
Passarola
23. A aventura pioneira da passarola do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão ocupa apenas parte de dezoito capítulos no total de vinte e cinco. este relevo quantitativo mostra a importância qualitativa que a história desempenha no conjunto da narrativa. A aventura da passarola recebe apoio mecenático do monarca que, apesar do insucesso da primeira experiência, acompanha e incentiva o seu prosseguimento, cedendo para o efeito a quinta de S. Sebastião da Pedreira. Além disso, o protagonista é funcionário da corte.
A heterodoxia do padre Bartolomeu Lourenço e a sua ligação com Baltasar e Blimunda fazem da sua experiência, apesar do sucesso final, um fenómeno politicamente marginalizado, sempre hostilizado pelo Santo Ofício, acabando o protagonista por morrer louco em Toledo.
É no capítulo VI que é feita a apresentação desta personagem historicamente singular que é o padre Bartolomeu Lourenço. (1)
No capítulo V, o padre surge, sem qualquer apresentação, ao lado de Blimunda no auto-de-fé, com ela fala, e é a mãe, Sebastiana de Jesus, uma das supliciadas, que o identifica, dando a entender a intimidade que existe entre eles.
É o padre Bartolomeu Lourenço que:
- consola Blimunda, na dor da separação de sua mãe
- a acompanha a casa após o auto-de-fé
- os declara casados, reconhecendo que a sua bênção não basta para a regularização canónica do seu casamento
A apresentação, porém, é feita pelo narrador, em paralelo com Baltasar, como uma personagem cheia de saber e erudição. apontado por João Elvas como o Voador, o padre justifica a Baltasar a razão deste apelido com uma simplicidade e uma fé no futuro da tecnologia que intrigam o seu interlocutor.
Apesar da reacção de incredulidade de Baltasar, a lógica da invenção é explicada em termos directos e imediatamente acessíveis. No dizer de Camões, o homem bicho da terra tão pequeno (Os Lusíadas, I, 102) torna-se marinheiro, como os peixes, e voador, como as aves.
Só então se revela a origem do conhecimento travado entre o padre-inventor e a visionária Sebastiana de Jesus, separando-se todavia os dois saberes, o científico e o ocultista, o exotérico e o esotérico.
24. O capítulo IX narra o começo da construção da máquina voadora. a ajuda preciosa de Blimunda tem o efeito de um supervisor mais sensível do que um detector electrónico. Daqui o nome de Sete-Luas com que o padre a baptiza: tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Sóis porque vês às escuras.
Não basta, todavia, a perícia mecânica do engenho e o padre inventor tem de visitar a Holanda, à procura da tecnologia que fará voar a máquina, à obtenção do éter que atraia o íman para que este, por sua vez, atraia o ferro do veículo. A viagem à Holanda serviu, afinal, para a obtenção do éter celeste. Por isso, volvidos três anos, o padre-inventor regressa a Mafra, incumbindo Blimunda de lhe descobrir a matéria de que tanto necessita.
Mas o éter não é uma substância alcançável nem pela química, que ainda não existe, nem pela velha alquimia. No sistema doutrinário do padre Bartolomeu Lourenço, a alma distingue-se da vontade dos vivos, sendo esta detectável por ter o aspecto de uma nuvem fechada.
Descoberta a vontade interior do organismo do padre-inventor, foi fácil a Blimunda entender o essencial da sua função na construção da máquina, introduzir as vontades num frasco aberto através da pastilha de âmbar ou electro.
É, pois, uma solução que concilia a física com a metafísica, já que as vontades não são detectáveis por nenhum instrumento nem atraídas por nenhuma substância. Entre a alquimia, ou melhor, a metafísica e a tecnologia se concretiza o sonho de voar.
O trabalho de Baltasar e Blimunda, na quinta do duque de Aveiro, em S. sebastião da Pedreira, ocupa-se, agora, no capítulo XIII, a desfazer a máquina. É uma estratégia de renovação, mas também de aprendizagem.
Admoestada a continuar a sua inteligente missão de recolher pelo menos duas mil vontades, a exemplo do cavalo mítico Pégaso, companheiro de Apolo, Blimunda é enviada às multidões, principalmente na procissão do Corpo de Deus.
Só agora, quase no meio da narrativa, se toma conhecimento do apelido do chefe do projecto comum e a sua razão de ser: De Gusmão, foi assim que passei a chamar-me, por via do apelido de um padre que no Brasil me educou.
25. O capítulo XIV espelha com interessante habilidade expressiva os efeitos estéticos do estilo barroco, vigente na época, em duas artes sonoras: o sermão e a música.
Após a lição de música à infanta D. Maria Bárbara, Domenico Scarlatti (2) improvisa um concerto de cravo, fazendo pairar o privado espectador e privilegiado interlocutor nas nuvens do sonho.
Contrapondo a excelência da argumentação musical à do sermão e do discurso, os dois ilustres homens, o padre português e o músico italiano, acabam por concluir, após longa conversação sobre verdade e erro, obsessão do nosso inventor, que só o silêncio existe verdadeiramente.
O padre-inventor acaba por convidar o músico amigo a visitar o seu secreto engenho. Blimunda respondeu às preocupações do músico quanto à saída da passarola da abegoaria, sendo do tamanho superior à porta.
Durante a merenda, sugere-se enigmaticamente que a alma do segredo da máquina voadora é uma trindade terrestre. No interior da passarola continua por revelar o segredo da força atractiva do âmbar.
Em contraste com esta revelação da trindade terrestre, o padre, olhando a Via Láctea, grita duas afirmações contrárias, uma herética, outra ortodoxa, perguntando ao casal-ajudante qual delas é a verdadeira. O drama teológico do padre, persistindo dia e noite, levá-lo-á à loucura.
A agravar o drama teológico do padre Bartolomeu Lourenço, a multiplicidade de funções e estatutos faz dele um ser fragmentário e dividido, numa espécie de heteronímia pessoana, sem um travejamento unitário que o equilibre.
26. Estamos no capítulo XV. Cansada de tanto aproveitar a epidemia para reunir as vontades de que necessita para a máquina de voar, Blimunda contrai, ela própria, uma debilidade que a prosta. fazendo jus às virtualidades da música, Scarlatti acorre diariamente a S. Sebastião da Pedreira, a tocar para Sete-Luas até a sarar.
Construída a máquina, chega a hora de a experimentar. Mas o Verão passa e o atormentado padre, perseguido por medos e dúvidas, ainda não encontra o equilíbrio interior para o fazer.
Então, o que parecia apenas uma experiência lúdico-científica, acaba por se transformar em meio de fuga ao espectro do pavor.

Vista aérea
27. Estamos no capítulo XVI. Então, a máquina voa, num céu sem nuvens, num estremecimento análogo ao dos cataclismos. À medida que a máquina voa, permitindo avistar Lisboa e o Tejo, o medo é substituído pela euforia. Após a euforia da subida, vem a inquietação. É que a máquina-voadora não consegue voar com o sol-posto.
A descrição do pôr-do-sol, bela, confina com a de um vulto escuro, como Adamastor, até o casal aeronáutico cobrir com os seus corpos as esferas da nave, fazendo-a baixar até ao chão como um milagre.
A proeza foi notável para a época. Mas da epopeia não sobram vestígios. Só a aventura parece aproximar-se do fim, adquirindo, agora, um tom trágico com a tentativa de incêndio pelo autor do projecto e com o seu desaparecimento para sempre.
Em tempos de milagres e prodígios, o voo da máquina sobre Mafra e as obras do Convento, numa intercepção narrativa importante para a coerência quase unitária da acção, é interpretado como uma manifestação divina, originando uma procissão de acção de graças.
Desaparecido o padre, cabe a Scarlatti anunciar, no capítulo XVII, ao casal colaborador o desenlace trágico do mesmo.
Quatro anos depois, João Elvas ainda falará dele e do seu sonho que alguns acreditaram realizado. Quanto à máquina, baltasar cuida dela rotineiramente, a conselho do músico italiano.
Blimunda chegou a acompanhá-lo na sua penúltima viagem (capítulo XX). A alcunha de voadora, na boca do povo, atestará o eco dessa proeza, mais do que imaginária, a que o Santo Ofício não deixou de ser sensível.
28. Repartida por uma dupla construção, a da máquina e a do convento, a epopeia do homo faber é especialmente focalizada a partir da óptica de Sete-Sóis que as movimenta entre Lisboa e Mafra, entre uma e outra obra.
Embora determinadas figuras, próximas de Baltasar, desempenhem papel de relevo no ex-libris de um reinado, não se pode perder de vista o protagonismo colectivo.
Em contraste com as cinquenta casas a Vila, quinhentas barracas de madeira albergam os operários da construção como oficinas de trabalho, refeitório e habitação. A dificuldade na contagem dos barracões e a algazarra à hora do lanche dão a Baltasar e ao leitor a ideia da multidão que ali se aloja. Nestas condições e com esta multidão, Sete-Sóis até se sente privilegiado por ter casa em Mafra.
Revolta dos elementos vivos da natureza, reequilíbrio de forças em constante dinamismo e mutação, a tempestade faz parte do convívio cíclico do homem com o meio ambiente.
A mitificação do produto estrangeiro é ironicamente descontraída no discurso descritivo das importações técnico-culturais.
29. Francisco Marques, José Pequeno, Joaquim Rocha, Manuel Milho, Julião Mau-Tempo, eis os nomes de alguns amigos e companheiros de Baltasar. São figuras de ficção, reflectindo na sua história e no seu discurso uma maneira de ser, uma identidade bem portuguesa.
O capítulo XIX é consagrado à saga do transporte de um megalito de Pêro Pinheiro a Mafra. A comparação do carro de transporte com uma nau da Índia ainda que reconhecidamente exagerada voltará a ser usada como metáfora habitual. A Mãe da pedra será o suporte da varanda da casa da Benção.
Na resenha dos heróis desta saga, além de nomes que se individualizaram nesta intriga, joga-se com a pluralidade dos homónimos.
A descrição segue vagarosa, num acompanhamento quase isocrónico. Os oito dias da caminhada são, pois, exaustivamente aproveitados, apenas ludicamente entremeados pela história de Manuel Milho, com o acidente trágico de Francisco Marques, de quem se exigia a máxima atenção para exercer quase continuamente a função de travão de carro com o calço manual na descida de Cheleiros.
30. Entre Pêro Pinheiro e Mafra gastaram oito dias completos. quando entraram no terreiro, foi como se estivessem chegando de uma guerra perdida, sujos, esfarrapados, sem riquezas. Toda a gente se admirava com o tamanho desmedido da pedra, Tão grande. Mas Baltasar murmurou, olhando a basílica, Tão pequena.
(…) o número é o de todas as coisas que há no mundo a menos exacta, diz-se quinhentos tijolos, diz-se quinhentos homens, e a diferença que há entre tijolo e homem é a diferença que se julga não haver entre quinhentos e quinhentos, quem isto não entender à primeira vez não merece que lhe expliquem segunda.
______________
(1) Bartolomeu de Gusmão estudou com os Jesuítas da Baía. Devido ao interesse pelas questões científicas, veio em 1701 para Portugal. Fez o curso de Cânones da Universidade de Coimbra, mas a sua atenção, com o apoio de D. João V, prendeu-se com experiências aeroestáticas, a que não ficou alheia a mitificada passarola voadora. Segundo parece, foi forçado a fugir à Inquisição por possível adesão ao judaísmo ou por se ter envolvido num caso de bruxaria. Morreu em Toledo (Espanha), em 1724.
(2) Domenico Scarlatti (1685-1757), filho do compositor Alessandro Scarlatti (mestre de capela da corte da rainha da Suécia), foi, em Lisboa, desde 1720, professor da infanta D. Maria Bárbara, filha de D. João V. Após o casamento desta com o príncipe Fernando VI de Espanha, Scarlatti acompanhou-a na corte de Madrid, onde faleceu. Famoso pelas modernas técnicas do piano e do cravo, Scarlatti teve, entre os seus alunos, Carlos Seixas (1704-1742), um dos mais importantes compositores portugueses.
A Soma dos Dias
Comentários
Obrigado pela informação, foi muito útil para o meu estudo.