- Memorial do Convento (I)

CONTEÚDOS DECLARATIVOS

  • categorias do texto narrativo
  • estrutura
  • dimensão simbólica/histórica
  • visão crítica
  • linguagem e estilo
Convento de Mafra

Convento de Mafra

1. A primeira ala do palácio é constituída por figuras da História de Portugal da primeira metade do século XVIII (até 1730) relacionada com a esfera do poder político:

  • os reis
  • os infantes
  • o alto clero
  • os juízes da Inquisição

O Convento nasceu da promessa de um rei. A situação de infertilidade provisória da rainha, embaraçosa para a continuidade genealógica da dinastia, justifica a promessa do rei.

D. João V, o Magnânimo

D. João V, o Magnânimo

A apresentação de D. João V e D. Maria Ana da Áustria, sua esposa, é feita em tom joco-sério, criando um ambiente propício ao desenvolvimento da ironia.

Raramente se usa o pretérito (perfeito ou imperfeito) mas o presente e o futuro: a acção ou já está a realizar-se ou é anunciada em vias  do de realização. A função ilocutória do narrador faz do seu discurso um texto essencialmente argumentativo, visando manipular ou convencer o leitor. A linguagem é displicente e irónica, apontando para uma atitude de caricatura.

A construção tipo-lego que entretém o rei visa satirizar o seu lazer e simboliza um duplo presságio indiciador, em íntima correlação:

  • a geração de um filho
  • a erecção de um edifício

O anúncio profético de frei António S. José abre caminho à construção do Convento, de acordo com os interesses da Ordem Franciscana. Segue-se o encontro entre os reais esposos, extremamente cerimonioso e formal, cuja descrição é intercalada com o cómico. O capítulo termina com a sátira do narrador aos escúpulos morais de D. Maria Ana quando tem relações com o marido e aos sonhos de ambos.

2. Feita a promessa com base na profecia do franciscanismo, havia que justificar a probidade moral da Ordem. É o que faz o cronista no capítulo II, em linguagem mimeticamente setecentista, de acordo com a estética barroca. O narrador anuncia a gravidez da rainha como o fruto de um feliz milagre, embora dê a conhecer ao leitor que a Ordem há muito ansiava construir por via administrativa um convento em Mafra.

3. A sátira religiosa, ora em tom parodístico, ora em tom irónico permite a aproximação paralelística, por antítese, entre nobres /plebeus, rainha/mulheres de Lisboa. Paradoxalmente, a penitência quaresmal, que inclui as práticas de:

  • autoflagelação
  • abstinência
  • devoção religiosa

acaba por degenerar em novos pecados da carne. Esta vigília pecaminosa das mulheres de Lisboa encontra correspondente deslize erótico do sonho progressivamente incestuoso da rainha, em contraste com:

  • a devoção com que foi educada na Áustria
  • a devoção ao Santo Sudário

Ponto alto da sátira político-religiosa, o auto-de-fé ou solene julgamento / execução do tribunal da Inquisição, constitui ocasião e motivo singulares para uma ácida crítica comum à rainha e ao povo:

  • à rainha, porque, apesar do seu estado e do luto pela morte do irmão, não deixaria de frequentar a solene cerimónia
  • ao povo, porque, sedento de crueldade, oscila na sua preferência entre o auto-de-fé e as touradas

Entre o rei / povo, no entanto, o paralelismo é o de contraste, patente na diferença entre a ementa de ambos, ressalvando-se, apesar de tudo, o exemplo abstinente do vinho.

Fundindo-se numa só alma, os interesses do povo, da dinastia e da Ordem Franciscana encontram no sermão oficial a sua mais desejada satisfação.

4. Num encaixe narrativo sugerido pela reflexão sobre o factor tempo, mais uma vez, na óptica do paralelismo antitético, passa-se das personagens envolvidas no projecto aeronáutico para D. Maria Ana. Para as primeiras, ainda não chegou o seu tempo. Para a segunda, o tempo vem-lhe chegando, visível nas suas manifestações e na metáfora nau da Índia. (capítulo VII)

Na interacção entre discurso historiográfico e discurso político-cultural, ou de intervenção, apresenta-se o contraste entre boas / más notícias, bons / maus negócios: aos primeiros pertencem os da China; aos segundos os de Pernambuco e Recife.

O tempo de nascimento chega. Mas, antes de aflorar a reacção do reino a tal acontecimento gloriosamente feliz, surge um hábil reflexão sobre o desejo e a realidade, patente na desmontagem do fenómeno da oração.

Passa-se, agora, do discurso denotativo para o discurso conotativo, do parto humano para o parto agrícola. Ao construir a ideia revolucionária da igualdade de todos os homens (príncipes), o discurso satírico inverte a lógica idealista do sonho e da teoria, ao apresentar, em contraste, a lógica realista dos factos. É o que parece mostrar a descrição da pompa do baptizado do infante, na solenidade do cerimonial e na riqueza das ofertas.

Um dos episódios mais repugnantes do discurso satírico prende-se com treino de tiro ao alvo, à beira-Tejo, do infante D. Francisco, cuja irresponsabilidade repassada de sadismo impressiona o leitor. A propósito do fogo e de tiros, narra-se, por encaixe, um episódio bélico entre franceses e portugueses no Rio de Janeiro, cuja derrota nacional se explica por um fenómeno de traição. (capítulo VIII)

A sátira anticlerical, recorrente ao longo do romance, não se limita ao baixo clero. A investidura cardinalícia de D. Nuno da Cunha é motivo para um jogo irónico, através do recurso aos trocadilhos, entre a vaidade e a humildade.

O capítulo termina com a escolha do terreno onde será levantado o Convento, o Alto da Vela, em Mafra.

O capítulo IX é parco nas alusões à família real e à aristocracia. Há apenas a ligeira referência às touradas e aos aplausos de D. João V e o seu povo.

5. O capítulo X consagra, num paralelismo narrativo entre poderosos e populares, especial atenção ao binómio vida / morte. Na linguagem profética que o caracteriza, o narrador anuncia a morte de duas crianças, uma rica, outra pobre, em sinal de grandes escrúpulos de equilíbrios sociais.

Após desconstrução satírica das desumanidades do protocolo, segue-se, na descrição do cortejo fúnebre, a alusão à rainha, a propósito do seu camareiro-mor, através da instauração da dúvida aos seus instintos maternais.

Um ano após a morte de D. Pedro, nasce o futuro rei. Regressa a sátira à rainha, precisamente pelo flanco oposto à questão levantada. Já que a rainha é boa mãe, então é esse o seu defeito, isto é, não ser mais do que uma devota parideira que veio ao mundo só para isso. Só que no confronto entre a fertilidade biológica e a fertilidade religiosa, a diferença é abissal.

As frases parentéticas ou intercaladas acentuam o tom humorístico da paródia religiosa. O clímax da paródia evidencia-se a propósito da sua não visita ao Convento de Odivelas.

A oração da rainha é justificada pela doença do marido. A oração continua durante a convalescença do rei em Azeitão. agora, porém, o ressentimento da rainha com o marido, por este não lhe ter confiado a regência do reino, cria ocasião favorável para o encontro imaginariamente incestuoso com o cunhado, como nos sonhos. (capítulo X)

6. Só agora, no capítulo XII, é que a configuração da personagem real, num discurso sério e não irónico, corresponde ao cognome que a tradição lhe conferiu: o magnânimo.

O momento, designado inauguração, é a benção e lançamento solene da primeira pedra do Convento. Da descrição da cerimónia solene, ao gosto barroco, tudo contribui não propriamente para a glorificação divina, mas para a demonstração da grandeza do monarca.

7. O capítulo XIII é dominado por uma longa e minuciosa descrição da procissão do Corpo de Deus. A descrição conjuga perfeitamente as vertentes clerical e popular, a sagrada ea profana. Mas o processo iconoclástico da profanação do sagrado adquire particular significado nos monólogos sadicamente obscenos e blasfemos do patriarca e do Rei. O monólogo do Rei, simultaneamente devoto e luxurioso, chega a comparar, em pseudodiálogo, qual dos senhores, o do céu e o da Terra, goza mais poder.

8. O início do capítulo XVI visa uma sátira à corrupção da Justiça. A cegueira da Justiça, em vez de significar isenção e objectividade, sem acepção de pessoas, passa a significar inoperância. Em contraste com esta inoperância, o Tribunal do Santo Ofício tem bem abertos os olhos. E aqui o símbolo do ramo de oliveira, em vez de significar paz, mais não serve senão para atiçar a fogueira do queimadeiro. O Tribunal é ainda uma grande fonte de proventos económicos.

Das justiças visíveis há a demanda que opôs a Casa de Aveiro à Casa Real. Das justiças invisíveis, no naufrágio do barco em que vinham de caçar da outra banda do Tejo, morreu o infante D. Miguel, em vez do irmão, D. Francisco.

9. A sátira política ao imperialismo e ao colonialismo é subtilmente esboçada no início do capítulo XVIII. A desmitização da figura do infante D. Henrique serve apenas para enfatizar o poder de D. João V. A sátira passa, agora, da generalidade para a sátira clerical, através da corrente de consciência da personagem real.

10. Encaixada na narrativa principal, no capítulo XIX, surge uma pequena história, contada em sistema de folhetim, por uma personagem popular, Manuel Milho, boieiro-transportador ao serviço da construção do Convento. A história de Manuel Milho gravita à volta da existência de conceitos fundamentais da existência humana. Mais importante do que ser rei, rainha ou ermitão, é ser homem ou mulher.

11. A desmitização do rei, através da paródia ou da sátira, da ironia ou do sarcasmo, ocupa no capítulo XXI um contorno diferente. Ao declarar a igualdade fundamental do ser humano, o narrador aproxima o rei do comum dos mortais:

  • partilha da condição humana
  • exerce a paternidade
  • tem medo da morte

Do medo do rei perante a perspectiva de morrer sem ver a sua obra concluída, nasce a sagração da basílica de Mafra para 1730, um domingo, dia do seu aniversário, já que, segundo o Ritual, a sagração das basílicas se deve fazer aos domingos.

Marcada, enfim, a data da sagração da basílica, vem a ordem da contratação coerciva de mais oficiais para a grande obra, numa manifestação de despotismo absoluto. Numa paráfrase d’Os Lusíadas, vêm os adeuses lacrimosos, como na praia de Belém, não faltando a voz profética do Velho do Restelo. A sátira antimonárquica está a descoberto. Os reis são homens comuns, mas, sobretudo, nos defeitos.

12. O casamento dos príncipes herdeiros das duas coroas ibéricas insere-se na sátira antimonárquica. As afirmações iniciais do capítulo XXII apresentam uma pista falsa: porém, ainda se encontram famílias felizes. A felicidade das famílias reais começa, porém, a ser desmontada ou desconstruída, a partir dos interesses políticos ou de Estado subjacentes às combinações e arranjos diplomáticos.

A falsa pista inicial torna-se mais clara com a revelação dos aspectos negativos que envolvem as princesas:

  • a desfiguração de Maria Bárbara, a bexigosa
  • o repúdio de Maria vitória por Luís XV de França

Na caracterização da princesa portuguesa contrabalança-se ao defeito físico o valor moral.

O casamento tem lugar na fronteira do Caia, entre Elvas e Badajoz. Na descrição o longo percurso, o narrador recorre ao paralelismo antitético, neste caso a família real portuguesa e o popular João Elvas. Além da antítese entre as duas situações, ressalta a hipérbole do cortejo real. Assiste-se ainda ao diálogo entre mãe / filha, rainha / princesa, a que se chama debate filosófico.

13. A descrição da sagração da Basílica de Mafra, limitada por motivos de ordem estética, ao primeiro de oito dias, é feita na óptica de personagens populares (focalização interna). O narrador salta da focalização interna para a omnisciente e critica prolepticamente o acidente de Álvaro Diogo. Quanto à missa pontifical, a focalização regressa às personagens populares, com o registo do maravilhamento estético do teatro litúrgico.

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