- Viagem em Memorial

A VIAGEM EM MEMORIAL DO CONVENTO

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José Saramago

A viagem, símbolo presente em Memorial do Convento, é uma realidade que se repete na obra de Saramago. Viagem é um vocábulo real no sentido em que “viagem” governa, domina, senhoreia um reino vasto e imponderável. Mas viagem é também um vocábulo irreal, simbólico, fantástico. Para além da noção de percurso, quando ela se torna imagem e metáfora de um processo quer criador quer crítico, pode significar o insuspeitado, o inesperado tanto para o autor como para o leitor.

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Memorial do Convento, esplêndido políptico do século XVIII português, entrelaça Blimunda e Baltasar no cenário da ciclópica construção do convento de Mafra. Os factos extraordinários que o autor impõe implicam sempre uma espécie de transladação do sistema de coordenadas que normalmente utilizam para definir a realidade.Se aceitarmos estes preliminares, todo o resto manifestar-se-á consequente e lógico e o leitor vai entrar num mundo paralelo ao do autor, um mundo que tem uma coerência que podemos definir como própria do realismo fantástico.

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Estamos, pois, perante uma viagem que não recusa o passado ou certos valores fundamentais, mas que os submete a revisão para definir de novo exactamente porque não são valores absolutos. Nessa viagem, o fantástico também perpassa, feito mulher, como Blimunda, espécie de ponto intermédio entre Deus e o homem, ou na exaltação do poder do amor como núcleo que nos projecta para fora dos limites consuetudinários.

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Outra nota do fantástico em Memorial do Convento é a personagem do padre Bartolomeu de Gusmão, também chamado padre Voador. Também Blimunda e Baltasar ouvem os sermões do padre Bartolomeu Lourenço, apesar de não entenderem tal retórica; são, no entanto, ouvintes interessados pela amizade que os une. Todo o texto confirma ainda os contactos do padre com os cristãos-novos (aqui representados por Blimunda), a sua possível loucura (aquando da queda da passarola), a sua partida para Espanha e a sua morte.
Mas o que verdadeiramente o discurso ficcional inaugura é o fantástico da navegação nos ares: a passarola voa. De novo Blimunda e Baltasar, no momento crucial da tragédia ligados/separados pela passarola que levara Baltasar pelos céus fora. Blimunda embrenha-se sozinha na longa caminhada em busca do seu amor, perdido no Monte Junto e, ao chegar ao local do encontro o que vê é “o ninho de uma grande ave que levantou voo”. Mas Blimunda é também um símbolo de força, de fidelidade, de humanidade sem compaixão.

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Mas, em Memorial do Convento há também um belo exemplo de realização plena do trabalhador em relação ao objecto do trabalho, de harmonia entre o desejo e a realização do desejo, de acordo entre a coisa sonhada e o sonho realizado. Isso vê-se na construção da passarola concebida pelo padre que a ela dedicou a sua ciência e executada por Baltasar e Blimunda que a ela dedicaram os seus dons de artesanato e magia. Pronta, bastaria que se elevasse nos ares e para isso contribuiu ainda a leveza dos sons musicais de Domenico Scarlatti, que a ela dedica a sua arte.

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A ciência, o artesanato, a magia e arte contribuiram em consonância para a obra, unidos pelo mesmo objectivo, pelo mesmo sonho. Todos eles se expõem, igualmente vivem, com a passarola e com a expectativa de voar, os mesmos êxtases, as mesmas angústias, os mesmos medos. E é essa harmonia entre sonho, projecto e execução que garante à passarola o seu símbolo mítico de vitória, embora precária… A passarola é um símbolo de encontro de desejos, e a possibilidade de realizá-la com eficiência exige inúmeros encontros verdadeiros: Blimunda/Baltasar/Bartolomeu.

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Blimunda e Baltasar unidos pelo destino, numa cerimónia de auto-de-fé, abençoados pela mãe feiticeira que via, de longe, que aqueles dois, ainda desconhecidos, estavam talhados um para o outro.

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Bartolomeu mostra a Baltasar o desenho e explicado o mistério, Baltasar alia-se a Bartolomeu na construção da ave fantástica que, num país de marinheiros é antes uma “barca voadora”. O sonho pertencia agora aos três, o empenho era colectivo, como também o seriam a glória e a desgraça. Para que a identidade fosse perfeita, faltava a Baltasar conhecer o segredo de Blimunda. O padre Bartolomeu não o revelara quando interrogado. Há, pois, também um tempo de maturação até que possa acontecer o voo da passarola. Para isso se preparam Bartolomeu, Blimunda e Baltasar. O primeiro tempo de espera é exigido para o aperfeiçoamento do cientista: Bartolomeu parte para a Holanda em busca do segredo do éter. O segundo é o tempo do operário, do artesão, tempo necessário para a construção do objecto. O terceiro tempo é o da magia em que Blimunda se encarrega de recolher as duas mil vontades que farão voar a passarola. Na verdade, a passarola voará porque o homem assim o quis, pela força de vontades acumuladas. Por isso, a passarola cumpre o seu destino, apesar das dificuldades porque, embora uma obra gigantesca, está na medida do homem que a sonhou, planeou, executou. Os criadores são um só, uma trindade terrestre.

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É essa plenitude que Bartolomeu, Blimunda e Baltasar adquire com a chegada de Domenico Scarlatti – o músico vem acrescentar a sua arte.

(Autoria – Conceição Coelho)

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