NOME COM MÚSICA
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Blimunda (…) voltando-se para o homem alto que lhe estava perto, perguntou, Que nome é o seu, e o homem disse, naturalmente, assim reconhecendo o direito de esta mulher lhe fazer perguntas, Baltasar Mateus, também me chamam Sete-Sóis.
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Minha mãe, esta é a minha mulher, o nome dela é Blimunda de Jesus. Deveria isto bastar, dizer de alguém como se chama e esperar o resto da vida para saber quem é, se alguma vez o saberemos, pois ser não é ter sido, ter sido não é será, mas outro é o costume, quem foram os seus pais, onde nasceu, que idade tem e com isto se julga ficar a saber mais, e às vezes tudo.
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“Muitas vezes me perguntei: porquê este nome? Recordo-me de como o encontrei, percorrendo com um dedo minucioso, linha a linha, as colunas de um vocabulário onomástico, à espera de um sinal de aceitação que haveria de começar na imagem decifrada pelos olhos para ir consumar-se, por ignoradas razões, numa parte adequadamente sensível do cérebro. Nunca, em toda a minha vida, nestes quantos milhares de dias e horas somados, me encontrara com o nome de Blimunda, nenhuma mulher em Portugal, que eu saiba, se chama hoje assim. E tão-pouco é verificável a hipótese de tratar-se de um apelativo que em tempos tivesse merecido o favor das famílias e depois caísse em desuso: nenhuma personagem feminina da História do meu país, nenhuma heroína de romance ou figura secundária levou alguma vez tal nome, nunca estas três sílabas foram pronunciadas à beira de uma pia baptismal ou inscritas nos arquivos do registo civil. Também nenhum poeta, tendo de inventar para a mulher amada um nome secreto, se atreveu a chamar-lhe Blimunda.
Tentando, nesta ocasião, destrinçar aceitavelmente as razões finais da escolha que fiz, seria a primeira razão a de ter procurado um nome estranho e raro para dá-lo a uma personagem que é, em si mesma, estranha e rara. De facto, essa mulher a quem chamei Blimunda, a par dos poderes mágicos que transporta consigo e que por si sós a separam do seu mundo, está constituída, enquanto pessoa configurada por uma personagem, de maneira tal que a tornaria inviável, não apenas no distante século XVIII em que a pus a viver, mas também no nosso próprio tempo. Ao ilogismo da personagem teria de corresponder, necessariamente, , o próprio ilogismo do nome que lhe ia ser dado.
Ou talvez não seja apenas assim. Regressando ao vocabulário, e mesmo sem recair em excessos de minúcia, posso observar como abundam os nomes de pessoa extraordinários e extravagantes, que ninguém hoje quereria usar e antes só excepcionalmente, e contudo não foi a nenhum deles que escolhi: rareza e estranheza não seriam, afinal, condições suficientes.
Que outra condição, então, que razão profunda, porventura sem relação com o sentido inteligível das palavras, me terá levado a eleger esse nome entre tantos? Creio que sei hoje a resposta, que ela me acaba de ser apontada por esse misterioso caminho que terá levado Azio Gorghi denominar Blimunda uma ópera extraída de um romance que tem por título Memorial do Convento: essa resposta, essa razão, acaso a mais secreta de todas, chama-se Música. Terá sido, imagino, aquele som desgarrador de violoncelo que habita o nome de Blimunda, profundo e longo, como se própria alma humana se produzisse e manifestasse, que me levou, sem nenhuma resistência, com a humildade de quem aceita um dom, a recolhê-lo num simples livro, à espera, sem o saber, de que a Música viesse recolher o que é sua exclusiva pertença: essa vibração última que está contida em todas as palavras e em algumas magnificamente.”
(José Saramago, in Jornal de Letras, nº410, 1990)
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Uma questão de identidade
“Gostemos ou não, temos de viver com o nome que nos deram. É ele que nos identifica, que nos confere estatuto jurídico como pessoa, que nos permite usufruir de bens essenciais como os serviços de saúde e educação, herdar bens ou abrir contas bancárias… O nosso nome é repetido centenas de vezes, ou melhor, milhares de vezes ao longo da vida! É um traço, uma marca que nos caracteriza, sulcada pela força de tanto o ouvirmos e pronunciarmos. (…)
Terá o primeiro nome assim tanta importância? Independentemente de quaisquer crenças associadas, um nome tem sempre um significado, uma origem e uma história. Alguns são escolhidos ao acaso ou porque estão na moda, mas muitos veiculam uma informação adicional que os próprios desconhecem! “Há nomes com uma carga muito forte, que transportam expetativas e histórias pesadas, muitas vezes de gerações anteriores, que os próprios não chegaram a conhecer”, refere a psicóloga Paula Matos.
Os nomes, particularmente os que são herdados, 2não são inócuos, podem influir no trajeto e na postura da pessoa”. E o que dizer das pessoas que não usam o seu nome, que preferem alcunhas ou diminutivos que não fazem lembrar minimamente o nome que consta no BI? E será diferente uma criança chamar-se Diogo ou Durvalino, Catarina ou Hermenegilda? “O mais importante é a pessoa sentir-se bem com o nome que tem, mesmo que se chame Hermenegilda ou qualquer outro nome que seja motivo de chacota. Se o aceita e se se identifica com ele, ótimo!”
Comparando com os nossos vizinhos europeus, temos nomes muito extensos. A lei portuguesa permite que sejam atribuídos dois nomes próprios e, no máximo, quatro apelidos. Mas há muitos portugueses sem nenhum apelido e outros com nomes excessivamente longos, já que por via do casamento é possível acrescentar até dois apelidos do cônjuge. em grande parte dos países, as pessoas têm apenas um apelido, geralmente herdado do pai. É o caso dos franceses que, por norma, adotam apenas o apelido paterno mas que, em compensação, podem ter vários nomes próprios. Em Espanha são permitidos até dois sobrenomes, sendo o primeiro quase sempre proveniente do pai e o último da mãe – uma tradição que vigora também nos países de origem hispânica.
Seguindo as indicações das Nações Unidas e do Tribunal Europeu, vários países têm alterado a lei de forma a garantir a igualdade de direitos na transmissão dos nomes da família. A lei portuguesa não obriga a que o apelido seja paterno, como habitualmente sucede. A escolha e a ordem pelos quais aparecem é livre, desde que sejam no máximo quatro e se utilizem apelidos a que a família tem direito. Só recentemente é que a França aprovou medidas que permitem adotar igualmente os apelidos maternos e que em Espanha é possível alterar a ordem dos apelidos. No nosso país as regras são mais flexíveis. Embora na prática vigore a linha masculina, ao dar-se preferência aos apelidos da família paterna. Quantos de nós assinarão com o apelido materno? (…)
Herdamos apelidos da mãe, do pai ou de outros antepassados. Mas por que é que existem nomes de família como Pereira, Santos, Gonçalves ou Rapado? Muitos apelidos derivam de nomes próprios, como é o caso de Rodrigues (filho de Rodrigo), Simões (filho de Simão) ou Marques (filho de Marco). São os chamados apelidos patronímicos, muito usados durante a Idade Média, ou não se chamasse o nosso primeiro rei D. Afonso Henriques! Há apelidos que derivam do nome de localidades, como Guimarães, Castelo Branco, Oliveira, Carvalho, Moura, Braga…, designados por toponímicos. Outros são resultado de alcunhas e evidenciam características físicas, profissões ou algum aspeto peculiar. Daí apelidos como Gordo, Pécurto, Cabeça de Burro, Piolho, Rato, Sardinha…, que se encontram sobretudo na região do Alentejo. (…)
Se não tivéssemos nome, como nos apresentaríamos? Seja referindo apenas o nome próprio, como fazem os tibetanos e os indonésios, seja afirmando primeiro o apelido e só depois o nome próprio, como fazem os chineses e japoneses, alguma designação temos de ter. Para que outros saibam que nós existimos. E para que nós mesmos nos reconheçamos como somos. Por uma questão de identidade. Os nomes falam por si. por uma questão de continuidade!”
(Oliveira, Gabriela. in Notícias Magazine, nº784, 2007)
A Soma dos Dias