimos se confia. Que caiba a culpa ao rei, nem pensar, primeiro porque a esterilidade não é mal dos homens, das mulheres sim, por isso são repudiadas tantas vezes, e segundo, material prova, se necessária ela fosse, porque abundam no reino bastardos da real semente e ainda agora a procissão vai na praça.

Além disso, quem se extenua a implorar ao céu um filho não é o rei, mas a rainha, e também por duas razões. A primeira razão é que um rei, e ainda mais se de Portugal for, não pede o que unicamente está em seu poder dar, a segunda razão porque sendo a mulher, naturalmente, vaso de receber, há-de ser naturalmente suplicante, tanto em novenas organizadas como em orações ocasionais. Mas nem a persistência do rei, que, salvo dificultação canónica ou impedimento fisiológico, duas vezes por semana cumpre vigorosamente o seu dever real e conjugal, nem a paciência e humildade da rainha que, a mais das preces, se sacrifica a uma imobilidade total depois de retirar-se de si e da cama o esposo, para que se não perturbem em seu gerativo acomodamento os líquidos comuns, escassos os seus por falta de estímulo e tempo, e cristianíssima retenção moral, pródigos os do soberano, como se espera de um homem que ainda não fez vinte e dois anos, nem isto nem aquilo fizeram inchar até hoje a barriga de D. Maria Ana. Mas Deus é grande.

Quase tão grande como Deus é a basílica de S. Pedro de Roma que el-rei está a levantar. É uma construção sem caboucos nem alicerces, assenta em tampo de mesa que não precisaria ser tão sólido para a carga que suporta, miniatura de basílica dispersa em pedaços de encaixar, segundo o antigo sistema de macho e fêmea, que, à mão reverente, vão sendo colhidos pelos quatro camaristas de serviço. A arca donde os retiram cheira a incenso, e os veludos carmesins que os envolvem, separadamente, para que se não trilhe o rosto da estátua na aresta do pilar, refulgem à luz dos grossíssimos brandões. A obra vai adiantada. Já todas as paredes estão firmes nos engonços, aprumadas se vêem as colunas sob a cornija percorrida de latinas letras que explicam o nome e o título de Paulo V Borghese e que el-rei há muito tempo deixou de ler, embora sempre os seus olhos se comprazam no número ordinal daquele papa, por via da igualdade do seu próprio.

Em rei seria defeito a modéstia. Vai ajustando nos buracos apropriados da cimalha as figuras dos profetas e dos santos, e por cada uma fez vénia o camarista, afasta as dobras preciosas do veludo, aí está uma estátua oferecida na palma da mão, um profeta de barriga para baixo, um santo que trocou os pés pela cabeça, mas nestas involuntárias irreverências ninguém repara, tanto mais que logo el-rei reconstitui a ordem e a solenidade que convêm às coisas sagradas, endireitando e pondo em seu lugar as vigilantes entidades. Do alto da cimalha o que elas vêem não é a Praça de S. Pedro, mas o rei de Portugal e os camaristas que o servem. Vêem o soalho da tribuna as gelosias que dão para a capela real, e amanhã, à hora da primeira missa, se entretanto não regressarem aos veludos e à arca, hão-de ver el-rei devotamente acompanhando o santo sacrifício, com o seu séquito, de que já não farão parte estes fidalgos que aqui estão, porque se acaba a semana e entram outros ao serviço. Por baixo desta tribuna em que estamos, outra há também velada de gelosias, mas sem construção de armar, capela fosse ou ermitério, onde apartada assiste a rainha ao ofício, nem mesmo a santidade do lugar tem sido propícia à gravidez. Agora só falta colocar a cúpula de Miguel Ângelo, aquele arrebatamento de pedra aqui em fingimento, que, por suas excessivas dimensões, está guardada em arca à parte, e sendo esse o remate da construção lhe será dado diferente aparato, que é o de ajudarem todos ao rei, e com um ruído retumbante ajustam-se os ditos machos e fêmeas nos mútuos encaixes, e a obra fica pronta. Se o poderoso som, que ecoara por toda a capela, pôde chegar, por salas e extensos corredores, ao quarto ou câmara onde a rainha espera, fique ela sabendo que seu marido vem aí.

Que espere. Por enquanto, ainda el-rei está a preparar-se para a noite. Despiram-no os camaristas, vestiram-no com o trajo da função e do estilo, passadas as roupas de mão em mão tão reverentemente como relíquias de santas que tivessem trespassado donzelas, e isto se passa na presença de outros criados e pagens, este que abre o gavetão, aquele que afasta a cortina, um que levanta a luz, outro que lhe modera o brilho, dois que não se movem, dois que imitam estes, mais uns tantos que não se sabe o que fazem nem por que estão. Enfim, de tanto se esforçarem todos ficou preparado el-rei, um dos fidalgos rectifica a prega final, outro ajusta o cabeção bordado, já não tarda um minuto que D. João V se encaminhe ao quarto da rainha.  O cântaro está à espera da fonte.

Mas vem agora entrando D. Nuno da Cunha, que é o bispo inquisidor, e traz consigo um franciscano velho. Entre passar adiante e dizer o recado há vénias complicadas, floreios de aproximação, pausas e recuos, que são as fórmulas de acesso à vizinhança do rei, e a tudo isto teremos de dar por feito e explicado, vista a pressa que traz o bispo e considerando o tremor inspirado do frade. Retiram-se a uma parte D. João V e o inquisidor, e este diz, Aquele que além está é frei António de S. José, a quem, falando-lhe eu sobre a tristeza de vossa majestade por lhe não dar filhos a rainha nossa senhora, pedi que encomendasse vossa majestade a Deus para que lhe desse sucessão, e ele me respondeu que vossa majestade terá filhos se quiser, e então perguntei-lhe que queria ele significar com tão obscuras palavras, porquanto é sabido que filhos quer vossa majestade ter, e ele respondeu-me, palavras enfim muito claras, que se vossa majestade prometesse levantar um convento na vila de Mafra, Deus lhe daria sucessão, e tendo declarado isto, calou-se D. Nuno e fez um aceno ao arrábido.

Perguntou el-rei, É verdade o que acaba de dizer-me sua eminência, que se eu prometer levantar um convento em Mafra terei filhos, e o frade respondeu, Verdade é, senhor, porém só se o convento for franciscano, e tornou el-rei, Como sabeis, e frei António disse, Sei, não sei como vim a saber, eu sou apenas a boca de que a verdade se serve para falar, a fé não tem mais que responder, construa vossa majestade o convento e terá brevemente sucessão, não o construa e Deus decidirá. Com um gesto mandou el-rei ao arrábido que se retirasse, e depois perguntou a D. Nuno da Cunha, É virtuoso este frade, e o bispo respondeu, Não há outro que mais o seja na sua ordem. Então D. João, o quinto do seu nome, assim assegurado sobre o mérito do empenho, levantou a voz para que claramente o ouvisse quem estava e o soubessem amanhã cidade e reino, Prometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano a contar deste dia em que estamos, e todos disseram, Deus ouça vossa majestade, e ninguém ali sabia quem iria ser posto à prova, se o mesmo Deus, se a virtude de frei António, se a potência do rei, ou, finalmente, a fertilidade dificultosa rainha.

D. Maria Ana conversa com a sua camareira-mor portuguesa, a marquesa de Unhão. Já falaram das devoções do dia, da visita feita ao convento das carmelitas descalças da Conceição dos Cardais, e da novena de S. Francisco Xavier, que amanhã principiará em S. Roque, é um falar de rainha e marquesa, jaculatório e ao mesmo tempo lacrimoso quando proferem os nomes dos santos, pungitivo se houver menção de martírios ou sacrifícios particulares de padres e madres, mesmo não excedendo uns e outros a simples maceração do jejum ou a oculta fustigação do cilício. Mas el-rei já se anunciou, e vem de espírito aceso, estimulado pela conjunção mística do dever carnal e da promessa que fez a Deus por intermédio e bons ofícios de frei António de S. José. Entraram com el-rei dois camaristas que o aliviaram das roupas supérfluas, e o mesmo faz a marquesa à rainha, de mulher para mulher, com ajuda doutra dama, condessa, mais uma camareira-mor não menos graduada que veio da Áustria, está o quarto uma assembleia, as majestades fazem mútuas vénias, nunca mais acaba o cerimonial, enfim lá se retiram os camaristas por uma porta, as damas por outra e nas antecâmaras ficarão esperando que termine a função, para que regresse el-rei acompanhado ao seu quarto, que foi da rainha sua mãe no tempo de seu pai, e venham as damas a este aconchegar D. Maria Ana debaixo do cobertor de penas que trouxe da Áustria também e sem o qual não pode dormir, seja Inverno ou Verão.

E é por causa deste cobertor, sufocante até no frio Fevereiro, que D. João V não passa toda a noite com a rainha, ao princípio sim, por ainda superar a novidade ao incómodo, que não era pequeno sentir-se banhado em suores próprios e alheios, com uma rainha tapada por cima da cabeça, recozendo cheiros e secreções. D. Maria Ana, que não veio de um país quente, não suporta o clima deste. Cobre-se toda com o imenso e altíssimo cobertor, e assim fica, enroscada como toupeira que encontrou pedra no caminho e está a decidir para que lado há-de continuar a escavação da galeria. Vestem a rainha e o rei camisas compridas, que pelo chão arrastam, a do rei somente a fímbria bordada, a da rainha bom meio palmo mais, para que nem a ponta dos pés se veja, o dedo grande ou os outros, das impudicícias conhecidas talvez seja esta a mais ousada. D. João V conduz D. Maria Ana ao leito, leva-a pela mão como no baile o cavaleiro à dama, e antes de subirem os degrauzinhos, cada um de seu lado, ajoelham-se e dizem as orações acautelantes necessárias, para que não morram no momento do acto carnal, sem confissão, para que desta nova tentativa venha a resultar fruto, e sobre este ponto tem D. João V razões dobradas para esperar, confiança em Deus e no seu próprio vigor, por isso está dobrando a fé com que ao mesmo Deus impetra sucessão. Quanto a D. Maria Ana, é de crer que esteja rogando os mesmos favores, se porventura não tem motivos particulares que os dispensem e sejam segredo do confessionário.

Já se deitaram. Esta é a cama que veio da Holanda quando a rainha veio da Áustria, mandada fazer de propósito pelo rei, a cama, a quem custou setenta e cinco mil cruzados, que em Portugal não há artífices de tanto primor, e, se os houvesse, sem dúvida ganhariam menos. A desprevenido olhar nem se sabe se é de madeira o magnífico móvel, coberto como está pela armação preciosa, tecida e bordada de florões e relevos de ouro, isto não falando do dossel que poderia servir para cobrir o papa. Quando a cama aqui foi posta e armada ainda não havia percevejos nela, tão nova era, mas depois, com o uso, o calor dos corpos, as migrações no interior do palácio, ou da cidade para dentro, donde este bichedo vem é que não se sabe, e sendo tão rica de matéria e adorno não se lhe pode aproximar um trapo a arder para queimar o enxame, não há mais remédio, ainda não o sendo, que pagar a Santo Aleixo cinquenta réis por ano, a ver se livra a rainha e a nós todos da praga e da coceira. Em noites que vem el-rei, os percevejos começam a atormentar mais tarde por via da agitação dos colchões, são bichos que gostam de sossego e gente adormecida. Lá na cama do rei estão outros à espera do seu quinhão de sangue, que não acham nem pior nem melhor que o restante da cidade, azul ou natural.

D. Maria Ana estende ao rei a mãozinha suada e fria, que mesmo tendo aquecido debaixo do cobertor logo arrefece ao ar gélido do quarto, e el-rei, que já cumpriu o seu dever, e tudo espera do convencimento e criativo esforço com que o cumpriu, beija-lha como a rainha e futura mãe, se não presumiu demasiado frei António de S. José. É D. Maria Ana quem puxa o cordão da sineta, entram de um lado os camaristas do rei, do outro as damas, pairam cheiros diversos na atmosfera pesada, um deles que facilmente identificam, que sem o que a isto cheira não são possíveis milagres como o que desta vez se espera, porque a outra, e tão falada, incorpórea fecundação, foi uma vez sem exemplo, só para que se ficasse a saber que Deus, quando quer, não precisa de homens, embora não possa dispensar-se de mulheres.

Ainda que insistentemente tranquilizada pelo confessor, tem D. Maria Ana, nestas ocasiões, grandes escrúpulos de alma. Retirados el-rei e os camaristas, deitadas já as damas que a servem e lhe protegem o sono, sempre cuida a rainha que seria sua obrigação levantar-se para as últimas orações, mas, tendo de guardar o choco por conselho dos médicos, contenta-se com murmurá-las infinitamente, passando cada vez mais devagar as contas do rosário, até que adormece no meio duma ave-maria cheia de graça, ao menos com essa foi tudo tão fácil, bendito seja o fruto do vosso ventre, e é no do seu ansiado próprio que está pensando, ao menos um filho, Senhor, ao menos um filho. Deste involuntário orgulho nunca fez confissão, por ser distante e involuntário, tanto que se fosse chamada a juízo juraria, com verdade, que sempre se dirigira à Virgem e ao ventre que ela teve. São meandros do inconsciente real, como aqueles outros sonhos que sempre D. Maria Ana tem, vá lá explicá-los, quando el-rei vem ao seu quarto, que é ver-se atravessando o Terreiro do Paço para o lado dos açougues, levantando a saia à frente e patinhando numa lama aguada e pegajosa que cheira ao que cheiram os homens quando descarregam, enquanto o infante D. Francisco, seu cunhado, cujo antigo quarto agora ocupa, alguma assombração lhe ficando, dança em redor dela, empoleirado em andas, como uma cegonha negra. Também deste sonho nunca deu contas ao confessor, e que contas saberia ele dar-lhe por sua vez, sendo, como é, caso omisso no manual da perfeita confissão. Fique D. Maria Ana em paz, adormecida, invisível sob a montanha de penas, enquanto os percevejos começam a sair das fendas, dos refegos, e se deixam cair do alto dossel, assim tornando mais rápida a viagem.

Também D. João V sonhará esta noite. Verá erguer-se do seu sexo uma árvore de Jessé, frondosa e toda povoada dos ascendentes de Cristo, até ao mesmo Cristo, herdeiro de todas as coroas, e depois dissipar-se a árvore e em seu lugar levantar-se, poderosamente, com altas colunas, torres sineiras; cúpulas e torreões, um convento de franciscanos, como se pode reconhecer pelo hábito de frei António de S. José, que está abrindo, de par em par, as portas da igreja. Não é vulgar em reis um temperamento assim, mas Portugal sempre foi bem servido deles.

Capítulo II

Bem servido de milagres, igualmente. Ainda é cedo para falar deste que se prepara, aliás milagre não tanto, mas simples obséquio divino, descimento de olhar piedoso e propiciatório para um ventre sáfaro, qual há-de ser o nascimento do infante na hora própria, mas é justamente tempo de mencionar veros e certificados milagres que, por virem da mesma e ardentíssima sarça franciscana, bem auguram da promessa do rei. Veja-se o célebre caso da morte de frei Miguel da Anunciação, provincial eleito que foi da ordem terceira de S. Francisco, cuja eleição, diga-se de passagem, mas não fora de propósito, se fez com acesa guerra que contra ela e ele levantou a Paroquial de Santa Maria Madalena, por obscuros ciúmes, em tal sanha que à morte de frei Miguel ainda corriam pleitos e não se sabe quando, de vez, seriam julgados, se é que teriam fim, entre sentença e recurso, entre conselho e agravo, até que a morte viesse encerrar o processo, como veio a suceder. É certo que não morreu o frade de coração despedaçado, mas de maligna, que seria tifo ou tifóide, senão outra febre sem nome, remate comum de vida em cidade de tão poucas fontes de água para beber e onde os galegos não se duvidam de ir encher os barris à fonte dos cavalos, e assim morrem imerecidamente provinciais. Porém, era frei Miguel da Anunciação de tão compassiva natureza que, mesmo depois de morto, pagou o mal com o bem, e se vivo fizera caridades, defunto obrava maravilhas, sendo a primeira desmentir os médicos que temiam se corrompesse o corpo aceleradamente e por isso recomendaram abreviada sepultura, que não se corrompeu tal o carnal despojo, antes por espaço de três dias inteiros embalsamou a igreja de Nossa Senhora de Jesus onde esteve exposto, com suavíssimo cheiro, e não se lhe enrijeceu o cadáver, pelo contrário, brandamente os membros todos se deixavam mover, como se vivo estivesse.

Segundas e terceiras maravilhas, mas de valor primeiríssimo, foram os milagres propriamente ditos tão assinalados e ilustres que acorreu o povo de toda a cidade a observar o prodígio e a aproveitar dele, pois se autentica que na dita igreja foi dada vista a cegos e pés a mancos, e era tanta a afluência de mundo que nos degraus do adro se davam punhadas e punhaladas para entrar, de que alguns perderam a vida, que depois nem por milagre lhes seria restituída. Ou talvez sim, se, passados três dias, e sendo grande o alarme, dali não tivessem levado o corpo, às ocultas, e às ocultas o enterraram. Privados da esperança de cura enquanto não constasse o passamento doutro bem-aventurado, no mesmo lugar se esbofetearam de desespero e fé lograda mudos e manetas, se a estes lhes sobrava mão, em gritos todos e invocações a quantos santos, até que os padres saíram fora a benzer o ajuntamento, e com essa suficiência, à falta de melhor, se foram uns e outros. Mas isto, confessemo-lo sem vergonha, é uma terra de ladrões, olho vê, mão pilha, e sendo a fé tanta, ainda que nem sempre recompensada, maior é o descaro e a impiedade com que se salteiam igrejas, como foi ainda o ano passado em Guimarães, também na de S. Francisco, que, por tão vultosos bens ter desprezado em vida, tudo consente que lhe levem na eternidade, o que vale à ordem é a vigilância de Santo António, que esse resigna-se mal a que lhe rapem altares e capelas onde estiver, como em Guimarães se viu e em Lisboa se há-de ver. Naquela cidade foram, pois, os ladrões a roubar, subindo para esse efeito a uma janela, aonde logo o santo lepidamente os veio receber com isso lhes pregando um tal susto que fez cair desamparado o que mais alto na escada estava, é certo que sem nenhum osso partido, mas tolhidinho de tal maneira que não se pôde mexer mais, e querendo os companheiros levá-lo dali, que também entre ladrões não são raros os corações generosos e abnegados, não o conseguiram, caso aliás não inédito, porque já sucedido a Inês, irmã de Santa Clara, quando ainda S. Francisco andava pelo mundo, precisamente há quinhentos anos, em mil duzentos e onze, mas não era de roubo o caso dela, ou de roubo seria, porque ao Senhor a queriam roubar. Ali ficou o ladrão, como se a mão de Deus o estivesse espalmando contra o chão ou a garra do Diabo o filasse das profundas, ali ficou até de manhã, quando deram com ele os moradores e depois o levaram, já sem custo e com o seu peso natural, ao altar do mesmo santo para que o sarasse, milagre obrado por forma original, pois se viu suar copiosamente a imagem de Santo António e. durante tanto tempo que deu para virem juizes e escrivães autenticar juridicamente o prodígio, que foi este de suar madeira e também de curar-se o ladrão por lhe passarem na cara uma toalha humedecida do humor bento. E com isto ficou o homem são, salvo e arrependido.

Porém, nem todos os delitos chegam a averiguar-se. Em Lisboa, por exemplo, não tendo o milagre sido menos notório, ainda hoje está por apurar quem foi o do assalto, embora sejam permitidas algumas desconfianças, porventura absolvidas, e quem delas for objecto, pela boa intenção que derradeiramente o motivou. Foi o caso que no convento de S. Francisco de Xabregas entraram gatunos, ou gatuno entrou, pela clarabóia de uma capela contígua com a de Santo António, e foi, ou foram, ao altar-mor, e as três lâmpadas que lá estavam se sumiram pelo mesmo caminho em menos de um credo. Despendurar as lâmpadas dos ganchos, carregar com elas às escuras por maior cautela, arriscar tropeções, tropeçar mesmo e fazer ruído sem que ninguém acudisse a indagar do rebuliço, seria suspeito prodígio ou cumplicidade de algum santo transviado se não fosse estarem, nessa mesma hora, a campa e a matraca em seu costumado tumulto para se despertarem os frades e irem às matinas da meia-noite. Por isso pôde o ladrão escapar a seu salvo, e se mais barulho fizera, não lho teriam ouvido, por aqui se vendo como o assaltante conhecia bem os costumes da casa.

Começaram os frades a entrar na igreja e deram com ela às escuras. Já o irmão responsável se estava conformando com o castigo que não deixaria de ser-lhe aplicado por uma falta que não saberia explicar, quando se observou, e confirmou pelo tacto e cheiro, que não era o azeite que faltava, ali derramado pelo chão, mas sim as lâmpadas, cujas eram de prata. O desacato ainda estava fresco, se assim se pode dizer, pois as correntes de onde tinham estado suspensas as roubadas lâmpadas oscilavam devagarinho, dizendo, em linguagem de arame, Foi por pouco, foi por pouco.

Saíram logo alguns religiosos às estradas de em torno, repartidos em patrulhas, que se apanham o ladrão não se sabe o que misericordiosa-mente lhe fariam, mas não deram nem com o rasto dele, ou da quadrilha, se v era, caso que não devemos estranhar, porquanto passava já então da meia-noite e a lua estava em seu minguante. Esbaforiram-se os frades a correr as cercanias, a passo de carga, e enfim regressaram ao convento, de mãos a abanar. Entretanto, outros religiosos, pensando que podia o ladrão, por fina astúcia, ter-se escondido na igreja, deram-lhe uma volta completa desde o coro à sacristia, e foi quando andavam neste alvoroçado esquadrinhar, toda a congregação atropelando sandálias e fraldas de hábito, levantando tampas de arcazes, arredando armários, sacudindo paramentos, que um frade velho, conhecido por virtuosa vida e brava religião, reparou que o altar de Santo António não fora tocado pelas gatunas mãos, apesar de ser nele abundantíssima a prata, rica de peso, lavor e pureza. Estranhou o pio homem, e estranharíamos nós se lá estivéssemos, porque, sendo manifesto que por aquela clarabóia de além entrou o ladrão e ao altar-mor foi roubar as lâmpadas, teve de passar diante da capela de Santo António que ao meio estava. Com mais do que razão se achou então o frade, inflamado em zelo, ao voltar-se para Santo António, increpando-o como a servo que descuidasse as suas obrigações, E vós, santo, só guardais a prata que vos toca, e deixais levar a outra, pois em paga disso não vos há-de ficar nenhuma, e ditas estas violentíssimas palavras, foi-se à capela e começou a despi-la toda, tirando não só as pratas, mas as toalhas e adornos, e não só à capela, mas também ao próprio santo, que viu levarem-lhe a auréola de tirar e pôr, e a cruz, e que ficaria sem o menino ao colo se outros religiosos não tivessem acudido, achando a punição excessiva e advertindo que o deixasse para consolação do pobre castigado. Meditou um pouco o frade na advertência, e rematou, Pois fique como seu fiador, enquanto não restituir o Santo as lâmpadas. E como isto já era pelas duas depois da meia noite, tempo gasto nas buscas e finalmente no recriminatório lance relatado, recolheram-se os frades e foram dormir, alguns temendo que viesse Santo António a tirar desforra do insulto.

Ao outro dia, aí pelas onze horas dele, bateu à portaria do convento um estudante, cujo convém dizer logo que desde há tempos andava pretendendo o hábito da casa, frequentando com grande assiduidade os frades dela, e esta informação se dá, primeiro, por ser verdadeira e sempre servir a verdade para alguma coisa, e, segundo, para auxiliar quem se dedique a decifrar actos cruzados, ou palavras cruzadas quando as houver, enfim, bateu o estudante à portaria e disse que queria falar ao prelado. Levaram-no à presença, beijou-lhe a mão ou o cordão do hábito, se não a fímbria, isto não se averiguou bem, e declarou ter ouvido dizer na cidade que as lâmpadas estavam no mosteiro da Cotovia, dos padres da Companhia de Jesus, além no Bairro Alto de S. Roque. Duvidou o prelado, logo pela manifesta insuficiência do portador da notícia, um estudante que só não era bargante por tanto aspirar a ser frade. Embora não seja assim tão raro encontrar-se nisto aquilo, e depois pela inverosimilhança de se ir restituir à Cotovia o que se furtara em Xabregas, sítios tão opostos e distantes, ordens tão pouco parentes, na distância quase uma légua a voo de pássaro, e no resto uns de preto, outros de castanho, ainda isso seria o menos, pela casca não se conhece o fruto se lhe não tivermos metido o dente. Mandava porém a prudência que se averiguasse o aviso, e assim foi um religioso grave, acompanhado do dito estudante, de Xabregas à Cotovia, ambos a pé, entrando na cidade pela Porta de Santa Cruz, e se para completa ciência do caso importa saber que outro caminho tomaram até ao destino, diga-se então que passaram rente à igreja de Santa Estefânia, depois ao lado da igreja de S. Miguel, e depois da igreja de S. Pedro entraram a porta que lhe tem o nome, posto o que desceram na direcção do rio pelo Postigo do Conde de Linhares, depois a direito, pela Porta do Mar, ao Pelourinho Velho, são nomes e lugares de que só ficou recordação, evitaram a Rua Nova dos Mercadores por ser grave o religioso e de prática usurária o sítio até hoje, e tendo passado à ilharga do Rossio, foram dar ao Postigo de S. Roque, e enfim à Cotovia, onde bateram e entraram, e sendo conduzidos ao reitor disse o frade, Este estudante que aqui vem comigo foi dizer a Xabregas que estão cá as nossas lâmpadas, ontem à noite roubadas, Assim é, pelos sinais que me foram dados, eram aí umas duas horas bateram à portaria com muita força, e perguntando o porteiro de dentro o que queriam, respondeu uma voz que abrisse logo a porta porque se daria ali uma restituição, e tendo o porteiro vindo a dar-me notícia do insólito caso, mandei abrir a porta e achámos as tais lâmpadas, um tanto amassadas e partidas nas guarnições, aqui estão, se lhes falta alguma coisa, já estava faltando quando foram deixadas, E viram quem foi o da chamada, Isso não vimos, ainda foram padres à estrada, mas não encontraram ninguém.

Regressaram as lâmpadas a Xabregas, e agora pense cada um de nós o que quiser. Terá sido o estudante, afinal tunante e bargante, que delineou o estratagema para poder entrar as portas e vestir o hábito franciscano como de facto veio a vestir, e por isso roubou e foi entregar, com muita esperança. de que a bondade da intenção lhe perdoasse a fealdade do pecado no dia do juízo final. Terá sido Santo António que, tendo cometido até hoje tantos e tão variados milagres, também podia ter feito este, ao ver-se dramaticamente despojado das pratas pelo furor sagrado do frade, que bem sabia a quem intimava, como igualmente o sabem os barqueiros e marinheiros do Tejo, que quando o santo lhes não satisfaz as vontades nem lhes premeia os votos o castigam mergulhando-o de cabeça para baixo nas águas do rio. Não será tanto pela incomodidade, porque um santo merecedor desse nome é tão capaz de respirar a pulmões o ar de nós todos como a guelras a água que é céu dos peixes, mas a vergonha de saber expostas as plantas humildes dos pés ou o desânimo de ver-se sem pratas e quase sem Menino Jesus, fazem de Santo António o mais milagroso dos santos, mormente para encontrar coisas perdidas. Enfim, saia o estudante absolvido desta suspeita, se não vier a achar-se noutra igualmente duvidosa.

Com tais precedentes, sendo tão favorecidos os franciscanos de meios para alterarem, inverterem ou acelerarem a ordem natural das coisas, até a matriz renitente da rainha obedecerá à fulminante injunção do milagre. Tanto mais que convento em Mafra o anda a querer a ordem de S. Francisco desde mil seiscentos e vinte e quatro, ainda estava rei de Portugal um Filipe espanhol, que, apesar de o ser e portanto dever dar-lhe só cuidado mínimo a fradaria de cá, pelos dezasseis anos que conservou a realeza nunca deu consentimento. Não cessaram por isso as diligências, meteu-se no empenho o valimento dos nobres donatários da vila, mas parecia que andava exaurida a potência e embotada a pertinácia da Província da Arrábida, que ao convento aspirava, pois ainda ontem, que tanto se pode dizer do que apenas há seis anos aconteceu, em mil setecentos e cinco, deu parecer desfavorável o Desembargo do Paço a nova petição, e com não pequeno atrevimento se exprimiu, se não desrespeito pelos interesses materiais e espirituais da Igreja, ousando considerar não ser conveniente a pretendida fundação por estar o reino muito onerado de conventos mendicantes, e por muitos outros inconvenientes que a prudência humana sabe ditar. Lá saberiam os desembargadores que inconvenientes ditava a prudência humana, mas agora vão ter de engolir a língua e digerir o mau pensamento, que já disse frei António de S. José que convento havendo, haverá sucessão. A promessa está feita, a rainha parirá, a ordem franciscana colherá a palma da vitória, ela que do martírio tantas colheu. Cem anos à espera não será excessiva mortificação para quem conta viver a eternidade.

Vimos como em instância final saiu absolvido o estudante da suspeita do roubo das lâmpadas. Agora não se vá dizer que, por segredos de confissão divulgados, souberam os arrábidos que a rainha estava grávida antes mesmo que ela o participasse ao rei. Agora não se vá dizer que D. Maria Ana, por ser tão piedosa senhora, concordou calar-se o tempo bastante para aparecer com o chamariz da promessa o escolhido e virtuoso frei António. Agora não se vá dizer que el-rei contará as luas que decorrerem desde a noite do voto ao dia em que nascer o infante, e as achará completas. Não se diga mais do que ficou dito.

Saiam então absolvidos os franciscanos desta suspeita, se nunca se acharam noutras igualmente duvidosas.

Capítulo III

No geral do ano há quem morra por muito ter comido durante a vida toda, razão por que se repetem os acidentes apoplécticos, primeiro, segundo, terceiro, e às vezes um basta para levar à cova, e se o acidentado provisoriamente escapou, fica leso de um lado, de boca à banda, sem voz se o lado foi esse, e também sem remédios que lhe acudam, tirando as sangrias, que se receitam às meias dúzias. Mas não falta, por isso mesmo falecendo mais facilmente, quem morra por ter comido pouco durante toda a vida, ou o que dela resistiu a um triste passadio de sardinha e arroz, mais a alface que deu a alcunha aos moradores, e carne quando faz anos sua majestade. Quer Deus que o rio seja pródigo de peixe, louvemo-los aos três por isso. E que a alface, mais as outras hortaliças, venham nas burricadas do termo, ceirões repletos, a toque de saloios e saloias, que neste trabalho não se distinguem. E que o arroz não falte além do tolerável. Mas esta cidade, mais que todas, é uma boca que mastiga de sobejo para um lado e de escasso para o outro, não havendo portanto mediano termo entre a papada pletórica e o pescoço engelhado, entre o nariz rubicundo e o outro héctico, entre a nádega dançarina e a escorrida, entre a pança repleta e a barriga agarrada às costas. Porém, a Quaresma, como o sol, quando nasce, é para todos.

Correu o Entrudo essas ruas, quem pôde empaturrou-se de galinha e de carneiro, de sonhos e de filhós, deu umbigadas pelas esquinas quem não perde vaza autorizada, puseram-se rabos surriados em lombos fugidiços, esguichou-se água à cara com seringas de clisteres, sovaram-se incautos com réstias de cebolas, bebeu-se vinho até ao arroto e ao vómito, partiram-se panelas, tocaram-se gaitas, e se mais gente não se espojou, por travessas praças e becos, de barriga para o ar, é porque a cidade é imunda, alcatifada de excrementos, de lixo, de cães lazarentos e gatos vadios, e lama mesmo quando não chove. Agora é tempo de pagar os cometidos excessos, mortificar a alma para que o corpo finja arrepender-se, ele rebelde, ele insurrecto, este corpo parco e porco da pocilga que é Lisboa.

Vai sair a procissão de penitência. Castigámos a carne pelo jejum, macerêmo-la agora pelo açoite. Comendo pouco purificam-se os humores, sofrendo alguma coisa escovam-se as costuras da alma. Os penitentes homens todos, vão à cabeça da procissão, logo atrás dos frades que transportam os pendões com as representações da Virgem e do Crucificado. Seguinte a eles aparece o bispo debaixo do pálio rico, e depois as imagens nos andores, o regimento interminável de padres, confrarias e irmandades, todos a pensarem na salvação da alma, alguns convencidos de que a não perderam, outros duvidosos enquanto se não acharem no lugar das sentenças, porventura um deles pensando secretamente que o mundo está louco desde que nasceu. Passa a procissão entre filas de povo, e quando passa rojam-se pelo chão homens e mulheres, arranham a cara uns, arrepelam-se outros, dão-se bofetões todos, e o bispo vai fazendo sinaizinhos da cruz para este lado e para aquele, enquanto um acólito balouça o incensório. Lisboa cheira mal, cheira a podridão, o incenso dá um sentido à fetidez, o mal é dos corpos, que a alma, essa, é perfumada.

Nas janelas só há mulheres, é esse o costume. Os penitentes vão de grilhões enrolados às pernas, ou suportam sobre os ombros grossas barras de ferro, passando por cima delas os braços como crucificados, ou desferem para as costas chicotadas com as disciplinas feitas de cordões em cujas pontas estão presas bolas de cera dura, armadas de cacos de vidro, e estes que assim se flagelam é que são o melhor da festa porque exibem verdadeiro sangue que lhes corre da lombeira, e clamam estrepitosamente, tanto pelos motivos que a dor lhes dá como de óbvio prazer, que não compreenderíamos se não soubéssemos que alguns têm os seus amores à janela e vão na procissão menos por causa da salvação da alma do que por passados ou prometidos gostos do corpo.

Presas no alto gorro ou na própria disciplina, levam fitinhas de cores, cada um a sua, e se a mulher eleita que à janela anseia de angústia, de piedade pelo ama, dor sofredor, se não também de gozo a que só muito mais tarde aprenderemos a chamar sádico, não souber, pela fisionomia ou pelo vulto, reconhecer o amante na confusão dos penitentes, dos pendões, do povinho derramado em pavores e súplicas, do vozear das ladainhas, do bambear desacertado dos pálios, dos cabeceamentos bruscos das imagens, adivinhará ao menos pela fitinha cor-de-rosa ou verde, ou amarela, lilás, se não vermelha ou cor do céu, é aquele o seu homem e servidor, que lhe está dedicando a vergastada violenta e que, não podendo falar berra como o toiro em cio, mas se às mais mulheres, da rua, e a ela própria, pareceu que faltou vigor ao braço do penitente ou que a vergastada foi em jeito de não abrir lanho na pele e rasgões que cá de cima se vejam, então levanta-se do coro feminil grande assuada, e possessas, frenéticas as mulheres reclamam força no braço, querem ouvir o estralejar dos rabos do chicote que o sangue corra como correu o do Divino Salvador, enquanto latejam por baixo das redondas saias, e apertam e abrem as coxas segundo o ritmo da excitação e do seu adiantamento. Está o penitente diante da janela da amada, em baixo na rua, e ela olha-o dominante, talvez acompanhada de mãe ou prima ou aia, ou tolerante avó, ou tia azedíssima, mas todas sabendo muito bem o que se passa, por experiência fresca ou recordação remota, que Deus não tem nada que ver com isto, é tudo coisa de fornicação, e provavelmente o espasmo de cima veio em tempo de responder ao espasmo de baixo, o homem de joelhos no chão, desferindo golpes furiosos, já frenéticos, enquanto geme de dor, a mulher arregalando os olhos para o macho derrubado, abrindo a boca para lhe beber o sangue e o resto.

Parou a procissão o tempo bastante para se concluir o acto, o bispo abençoou e santificou, a mulher sente aquele delicioso relaxamento dos membros, o homem passou adiante, vai pensando, aliviadamente, que daqui para a frente não precisará vergastar-se com tanta força, outros o façam para gáudio doutras.

Assim maltratadas as carnes, alimentadas de magro, parece que se haveriam de recolher as insatisfações até à libertação pascal e que as solicitações da natureza poderiam esperar que se limpassem as sombras do rosto da Santa Madre Igreja, agora que se aproximam Paixão e Morte. Mas talvez que a riqueza fosfórica do peixe atice o sangue, talvez que o costume de deixar que as mulheres corram as igrejas sozinhas na Quaresma, contra o uso do resto do ano, que é tê-las em casa presas, salvo se são populares com porta para a rua ou nesta vivendo, tão presas aquelas que se diz saírem, se são de nobre extracção, para ir à igreja somente, e apenas três vezes na vida, a ser baptizada, a ser casada, a ser sepultada, para o resto lá está a capela da casa, talvez que o dito costume mostre, afinal, quanto é insuportável a Quaresma, que todo o tempo quaresmal é tempo de morte antecipada, aviso que devemos aproveitar, e então, cuidando os homens, ou fingindo cuidar, que as mulheres não fazem mais que as devoções a que disseram ir, é a mulher livre uma vez no ano, e se não vai sozinha por não o consentir a decência pública, quem a acompanha leva iguais desejos e igual necessidade de satisfazê-los, por isso a mulher, entre duas igrejas, foi a encontrar-se com um homem, qual seja, e a criada que a guarda troca uma cumplicidade por outra, e ambas, quando se reencontram diante do próximo altar, sabem que a Quaresma não existe e o mundo está felizmente louco desde que nasceu. Pelas ruas de Lisboa, cheias de mulheres que vestem por igual, com os seus biocos, a saia de cima pela cabeça, uma nesga apenas a abrir para o sinal de olhos ou de beiços, código geral aprendido na clandestinidade dos sentimentos e das volúpias proibidas, por estas ruas, com uma igreja a cada esquina, um convento por quarteirão, corre um vento de Primavera que dá volta à cabeça e, não correndo o vento, fazem os suspiros as vezes dele os que se desabafam nos confessionários ou em lugares escusos, propícios a outras confissões, as da carne adúltera, oscilando na beirada do prazer e do inferno, ambos gostosos nestes dias de mortificação, de altares despidos, de lutos rituais, de pecado omnipresente. Entretanto, se édia, estarão dormindo a sesta o maridos ingénuos, ou que fingem sê-lo, e se noite, quando soturnamente as ruas e as praças se enchem de multidões que cheiram a cebola e a alfazema, e o murmúrio das orações sai pelas portas escancaradas das igrejas, se é noite, mais descansados se sentem, porque assim a demora não será tanta, já se ouviu bater a porta, soaram os passos na escada, vêm falando familiarmente a ama e a criada, pudera não, ou a escrava preta, se a levou, e pelas frinchas dançam as luzes da palmatória ou do candil, finge o marido que acorda, finge a mulher que o acordou, e se ele pergunta, Então, já sabemos o que ela responderá, que vem morta de canseira, moídinha dos pés, arrastadinha dos joelhos, mas consolada a alma, e diz o misterioso número, Sete igrejas visitei, tão apaixonadamente o disse que ou foi a devoção muita ou muita a falta dela.

De tais desafogamentos se vêem privadas as rainhas, principalmente se já estão grávidas, e do seu legítimo senhor, que por nove meses não voltará a aproximar-se delas, regra aliás comum ao popular, mas que vai sofrendo as suas infracções. D. Maria Ana, como razões acrescentadas de recato, tem a mais a maníaca devoção com que foi educada na Áustria, e a cumplicidade que deu ao artifício franciscano, assim mostrando ou dando a entender que a criança que em seu ventre se está formando é tão filha do rei de Portugal como do próprio Deus, a troco de um convento.

D. Maria Ana deitou-se muito cedo, rezou antes de ir para a cama, em murmurado coro com as damas que a servem, e depois, coberta já pelo seu cobertor de penas, torna a rezar, reza infinitamente, começam as damas a cabecear, mas resistem como sábias, se não como virgens, e enfim se retiram, fica apenas a luz do lampadeiro vigiando, e a dama que ali passará a noite, num leito baixo, não tarda que adormeça, sonhe se quiser, que importância hão-de ter os sonhos que por trás das suas pálpebras se estão sonhando, a nós o que nos interessa é o trémulo pensamento que ainda se agita em D. Maria Ana, à beira do sono, que na Quinta-Feira Santa há-de ir à igreja da Madre de Deus, onde está um Santo Sudário que as freiras desdobrarão diante dela antes de o exporem aos fiéis, e nele serão claramente vistas as marcas do corpo de Cristo, este é o único e verdadeiro Santo Sudário que existe na cristandade, minhas senhoras e meus senhores, como todos os outros são igualmente verdadeiros e únicos, ou não seriam à mesma hora mostrados em tão diferentes lugares do mundo, mas, porque está em Portugal, é o mais vero de todos e único mesmo. Quando, ainda consciente, D. Maria Ana se vê a si própria inclinando-se para o pano santíssimo, não se chega a saber se o ia beijar devotamente, porque de repente adormece e acha-se dentro do coche, recolhendo-se ao paço noite já escura, com a sua guarda de archeiros, e subitamente um homem a cavalo, que vem da caça, com quatro criados em mulas e animais de pêlo e pena pendurados dos arções, dentro de redes, rompe o homem em direcção ao coche, de espingarda na mão, o cavalo raspando lume nas pedras e deitando fumo pelas ventas, e quando como um raio rompe a guarda da rainha e chega à estribeira dificilmente sofreando a montada, dá-lhe na cara a luz das tochas, é o infante D. Francisco,de que lugares do sono veio ele e porque virá tantas vezes. Espantou-se-lhe o cavalo, não podia ter sido outra coisa, com o tropear do coche e dos archeiros sobre as pedras da calçada, mas, comparando sonho e sonho, observa a rainha que de cada vez chega o infante mais perto, que quererá ele, e ela que quererá.

Quaresma sonho de uns e vigília de outros. Passou a Páscoa, que acordou toda a gente, mas reconduziu as mulheres à sombra dos quartos e ao carrego das saias. Em casa há mais uns tantos maridos cucos, mas bastante ferozes para o caso de outras quedas fora da estação. E porque andando, andando, acabámos por falar de aves, é altura de ouvirmos os canários que, dentro das igrejas, em gaiolas enfeitadas de fitas e de flores, cantam loucos de amor, enquanto no púlpito o frade prega o seu sermão e fala de coisas que presume de mais sagradas. É Quinta-Feira de Ascensão, sobe para as abóbadas o canto dos pássaros, subirão ou não as preces ao céu, se eles as não ajudam não haverá esperança, talvez se nos calássemos todos.

Capítulo IV

Este que por desafrontada aparência, sacudir da espada e desparelhadas vestes, ainda que descalço, parece soldado, é Baltasar Mateus, o Sete-Sóis. Foi mandado embora do exército por já não ter serventia nele, depois de lhe cortarem a mão esquerda pelo nó do pulso, estraçalhada por uma bala em frente de Jerez de los Caballeros, na grande entrada de onze mil homens que fizemos em Outubro do ano passado e que se terminou com perda de duzentos nossos e debandada dos vivos, acossados pelos cavalos que os espanhóis fizeram sair de Badajoz. A Olivença nos recolhemos, com algum saque que tomámos em Barcarrota e pouco gosto para gozar dele, que não tinha valido a pena marchar dez léguas para lá e correr outras tantas para cá, deixando no campo tanta gente morta e metade da mão de Baltasar Sete-Sóis. Por muita sorte, ou graça particular do escapulário que traz ao peito, não gangrenou a ferida ao soldado nem lhe rebentaram as veias com a força dogarrote, e, sendo hábil o cirurgião, bastou desarticular-lhe as juntas, desta vez nem foi preciso meter o serrote ao osso. Com ervas cicatrizantes lhe almofadaram o coto, e tão excelente era a carnadura de Sete-Sóis que ao cabo de dois meses estava sarado.

Por ser pouco o que pudera guardar do soldo, pedia esmola em Évora para juntar as moedas que teria de pagar ao ferreiro e ao seleiro se queria ter o gancho de ferro que lhe havia de fazer as vezes da mão. Assim passou o Inverno, forrando metade do que conseguia angariar, acautelando para o caminho metade da outra metade, e entre a comida e o vinho se lhe ia o resto. Já era Primavera quando, pago aos poucos por conta, o seleiro, com a última verba, lhe entregou o gancho, mais o espigão que, por capricho de ter duas diferentes mãos esquerdas, Baltasar Sete-Sóis encomendara. Eram asseadas obras de couro, ligadas perfeitamente aos ferros, sólidos estes de malho e têmpera, e as correias de dois tamanhos, para atar acima do cotovelo e ao ombro, por maior reforço. Começou Sete-Sóis a sua viagem ao tempo de se saber que já o exército da Beira se deixava ficar pelos quartéis e não vinha ajudar ao Alentejo por ser a fome muita nesta província, sobre ser geral nas outras.

A tropa andava descalça e rota, roubava os lavradores, recusava-se a ir à batalha, e tanto desertava para o inimigo como debandava para as suas terras, metendo-se fora dos caminhos, assaltando para comer, violando mulheres desgarradas, cobrando, enfim, a dívida de quem nada lhes devia e sofria desespero igual. Sete-Sóis, mutilado, caminhava para Lisboa pela estrada real, credor de uma mão esquerda que ficara parte em Espanha e parte em Portugal, por artes de uma guerra em que se haveria de decidir quem viria a sentar-se no trono de Espanha, se um Carlos austríaco ou um Filipe francês, português nenhum, se completos ou manetas, se inteiros ou mancos, salvo se deixar membros cortados no campo ou vidas perdidas não é apenas sina de quem tiver de nome soldado e para se sentar o chão ou pouco mais. Saiu Sete-Sóis de Évora, passou Montemor, não leva por companhia e ajuda frade ou diabinho, e para mão furada já lhe basta a sua.

Veio andando devagar. Não tem ninguém à sua espera em Lisboa, e em Mafra, donde partiu anos atrás para assentar praça na infantaria de sua majestade, se pai e mãe se lembram dele, julgam-no vivo porque não têm notícias de que esteja morto, ou morto porque as não têm de que seja vivo. Enfim, tudo acabará por saber-se com o tempo. Agora faz sol, não tem chovido, e os matos estão cobertos de flores, os pássaros cantam. Baltasar Sete-Sóis leva os ferros no alforge porque há momentos, horas inteiras, em que sente a mão como se ainda a tivesse na ponta do braço e não quer roubar a si próprio a felicidade se achar inteiro e completo como inteiros e completos se hão-de sentar Carlos e Filipe em seus tronos, afinal haverá para os dois, quando a guerra acabar. A Sete-Sóis basta-lhe, para seu contentamento, e desde que não olhe onde lhe falta, a comichão que sente na ponta do dedo indicador, e imaginar que está coçando com o polegar o sítio onde lhe come. E quando esta noite sonhar, se a si próprio se olhar no sono, ver-se-á sem que nada lhe falte e poderá apoiar a cabeça cansada nas palmas das duas mãos.

Também por outra interesseira razão traz Baltasar os ferros guardados. Aprendeu rapidamente que com eles postos, em particular o espigão, lhe escusam a esmola, ou dão-lha sovina, ainda que a alguma moeda sempre forçados pela espada que leva à cintura, descaída sobre a anca, apesar de que espada toda a gente a usa, até os pretos, porém não com este perfeito ar de quem aprendeu a servir-se dela, agora mesmo se for preciso. E se o número de viajantes não equilibra a desconfiança causada por aquele vulto que no meio do caminho, cortando a passagem, pede auxílio para um soldado a quem cortaram a mão e só por milagre não a vida, se quem vem teme que a súplica possa mudar-se em assalto, a esmola sempre cai na mão que resta, é o que vale a Baltasar, ter ainda a mão direita.

Passado Pegões, à entrada dos grandes pinheirais onde começa a terra de areia, Baltasar, ajudando-se com os dentes, ata ao coto o espigão, que fará, urgindo a necessidade, as vezes de adaga, em tempo que foi esta proibida por ser arma facilmente mortal. Sete-Sóis tem, por assim dizer, carta de privilégio, e, duplamente armado de espigão e espada, mete-se ao caminho, na penumbra das árvores. Matará adiante um homem, de dois que o quiseram roubar, mesmo tendo-lhes ele gritado que não levava dinheiros, porém, vindo nós de uma guerra onde vimos morrer tanta gente, não é este caso que mereça relato singular, salvo ter Sete-Sóis trocado depois o espigão pelo gancho para mais facilmente arrastar o morto para fora do caminho, assim ficando experimentados os préstimos de ambos os ferros. O salteador safo seguiu-o ainda por meia légua entre os pinheiros, por fim desistiu, e só de longe lhe lançou palavras de insulto e maldição, porém, como quem não acreditava que umas empecessem e outras ofendessem.

Quando Sete-Sóis chegou a Aldegalega, estava anoitecendo. Comeu umas sardinhas fritas, bebeu uma tigela de vinho, e, não lhe chegando o dinheiro para a pousada, tão-só, à escassa, para a passagem amanhã, meteu-se num telheiro, debaixo de uns carros, e aí dormiu, enrolado no capote, mas com o braço esquerdo de fora e o espigão armado. Passou a noite em paz. Sonhou com o choque de Jerez de los Caballeros, que os portugueses desta vez irão vencer porque à frente deles avança Baltasar Sete-Sóis segurando na mão direita a mão esquerda cortada, prodígio para que os espanhóis não têm escudo nem esconjuro. Quando acordou, não havia ainda então luzeiro de madrugada no levante do céu, sentiu umas grandes dores na mão esquerda, nem era para admirar, com um espigão de ferro ali espetado. Desatou as correias, e, podendo tanto a ilusão, muito mais sendo noite, e espessa a treva debaixo dos carros, não ver Baltasar as suas duas mãos, não significava que não estivessem lá ambas. Aconchegou com o braço esquerdo o alforge, enroscou-se no capote e tornou a adormecer. Ao menos livrara-se da guerra. Com menos um bocado, mas vivo.

Na claridade do primeiro alvorecer, levantou-se. O céu estava muito limpo, transparente até às últimas e pálidas estrelas. Era um bonito dia para entrar em Lisboa, com bom tempo para lá ficar ou continuar viagem, logo veria. Meteu a mão ao alforge, tirou as botas arruinadas que em todo o caminho, do Alentejo nunca calçara, e calçasse-as ele nesse mesmo caminho teriam ficado, e pedindo à mão direita habilidades novas, com o frouxo amparo que o coto, ainda em primeira aprendizagem, podia oferecer, conseguiu acomodar os pés, se pelo contrário não ia sacrificá-los em bolhas e roeduras, tão antigo era o hábito de andarem descalços, em sua vida de paisano, ou, no tempo militar, quando a impedimenta nem para jantar tinha sola, quanto mais para botas. Não há pior vida que a do soldado. Quando chegou ao cais, era já sol-fora. Começara a vazante, o mestre da barca gritava que ia largar não tarda, Está a maré boa, quem embarca para Lisboa, e Baltasar Sete Sóis correu pela prancha, tilintavam-lhe os ferros dentro do alforge, e quando um gracioso disse que o maneta levava as ferraduras no saco, se calhar para as poupar, olhou-o de revés, meteu a mão direita e tirou o espigão, onde, agora bem se via, se não era aquilo sangue seco, era o diabo que o fingia. O gracioso desviou os olhos, encomendou-se a S. Cristóvão, que defende de maus encontros e acidentes de viagem, e dali até Lisboa não abriu mais o bico. Uma mulher que calhou ir sentada ao lado de Sete-Sóis, com o marido, desatou o farnel do almoço, e se à vizinhança ofereceu por comprazer, mas nenhuma vontade de repartir, com o soldado insistiu tanto, que ele aceitou. Baltasar não gostava de comer diante de gente, com aquela sua mão direita que sozinha parecia canha, o pão que escorregava, o conduto que caía, mas a mulher ajeitou-lhe a comida em cima duma larga fatia e assim, alternando o uso dos dedos com a ponta da faquita que tirara do bolso, pôde comer com descanso e suficiente asseio. A mulher tinha idade para ser sua mãe, o homem para ser seu pai, não se tratava ali de nenhum namoro sobre as águas do Tejo, nas barbas de involuntário ou consentidor pau-de-cabeleira. Apenas alguma fraternidade, dó de quem vem da guerra aleijado para sempre.

O mestre levantara uma pequena vela triangular, o vento ajudava a maré, e ambos o barco. Os remadores, frescos da noite dormida e da aguardente bebida, remavam certo e sem pressa. Quando dobraram a ponta de terra, a barca foi apanhada na força da corrente e da vazante, parecia uma viagem para o paraíso, com o sol relampejando na superfície da água e duas famílias de toninhas, qual uma, qual outra, cruzando à frente da barca, escuros os seus lombos luzidios, arqueados como se imaginassem o céu perto e lhe quisessem chegar. Na outra margem, assente sobre a água, ainda longe, Lisboa derramava-se para fora das muralhas. Via-se o castelo lá no alto, as torres das igrejas dominando a confusão das casas baixas, a massa indistinta das empenas. E o mestre começou a contar, Boa foi a que sucedeu ontem, quem quer ouvir, e todos queriam, sempre era um modo de passar o tempo, que a viagem não é curta, Então foi assim, começou o mestre, chegou aí uma frota inglesa, que está além, em frente da praia de Santos, e traz tropas que hão-de ir para a Catalunha, para a guerra, com as outras que cá estavam à espera, mas veio também com ela um navio que trazia uns casais de facinorosos desterrados para a ilha das Barbadas, e umas cinquenta mulheres de má vida que para lá também iam, a fazerem casta, que em terras dessas tanto monta honrada como desonrada, mas o capitão do navio entendeu, diabo do homem, que em Lisboa a poderiam fazer melhor e assim se aligeirou da carga, mandou pôr as mulheres em terra, com o corpinho que têm, que algumas vi-as eu, não era nada má a inglesia. Riu-se de gosto antecipado o mestre, como se estivesse fazendo seus próprios planos de navegação carnal e calculando os proveitos da abordagem, riram grosso os remadores algarvios, Sete-Sóis espreguiçou-se como um gato ao sol, a mulher do farnel fez que não ouvira, o marido estava sem saber se havia de achar graça à história ou ficar sério, justamente porque histórias destas já a sério as não podia tomar, se alguma vez pudera, vivendo longe, em terra de Pancas, onde, do nascer ao morrer, é sempre o mesmo rego da charrua, a própria e a figurada. E, pegando numa ideia, depois noutra, por alguma razão desconhecida as ligando, perguntou ao soldado, E vossemecê, que idade tem, e Baltasar respondeu, Vinte e seis anos.

Lisboa ali estava, oferecida na palma da terra, agora alta de muros e de casas. A barca aproou à Ribeira, fez o mestre manobra para encostar ao cais depois de ter arreado a vela, e os remadores levantaram num só movimento os remos do lado da atracação, os do outro lado harpejaram a amparar, mais um toque no leme, um cabo lançado por cima das cabeças, foi como se se tivessem juntado as duas margens do rio. Estando vaza a maré, ficava alto o cais, e Baltasar ajudou a mulher do farnel e o seu homem, de peito feito pisou o gracioso que não tugiu nem mugiu, e, alçando a perna, num só impulso se achou em firme.

Havia uma confusão de muletas e caravelões que descarregavam peixe, os olheiros gritavam e maltratavam de palavras e algum safanão os carregadores pretos que passavam ajoujados, encharcados pela água que escorria das grandes alcofas, com a pele dos braços e da cara salpicada de escamas. Parecia que tinham vindo juntar-se no mercado todos os moradores de Lisboa. A Sete-Sóis crescia-lhe a água na boca, era como se uma fome acumulada em quatro anos de campanha militar estivesse saltando agora os diques da resignação e da disciplina. Sentiu o estômago aos torcegões, inconscientemente procurou com os olhos a mulher do farnel, onde é que ela já iria, mais o seu sossegado marido, este provavelmente a mirar as fêmeas que passavam, a adivinhar se eram inglesas e de má vida, um homem precisa de fazer a sua provisão de sonhos.

Com pouco dinheiro no bolsilho, umas só moedas de cobre que soavam bem menos que os ferros do alforge, desembarcado numa cidade que mal conhecia, tinha Baltasar de resolver que passos daria a seguir, se a Mafra onde não poderia a sua única mão pegar numa enxada que requer duas, se ao paço onde talvez lhe dessem uma esmola por conta do sangue perdido. Alguém lhe tinha dito isto em Évora, mas também lhe foram dizendo que era necessário pedir muito e por muito tempo, com muito empenho de padrinhos, e apesar disso muitas vezes se apagava a voz e acabava a vida antes que se visse a cor ao dinheiro. Na falta, aí estavam as irmandades para a esmola e as portarias dos conventos que proviam ao caldo e ao tassalho do pão. E um homem a quem falte a mão canhota não tem muito de que se queixar se ainda lhe ficou a destra para pedir a quem passa. Ou exigir com um ferro aguçado. Sete-Sóis atravessou o mercado do peixe. As vendedeiras gritavam desbocadamente aos compradores, provocavam-nos, sacudiam os braços carregados de braceletes de ouro, batiam juras no peito onde se reuniam fios, cruzes, berloques, cordões, tudo de bom ouro brasileiro, assim como os longos e pesados brincos ou argolas, arrecadas ricas que valiam a mulher. Mas, no meio da multidão suja, eram miraculosamente asseadas, como se as não tocasse sequer o cheiro do peixe que removiam às mãos cheias. A porta duma taberna que ficava ao lado da casa dos diamantes, Baltasar comprou três sardinhas assadas, que, sobre a indispensável fatia de pão, soprando e mordiscando, comeu enquanto caminhava em direcção ao Terreiro do Paço. Entrou no açougue que dava para a praça, a regalar a vista sôfrega nas grandes peças de carne, nos bois e porcos abertos, quartos inteiros pendurados dos ganchos. A si próprio prometeu um festim de viandas quando lhe desse o dinheiro para isso, não sabia então que ali viria a trabalhar, um dia próximo, e que deveria o emprego, a padrinho sim, mas também ao gancho que trazia no alforge, tão prático para puxar uma carcaça, para escoar umas tripas, para arredar umas mantas de gordura. Tirando a sangueira, o lugar é limpo, com as paredes forradas de azulejos brancos, e se o homem da balança não enganar no peso, com outros enganos ninguém dali sai, porque em qualidades de macieza e saúde é muito verdadeira a carne.

Aquilo além é o palácio do rei, está o palácio, o rei não está, anda a caçar em Azeitão, com o infante D. Francisco e os seus outros irmãos, mais os criados da casa, e os reverendos padres jesuítas João Seco e Luís Gonzaga, que decerto não foram só para comer e rezar, talvez quisesse el-rei refrescar as lições de matemáticas e latinidades que deles, quando príncipe, recebeu. Levou também sua majestade uma espingarda nova, que lha fez João de Lara, mestre de armas dos armazéns do reino, obra fina, adamasquinada de prata e ouro, que se a perder em caminho tornará prestes a seu dono, pois tem ao comprido do cano, em boa letra romana embutida, como a do frontão de S. Pedro de Roma, estes dizeres explicados SOU DE EL-REI NOSSO SENHOR AVE DEUS GUARDE DOM JOAM O V, todos em maiúsculas, como se copia, e ainda dizem que as espingardas só sabem falar pela boca e em linguagem de pólvora e chumbo. Essas são as comuns, como foi a de Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, agora desarmado e parado no meio do Terreiro do Paço, a ver passar o mundo, as liteiras e os frades, os quadrilheiros e os mercadores, a ver pesar fardos e caixões, dá-lhe de repente uma grande saudade da guerra, e se não fosse saber que não o querem lá, ao Alentejo voltaria neste instante, mesmo adivinhando que o esperava a morte.

Meteu-se Baltasar pela rua larga, em direcção ao Rossio, depois de ter entrado na igreja de Nossa Senhora da Oliveira, onde assistiu a uma missa e trocou sinais com uma mulher sozinha que dele se agradou, divertimento aliás geral, porque, mulheres a um lado, homens ao outro, recados, gestos de mão, movimentos de lenço, trejeitos de boca, piscadelas de olhos, não faziam mais, se não é pecado fazer tanto, que transmitir mensagens, combinar encontros, pactuar acordos, mas vindo Baltasar de tão longe, afalcoado do caminho, sem dinheiros para manjares-do-céu e fitas de seda, não foi por diante com o namoro, e, saindo da igreja, meteu pela rua larga, em direcção ao Rossio. Era este um dia de mulheres, como se confirmava pela dúzia delas que vinham saindo duma rua estreita, rodeadas de quadrilheiros pretos que as tocavam para a frente, com um corregedor de vara na mão, e eram quase todas louras, de claros olhos, azuis, verdes, cinzentos, Quem são estas, perguntou Sete-Sóis, e quando um homem cerca lho disse, já ele estava acertando que seriam inglesas levadas ao navio donde por fraude do capitão haviam sido largadas, e que remédio agora senão irem para as ilhas Barbadas, em vez de ficarem nesta boa terra portuguesa, tão favorecedora de putas estrangeiras, ofício que se ri das confusões de Babel, porque nas oficinas dele se pode entrar mudo e sair calado, desde que antes tenha falado o dinheiro. Mas o mestre da barca dissera que eram ao todo umas cinquenta e ali não iam mais que doze, Que é das outras, e o homem respondeu, Já apanharam umas tantas, mas não as levam todas, porque algumas se esconderam muito bem escondidas, se calhar a esta hora já sabem se há diferença entre ingleses e portugueses. Seguiu Baltasar o seu caminho, fazendo a S. Bento promessa de um coração de cera se lhe pusesse adiante, ao menos uma vez na vida, uma inglesa loura, de olhos verdes, e que fosse alta e delgada. Se no dia da festa daquele santo vai a gente bater-lhe à porta da igreja a pedir que não falte o pão, se as mulheres que querem arranjar bons maridos mandam rezar-lhe missas às sextas-feiras, que mal tem que peça um soldado a S. Bento uma inglesa, ao menos uma vez, para não morrer ignorante.

Baltasar Sete-Sóis girou pelos bairros e praças durante toda a tarde. Foi beber um caldo à portaria do convento de S. Francisco da Cidade, informou-se das irmandades mais generosas na esmola, retendo três delas para ulterior averiguação, a de Nossa Senhora da Oliveira, onde já estivera, que era a dos confeiteiros, a de Santo Elói, dos ourives da prata, e a do Menino Perdido, por alguma semelhança que consigo encontrava, mesmo lembrando-se tão pouco de ter sido menino, perdido sim, se me acharão um dia. Caiu a noite, e Sete-Sóis foi procurar onde dormir. Já então se tinha ligado de amizade com outro antigo soldado, mais velho de anos e experiência, chamava-se este João Elvas, agora com modo de vida na rufiagem, que justamente se acoitava para a noite, estando suave o tempo, nuns telheiros abandonados, rentes com os muros do convento da Esperança, para o lado do olival. Fez-se Baltasar hóspede de ocasião, sempre era um amigo novo, uma companhia para a conversa, mas, pelo sim pelo não, dando como desculpas convir-lhe muito aliviar o braço são do peso do alforge, encairou o gancho no coto, não querendo ofuscar João Elvas e mais quadrilha com o espigão, arma mortal, como sabemos. Ninguém lhe fez mal, e eram seis debaixo do telheiro, e ele não fez mal a ninguém. Enquanto não adormeceram, falaram de crimes acontecidos. Não dos seus próprios, cada qual sabe de si, Deus saberá de todos, mas dos de gente principal, sem castigo quase sempre quando conhecidos os autores, e sem escrúpulo extremo da justiça nas averiguações se fora misterioso o acto. Ladrãozito, briguento, matador de a real e meio, se não havia perigo de soltar este a língua para denunciar o mandante, esses malhavam com os ossos no Limoeiro, e ainda assim tinham as sopas garantidas, tanto como a merda e o mijo em que viviam. A pontos de há pouco tempo terem soltado uns cento e cinquenta de culpas menos pesadas, que então estavam no Limoeiro, por junto, mais de quinhentos, com as muitas levas de homens que vieram para a Índia e que acabaram por não ser necessários, e era tanto o ajuntamento, e a fome tanta, que se declarou uma doença que nos ia matando a todos por isso soltaram aqueles, um deles sou eu. E outro disse, Isto é terra de muito crime, morre-se mais que na guerra, é o que diz quem lá andou, e tu que dizes, Sete-Sóis, e Baltasar respondeu, Vi como se morre na guerra, não sei como se morre em Lisboa, por isso não posso comparar, mas que fale aí o João Elvas, tanto sabe de praças de guerra como de praças de gente, e João Elvas só encolheu os ombros, não disse nada. Tornou a conversa ao ponto primeiro, e foi contado o caso do dourador que deu uma facada numa viúva com quem queria casar, e não queria ela, que por castigo de não coroar o desejo do homem ficou morta, e ele foi-se meter no convento da Trindade, e também aquela desventurada mulher que tendo repreendido o marido de descaminhos em que andava, lhe passou ele uma espada de parte a parte, e mais o que aconteceu ao clérigo que por história de amores levou três formosas cutiladas, tudo em tempo de Quaresma, que é sazão de sangue ardido e humor retraído, como se tem averiguado, Mas Agosto também não é bom, como ainda o ano passado se viu, quando aí apareceu uma mulher cortada em catorze ou quinze pedaços, nunca se chegou a saber a conta, o que se percebia é que tinha sido açoitada com muita crueldade nas partes fracas, como traseiras e barriga das pernas, cortadas fora, separadas dos ossos, os pedaços foram deixados na Cotovia, metade postos nas obras do conde de Tarouca, e os outros abaixo nos Cardais, mas tão manifestos que facilmente foram encontrados, nem os enterraram, nem os deitaram ao mar, parecia que de propósito os deixavam à vista, para que fosse geral o horror.

Tomou então a palavra João Elvas, que declarou, Foi grande chacina, e deve ter sido feita em vida da infeliz, porque teria sido rigor demasiado tratar assim um cadáver, e porquê, quando o que ali se via era o retalhado das partes sensíveis e menos mortais, só alguém de coração mil vezes danado e perdido pode ter praticado tal crime, nunca na guerra viste uma coisa assim, Sete-Sóis, mesmo não sabendo eu o que na guerra viste, e o que começara a contar o caso pegou nesta vírgula e continuou, Depois foram aparecendo as partes que faltavam, ao outro dia achou-se na Junqueira a cabeça e uma mão, e um pé à Boavista, e por mão, pé e cabeça se viu ser pessoa mimosa e bem criada, mostrava o rosto ter de idade não mais que dezoito, vinte anos, e no saco onde apareceu a cabeça vinham as tripas e mais partes interiores, e os seios, cortados como laranjas, e com eles uma criança que mostrava três ou quatro meses, estrangulada com um cordão de seda, em Lisboa tem-se visto muito, nunca um caso assim.

Tornou João Elvas, acrescentando o que do sucesso sabia, El-rei mandou pôr cartéis com promessa de que se dariam mil cruzados a quem descobrisse os culpados, mas já lá vai quase um ano e nunca se descobriram, pudera, que logo toda a gente viu que deviam ser pessoas com quem se não havia de entender, que os tais homicidas não eram sapateiros nem alfaiates, que estes só nas bolsas fazem cortes, e os da tal mulher foram feitos com tal arte e ciência, sem se errar nenhuma junta de tantas partes do corpo que se lhe cortaram, quase osso por osso, que os cirurgiões chamados à vistoria disseram que aquilo fora feito por pessoa peritíssima na arte anatómica, só não confessaram que nem eles sabiam tanto. Por trás do muro do convento ouviam-se ladainhar as freiras, mal sabem elas do que se livram, parir um filho e tão violentamente pagar por ele, então Baltasar perguntou, E não veio a saber-se mais, nem quem fosse a mulher, Nem dela nem dos homicidas houve notícia, puseram-lhe a cabeça na porta da Misericórdia para ver se alguém a conhecia, foi o mesmo que nada, e um dos que ainda não tinham falado, de barbas mais brancas do que negras, disse, Deviam de ser de fora da corte, se fossem moradores nela dava-se pela falta da mulher e começavam a murmurar, terá sido algum pai que determinou matar a filha por causa de desonra e a mandou trazer, espedaçada, em cima de mula ou escondida a carniça numa liteira, para a espalhar na cidade, se calhar, lá onde mora, enterrou um porco a fingir que era a assassinada, e disse que a sua pobre filha tinha morrido de bexigas, ou de humores corruptos, para não ter de abrir a mortalha, ele há gente capaz de tudo, até do que está por fazer.

Calaram-se os homens, indignados, das freiras não se ouvia agora um suspiro, e Sete- Sóis declarou, na guerra há mais caridade, A guerra ainda está uma criança, duvidou João Elvas. E não havendo mais que dizer depois desta sentença, puseram-se todos a dormir.

Capítulo V

D. Maria Ana não irá hoje ao auto-de-fé. Está de luto por seu irmão José, o imperador da Áustria, que em pouquíssimos dias o tomaram as bexigas, verdadeiras, e morreu delas, tendo somente trinta e três anos, mas a razão porque ficará no resguardo dos aposentos não é essa, muito mal andariam os Estados quando uma rainha afracasse por esse pouco se para tão grandes e maiores golpes são educadas. Apesar de já ir no quinto mês, ainda sofre dos enjoos naturais, que, no entanto, também não bastariam a desviar-lhe a devoção e os sentidos de vista, Ouvido e cheiro da solene cerimónia, tão levantadeira das almas, acto tão de fé, a procissão compassada, a descansada leitura das sentenças, as descaídas figuras dos condenados, as lastimosas vozes, O cheiro da carne estalando quando lhe chegam as labaredas e vai pingando para as brasas a pouca gordura que sobejou dos cárceres. D. Maria Ana não estará no auto-de-fé porque, apesar de prenha, três vezes a sangraram, e isso foi-lhe causa de grande debilitação, em acréscimo dos afrontamentos de que vem padecendo há muitos meses. Demoraram-lhe as sangrias como lhe tinham demorado a notícia da morte do irmão, que queriam os médicos segurá-la mais, sendo de tão pouco tempo a gravidez. Que, em verdade, os ares não andam bons no paço, como ainda agora se averiguou ao dar a el-rei um flato rijo, de que pediu confissão e logo lha deram, pelo bem que sempre faz à alma, mas terão sido imaginações suas, que tudo se desatou num bom sucesso quando o purgaram, afinal era só a tripa empedernida. Está o palácio triste, sobre a tristeza em que de costume está, com o luto que el-rei mandou dar a toda a sua casa, e ordem para que os títulos e oficiais dela o pusessem, como ele pôs, fechando-se oito dias e tomando seis meses de nojo, três de capa comprida e três de capa curta, por demonstração do grande sentimento da morte do imperador seu cunhado.

Porém, hoje é dia de alegria geral, porventura a palavra será imprópria, porque o gosto vem de mais fundo, talvez da alma, olhar esta cidade saindo de suas casas, despejando-se pelas ruas e praças, descendo dos altos, juntando-se no Rossio para ver justiçar a judeus e cristãos-novos, a hereges e feiticeiros, fora aqueles casos menos correntemente qualificáveis, como os de sodomia, molinismo, reptizar mulheres e solicitá-las, e outras miuçalhas passíveis de degredo ou fogueira. São cento e quatro as pessoas que hoje saem, as mais delas vindas do Brasil, úbere terreno para diamantes e impiedades, sendo cinquenta e um os homens e cinquenta e três as mulheres. Destas, duas serão relaxadas ao braço secular, em carne, por relapsas, e isto quer dizer reincidentes na heresia, por convictas e negativas, e isto quer dizer teimosas apesar de todos os testemunhos, por contumazes, e isto quer dizer persistentes nos erros que são suas verdades, só desacertadas no tempo e no lugar. E estando já passados quase dois anos que se queimaram pessoas em Lisboa, está o Rossio cheio de povo duas vezes em festa por ser domingo e haver auto-de-fé, nunca sé chegará a saber de que mais gostam os moradores, se disto, se das touradas, mesmo quando só estas se usarem. Nas janelas que dão para a praça estão as mulheres, vestidas e toucadas a primor, à alemoa, por graça da rainha, com o seu vermelhão nas faces e no colo, fazendo trejeitos com a boca em modo de a fazer pequena e espremida, visagens várias e todas viradas para a rua, a si próprias se interrogando as damas se estarão seguros os sinaizinhos do rosto, no canto da boca o beijocador, na borbulhinha o encobridor, debaixo do olho o desatinado, enquanto o pretendente confirmado ou suspirante em baixo se passeia, de lenço na mão e circulando a capa. E sendo o calor tanto, vão-se refrescando os assistentes, com a conhecida limonada, o geral púcaro de água, a talhada de melancia, que não seria por irem morrer aqueles que se consumiriam estes. E se o estômago pede recheio mais substancial, não faltam aí os tremoços e os pinhões, as queijadas e as tâmaras.

El-rei, com os infantes seus manos e suas manas infantas, jantará na Inquisição depois de terminado o acto de fé, e estando já aliviado do seu incómodo honrará a mesa do inquisidor-mor, soberbíssima de tigelas de caldo de galinha, de perdigões, de peitos de vitela, de pastelões, de pastéis de carneiro com açúcar e canela, de cozido à castelhana com tudo quanto lhe compete, e açafroado, de manjar-branco, e enfim doces fritos e frutas do tempo. Mas é tão sóbrio el-rei que não bebe vinho, e porque a melhor lição é sempre o bom exemplo, todos o tomam, o exemplo, o vinho não.

Outro exemplo, mais do proveito da alma, se o corpo tão repleto está, será dado hoje aqui. Começou a sair a procissão, vêm os dominicanos à frente, trazendo a bandeira de S. Domingos, e os inquisidores depois, todos em comprida fila, até aparecerem os sentenciados, foi já dito que cento e quatro, trazem círios na mão, ao lado os acompanhantes, e tudo são rezas e murmúrios, por diferenças de gorro e sambenito se conhece quem vai morrer e quem não, embora um outro sinal haja que não mente, que é ir o alçado crucifixo de costas voltadas para as mulheres que acabarão na fogueira, pelo contrário mostrando a sofredora e benigna face àqueles que desta escaparão com vida, maneiras simbólicas de se entenderem todos quanto àquilo que os espera, se não reparassem no que trazem vestido, e isso sim, é tradução visual da sentença, o sambenito amarelo com a cruz de Santo André a vermelho para os que não mereceram a morte, o outro com as chamas viradas para baixo, dito fogo revolto, se confessando as culpas a evitaram, e a samarra cinzenta, lúgubre cor, com o retrato do condenado cercado de diabos e labaredas, o que, passado a linguagem, significa que aquelas duas mulheres vão arder não tarda. Pregou frei João dos Mártires, provincial dos arrábidos, e certamente ninguém o estaria merecendo mais, se nos lembrarmos de que arrábido foi o frade cuja virtude Deus coroou engravidando a rainha, assim aproveite a prédica à salvação das almas como aproveitarão a dinastia e a ordem franciscana em sucessão assegurada e prometido convento.

Grita o povinho furiosos impropérios aos condenados, guincham as mulheres debruçadas dos peitoris, alanzoam os frades, a procissão é uma serpente enorme que não cabe direita no Rossio e por isso se vai curvando e recurvando como se determinasse chegar a toda a parte ou oferecer o espectáculo edificante a toda a cidade, aquele que ali vai é Simeão de Oliveira e Sousa, sem mester nem benefício, mas que do Santo Ofício declarava ser qualificador, e sendo secular dizia missa, confessava e pregava, e ao mesmo tempo que isto fazia proclamava ser herege e judeu, raro se viu confusão assim, e para ser ela maior tanto se chamava padre Teodoro Pereira de Sousa como frei Manuel da Conceição, ou frei Manuel da Graça, ou ainda Belchior Carneiro, ou Manuel Lencastre, quem sabe que outros nomes teria e todos verdadeiros, porque deveria ser um direito do homem escolher o seu próprio nome e mudá-lo cem vezes ao dia, um nome não é nada, e aquele é Domingos Afonso Lagareiro, natural e morador que foi em Portel, que fingia visões para ser tido por santo, e fazia curas usando de bênçãos, palavras e cruzes, e outras semelhantes superstições, imagine-se, como se tivesse sido ele o primeiro, e aquele é o padre António Teixeira de Sousa, da ilha de S. Jorge, por culpas de solicitar mulheres, maneira canónica de dizer que as apalpava e fornicava, decerto começando na palavra do confessionário e terminando no acto recato da sacristia, enquanto não vai corporalmente acabar em Angola, para onde irá degredado por toda a vida, e esta sou eu, Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova, que tenho visões e revelações, mas disseram-me no tribunal que era fingimento, que ouço vozes do céu, mas explicaram-me que era efeito demoníaco, que sei que posso ser santa como os santos o são, ou ainda melhor, pois não alcanço diferença entre mim e eles, mas repreenderam-me de que isso é presunção insuportável e orgulho monstruoso, desafio a Deus, aqui vou blasfema, herética, temerária, amordaçada para que não me ouçam as temeridades, as heresias e as blasfémias, condenada a ser açoitada em público e a oito anos de degredo no reino de Angola, e tendo ouvido as sentenças, as minhas e mais de quem comigo vai nesta procissão, não ouvi que se falasse da
minha filha, é seu nome Blimunda, onde estará, onde estás Blimunda, se não foste presa depois de mim, aqui hás-de vir saber da tua mãe, e eu te verei se no meio dessa multidão estiveres, que só para te ver quero agora os olhos, a boca me amordaçaram, não os olhos, olhos que não te viram, coração que sente e sentiu, ó coração meu, salta-me no peito se Blimunda aí estiver, entre aquela gente que está cuspindo para mim e atirando cascas de melancia e imundícies, ai como estão enganados, só eu sei que todos poderiam ser santos, assim o quisessem, e não posso gritá-lo, enfim o peito me deu sinal, gemeu profundamente o coração, vou ver Blimunda, vou vê-la, ai, ali está, Blimunda, Blimunda, Blimunda, filha minha, e já me viu, e não pode falar, tem de fingir que me não conhece ou me despreza, mãe feiticeira e marrana ainda que apenas um quarto, já me viu, e ao lado dela está o padre Bartolomeu Lourenço, não fales, Blimunda, olha só, olha com esses teus olhos que tudo são capazes de ver, e aquele homem quem será, tão alto, que está perto de Blimunda e não sabe, ai não sabe não, quem é ele, donde vem, que vai ser deles poder meu, pelas roupas soldado, pelo rosto castigado, pelo pulso cortado, adeus Blimunda que não te verei mais, e Blimunda disse ao padre, Ali vai minha mãe, e depois, voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis.

Já passou Sebastiana Maria de Jesus, passaram todos os outros, deu volta inteira a procissão, foram açoitados os que esse castigo haviam tido por sentença, queimadas as duas mulheres, uma primeiramente garrotada por ter declarado que queria morrer na fé cristã, outra assada viva por perseverança contumaz até à hora de morrer, diante das fogueiras armou-se um baile, dançam os homens e as mulheres, el-rei retirou-se, viu, comeu e andou, com ele os infantes, recolheu-se ao paço no seu coche puxado a seis cavalos, guardado pela sua guarda, a tarde desce depressa, mas o calor sufoca ainda, sol de garrote, sobre o Rossio caem as grandes sombras do convento do Carmo, as mulheres mortas são descidas sobre os tições para se acabarem de consumir, e quando já for noite serão as cinzas espalhadas, nem o Juízo Final as saberá juntar, e as pessoas voltarão às suas casas, refeitas na fé, levando agarrada à sola dos sapatos alguma fuligem, pegajosa poeira de carnes negras, sangue acaso ainda viscoso nas brasas não se evaporou. Domingo é o dia do Senhor, verdade trivial, porque dele são todos os dias, e a nós nos vêm gastando os dias se em nome do mesmo Senhor não nos gastaram mais depressa as labaredas, por duplicada violência, que é a de me queimarem quando por minha razão e vontade recusei ao dito Senhor ossos e carne, e o espírito que me sustenta o corpo, filho de mim e de mim, cópula directa de mim comigo mesmo, infuso do mundo sobre o rosto escondido, igual ao mostrado e por isso ignorado. No entanto, é preciso morrer.

Frias hão-de ter parecido, a quem perto estivesse, as palavras ditas por Blimunda, Ali vai minha mãe, nenhum suspiro, lágrima nenhuma, nem sequer o rosto compadecido, que ainda assim não faltam estes no meio do povo apesar de tanto ódio, de tanto insulto e escárnio, e esta que é filha, e amada como se viu pelo modo como a olhava a mãe, não teve mais dizer senão, Ali vai, e depois voltou-se para um homem a quem nunca vira e perguntou, Que nome é o seu, como se contasse mais sabê-lo que o tormento dos açoites depois do tormento do cárcere e dos tratos, e que a certa certeza de ir Sebastiana Maria de Jesus, nem o nome a salvou, degredada para Angola e lá ficar, quem sabe se consolada espiritual e corporalmente pelo padre António Teixeira de Sousa, que muita pratica leva de cá, e ainda bem, para não ser tão infeliz o mundo, mesmo quando já tem garantida a condenação. Porém; agora, em sua casa, choram os olhos de Blimunda como duas fontes de água, se tornar a ver sua mãe será no embarque, mas de longe, mais fácil é largar um capitão inglês mulheres de má vida que beijar uma filha sua mãe condenada, encostar a uma face outra face, a pele macia, a pele frouxa, tão perto, tão distante, onde estamos, quem somos, e o padre Bartolomeu Lourenço diz, Não somos nada perante os desígnios do Senhor, se ele sabe quem somos, conforma-te Blimunda, deixemos a Deus o campo de Deus, não atravessemos as suas fronteiras, adoremos deste lado de cá, e façamos o nosso campo, o campo dos homens, que estando feito há-de querer Deus visitar-nos, e então, sim, será o mundo criado.

Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros nocturnos ou brancos brilhantes como lascado carvão de pedra. Veio a esta casa não porque lhe dissessem que viesse, mas Blimunda perguntara-lhe que nome tinha e ele respondera, não era necessária melhor razão. Terminado o auto-de-fé, varridos os restos, Blimunda retirou-se, o padre foi com ela, e quando Blimunda chegou a casa deixou a porta aberta para que Baltasar entrasse. Ele entrou e sentou-se, o padre fechou a porta e acendeu uma candeia à última luz duma frincha, vermelha luz do poente que chega a este alto quando já a parte baixa da cidade escurece, ouvem-se gritar soldados nas muralhas do castelo, fosse a ocasião outra, havia Sete-Sóis de lembrar-se da guerra, mas agora só tem olhos para os olhos de Blimunda, ou para o corpo dela, que é alto e delgado como a inglesa que acordado sonhou no preciso dia em que desembarcou em Lisboa.

Blimunda levantou-se do mocho, acendeu o lume na lareira, pôs sobre a trempe uma panela de sopas, e quando ela ferveu deitou uma parte para duas tigelas largas que serviu aos dois homens, fez tudo isto sem falar, não tornara a abrir a boca depois que perguntou, há quantas horas, Que nome é o seu, e apesar de o padre ter acabado primeiro de comer, esperou que Baltasar terminasse para se servir da colher dele, era como se calada estivesse respondendo a outra pergunta,

Aceitas para a tua boca a colher de que se serviu a boca deste homem, fazendo seu o que era teu, agora tornando a ser teu o que foi dele, e tantas vezes que se perca o sentido do teu e do meu, e como Blimunda já tinha dito que sim antes de perguntada, Então declaro-vos casados. O padre Bartolomeu Lourenço esperou que Blimunda acabasse de comer da panela as sopas que sobejavam, deitou-lhe a bênção, com ela cobrindo a pessoa, a comida e a colher, o regaço, o lume na lareira, a candeia, a esteira no chão, o punho cortado de Baltasar. Depois saiu.

Por uma hora ficaram os dois sentados, sem falar. Apenas uma vez Baltasar se levantou para pôr alguma lenha na fogueira que esmorecia, e uma vez Blimunda espevitou o morrão da candeia que estava comendo a luz, e então, sendo tanta a claridade, pôde Sete- Sóis dizer, Por que foi que perguntaste o meu nome, e Blimunda respondeu, Porque minha mãe o quis saber e queria que eu o soubesse, Como sabes, se com ela não pudeste falar, Sei que sei, não sei como sei, não faças perguntas a que não posso responder, faze como fizeste, vieste e não perguntaste porquê, E agora, Se não tens onde viver melhor, fica aqui, Hei-de ir para Mafra, tenho lá família, Mulher, Pais e uma irmã, Fica, enquanto não fores, será sempre tempo de partires, Por que queres tu que eu fique, Porque é preciso, Não é razão que me convença, Se não quiseres ficar, vai-te embora, não te posso obrigar, Não tenho forças que me levem daqui, deitaste-me um encanto, Não deitei tal, não disse uma palavra, não te toquei, Olhaste-me por dentro, Juro que nunca te olharei por dentro, Juras que não o farás e já o fizeste, Não sabes de que estás a falar, não te olhei por dentro, Se eu ficar, onde durmo, Comigo.

Deitaram-se. Blimunda era virgem. Que idade tens, perguntou Baltasar, e Blimunda respondeu, Dezanove anos, mas já então se tornara muito mais velha. Correu algum sangue sobre a esteira. Com as pontas dos dedos médio e indicador humedecidos nele, Blimunda persignou-se e fez uma cruz no peito de Baltasar, sobre o coração.

Estavam ambos nus. Numa rua perto ouviram vozes de desafio, bater de espadas, correrias. Depois o silêncio. Não correu mais sangue.

Quando, de manhã, Baltasar acordou, viu Blimunda deitada ao seu lado, a comer pão, de olhos fechados. Só os abriu, cinzentos àquela hora, depois de ter acabado de comer, e disse, Nunca te olharei por dentro.

 

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