CAMÕES E PESSOA, POETAS DA UTOPIA
Jacinto do Prado Coelho
Tanto Camões como Pessoa, cantores da pátria, são poetas da ausência. Poetas do que foi ou do que poderá vir a ser. dum amor que ou se refugia na memória ou, revigorado, se traduz na vibração dum apelo. Mas as situações divergem, um intervalo multissecular tinha de separá-los. No Camões épico predomina o elemento viril – a viagem, a aventura, o risco. Tradicionalmente, a mulher é a que fica, esperando, imóvel, na felicidade e no sonho do regresso: como Pessoa e as figuras em que se desdobra, de olhos fitos no indefinido. Homem de acção, e não só de inteligência, Camões ainda conheceu o império no concreto da sua grandeza e das suas misérias, era-lhe fácil ainda ter esperança, o D. Sebastião a quem se dirige é um homem de carne e osso, vale a pena mostrar-se, exibir os seus préstimos, para que o rei o distinga, confie nele, se lance na conquista do Norte de África levando-o consigo. Outro império terreno ainda parece possível, “como a pressaga mente vaticina”, o próprio Velho do Restelo sanciona a aventura, e Camões prepara-se para cantar a nova empresa.
O D. Sebastião da Mensagem, elaborado longamente pelo sebastianismo e pela humilhação, esse é o Encoberto, o Desejado, uma sombra, um mito. Pessoa sobrevive na aridez dos “dias vácuos”, já lhe faltam razões para acreditar, o seu desejo está no limite, calcinado pela espera de quatro séculos. Refaz o trajecto camoniano da evocação pela invocação. Mas, perante o Rei ausente, que talvez nunca mais regresse da ilha encantada, é como se fosse o menino órfão, abandonado, que, na deslocação da sua própria intimidade, dirige à mãe uma derradeira súplica:
Screvo me livro à beira-mágoa.
Meu coração não tem que ter.
(…)
Da névoa e da saudade quando?
Quando, meu Sonho e meu Senhor?
(Terceiro d’Os Avisos)
O seu enorme anseio tornou-se insuportável, só pela palavra poética ilude o silêncio, o vazio..
Em Camões, põem-se no mesmo plano a memória e a esperança. Em Pessoa, não, porque o objecto da esperança se transferiu para o sonho, a utopia, e daí uma concepção diferente de heroísmo. Pessoa identifica-se com os heróis da Mensagem, ou neles se desdobra, num processo lírico-dramático. O amor da pátria converte-se numa atitude metafísica definível pela concepção do real, pelo anelo de absoluto, por uma loucura consciente, pela busca do que não existe, pela demanda que só tem finalidade em si própria, porque atingir é estagnar, ser vencido. Esta, na Mensagem, a lição do Encoberto.
No fim de contas, a Mensagem, onde os elementos épicos surgem filtrados, transfigurados, pela contemplação lírica, não se situa muito longe do “clima” d’O Marinheiro, “drama estático”, onde a Segunda Veladora nos fala do marinheiro que se perdeu numa ilha remota: “Como ele não tinha meio de voltar à pátria, e cada vez que se lembrava dela sofria, pôs-se a sonhar uma pátria que nunca tivesse tido.” Revivendo a fé no Quinto Império, Pessoa inventou uma razão de ser, um destino, fugindo à angústia de um quotidiano absurdo, genialmente expresso por ele e Álvaro de Campos.
Se continuássemos à procura de pontos de contacto entre Pessoa e Fernando Pessoa, ainda poderíamos registar a sua capacidade e preocupação arquitectónicas. Jorge de Sena valorizou “o extraordinário equilíbrio construtivo que, em Os Lusíadas, encontramos, seja qual for o aspecto por que examinemos o poema”. Por seu turno, os textos que compõem a Mensagem distribuem-se em grupos e subgrupos, obedecendo a um plano cuidadosamente estabelecido. Aqui, a diferença está no facto de Os Lusíadas serem, pela forma, que não só pela substância, uma epopeia clássica, narração onde entrelaçam a viagem de Vasco da Gama, a comédia dos deuses e a História de Portugal, mediante alternâncias e discursos dentro do discurso, uns retrospectivos, outros prospectivos, enquanto a Mensagem integra, como se sabe, 44 poesias breves, datadas de várias épocas e arrumadas em três partes principais:
- Brasão
- Mar Português
- O Encoberto
A primeira e a terceira partes ainda estão subdivididas: a primeira em:
- Os Campos
- Os Castelos
- As Quinas
- A Coroa
- O Timbre
reproduzindo assim os elementos da bandeira nacional; a terceira em:
- Os Símbolos
- Os Avisos
- Os Tempos
Da face interna, emblemática, desta arquitectura, aliás de sentido ocultista, como mostrou Helder Macedo, infere-se um carácter menos narrativo e mais interpretativo, mais cerebral, que d’Os Lusíadas. É certo que já no poema camoniano há uma tendência abstractizante, livresca, assinalada por António José Saraiva quando escreve que nele a ideia de pátria é “uma noção abstracta, fora da história”, e os heróis históricos se reduzem a “puras abstracções” ou “medalhões convencionais”. “Precisamos de subir ao Olimpo – observa A. J. Saraiva – para encontrar os corpos vivos e banhados pela luz e capazes de movimento: no mundo histórico há somente sombras e abstracções”. Mesmo descontando uma ponta de exagero, teremos aqui outra afinidade entre Camões e Pessoa. Este, porém, leva o cerebralismo mais longe. Possui aquilo a que Cesare Pavese chamava o “senso heráldico”, isto é, a faculdade de ver símbolos em tudo.
Os heróis da galeria da Mensagem funcionam, com efeito, como símbolos, elos de uma trajectória cujo sentido Pessoa se propões desvelar até onde o permite o olhar visionário. O assunto da Mensagem não são os portugueses ou eventos concretos, mas a essência de Portugal e a sua missão por cumprir. Em fragmento recolhido nas Páginas de Estética e de Teoria e Crítica Literárias, Pessoa censurava a Os Lusíadas a falta de um pensamento. Pois, na Mensagem é a redução a um pensamento que descarna, espectraliza as personagens da História nacional.
Tanto Camões como Pessoa usam o processo da descrição sucessiva, fragmentária, de figuras-padrão. Nos discursos esta técnica verifica-se quer na “explicação” das bandeiras por Paulo da Gama perante o Catual, quer no relato da História de Portugal feito por Vasco da Gama destinado ao Rei de Melinde. Os retratos (por vezes auto- retratos) morais da Mensagem filiam-se no epigrama ou inscrição tumular dos clássicos (que Pessoa, aliás, cultivou nas Inscriptions). Observemos, por exemplo, a figura de Viriato no poema camoniano:
Este que vês, pastor já foi de gado:
Viritato sabemos que se chama,
Destro na lança mais que no cajado;
Injuriada tem de Roma a fama,
Vencedor invencível, afamado:
Não têm com ele, não, nem ter puderam
O primor com que Pirro já tiveram.
(Os Lusíadas, VIII-6)
.
E ponhamos, em confronto, a composição intitulada Viriato, na Mensagem:
Se a alma que sente e faz conhece
Só porque lembra o que esqueceu,
Vivemos, raça, porque houvesse
Memória em nós do instinto teu.
.
Nação porque reencarnaste,
Povo porque ressuscitou
Ou tu, ou o de que eras a haste –
assim se Portugal formou.
.
Teu ser é como aquela fria
Luz que precede a madrugada,
E é já o ir a haver o dia
Na antemanhã, confuso nada.
.
Em Camões, temos tão-só a descrição laudatória; em Pessoa, Viriato não é já um herói confinado no seu tempo, encarna um momento da vida de uma nação, o momento da gestação latente; prefigura o que havia de vir, é o sinal de uma plano que tinha de cumprir-se. O indivíduo apaga-se em favor do ente metafísico chamado Portugal. Os elementos descritivos e narrativos ficam obliterados.
Algo semelhante ocorre no tratamento de outra personagem: o Rei D. Dinis. Camões narra, em três oitavas, o que nós hoje aprendemos na escola: o seu reinado foi pacífico e próspero, fundou a Universidade, que depois transferiu para Coimbra, promulgou novas leis, reformou o país Com edifícios grandes e altos muros (III, 96-98). Falta qualquer alusão a ter mandado semear o pinhal de Leiria. Pelo contrário, na Mensagem é este facto posto em relevo pelo seu valor simbólico. D. Dinis surge como plantador de naus a haver; encarna outro momento da História secreta de Portugal, é também o instrumento de uma vontade transcendente, prepara de longe o Império, ouve, de noite, enquanto escreve um cantar, o rumor dos pinhais que, como um trigo / De império, ondulam sem se poder ver.
Sem dúvida, na segunda parte da Mensagem, Mar Português, perpassa um sopro épico, exalta-se o esforço heróico dos Portugueses no domínio dos mares, Pessoa dá, por vezes, a réplica de Os Lusíadas. O Mostrengo, do mesmo modo que o Adamastor, opõe à hostilidade bravia da Natureza a energia indómita dos Portugueses: Sou um povo que quer o mar que é teu – diz ao Mostrengo o homem do leme. Na Mensagem retoma-se, embora em diferente registo, o tópico da vantagem que levam os Portugueses aos navegadores da Antiguidade: Que o mar com fim será grego ou romano; / O mar sem fim é português. E, como n’Os Lusíadas, não se esconde que o reverso da vitória são as lágrimas: a épica integra em claro-escuro a história trágico-marítima: a Mensagem é também um livro-síntese: Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!. Mas a perspectiva mudou. Austero, absorto, Pessoa não canta a expansão terrena, menos ainda a guerra contra os Infieis. Não é católica apostólica romana a sua inspiração. O emprego do singular Deus, com maiúscula, imposto pela matéria da obra, não vale mais, como prova de convicção pessoal, que o emprego do plural deuses em Ricardo Reis.
A atitude típica dos heróis da Mensagem é contemplativa e expectante: olham o indefinido, concentram-se na febre do além que o poeta encarna nos versos admiráveis de A Noite: Com fixos olhos rasos de ânsia / Fitando a proibida azul distância. Depressa esta atitude significa uma ânsia metafísica, a busca de uma Índia que não há. A primeira grande missão cometida por Deus a Portugal, desvendar o mundo, chegou ao seu termo. Cumpriu-se o Mar, o Império se desfez – diz Pessoa em O Infante. Então qual o destino nacional que vem anunciar? Que sentido tem o verso Senhor, falta cumprir-se Portugal? A inspiração da Mensagem, como foi lembrado, é ocultista, e o Império entrevisto no futuro uma aventura do espírito, viagem sem fronteiras ou limitações movida pelo amor do diverso e uma constante inquietação. Quando muito (a fala sibilina deixa supô-lo) um império da língua portuguesa, superior por natureza ao império terreno, obscuro e carnal anterremedo que o tempo destruiu.
Na terceira parte do livro, o lema Pax in excelsis e a despedida, Valete Fratres, sugerem um projecto de fraternidade universal entre os homens. Talvez o que se aponta seja, na verdade, a utopia, e por isso o elogio do herói, ao contrário do que sucede n’Os Lusíadas, redunda no elogio da loucura – essa loucura de sinal positivo sem o qual o homem não pasta de besta sadia, essa loucura que nos salva da metade de nada em que viver é morrer.
Em contraste com o realismo de Os Lusíadas (ou do que realista em Camões se pretende), a Mensagem reage pela altiva rejeição a um “real” oco, absurdo, intolerável, propondo-nos em seu lugar a única coisa que vale a pena: o imaginário. Quem não soube – ou não quis – entender a Mensagem ignorou esta diferença essencial; nem soube captar a ironia imanente no intertexto pessoa (compare-se o optimismo voluntário do poema, incluso na profecia, embora marginada pela dúvida, com o pessimismo total da Elegia na Sombra, escrita uns seis meses depois da publicação do livro, precisamente em 2-6-1935). Uma vez mais, o poeta se contradisse, ou disse o que estava latente no não-dito. Resta saber até que ponto o imaginário é susceptível de transformar o leitor enquanto homem e “lusíada, coitado”, e em que medida o projecto de Pessoa, vate, cantor de mitos, visava além do simples, conquanto nobre e apaixonado, divertimento estético. Porque esta é, em certa perspectiva, a dupla face de Pessoa.
.
A Soma dos Dias