
14. Presente em todos os capítulos, à excepção dos três primeiros, a história de Baltasar e Blimunda constitui o nó mais simpático que une os fios da intriga. Protagonistas de entre as figuras populares, Sete-Sóis e Sete-Luas, alcunhas simbólicas, não só se movem à vontade no interior do seu estatuto social, mas também estabelecem as pontes para a comunicação entre todos os níveis narrativos.
Baltasar:
- começa por ser um soldado da guerra da sucessão espanhola, da qual sai maneta, dando pretexto ao narrador para a crítica política
- participa na construção da máquina voadora de Bartolomeu Lourenço de Gusmão
- trabalha na construção do Convento
- acaba vítima da Inquisição
Blimunda, com os seus poderes metafísicos, dá ao inventor setecentista a energia que a Física ainda não havia inventado.
Elemento fundamental para o contraste com as figuras reais e clericais, o casal popular vive uma história exemplar de amor, aventura e realização humana, que nem a fogueira inquisitorial destrói.
A configuração picaresca de Baltasar Mateus começa logo com a sua apresentação no capítulo IV. Apesar de combatente numa guerra alheia, a Pátria não só não reconhece o seu heroísmo como o expulsa do exército por motivo da mutilação da mão esquerda. em vez de medalhas e salário, recebe miséria. Baltasar é intertextualmente comparado com o herói pícaro de um romance setecentista, de autor anónimo, o Diabinho da Mão Furada.
A amizade de João Elvas confirma o ambiente picaresco que o recém-chegado a Lisboa vai encontrar. Na descrição da capital dominam os contrastes.
Na ambiguidade que geralmente se associa ao símbolo da serpente, a procissão do auto-de-fé une os fios da intriga amorosa de Sete-Sóis e Sete-Luas.
- no primeiro auto-de-fé, desfila, a caminho do degredo para Angola, Sebastiana Maria de Jesus, mãe de Blimunda, enquanto esta, no meio da assistência, conhece Baltasar com quem parte para a comunhão de corpos e de vidas.
- no último auto-de-fé, a encerrar o romance, Blimunda, após nove anos de intensa via sacra, reencontrará no mesmo lugar, entre os supliciados à fogueira, o marido com quem casara há vinte e oito anos.
A apresentação de Blimunda é feita em pungente monólogo, na voz da sua mãe, no desfile dos condenados. A mãe é acusada de feitiçaria e de judaísmo disfarçado. Após a apresentação ao Padre Bartolomeu Lourenço da mãe e da filha, surge o mútuo conhecimento entre os elementos do mesmo par. A Baltasar não são indiferentes os olhos de Blimunda, pela penetração profunda destes, hiperbolicamente singular.
Nesta primazia semiótica do olhar, em detrimento da palavra, é o silêncio que permite a comunicação em profundidade e o padre Bartolomeu Lourenço confirma o que parece a expressão tácita da vontade de casar. O ritual da iniciação sexual tem a naturalidade de um casal actual, mas também a profundidade cultural de uma personagem crente, ou supersticiosa.
Só na manhã seguinte, ao ver Blimunda a comer de olhos fechados, Baltasar intui quão misteriosa era aquela mulher. Blimunda encontra-se na fronteira entre o mundo real e o mundo mágico, a ciência e o ocultismo.
Baltasar ousa violentá-la a satisfazer a sua mesquinhez, mas a personalidade profunda daquela que transcende a mediania da sua condição impede-o de continuar, sustendo a sua loucura.
A incredulidade persistente de Baltasar desafiará Blimunda a um teste necessário mas não suficiente. E este casal, analfabeto e ignorante, não raro se vê lançado a filosofar sobre questões físicas e metafísicas. A diferença entre olhar e ver, em contraste com a capacidade de Blimunda, dá origem à insinuação satírica de outra espécie de cegueira, a de não querer ou não saber ver.
Insatisfeito perante o teste espiritual, Baltasar é confrontado com o teste que preenche a sua sede material, enquanto o narrador cede à sua personagem a misteriosa função de narrar a nova gravidez da rainha, dispondo, agora, de um estatuto científico que supera a ecovisão.
15. Família singular no contexto histórico-cultural da época a que se reporta o romance, a comunidade Baltasar / Blimunda é inevitavelmente confrontada com a organização tradicionalmente patricarcal da família Sete-Sóis, em Mafra. Elucidativa deste confronto é, desde logo, a dissimulação ambígua na apresentação de Blimunda à nova família. (capítulo X)
Esta dicotomia entre passado, presente e futuro, em relação ao conhecimento de uma personagem, ilustrando a tónica da ambiguidade, é reforçada pela descrição versátil da cor dos olhos e cabelos de Blimunda.
Entre o silêncio e a vontade de indagar, perpassa a insinuação de mentira, através da generalização eufemística do poder visionário feminino, e do falso juramento, logo posto em dúvida. Blimunda é submetida a um teste simples mas eficaz, o qual é detectado por ambas as personagens femininas.
Na ingenuidade do saber popular, ou na malícia provocadora do narrador, quer Blimunda aproveitar o seu poder paranormal da ecovisão para perscrutar o mistério da presença real eucarística. No entanto, a consciência de haver ousado devassar um terreno vedado à mente humana causa-lhe horror.
Em breve, a consciência produz as lágrimas. Frustrada a expectativa humana de ver com os olhos do corpo mesmo reforçados pela paranormalidade, o que só é visível aos olhos da fé, resta a certeza de que o mistério só o é porque não pode ser explicado nem pelo teólogo mais eminente.
Retomando a linguagem cifrada e preparando o leitor para a função de Blimunda na fase ocultista e alquímica da passarola do padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, o narrador revela que nuvem fechada é sinónimo de vontade ou alma humana.
16. Para além da experiência inovadora que compartilhou, como mecânico da passarola, com o físico inventor Bartolomeu de Gusmão, (Blimunda serviu de ajudante de alquimista), Baltasar também participa como trabalhador na construção do convento-palácio. Os capítulos XVII e XVIII fazem eco desta vivência.
Estabelece-se uma comparação entre Lisboa e o local da construção do convento de Mafra, em contraste com a aldeia onde vive Baltasar. O cansaço de muitos meses de trabalho como transportador de carro de mão, como mula de liteira, cede lugar à mudança de ofício, desta vez por intercessão de José Pequeno.
17. O capítulo XX anuncia como iminente a morte de João Francisco, o velho Sete-Sóis, como alguém que prepara as investidas e se arrepende, personificação que traduz bem a progressiva debilitação do ser humano e a sua obstinação em se agarrar à vida.
O segredo, porém, é revelado ao velho que não só está em idade de compreender coisas que estão para vir, iluminação profética reservada à maturidade, como também se sente capaz de esperar pelo filho, com um saber intuitivo que não é capaz de explicar.
Os sinais de erosão e do desgaste provocados pela passagem do tempo não se verificam somente em João Francisco. Dezasseis anos também deixam marcas físicas na compleição de Blimunda.
Ao regressar do Monte Junto, chega a hora de João Francisco, uma noite igual às outras. O seu último gesto é o da benção ao filho, enquanto o neto se diverte com a descoberta do prazer sexual no mundo contagioso da prostituição, cuja imagem da sífilis infernal não deixa de suscitar perplexidade.
A interrogação final, lançada a partir da fraca herança do velho (um quintal e uma casa velha) e do seu trabalho aparentemente inútil, parece um triste elogio fúnebre, já que o valor da vida dependerá mais do empenhamento humano do que dos resultados materiais.
18. A brevidade e fugacidade da existência humana, tema de reflexão do monarca, mostra os seus sinais inexoráveis, ainda no capítulo XVIII, quer no envelhecimento de Baltasar, quer no anúncio profético da morte do cunhado.
Mas, aos olhos do amor, não existe fealdade nem velhice. E o casal eternamente enamorado escandaliza a Vila setecentista de Mafra. Também Inês Antónia manifesta um comportamento amoroso através da identificação solidária com os êxitos e a morte do marido.
As estátuas dos santos, objecto de conversa ao jantar, prefiguram textualmente o conjunto de qualidades profissionais que estão na base do seu êxito, enquanto o esmorecimento da conversa e do lume da lareira aponta para o final de uma vida esmerada e zelosamente devotada ao trabalho.
19. Brevidade da vida é também o que indica o anúncio da chegada da morte, eufemisticamente designada como o meu dia, a propósito dos cuidados a ter na viagem rotineira a Monte Junto, para inspecção da máquina voadora, afinal aquela que levaria Baltasar a afastar-se de Blimunda durante nove anos, até ao momento do reencontro póstumo, já no patíbulo do Santo Ofício.
A cor vermelha da lua, a subida ao Alto da Vela, os trabalhos e o consumo de pólvora, evocados na paisagem nocturna, tudo aponta para um desenlace da existência.
A meio da construção do palácio, do convento e da basílica, procede-se ao balanço de tantos anos de trabalho, numa preocupação avaliativa que acompanha os momentos críticos e prepara o derradeiro. A imagem da formiga e dos gigantes ajuda a explicar o muito que se faz e o pouco que parece em tantos anos de trabalho, numa desproporção desonfortante e exigente entre o projecto e a execução, entre o sonho e a realidade.
O programa da santidade ou da utópica perfeição humana, simbolizado pelo círculo de estátuas, é, porém, desmitizado pela nota de revitalização da distância dos santos e da sua humanização, como se declara em referência à insinuação carnal entre S. Francisco e Sta. Clara.
20. A última noite, passada na barraca da burra, com escândalo dos cunhados e alvoroço do sobrinho, sob o impulso de Blimunda, tem já o sabor nostálgico de despedida. A despedida fora da vila pressagia a fatalidade de uma separação prolongada, praticamente definitva:
- o céu encoberto
- as folhas douradas do Outono
- a evocação de Amadis / Oriana, Romeu / Julieta
- vestes escuras
- duas sombras inquietas
- citação camoniana
21. Blimunda não esperou segunda noite pela chegada de Baltasar. O capítulo XXIV narra a primeira tentativa de busca, até à serra de Monte Junto, onde acaba por matar um dominicano, sedento de momento de prazer.
Encontrando o que restava do farnel do marido, conclui que o levaram ares e ventos na máquina voadora, incapaz de qualquer magia ou bruxedo para o fazer regressar.
Afinal não se trata de nehuma bruxa, mas de uma mulher, frágil perante o drama da solidão, sensível ao medo de uma paisagem sinistra, provoada de monstros imaginários.
A partir da experiência que acaba de viver (cena de assédio / morte), da sua determinada e rápida acção e da fé do espigão mágico, talismã que a livrou de apuros, Blimunda recobra de ânimo que lhe permite vencer o medo.
22. O último capítulo é constituído pela dramática procura de Baltasar por Blimunda durante nove anos. De certo modo, a narrativa fica fechada com o desprendimento da vontade de Baltasar.
O último auto-de-fé é muito mais cruel do que o primeiro.
A Soma dos Dias