- Comentário

MENSAGEM: aventura espiritual da pátria


À procura da sua identidade, desse seu eu perene, que incessantemente à sua apreensão imediata e lhe fenomenal lhe fugia, sempre vivera o poeta. Agora essa identidade de novo é procurada e encontrada, pela união com a pátria. Assim ela surge na Mensagem. Pela sua consciência mítica, pela comunhão no saber existencial desse ser, o poeta atinge aqui a identidade tão ansiada, sob outra forma ou plano. Pela sua transcendência, através dum outro ser: dum não-eu.

Aqui Fernando Pessoa assume o que ele considerava o mais alto ministério do homem: ser criador de mitos. E poder-se-á dizer que na Mensagem, ele expressou poeticamente os mitos que os Descobrimentos tinham expressado sob a forma de acção. O mito é o nada que é tudo. Este curvar-se sobre um ser em transformação incessante, a pátria na sua história, não implicará em si um propósito e uma visão puramente ou intencionalmente historicista, mas, antes, toda a Mensagem, na sua particular formulação simbólica, e mitológica, implicará e transportará nela uma concepção trans-histórica. Como toda a realidade dita por esta forma de conhecimento, ela conterá em si uma realidade para além das coordenadas do tempo.

há uma transcrição da história de uma nação, mas transfigurada. Uma transfiguração dos personagens históricos em míticos. Que assim, pelo arquétipo, acedem a outro plano de realidade. E foi uma certa e peculiar história de Portugal, aquela que ficou expressa na Mensagem, como uma criação mítico-poética.

Conjunto de gestos arquetipais desses antepassados, que abriram o caminho da realização dum ente colectivo (ou iniciaram um mundo), a Mensagem surge a um tempo como mito e rito que conta a criação duma pátria – tal como outra cosmogonia.

A Mensagem poderá ser vista como uma epopeia, porque parte de um núcleo histórico, mas a sua formulação, sendo simbólica e mítica, do relato histórico, não possuirá a continuidade. Aqui, a acção dos heróis só adquire pleno significado dentro duma referência mitológica.

Aqui serão só eleitos, terão só direito à imortalidade, aqueles homens e feitos que manifestam em si esses mitos significativos:

  • Os antepassados, os fundadores, que pela sua acção criaram a pátria;
  • as Mães, as que estão na origem das duas dinastias, cantadas como “antigo seio vigilante” ou “humano ventre do Império”;
  • os heróis navegantes, aqueles que percorrem o mar em busca do caminho da imortalidade, cumprindo um dever individual e pátrio (realização terrestre duma missão transcendente)
  • e, finalmente, depois desta missão cumprida, desta realização, na era crepuscular de fim de vida, os profetas, as vozes que anunciam já aquele que viria renegar essa pátria moribunda, abrindo-lhe novo ciclo de vida, uma nova era – o Encoberto.

Assim, a estrutura da Mensagem, sendo a de um mito, numa teoria cíclica, a das Idades, transfigura e repete a história de uma  pátria como o mito de um nascimento, vida e morte de um mundo: morte que será seguida de um renascimento. Desenvolvendo-se como uma idade completa de sentido cósmico e dando-lhe a forma simbólica tripartida - Brasão, Mar Português, O Encoberto. Que se poderá traduzir como: os fundadores ou o nascimento; a realização ou a vida; o fim das energias latentes ou a morte: essa que conterá já em si, como gérmen, a próxima ressurreição, o novo ciclo que se anuncia – o Quinto Império. assim, a terceira parte é toda ela um fim, uma desintegração: mas também toda ela cheia de avisos, prenhe de pressentimentos, de forças latentes prestes a virem à luz.

Os Descobrimentos podem ser vistos em diversos planos ou registos da realidade, da significação, porque os contêm a todos. Mas Fernando Pessoa foi o primeiro na sua nação a vê-los no seu mais profundo plano, o esotérico – como uma aventura iniciática.

E toda a Mensagem aparecerá como o erguer poético de uma intuição: que não são as motivações conscientes, explícitas, aquelas que surgem como realistas, práticas, mas sim outras, vindas de uma zona mais profunda, conscientemente intangível, escondidas e de valor sagrado.

Constantemente perpassará ao longo desta via, destes passos da pátria, a mesma consciência de uma realização terrestre do transcendente , que será também a do próprio ser pessoal. A missão humana é dever, realização última anímica e revelação de Deus. O indivíduo, salvando-se a si mesmo, é o meio pelo qual o eterno se revela no mundo do devir.

O fundador, o conde D. Henrique, que nos primórdios desta nação é visto (tal como o poeta se tinha visto a si mesmo para erguer a sua obra) como um instrumento nas mãos de uma força que o ultrapassa. “Deus é o agente. /O herói a si assiste, vário /E inconsciente.” E o infante D. Pedro se verá, por sua vez, “Dúplice dono sem me dividir /De dever e de ser.”

A obra surge assim como o dever, missão terrestre que, estando para além do homem, lhe concede por este caminho a sua verdadeira personalidade. Empossados de uma missão que os ultrapassa, surgem sempre esses construtores e heróis da nação, tal como o argonauta que faz frente e riposta ao Mostrengo: “Aqui ao leme sou mais do que eu: / Sou o povo que quer o mar que é teu.”

(Dalila Pereira da Costa, O Esoterismo em Fernando Pessoa)

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